Lombalgia:
qualidade muscular reduz o desconforto
Com
mais de 619 milhões de casos no mundo, a dor lombar crônica é, hoje, a
principal causa de incapacidade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O número de afetados vai aumentar, chegando a 843 milhões nos próximos 25 anos.
Em busca de estratégias preventivas e de tratamento, pesquisadores investigam
novos alvos de intervenção. Um deles pode ser a gordura intramuscular, segundo
um estudo com 27 mil pessoas, publicado na revista The Lancet Regional Health -
Europe.
Na
pesquisa, os autores analisaram exames de ressonância magnética de 30.868
participantes da Coorte Nacional Alemã (NAKO), conduzida entre 2014 e 2019. Do
total, 27.518 pessoas preencheram os critérios para a avaliação.
Aproximadamente 22% relataram dor lombar persistente por mais de três meses,
condição classificada como crônica. Além do banco de dados, os cientistas
empregaram inteligência artificial para medir tanto a massa magra quanto a
gordura intermuscular (InterMat) — tecido adiposo que se infiltra entre os
músculos esqueléticos. A metodologia permitiu identificar, em grande escala,
padrões de composição muscular associados ao sintoma.
A
análise mostrou que pessoas com maior proporção de gordura intermuscular têm
risco significativamente mais alto de sofrer dor lombar crônica. Cada aumento
de duas unidades no escore da InterMAT elevava em 22% a sensação.
Por
outro lado, maior quantidade de massa muscular magra esteve associada a um
efeito protetor: para cada aumento equivalente, a chance de dor diminuía em
13%. "Os resultados sugerem que não basta olhar apenas para o volume
muscular, mas também para sua qualidade. O acúmulo de gordura entre as fibras
parece estar diretamente ligado ao sofrimento crônico", explicaram os
autores, liderados pela Universidade Técnica de Berlim, na Alemanha.
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Moderação
Outra
descoberta considerada relevante pelos pesquisadores foi a relação em
"U" com a atividade física. Pessoas que relataram níveis moderados de
exercício tiveram menor prevalência de dor (19,4%), enquanto sedentários e
aqueles com atividade intensa demonstraram percentuais maiores, de 24,6% e 22%,
respectivamente. Isso sugere que tanto a falta quanto o excesso de esforço
podem ser fatores de risco.
"O
estudo mostra que ganhar massa muscular magra é importante, mas não compensa
totalmente o excesso de gordura intramuscular", destaca Rodrigo Vetorazzi,
coordenador da ortopedia do Hospital Albert Sabin (HAS-SP). "Ou seja, não
basta apenas fortalecer a musculatura; é necessário também adotar medidas que
reduzam a infiltração gordurosa muscular, como atividade física regular
(resistida e aeróbica), alimentação adequada e controle metabólico. O objetivo
deve ser músculo mais forte e de melhor qualidade, e não apenas de maior
volume", ensina o médico.
Os
pesquisadores ressaltam que, por ser um estudo observacional, não é possível
afirmar que a gordura intermuscular cause dor lombar — apenas que existe forte
associação. Ainda assim, especialistas avaliam que a descoberta abre caminho
para estratégias de prevenção e tratamento mais individualizados. "Apenas
quantificar peso corporal ou massa muscular — o que mais fazemos hoje em dia —,
talvez não seja suficiente, e teremos que identificar a qualidade muscular. Na
prática clínica, podemos usar essa informação como um marcador para dor",
acredita Vetorazzi.
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Potencializadores
Lúcio
Gusmão, ortopedista especialista em dor crônica e aguda da Rede Cade, lembra
que a gordura localizada é um dos potencializadores mais fortes da doença, mas
que existem outras causas que precisam ser levadas em consideração.
"Permanecer muito tempo em pé ou sentado e até mesmo cadeiras e colchões
inadequados podem contribuir para o quadro. Estresse, ansiedade e depressão
também são condições que se destacam como fatores de risco", lembra.
Especialista
em medicina do esporte, o ortopedista Pedro Ribeiro, de Brasília, diz que,
hoje, uma das principais estratégias preventivas para a dor lombar é o
fortalecimento do core, composto por músculos na região do abdômen, das costas,
da pelve e dos quadris. "Esse fortalecimento do core abdominal pode ajudar
muito a estabilização da região lombar e a redução nas lesões", diz. "Obviamente, esses exercícios devem ser
individualizados", observa.
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Piscina como aliada
Fazer
exercícios dentro d'água é uma boa alternativa para pessoas que sofrem de
lombalgia crônica, segundo um estudo da Universidade de Concordia, no Canadá,
que comparou os efeitos de um programa de fisioterapia aquática, o SwinEx, com
tratamento convencional ao longo de 10 semanas. Os 34 participantes foram
divididos aleatoriamente em dois grupos: piscina e solo.
Todos
os voluntários passaram por ressonâncias magnéticas antes e depois do programa,
para medir alterações no volume e na composição dos músculos paravertebrais —
fundamentais para a estabilidade da coluna. Também foram avaliados força
muscular, dor, qualidade de vida e fatores psicológicos, como ansiedade e
depressão.
Os dois
grupos apresentaram melhora na força dos músculos extensores da lombar. No
entanto, apenas os pacientes que praticaram exercícios na água tiveram aumento
significativo no volume de determinados músculos paravertebrais, especialmente
o multífido e o eretor da espinha, em níveis superiores da coluna. Houve,
ainda, correlação entre esse resultado e a melhora na qualidade de vida física
e na redução de sintomas de ansiedade, depressão e distúrbios do sono.
Segundo
os pesquisadores, os resultados reforçam a ideia de que a terapia aquática pode
ser uma alternativa eficaz para pacientes que sentem dor ou medo de realizar
exercícios em solo. A flutuação reduz a sobrecarga na coluna e permite
movimentos mais seguros, além de proporcionar confiança a pessoas que evitam
atividades físicas por receio de piorar os sintomas. "A água cria um
ambiente em que muitos conseguem se mover com menos dor e, consequentemente,
manter a regularidade do tratamento", destacam, no artigo.
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Estabilização
"Os
exercícios aquáticos promovem fortalecimento da musculatura estabilizadora da
coluna, melhora do controle motor e da postura, além de reduzir fatores de
risco associados, como sedentarismo, sobrecarga mecânica e medo de
movimento", ensina Hugo de Luca Corrêa, doutor em Educação Física e
professor da Universidade Católica de Brasília (UCB). "Esses mecanismos
podem atuar tanto na recuperação, quanto na prevenção da progressão ou
surgimento de novos episódios de dor lombar", afirma.
Segundo
Corrêa, o exercício na água é indicado, especialmente, para pessoas com dor
lombar crônica com limitações funcionais, medo de se movimentar ou dificuldade
de suportar carga na coluna. "A imersão reduz a carga axial sobre a coluna
por efeito da flutuação e facilita a execução de movimentos que seriam
dolorosos ou inviáveis em solo. Dessa forma, o ambiente aquático permite
iniciar a reabilitação de forma mais confortável e segura, promovendo adesão e
menor risco de agravamento dos sintomas", diz.
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Três perguntas para Laudelino Risso, fisioterapeuta responsável pela rede de
clínicas Doutor Hérnia
• Que tipo de programa de exercícios é
mais indicado para melhorar a qualidade muscular e reduzir o risco de dor
lombar crônica?
Existem
várias modalidades de exercícios que podem contribuir para manter e sustentar a
musculatura responsável pela estabilidade da coluna vertebral. Com isso, é
fundamental respeitar a individualidade de cada caso. Pacientes com alterações
nas curvaturas da coluna ou sinais de instabilidade precisam de programas
específicos, para compensar a fragilidade ligamentar e melhorar a tonicidade
muscular. O fortalecimento dos músculos profundos tem papel central, pois ajuda
a sustentar as fibras responsáveis pela resistência articular e garante
estabilidade para o movimento. Assim, o primeiro passo deve ser a promoção da
estabilidade. Somente depois disso, atividades como corrida, bicicleta ou
esportes coletivos, como o futebol, podem ser praticados de forma segura e
benéfica, sem sobrecarregar o sistema musculoesquelético.
• Há diferença de impacto entre treinos de
força, aeróbicos e atividades de flexibilidade na prevenção da dor lombar?
Sim.
Cada tipo de treino atua de forma distinta e com objetivos específicos. Os
exercícios aeróbicos, por exemplo, têm efeito direto sobre o sistema
cardiovascular e cardiorrespiratório, enquanto os treinos de força são
voltados, principalmente, para a sustentação e o fortalecimento do sistema
musculoesquelético. Isso significa que cada modalidade pode trazer benefícios
diferentes e complementares. Ao direcionar o programa de exercícios segundo o
objetivo do paciente, é possível garantir não apenas condicionamento físico,
mas também maior estabilidade e proteção da coluna contra dores e sobrecargas.
• Em pacientes que já apresentam dor
lombar crônica, como a fisioterapia pode ajudar a reduzir a gordura
intramuscular e aumentar a massa muscular magra?
Na
região lombar, músculos como os espinhais, multífidos e eretores da coluna
estão sujeitos ao acúmulo de tecido adiposo, especialmente em pessoas que
passam longos períodos em pé ou sentadas. Essa infiltração gordurosa compromete
a função muscular: o músculo perde parte da sua capacidade de sustentação,
deixando a vértebra mais instável e vulnerável a movimentos do tronco. Para
reverter esse quadro, é essencial investir em exercícios de core, extensões de
tronco e práticas voltadas ao fortalecimento dos músculos estabilizadores. Não
se trata apenas de trabalhar a região abdominal, mas de integrar músculos do
assoalho pélvico, que contribuem para a sustentação do centro de gravidade.
Fonte:
Correio Braziliense

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