Super-ricos
pagam mais imposto no Brasil que nos EUA e Reino Unido?
Quanto
imposto os ricos realmente pagam? Ricos brasileiros pagam mais ou menos do que
ricos em outros países?
O
debate sobre como ricos e pobres pagam impostos voltou à pauta nacional depois
que o governo federal lançou uma ofensiva
defendendo a criação de um imposto de renda mínimo para os super-ricos — a camada da
população que ganha mais de R$ 50 mil por mês (ou R$ 600 mil por ano).
A ideia
do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é criar um imposto para os super-ricos,
afetando cerca de 140 mil contribuintes brasileiros, para abrir espaço
para isentar de imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil por mês.
A
alíquota do imposto mínimo dos super-ricos cresceria de
acordo com a renda, pela proposta do governo. Quem ganha em torno de R$ 50 mil,
pagaria uma alíquota próxima de zero. Essa alíquota subiria gradativamente até
10% — valor cobrado de quem tem rendimentos superiores a R$ 100 mil mensais (R$
1,2 milhão ao ano).
A
proposta do governo Lula para isentar o Imposto de Renda de pessoas que ganham
até R$ 5 mil por mês e elevar a tributação dos contribuintes ricos foi aprovada com facilidade na comissão
especial da Câmara dos Deputados na semana passada e pode ser apreciada no
plenário da Casa em agosto.
A pauta
é uma promessa antiga do governo Lula e também tem
sido levada pelo presidente a foros internacionais. O Brasil defende no G20 e nos Brics
esforços globais de taxação dos super-ricos.
O mesmo debate também existe em
diversos países.
Mas — como no Brasil — há dificuldades de se calcular exatamente quanto de
impostos os ricos pagam, dado o sigilo em torno desses dados.
Um
estudo brasileiro de 2024 sugere que os mais ricos no Brasil — com rendimento
mensal superior a R$ 37 mil — pagam cerca de 14% de impostos. Segundo o estudo,
esse valor é semelhante ao que uma pessoa com rendimento mensal de R$ 6 mil
paga — o que mostraria que os muito ricos estão pagando a mesma alíquota que
uma pessoa de classe média.
Mas pessoas ainda mais ricas que isso
estariam pagando alíquotas totais menores, abaixo de 13%.
A
implicação é que a tributação no Brasil seria regressiva, ou seja, que a
estrutura de cobrança de impostos do país estaria agravando as desigualdades,
deixando os ricos ainda mais ricos relativo aos demais.
Nos
EUA, uma investigação afirma que alguns dos americanos mais ricos pagam uma
alíquota próxima a 15% — mas alguns bilionários, como Jeff Bezos e Elon Musk,
teriam pago zero impostos em alguns anos, se aproveitando de brechas legais
(leia mais abaixo na reportagem).
O
bilionário Warren Buffett — que defende que ricos precisam pagar mais impostos
— revelou que em um determinado ano pagou uma alíquota de 17% — quase metade do
que pagou sua secretária.
Confira
abaixo os casos em diferentes países.
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Como os ricos conseguem pagar menos impostos?
É
difícil saber exatamente quanto os ricos pagam de imposto porque grande parte
das suas fontes de renda são taxadas com alíquotas menores.
A carga
tributária que incide sobre pessoas de classe média ou mais pobres é mais fácil
de ser calculada, pois suas fontes de remuneração são mais simples. Impostos
são pagos sobre rendimentos (muitas vezes com o imposto de renda já descontado
da fonte), impostos sobre vendas de apartamentos e veículos e impostos sobre o
consumo.
Mas pessoas ricas e super-ricas conseguem
classificar seus rendimemtos em outras categorias — muitas delas
com tributações inferiores ou até nula.
Um
relatório de 2023 da Oxfam — organização não-governamental britânica de combate
à pobreza — detalha alguns tipos de rendimento que costumam ser taxados com
alíquotas menores usados pelos ricos em todo o mundo:
- Dividendos:
muitas pessoas ricas possuem suas próprias empresas e recebem a maior
parte dos seus rendimentos na forma de lucros e dividendos — em vez de
salários. No Brasil, lucros e dividendos recebidos por pessoa física são
totalmente isentos de impostos. Já salários acima de R$ 4.664,68 precisam
ser taxados em 27,5%, que é a maior alíquota de imposto.
- Ganhos de
capitais: é o ganho obtido sobre a venda de um ativo que se valorizou
desde que foi comprado. É o caso de vendas de ações, por exemplo. No
Brasil, essas alíquotas são menores do que a do imposto de renda. Um ganho
inferior a R$ 5 milhões é tributado em 15%.
- Ganhos de
capital não-realizados: enquanto um bem não é vendido, o lucro não é
realizado. Ainda assim, o ativo pode ter se valorizado nesse período, e
essa valorização não é tributada.
- Herança: O
imposto sobre herança no Brasil varia entre 2% e 8%, dependendo do Estado.
Mas segundo a Oxfam em mais de 70 países não existe imposto sobre herança.
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Quanto os mais ricos pagam de impostos no Brasil?
Um
estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas (Ipea) de outubro do ano
passado estima que cerca de 800 mil contribuintes com renda média de R$ 449 mil
por ano — R$ 37,4 mil por mês — pagam no máximo 14,2% de alíquota.
Segundo
o estudo do economista Sergio Gobetti, esse é o mesmo percentual usado para
calcular o Imposto de Renda devido por uma pessoa assalariada que receba R$ 6
mil de vencimentos.
A
alíquota de 14,2% seria a máxima paga pelos brasileiros mais ricos. Os que têm
rendimento superior a R$ 449 mil pagam ainda menos.
O 1%
mais rico da população — cerca de 1,5 milhão de pessoas, com renda anual de R$
1,053 milhão ou renda mensal de R$ 87 mil — a alíquota cai para 13,6% segundo o
estudo de Gobetti.
Já o
topo da pirâmide — as 153 mil pessoas com renda anual de R$ 5,3 milhões ou
mensal de R$ 441 mil — a alíquota média cairia para 13,2%. Para quem tem renda
anual de R$ 26 milhões ou mais de R$ 2 milhões por mês, a alíquota chega a
12,9%.
Como os
ricos fazem para pagar alíquotas menores de imposto no Brasil?
Muitos
conseguem enquadrar seus rendimentos em categorias que são menos tributadas.
Segundo o Ipea, na parcela de 0,01% dos declarantes mais ricos, 81% da renda
vêm de ganhos de capital, lucro e juros ou de atividade rural.
O
estudo de Gobetti afirma que a regressividade na proporção de imposto a ser
recolhido pelos estratos mais ricos da sociedade brasileira "é reflexo de
inúmeras distorções e privilégios perpetuados no sistema tributário
brasileiro".
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Quanto imposto os americanos mais ricos pagam?
O
debate sobre se impostos são progressivos ou regressivos acontece não só no
Brasil, mas em quase todo o mundo.
Sociedades
desejam ter um sistema progressivo, em que os mais
ricos contribuem com alíquotas maiores, já que eles têm condições de pagar mais.
Isso ajudaria a diminuir a desigualdade e a pobreza nas sociedades.
Mas na
prática regras complicadas e exceções fazem com que muitos sistemas sejam
regressivos — ou seja, em que a camada mais pobre é mais onerada proporcionalmente em seu
rendimento do que os ricos.
Em
2011, o investidor americano Warren Buffett — considerado o homem mais rico do
mundo hoje, com fortuna estimada em US$ 160 bilhões (equivalente a R$ 870
bilhões) — fez uma crítica feroz ao sistema tributário dos Estados Unidos.
Buffett
deu uma entrevista ao lado de sua secretária pessoal Debbie Bosanek na qual
mostrou sua declaração de imposto de renda. Buffett pagou uma alíquota total de
17,4% — já sua secretária pagou alíquota de 35,8%.
"Todos
em nosso escritório estão pagando uma alíquota de imposto mais alta que a de
Warren", disse Bosanek na entrevista.
Já
Buffett atacou o sistema tributário dos EUA. Ele disse que bilionários como ele
conseguem reduzir sua alíquota de imposto baseado na distribuição de lucros e
dividendos, que pagam impostos menores.
"O
que aconteceu nos últimos anos é que nos disseram que a maré alta levantaria
todos os barcos, mas a maré alta levantou todos os iates", afirmou o
bilionário.
O
protesto do bilionário deu origem à Buffett Rule — uma proposta do então
presidente Barack Obama de criar um imposto mínimo de 30% a quem tivesse
rendimento superior a US$ 1 milhão por ano (R$ 5,45 milhões ou cerca de R$ 450
mil mensais).
No
entanto, a proposta nunca virou lei, por sofrer enormes resistências no
Congresso.
Em
2021, o site de jornalismo investigativo ProPublica publicou declarações de
imposto de renda de bilionários como Warren Buffett, Jeff Bezos e Elon Musk.
O site
alegou que Bezos, da Amazon, não teria pago impostos em 2007 e 2011, enquanto
Musk, da Tesla, não teria pago nada em 2018.
O
ProPublica disse que os 25 americanos mais ricos pagam menos impostos — uma
alíquota média de 15,8% — do que a maioria dos trabalhadores dos EUA.
"Usando
estratégias fiscais perfeitamente legais, muitos dos super-ricos conseguem
reduzir suas contas de impostos federais a nada ou quase isso", disse a
reportagem do site.
Os
dados do ProPublica levantaram um debate se o sistema tributário dos EUA é
progressivo ou regressivo. A reportagem dizia que o sistema era regressivo —
com americanos mais pobres sendo mais onerados que os ricos.
"O
cenário é completamente diferente para os americanos de classe média, por
exemplo, assalariados na faixa dos 40 anos que acumularam uma riqueza típica
para pessoas da sua idade."
Mas há
quem conteste essa visão.
A Tax
Foundation, um thinktank apartidário dedicado a questões tributárias
internacionais, afirmou que um estudo do Tesouro americano demonstra que alguns
segmentos mais ricos da população americana pagam mais impostos que os demais.
"As
alíquotas efetivas de imposto geralmente aumentam com a riqueza. Os 10% mais
ricos tinham uma alíquota efetiva de imposto de renda e folha de pagamento
federal de 25%. Para os três grupos seguintes (o 1% mais rico, 0,1% e 0,01%), a
alíquota efetiva de imposto de renda e folha de pagamento federal sobe para
30%", afirma o estudo de novembro de 2024.
A Tax
Foundation afirma que a maior parte da carga tributária que incide sobre os
mais ricos vem do "corporate tax", o imposto de renda sobre pessoas
jurídicas.
Em maio
deste ano, a ideia de uma taxação especial de super-ricos ganhou um improvável
defensor nos EUA. O presidente Donald Trump se manifestou favorável à ideia de
um imposto de até 40% em cima de ganhos superiores a US$ 2,5 milhões anuais (R$
13 milhões por ano ou cerca de R$ 1 milhão mensais).
"Eu
e todos os outros aceitaríamos de bom grado [um imposto sobre super-ricos] para
ajudar os trabalhadores de baixa e média renda", escreveu Trump.
No
entanto, a proposta não foi incluída na "big, beautiful bill" — o
grande pacote de mudanças fiscais do seu governo.
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E no Reino Unido, quanto de impostos os ricos pagam?
No
Reino Unido, um estudo de 2020 sugere que os britânicos ricos pagam alíquotas
maiores do que nos EUA e Brasil.
E os
ricos respondem por grande parte da receita tributária do governo.
O 1%
mais rico no Reino Unido paga 30% de toda a receita do governo com o imposto de
renda
"[Isso
representa] uma parcela maior do que em qualquer outro momento nos últimos 20
anos. Em outras palavras, três em cada dez libras esterlinas que o governo
recebe em imposto de renda são pagas por pouco mais de 300 mil
indivíduos", diz o estudo da Universidade de Warwick e da London School of
Economics intitulado Quanto imposto os ricos realmente pagam?
Esse
dado costuma ser usado no país como argumento contra mais taxação sobre os mais
ricos. Mas, segundo os pesquisadores, esses números não mostram o quadro
completo do que acontece no Reino Unido. O número médio esconde os extremos.
"A
maior parte da receita do 1% mais rico vem de um grupo de funcionários com
altos rendimentos, que pagam a alíquota máxima de 45% de imposto de renda mais
2% de contribuição para previdência, com deduções ou isenções mínimas",
dizem os pesquisadores Andy Summers e Arun Advani.
"Mas
uma minoria substancial paga alíquotas muito mais baixas, especialmente
considerando os ganhos de capital, que oferecem uma forma alternativa de
receber recompensas, principalmente para os mais ricos."
Em
2016, os super-ricos com rendimento de 1 milhão de libras (R$ 7,4 milhões por
ano ou R$ 615 mil mensais) pagaram apenas 35% de alíquota.
Mas 10%
desses indíviduos super-ricos conseguiram pagar, de forma totalmente legal,
menos apenas 11% em impostos — a mesma alíquota que incide sobre britânicos com
renda anual de 15 mil libras (R$ 110 mil — ou R$ 9,2 mil mensais).
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Consequência: aumento da desigualdade
A
desigualdade segue crescendo no mundo, segundo dados do World Inequality Lab,
uma entidade que reúne economistas que fazem campanha por maior taxação de
super-ricos.
Os 10%
mais ricos da população global atualmente detêm 52% da renda global, enquanto a
metade mais pobre da população recebe 8,5%. Em média, uma pessoa entre os 10%
mais ricos do mundo ganha US$ 122 mil por ano (R$ 678 mil por ano ou R$ 56
mil), enquanto alguém da metade mais pobre da distribuição de renda global
ganha US$ 3.920 por ano (R$ 21 mil ou R$ 1.860 por mês).
O
Brasil é um dos países com maior desiguladade de renda, segundo o relatório. No
Brasil, uma pessoa entre os 10% mais ricos ganha 29 vezes mais do que uma
pessoa na metade mais pobre da população.
Os
economistas argumentam que um dos desafios para se melhorar os sistemas
tributários e atacar o problema da desigualdade é compreender melhor as
dinâmicas da riqueza x impostos. Mas acrescentam que ainda existe pouca
transparência sobre esses números.
"Vivemos
em um mundo repleto de dados, mas carecemos de informações básicas sobre
desigualdade. Os números do crescimento econômico são publicados anualmente por
governos em todo o mundo, mas eles não nos dizem como o crescimento se
distribui pela população — quem ganha e quem perde com as políticas econômicas.
O acesso a esses dados é fundamental para a democracia", diz o relatório.
Fonte:
BBC News Brasil

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