Câncer
colorretal aumenta entre os mais jovens: mesmo perplexos, cientistas têm pistas
do motivo
O
câncer colorretal, um dos tipos populares de câncer de intestino, deve estar no
seu radar. Atualmente, um em cada cinco casos diagnosticados ocorre em pessoas
com menos de 54 anos, o que representa um aumento de 11% nessa faixa etária nas
últimas duas décadas. E os motivos responsáveis por este maior número de
pacientes mais jovens têm deixado cientistas e profissionais da área médica em
alerta.
Durante
anos, entretanto, os especialistas suspeitaram que a colibactina, uma toxina
produzida pela E. coli e outras bactérias que pode danificar o DNA, poderia
estar envolvida. Agora, um novo estudo publicado na revista científica “Nature”
identificou uma forte ligação entre a exposição infantil à colibactina e o
câncer colorretal em pacientes com menos de 40 anos.
National
Geographic explica como o estudo amplia a compreensão dos cientistas sobre a
influência do microbioma no desenvolvimento do câncer colorretal e como o foco
na colibactina pode abrir caminho para a detecção precoce e novas estratégias
de prevenção.
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Câncer de cólon: por que os mais jovens estão ficando doentes? Uma pista está
na infância
Os
pesquisadores inicialmente projetaram o estudo para explorar amplamente por que
pessoas de diferentes países desenvolvem câncer colorretal em taxas diferentes,
de modo que a observação da colibactina foi “um tanto incidental”, diz o
principal autor do estudo, Ludmil Alexandrov, professor de medicina celular e
molecular da Universidade da Califórnia, em San Diego, Estados Unidos.
Ele e
sua equipe analisaram amostras de sangue e tecido dos tumores de quase 1 mil
pacientes com câncer colorretal em 11 países, incluindo Canadá, Japão,
Tailândia e Colômbia. Eles usaram a tecnologia de sequenciamento de DNA para
identificar mutações celulares, ou alterações genéticas que podem ajudar o
câncer a se formar, crescer e se espalhar.
“Diferentes
agentes cancerígenos deixam esse padrão característico de mutações, que
chamamos de assinaturas mutacionais”, explica Alexandrov. “O exemplo mais
simples é que, se você fuma cigarros, obtém um padrão específico de mutações
nas células do pulmão.”
Alexandrov
e sua equipe descobriram que as pessoas diagnosticadas com câncer colorretal
com menos de 50 anos de idade tinham um “enriquecimento impressionante” de
mutações associadas à colibactina.
Quanto
mais jovem a pessoa era, em média, maior era a prevalência dessas assinaturas.
As pessoas diagnosticadas com câncer colorretal com menos de 40 anos de idade
tinham cerca de três vezes mais probabilidade de apresentar mutações associadas
à colibactina do que aquelas diagnosticadas após os 70 anos.
“Quando
sequenciamos os cânceres, vemos esse registro arqueológico de tudo o que
aconteceu durante a vida da pessoa”, diz Alexandrov. Ou seja, os cientistas
podem descobrir o momento aproximado em que mutações específicas se instalaram
no intestino.
Os
resultados do estudo sugerem que a exposição dos participantes à colibactina
ocorreu antes de completarem 10 anos de idade. Esse “golpe” precoce no
microbioma intestinal parece ter colocado as pessoas 20 a 30 anos antes do
previsto para desenvolver câncer colorretal, diz Alexandrov. Em vez de serem
diagnosticadas aos 60 ou 70 anos, elas enfrentavam a doença aos 30 ou 40 anos.
Cynthia
Sears, especialista em doenças infecciosas e professora de oncologia da
Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, que não participou do
estudo, acredita que o estudo foi feito de forma “cuidadosa e minuciosa”, mas
também deixa perguntas sem respostas. “Ainda não entendemos a biologia desses
organismos e as circunstâncias que permitem que eles sofram mutações”, diz ela.
Alexandrov
concorda. Ele diz que esse novo estudo mostra uma “forte associação” entre a
exposição à colibactina na infância e o câncer colorretal de início precoce.
Entretanto, provar que a colibactina realmente causa câncer colorretal seria
“muito complicado”.
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O que é a colibactina, a toxina ligada ao câncer colorretal?
A
colibactina é uma genotoxina – pense nela como uma arma que certas bactérias
utilizam para se proteger de outros micróbios. Os especialistas teorizam que,
em algumas pessoas, essas bactérias se tornam dominantes e começam a prejudicar
seus hospedeiros, explica Alexandrov. Depois de colonizar o cólon, elas podem
se fixar em tecidos saudáveis, atacar células e gerar mutações no DNA.
Mas nem
todos os portadores de bactérias produtoras de colibactina acabam tendo câncer
colorretal: estimativas mostram que de 20 a 30% das pessoas abrigam essas
cepas. Então, o que faz com que esses organismos se tornem rebeldes em
determinados indivíduos? “Achamos que algo está acontecendo para dar a elas uma
vantagem sobre as outras bactérias”, diz Alexandrov.
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Quais fatores ambientais e de estilo de vida influenciam no câncer colorretal?
Ele
cita estudos anteriores que sugerem que as pessoas em países ocidentalizados
(especialmente em áreas urbanas), tendem a ter uma prevalência maior de
bactérias produtoras de colibactina em seus intestinos do que aquelas em
regiões mais rurais ou não industrializadas. “Para mim, essa é uma janela de
oportunidade para nos concentrarmos nas influências ambientais em diferentes
setores do mundo”, diz Sears.
Em
particular, as evidências sugerem que uma dieta ocidental – tipicamente mais
rica em carnes vermelhas e processadas, açúcar adicionado e grãos refinados e
menos rica em frutas e vegetais – está associada a um risco maior de câncer
colorretal. Quanto ao motivo pelo qual a colibactina, especificamente, poderia
ser mais “mutagênica” no ambiente que essa dieta cria no intestino?
“Simplesmente não temos essa informação”, diz Sears.
O novo
estudo não analisou o risco individual de câncer dos participantes nem
acompanhou as mudanças em seu ambiente ou dieta, portanto, qualquer combinação
desses componentes poderia estar em jogo.
Alexandrov
e sua equipe suspeitam de fatores que podem alterar substancialmente o sistema
imunológico e o microbioma de uma pessoa em seus primeiros anos de vida, como
ter nascido de cesariana ou por via vaginal, ter tomado antibióticos, ter sido
amamentado ou alimentado com fórmula ou ter consumido muitos alimentos
processados.
Algumas
bactérias produtoras de colibactina também podem desencadear uma resposta
imunológica que prejudica ainda mais as células. Essas são as cepas que “nos
colocam em apuros”, diz Sears.
Mas é
“extremamente complexo” descobrir o que faz com que essas bactérias se fixem em
diferentes partes do intestino. “O reto é diferente do cólon sigmóide”, explica
ela. “Cada uma dessas regiões têm uma biologia um pouco diferente e predileção
pela formação de tumores.”
“Atualmente,
um em cada cinco casos diagnosticados ocorre em pessoas com menos de 54 anos –
um aumento de 11% nessa faixa etária em 20 anos”
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Câncer colorretal: o novo estudo pode indicar novas formas de prevenir a doença
Alexandrov
e Sears concordam que são necessários dados longitudinais. O ideal seria que os
pesquisadores acompanhassem as pessoas no início da vida, dessem a elas
probióticos projetados para atingir as bactérias produtoras de colibactina e,
em seguida, monitorassem se os participantes desenvolvem as mutações associadas
e, portanto, o câncer colorretal de início precoce.
“Se
pudermos criar o probiótico certo que elimine os maus atores, essa pode ser uma
estratégia de prevenção fácil e não prejudicial às pessoas”, diz Sears.
Alexandrov
e sua equipe estão organizando estudos futuros que explorem essa possibilidade.
Ele também acredita que poderiam criar um exame de fezes que identificasse as
mutações relacionadas à colibactina.
Se esse
dano ao DNA for detectado no teste, o indivíduo seria incentivado a iniciar o
exame de câncer colorretal mais cedo, por exemplo, na faixa dos 20 anos em vez
dos 40 anos.
Dito
isso, Sears acredita que o foco apenas na colibactina provavelmente não é a
solução do “Santo Graal” para o aumento dos casos de início precoce. “Não
queremos ser míopes demais em relação ao espectro da pesquisa que fazemos”, diz
ela.
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O que já se pode fazer para prevenir o câncer de intestino, em especial o de
cólon
Até que
tenhamos mais dados, é fundamental concentrar-se nas mudanças de estilo de vida
que você pode controlar; Sears indica uma dieta de estilo mediterrâneo,
manter-se ativo, parar de fumar e reduzir o consumo de álcool.
A
conscientização também é fundamental. Os adultos jovens – assim como muitos
profissionais da área médica – são rápidos em ignorar os sintomas do câncer
colorretal, como dor abdominal persistente, perda de peso inexplicável e
sangramento retal. Como Alexandrov enfatiza, “eles devem estar cientes de que
pode ser algo muito sério”, pois quanto mais cedo os tumores forem detectados,
mais fácil será o tratamento.
• O que é e para que serve a colonoscopia?
O termo
“câncer colorretal” refere-se tanto ao câncer de cólon quanto ao câncer do
reto, segundo a Fight Colorectal Cancer (Fight CRC), organização dos Estados
Unidos que presta assistência às pessoas que recebem este diagnóstico.
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O que é o câncer colorretal e qual a sua incidência?
Quando
as células do cólon (uma porção do intestino grosso) ou do reto (o canal que
liga o cólon ao ânus) se multiplicam fora de controle, elas dão origem a
pólipos nessa região do corpo humano.
Com o
tempo, alguns pólipos podem transformar-se em câncer, explica os Centros de
Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a maior autoridade sanitária dos Estados
Unidos.
A
organização estadunidense ressalta que "os exames de rastreamento são
capazes de detectar pólipos que podem ser removidos antes de se transformarem
em câncer”. Dessa forma, é possível preveni-lo ou detectá-lo em uma fase mais
precoce, quando a eficácia do tratamento é maior.
Segundo
a Organização Mundial de Saúde (OMS), foram detectados 1,93 milhão de novos
casos de câncer colorretal em 2020, sendo um dos tipos de câncer mais comuns.
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O que é a colonoscopia e qual a sua importância?
A
colonoscopia é um procedimento médico eficaz e de baixo risco, que permite uma
análise visual do cólon e do reto. É realizada com um endoscópio (tubo flexível
com luz e câmera na extremidade) e está conectado a um monitor de vídeo,
explica a Fight Colorectal Cancer.
De
acordo com a organização, os pacientes são sedados durante a colonoscopia.
Antes do procedimento (geralmente no dia anterior), a pessoa é orientada a
seguir uma dieta específica e a tomar um laxante intestinal para esvaziar o
cólon e o reto, para garantir que o exame seja bem-sucedido.
Com
isso, os profissionais conseguem captar imagens do cólon e do reto. Se for
encontrado um pólipo, ele é removido para que possa ser examinado.
A
colonoscopia é realizada em hospitais, unidades de saúde e centros médicos,
demorando entre 15 e 45 minutos. É necessário consultar sempre um profissional
para saber o tempo total do exame, o preparo e os detalhes do procedimento,
ressalta a entidade.
Após a
colonoscopia, alguns vestígios do sedativo podem permanecer no organismo humano
por certo tempo. Por isso, é recomendado que as pessoas não dirijam, trabalhem
ou façam esforço físico logo depois do procedimento.
A Fight
Colorectal Cancer destaca que, embora cada procedimento médico ofereça algum
grau de risco, a colonoscopia é segura. “Não fazer o exame de detecção do
câncer colorretal coloca o paciente em um risco muito maior”, alerta a
organização.
Se, por
algum motivo, a pessoa não puder fazer a colonoscopia, há outras opções de
rastreamento do câncer colorretal – entre eles, teste imunoquímico fecal e
colonoscopia virtual (feita por meio de tomografia e considerada menos
invasiva). No entanto, é necessário avaliar com o médico a viabilidade ou não
dessas alternativas.
Fonte:
National Geographic Brasil

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