Santo
Ernesto Guevara merece a companhia de São Chico Risada
Materialista
que acredita em benzedeiras e curandeiros? Vixe! E não é que pode acontecer? Já
aconteceu comigo. Vejo muitos casos de pessoas que se curam de alguma coisa por
sugestão, acreditam tanto numa cura mágica/espiritual ou coisa semelhante que
se curam, mas não foi o meu caso.
Já
contei em alguns lugares de um médico boliviano de Santa Cruz La Sierra,
especialista em lepra (assim se chamava, agora não se usa mais essa palavra — é
hanseníase), que um dia recebeu um paciente em estado muito adiantado e queria
se curar. O médico, amigo de uma médica com quem me tratava de umas
tranqueiras, disse a ele que a doença não tinha cura, só podia controlar. O
cara ficou furioso, xingou o médico e disse: “Santo Ernesto vai me curar”.
Afirmou que em Vallegrande conseguiria a cura.
Vallegrande
é a cidade onde mataram Che Guevara. Ferido a tiros, ficou prostrado numa cama
na escola, sob forte vigilância militar, até que, obedecendo ordens gringas, o
mataram. Os camponeses da região não gostavam dos guerrilheiros, diziam que
eles acabaram com o sossego na região. Mas depois do assassinato de Che
Guevara, as mesmas pessoas que o xingavam passaram a pedir milagres a ele e
transformaram a escola em que foi morto em lugar de peregrinação. Como ele era
especialista em lepra (hanseníase…) as vítimas dessa doença eram as que mais
procuravam o local e rezavam pedindo a cura a “Santo Ernesto”.
Segundo
o tal médico de Santa Cruz La Sierra, o doente incurável apareceu lá de volta
uns meses depois para mostrar que tinha sido curado. Tinha mesmo! O médico
estava pasmo, inconformado. Claro, o “poder da fé”, funcionou. E segundo se
dizia, “Santo Ernesto” curou muitas e muitas pessoas. Fiquei rindo quando a
médica amiga do especialista me contou, e falei: “Para uma pessoa ser
reconhecida como santa pelo Vaticano, tem que ter a prova de que depois de
morta curou pelo menos uma pessoa de doença grave. Ernesto Guevara curou
muitas, então deveria ser beatificado pela Igreja. Já imaginaram, Che Guevara
virando santo?
Santo
Ernesto, passei a brincar, é um dos santos em que acredito. Deveria ser
comemorado todo dia 8 de outubro. Outro é São Benedito, que segundo minha mãe
era o “santo da cozinha” e me deu seu nome para que ele não me deixasse passar
fome. Funcionou, brinco até hoje. Viajei em condições miseráveis, me vi às
vezes no sertão nordestino sem dinheiro nenhum, andando a pé ou de carona, mas
sempre aparecia um jeito de eu me alimentar. Só uma vez fiquei quatro dias sem
comer, mas foi numa circunstância especial: estava preso. No presídio
Tiradentes, em São Paulo (que ironia dar esse nome…), até davam comida para
nós, mas podre. Quem comia passava muito mal. Preferi não comer. E tem uma
“santa” de que também sou devoto: Santa Rosa Luxemburgo. Mas aí é uma história
longa que não dá pra contar num texto curto.
Bom,
mas o que vou contar aqui não envolve crença de quem foi procurar a cura, no
caso, eu mesmo, repito. E nem mesmo fui procurar cura.
Antes
de chegar a essa história, uma lembrança sobre benzeduras. Na minha infância
havia algumas doenças que diziam que não tinham remédios, só eram curadas
benzendo. Uma delas era cobreiro, causada pelo vírus da varicela. Outra,
chamada mijacão, é uma espécie de tumor muito dolorido que dava (não ouvi mais
falar, então uso o verbo no passado) na sola dos pés de quem andava descalço,
causado — segundo se acreditava — por contato com urina de cavalo. Na casa em
que eu morava tinha a barbearia do meu pai na frente e a residência no fundo.
De um lado da casa tinha um curral, numa época em que esse o cavalo era o
principal meio de transporte individual na minha terra. Muitos fregueses vindos
da roça deixavam seus cavalos lá o dia inteiro, enquanto ficavam na cidade.
Algumas pessoas, principalmente moleques, pisavam descalças no chão onde eles
mijavam e pegavam o tal de mijacão. E procuravam um benzedor ou uma benzedeira,
único jeito de curar, segundo se acreditava.
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Chico Risada na rota das congadas
Em
1977, eu trabalhava no Sesc e, junto com dois colegas e amigos, estava fazendo
uma pesquisa sobre congadas. Começamos a entrevistar muitos capitães congos
(líderes de grupos de congada). Cada um tinha uma versão sobre a origem da
congada. São Benedito, o pai de São Benedito e até a princesa Isabel estavam
entre os criadores desse bailado, com histórias cheias de misticismo.
São
Sebastião do Paraíso, no sudoeste mineiro, era para mim o principal centro da
congada. Tinha muitos grupos. Uma vez tinha ido lá visitar uma irmã e por onde
andava na cidade via um grupo de congada, caminhando e cantando, levando até a
igreja gente que fez alguma promessa. Entre o Natal e o Ano Novo era direto,
sempre com a mesma música, o dia inteiro. Uma semana depois que tinha saído de
lá, aquela música continuava me martelando a cabeça, não conseguia me livrar
dela. Então, nessa pesquisa, não podia deixar de ir lá e entrevistar vários
capitães congo. Eram muitos, e acima deles tinha uma figura maior ainda, o Rei
Congo, que era a autoridade máxima dos congadeiros. Esse sim, tinha que render
uma entrevista e tanto.
Bom… Um
parêntese… Antes de chegar lá, paramos numa pequena cidade mineira, São Tomás
de Aquino, que também tinha um grupo de congada. Aproveitaríamos para falar com
ele, mas onde ele morava? Paramos na praça central da cidade para perguntar a
alguém, e as ruas estavam totalmente vazias. Ninguém caminhando, nenhum
veículo… Aí vimos, sentado numa cadeira debaixo de uma árvore grande, um velho
trajando um terno de brim, lendo um livro grosso. Fomos perguntar a ele. Fechou
o livro, colocou no colo e educadamente nos informou. Saímos dali com um dos
meus colegas, paulista, me falando: “Só em Minas Gerais pra acontecer isso… viu
o que o velho com cara de caipira está lendo? Fausto!”
Bom,
vamos ao Rei Congo de São Sebastião do Paraíso. Seu apelido era Chico Risada,
estava com 95 anos de idade. Logo de cara, perguntei a ele o porquê desse
apelido. Deu uma gargalhada que durou minutos e dispensei a explicação. Foi uma
entrevista muito boa, e passamos a conversar sobre outros assuntos. Disse que
era benzedor. Perguntei: “Cura qualquer coisa?”. “Curo!”, respondeu curto e
grosso.
Claro
que eu não acreditava, mas queria saber como era a benzeção que ele fazia.
Contei que estava com reumatismo infeccioso. Estava mesmo. Comecei a me tratar
em São Paulo, depois de tomar dia sim-dia não injeções de Benzetacil, durante
uma semana, voltei ao médico e ele disse que eu teria que tomar a dita injeção
daquele antibiótico brabo durante a vida toda. Não tinha cura, só controle.
Xinguei o médico pra valer, e o chamei de criminoso. Onde já se viu receitar
uma desgraça daquela para toda a vida? Parei com ele. O que fazer? Apelei à
homeopatia. Tinha que tomar umas pilulazinhas do Laboratório Almeida Prado de
duas em duas horas, e não adiantava. Pois o Chico Risada garantiu que curaria
com apenas uns minutos me benzendo. Entrei com ele numa salinha escura, cheia
de imagens, ervas, velas e não sei que mais, ele se concentrou, falou umas
coisas que eu não entendia, pegou uma garrafa, despejou dela uma dose numa
xícara e me mandou beber.
“Gostei”,
brinquei. “Cachaça das boas!”. Sim, cachaça com alguma raiz ou erva. Dali nos
despedimos e comecei a contar aos colegas como foi a benzeção, pois eles não
podiam assistir. E brincando: pode não funcionar, mas valeu a cachacinha.
E não é
que desapareceu o reumatismo? Uns dez dias depois comentei com os dois colegas
e amigos (um paulista e um italiano) que estava curado e perguntei rindo: “Será
que foram as pílulas da Almeida Prazo ou a reza do Chico Risada?” Bom… Depois
que saí da casa do Chico Risada não tomei mais as pílulas. E os dois amigos,
também materialistas, responderam: “Claro que foi o Chico Risada”.
Agora,
com uma tranqueira chamada LLC – Leucemia Linfocítica Crônica, que não tem
cura, só controle, e me custou seis meses de quimioterapia (continuo tomando
uns remédios brabos, via oral), encontrei o amigo italiano daquela viagem e
brinquei: “Ah, se o Chico Risada ainda estivesse vivo!”
Para
terminar, vi que em São Sebastião do Paraíso tem hoje uma rua Chico Risada.
Como anarquista, não gosto de dar nome de gente a ruas, mas resmunguei: tá aí
uma exceção merecida.
Fonte:
Por Mouzar Bnedito, no Blog da Boitempo

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