sexta-feira, 25 de julho de 2025

Leandro Barbosa: Jornalistas da AFP também passam fome em Gaza

Em meio ao genocídio imposto por Israel à Faixa de Gaza, os últimos jornalistas da Agência France-Presse (AFP) ainda presentes no território alertam: “vamos morrer de fome”. A declaração dramática foi feita pela equipe local da agência, que enfrenta não apenas os perigos da guerra desproporcional, mas também o colapso total das condições de sobrevivência na região. Sem acesso a comida, água potável, assistência médica ou possibilidade de saída segura, os profissionais relatam estar à beira de uma catástrofe humanitária pessoal.

Desde o ataque de um grupo do Hamas em 7 de outubro de 2023, Gaza tornou-se o cenário de um genocídio que já deixou cerca de 60 mil mortos, segundo autoridades de saúde locais. Nesta semana, a ONU denunciou um ‘show de horrores’ e disparada de desnutrição em Gaza. Além disso, mais de 100 ONGs denunciam ‘fome em massa’. Israel disse não ter identificado fome extrema em Gaza e nega acusações. No entanto, admitiu que pouca ajuda chega aos palestinos, e culpou a ONU por isso.

O chefe da Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos, Unrwa, chegou a ressaltar que Gaza é agora “um inferno” para mais de 2 milhões de pessoas e observou que as crianças continuam morrendo de desnutrição e desidratação.

Essa escalada da crise alimentar é confirmada por Médicos Sem Fronteiras (MSF), que relatou em julho níveis sem precedentes de desnutrição aguda em duas clínicas mantidas na região, uma em Cidade de Gaza, no norte, e outra em Al-Mawasi, no sul do país. Mais de 700 mulheres grávidas e lactantes e quase 500 crianças estão em situação de desnutrição moderada ou grave. Em uma das unidades, o número de crianças desnutridas entre 6 e 23 meses triplicou entre maio e julho, atingindo 326 casos, o maior registrado pela organização no território até hoje.

Para Mohammed Abu Mughaisib, coordenador clínico da MSF, a situação é inédita: “É a primeira vez que testemunhamos uma prevalência tão grave de casos de desnutrição em Gaza. A fome poderia acabar amanhã se as autoridades israelenses permitissem a entrada suficiente de alimentos”, disse o coordenador em um texto publicado no site da organização. 

A médica Joanne Perry reforça o alerta: “Mães me pedem comida para seus filhos. Mulheres grávidas de seis meses muitas vezes não pesam mais do que 40 quilos”. Além disso, a organização denuncia o colapso do saneamento e a superlotação de abrigos, com bloqueio de alimentos, medicamentos e combustível, agravando o quadro de colapso total da saúde pública.

Nesse cenário de devastação, os jornalistas locais tornaram-se tanto testemunhas quanto vítimas. Em carta assinada pela Sociedade de Jornalistas da AFP (SDJ), publicada em 21 de julho de 2025, a agência alerta que seus últimos repórteres em Gaza estão prestes a morrer de fome: “Vemos a situação deles piorar. São jovens, estão perdendo peso e muitos já não têm mais forças físicas para trabalhar. Pedir ajuda virou parte da rotina diária”, afirma a nota, enfatizando que “se nada for feito imediatamente, os últimos jornalistas em Gaza vão morrer”.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Bashar, fotógrafo freelancer da AFP desde 2010. Vivendo entre os escombros da casa do irmão em Cidade de Gaza, ele publicou nas redes: “Não tenho mais forças para continuar trabalhando para a imprensa. Meu corpo está fraco e não consigo mais.” Ele relatou que seu irmão mais velho havia morrido de fome. A família enfrenta extrema precariedade e casos de infecção intestinal, sem sequer conseguir usar transporte motorizado devido ao alto risco de bombardeio.

Mesmo recebendo salário mensal simbólico da AFP, os jornalistas não conseguem comprar alimentos. O sistema bancário colapsou e taxas de até 40% encarecem qualquer transação. A AFP diz não conseguir abastecer veículos; os deslocamentos só ocorrem a pé ou em carroças de tração animal.

<><> Crimes de guerra

Para Cilene Victor, jornalista e professora da Universidade Metodista de São Paulo, o bloqueio da ajuda humanitária em Gaza configura uma grave violação das normas internacionais. “Provocar a morte por inanição é uma forma horrenda de crime de guerra. Israel conseguiu atualizar todas as formas de violação de direitos humanos, e isso inclui jornalistas sendo colocados sob risco real de morrer de fome”, afirma Cilene, que também é líder do grupo de pesquisa Jornalismo Humanitário e Media Interventions, da universidade. 

A pesquisadora denuncia o apagamento da importância dos jornalistas locais. “Parece que esses jornalistas valem menos para a sociedade internacional, como se fossem só mais um palestino entre os outros deixados para trás. Mas são eles que conhecem cada curva daquele território, são eles que garantem que a informação continue saindo mesmo quando o mundo se cala”, pontua.

O testemunho da jornalista Ahlam reforça o cenário de abandono: “Toda vez que saio para uma entrevista, não sei se voltarei viva.” Para ela, “o maior problema é a falta de comida e água.”

A FDJ destaca: “Desde que a AFP foi fundada, em agosto de 1944, alguns de nossos jornalistas foram mortos em conflitos, feridos ou feitos reféns. Mas nunca houve registro de que tivéssemos de assistir colegas morrerem de fome.”

Cilene conclui que “é urgente que Israel permita a entrada da imprensa internacional. Gaza virou um lugar onde o jornalismo praticamente desapareceu.”

Em 2024, mais de 60 veículos internacionais assinaram uma carta conjunta pedindo a proteção dos jornalistas que ainda atuam na região. O documento cobra a criação de corredores humanitários seguros e acesso à ajuda internacional para trabalhadores da imprensa, que seguem expostos a bombardeios, fome e doenças. Porém, a realidade piorou. “Gaza inteira hoje é uma cena de tamanha afronta moral e humanitária. É o inaceitável se tornando cotidiano”, resume Cilene Victor.

¨      Médicos Sem Fronteiras e mais de 100 organizações internacionais denunciam o uso da fome como arma de guerra em Gaza

À medida que o cerco imposto pelo governo israelense mata de fome a população de Gaza, os profissionais humanitários também entram nas mesmas filas de distribuição de alimentos, se arriscando apenas por tentar garantir o sustento de suas famílias. Agora, com os suprimentos totalmente esgotados, as organizações humanitárias veem seus próprios colegas e parceiros definharem diante de seus olhos.

Dois meses após o início da Fundação Humanitária de Gaza — sistema de ajuda controlado por Israel — mais de 100 organizações soam o alarme. Apelamos aos governos pela abertura de todas as passagens terrestres e pela retomada total da entrada de alimentos, água potável, suprimentos médicos, itens de abrigo e combustível por meio de um mecanismo baseado em princípios e liderado pela ONU. Apelamos pelo fim do cerco e pela aprovação de um cessar-fogo agora.

“Todas as manhãs, a mesma pergunta ecoa em Gaza: vou comer hoje?”, compartilha um profissional de uma agência.

Massacres em locais de distribuição de alimentos no território estão ocorrendo quase diariamente. Até 13 de julho, a Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou que 875 palestinos foram mortos enquanto buscavam alimentos, cerca de 201 deles estavam em rotas de ajuda humanitária e o restante em postos de distribuição. Milhares de pessoas ficaram feridas. Enquanto isso, as forças israelenses deslocaram à força quase 2 milhões de palestinos com a mais recente ordem de evacuação emitida em 20 de julho, confinando a população a menos de 12% do território de Gaza. O Programa Mundial de Alimentos da ONU alerta que as condições atuais tornam as operações insustentáveis. A utilização da fome de civis como arma de guerra, por si só, é um crime de guerra.

Nos depósitos nos arredores de Gaza, e até mesmo dentro do próprio território, toneladas de alimentos, água potável, suprimentos médicos, itens de abrigo e combustível permanecem bloqueados, com as organizações humanitárias impedidas de acessá-los ou distribuí-los. As restrições, os atrasos e a fragmentação do trabalho humanitário impostos pelo governo de Israel geraram caos, fome e morte em uma Gaza sitiada. Um trabalhador humanitário que presta apoio psicossocial falou sobre o impacto devastador nas crianças: "as crianças dizem aos pais que querem ir para o céu, porque pelo menos no céu tem comida."

Os médicos relatam taxas recordes de desnutrição aguda, especialmente entre crianças e idosos. Doenças como a diarreia aguda aquosa estão se propagando, os mercados estão vazios, o lixo está se acumulando e os adultos estão desmaiando nas ruas de fome e desidratação. A distribuição de ajuda humanitária em Gaza está restrita, em média, a 28 caminhões por dia, o que é insuficiente para atender as necessidades de mais de 2 milhões de pessoas, muitas das quais passaram semanas sem assistência.

<><> O sistema humanitário liderado pela ONU não falhou, ele foi impedido de funcionar.

As agências humanitárias têm capacidade e suprimentos para responder em grande escala. No entanto, com o acesso negado, somos impedidos de chegar até as pessoas que precisam de assistência, incluindo nossos próprios profissionais. Em 10 de julho, a União Europeia e Israel anunciaram medidas para ampliar a ajuda. Mas essas promessas de “progresso” soam vazias diante da falta de mudanças concretas na região. Cada dia sem a entrada sustentada de suprimentos significa mais pessoas morrendo de doenças evitáveis. Crianças estão passando fome, enquanto esperam por promessas que nunca chegam.

Os palestinos estão presos em um ciclo cruel de esperança e frustração, esperando por assistência e pelo cessar-fogo, mas acordando todos os dias em meio a condições cada vez piores. O sofrimento não é apenas físico, é também psicológico. A sobrevivência se tornou uma miragem. O sistema humanitário não pode funcionar com base em promessas vazias. As equipes humanitárias não podem trabalhar com cronogramas instáveis ou depender de compromissos políticos que falham em garantir o acesso.

Os governos devem parar de esperar por permissão para agir. Não podemos continuar esperando que os acordos atuais funcionem. É hora de tomar medidas efetivas. Exigir um cessar-fogo imediato e permanente; suspender todas as restrições burocráticas e administrativas; abrir todas as passagens terrestres; garantir o acesso das pessoas à assistência em toda a Faixa de Gaza; rejeitar modelos de distribuição controlados pelos militares; restaurar uma resposta humanitária baseada em princípios e liderada pela ONU e continuar a financiar organizações humanitárias imparciais e baseadas em princípios. Os Estados devem adotar medidas concretas para pôr fim ao cerco, tais como a suspensão do fornecimento de armas e munições à Israel.

Negociações parciais e gestos simbólicos, como lançamentos aéreos de ajuda humanitária ou acordos falhos, funcionam como uma cortina de fumaça para a inação. Esses atos não substituem as obrigações legais e morais dos Estados de proteger os civis palestinos e garantir um acesso humanitário em grande escala e efetivo. Os Estados podem — e devem — agir agora para salvar vidas, antes que não haja mais vidas a serem salvas.

Signatários:

  1. American Friends Service Committee (AFSC)
  2. A.M. Qattan Foundation
  3. A New Policy
  4. ACT Alliance
  5. Action Against Hunger (ACF)
  6. Action for Humanity
  7. ActionAid International
  8. American Baptist Churches Palestine Justice Network
  9. Amnesty International
  10. Asamblea de Cooperación por la Paz
  11. Associazione Cooperazione e Solidarietà (ACS)
  12. Bystanders No More
  13. Campain
  14. CARE
  15. Caritas Germany
  16. Caritas Internationalis
  17. Caritas Jerusalem
  18. Catholic Agency for Overseas Development (CAFOD)
  19. Center for Mind-Body Medicine (CMBM)
  20. CESVI Fondazione
  21. Children Not Numbers
  22. Christian Aid
  23. Churches for Middle East Peace (CMEP)
  24. CIDSE- International Family of Catholic Social Justice Organisations
  25. Cooperazione Internazionale Sud Sud (CISS)
  26. Council for Arab‑British Understanding (CAABU)
  27. DanChurchAid (DCA)
  28. Danish Refugee Council (DRC)
  29. Development and Peace – Caritas Canada
  30. Doctors against Genocide
  31. Episcopal Peace Fellowship
  32. EuroMed Rights
  33. Friends Committee on National Legislation (FCNL)
  34. Forum Ziviler Friedensdienst e.V.
  35. Gender Action for Peace and Security
  36. Glia
  37. Global Legal Action Network (GLAN)
  38. Global Witness
  39. Health Workers 4 Palestine
  40. HelpAge International
  41. Human Concern International
  42. Humanity & Inclusion (HI)
  43. Humanity First UK
  44. Indiana Center for Middle East Peace
  45. Insecurity Insight
  46. International Media Support
  47. International NGO Safety Organisation
  48. Islamic Relief
  49. Jahalin Solidarity
  50. Japan International Volunteer Center (JVC)
  51. Justice for All
  52. Kenya Association of Muslim Medical Professionals (KAMMP)
  53. Kvinna till Kvinna Foundation
  54. MedGlobal
  55. Medico International
  56. Medico International Switzerland (medico international schweiz)
  57. Medical Aid for Palestinians (MAP)
  58. Mennonite Central Committee (MCC)
  59. Medicine for the People - Belgium (MPLP/GVHV)
  60. Médicos Sem Fronteiras (MSF)
  61. Médecins du Monde France
  62. Médecins du Monde Spain
  63. Médecins du Monde Switzerland
  64. Mercy Corps
  65. Middle East Children’s Alliance (MECA)
  66. Movement for Peace (MPDL)
  67. Muslim Aid
  68. National Justice and Peace Network in England and Wales
  69. Nonviolence International
  70. Norwegian Aid Committee (NORWAC)
  71. Norwegian Church Aid (NCA)
  72. Norwegian People’s Aid (NPA)
  73. Norwegian Refugee Council (NRC)
  74. Oxfam International
  75. Pax Christi England and Wales
  76. Pax Christi International
  77. Pax Christi Merseyside
  78. Pax Christi USA
  79. Pal Law Commission
  80. Palestinian American Medical Association
  81. Palestinian Children’s Relief Fund (PCRF)
  82. Palestinian Medical Relief Society (PMRS)
  83. Peace Direct
  84. Peace Winds
  85. Pediatricians for Palestine
  86. People in Need
  87. Plan International
  88. Première Urgence Internationale (PUI)
  89. Progettomondo
  90. Project HOPE
  91. Quaker Palestine Israel Network
  92. Rebuilding Alliance
  93. Refugees International
  94. Saferworld
  95. Sabeel‑Kairos UK
  96. Save the Children (SCI)
  97. Scottish Catholic International Aid Fund
  98. Solidarités International
  99. Støtteforeningen Det Danske Hus i Palæstina
  100. Swiss Church Aid (HEKS/EPER)
  101. Terre des Hommes Italia
  102. Terre des Hommes Lausanne
  103. Terre des Hommes Nederland
  104. The Borgen Project
  105. The Center for Mind-Body Medicine (CMBM)
  106. The Global Centre for the Responsibility to Protect (GCR2P)
  107. The International Development and Relief Foundation
  108. The Institute for the Understanding of Anti‑Palestinian Racism
  109. Un Ponte Per (UPP)
  110. United Against Inhumanity (UAI)
  111. War Child Alliance
  112. War Child UK
  113. War on Want
  114. Weltfriedensdienst e.V.
  115. Welthungerhilfe (WHH)

 

Fonte: Agencia Pública/MSF

 

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