Leandro
Barbosa: Jornalistas da AFP também passam fome em Gaza
Em meio
ao genocídio imposto por Israel à Faixa de
Gaza, os últimos jornalistas da Agência France-Presse (AFP) ainda presentes no
território alertam: “vamos morrer de fome”. A declaração dramática foi feita
pela equipe local da agência, que enfrenta não apenas os perigos da guerra
desproporcional, mas também o colapso total das condições de sobrevivência na
região. Sem acesso a comida, água potável, assistência médica ou possibilidade
de saída segura, os profissionais relatam estar à beira de uma catástrofe
humanitária pessoal.
Desde o
ataque de um grupo do Hamas em 7 de outubro de 2023, Gaza tornou-se o cenário
de um genocídio que já deixou cerca de 60 mil mortos, segundo autoridades de
saúde locais. Nesta semana, a ONU denunciou um ‘show de horrores’ e disparada
de desnutrição em Gaza. Além disso, mais de 100 ONGs denunciam ‘fome em massa’.
Israel disse não ter identificado fome extrema em Gaza e nega acusações. No
entanto, admitiu que pouca ajuda chega aos palestinos, e culpou a ONU por isso.
O chefe
da Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos, Unrwa, chegou a
ressaltar que Gaza é agora “um
inferno” para
mais de 2 milhões de pessoas e observou que as crianças continuam morrendo de
desnutrição e desidratação.
Essa
escalada da crise alimentar é confirmada por Médicos Sem Fronteiras (MSF), que
relatou em julho níveis sem precedentes de desnutrição aguda em duas clínicas
mantidas na região, uma em Cidade de Gaza, no norte, e outra em Al-Mawasi, no
sul do país. Mais de 700 mulheres grávidas e lactantes e quase 500 crianças
estão em situação de desnutrição moderada ou grave. Em uma das unidades, o
número de crianças desnutridas entre 6 e 23 meses triplicou entre maio e julho,
atingindo 326 casos, o maior registrado pela organização no território até
hoje.
Para
Mohammed Abu Mughaisib, coordenador clínico da MSF, a situação é inédita: “É a
primeira vez que testemunhamos uma prevalência tão grave de casos de
desnutrição em Gaza. A fome poderia acabar amanhã se as autoridades
israelenses permitissem a entrada suficiente de alimentos”, disse o
coordenador em um texto
publicado no site da organização.
A
médica Joanne Perry reforça o alerta: “Mães me pedem comida para seus filhos.
Mulheres grávidas de seis meses muitas vezes não pesam mais do que 40 quilos”.
Além disso, a organização denuncia o colapso do saneamento e a superlotação de
abrigos, com bloqueio de alimentos, medicamentos e combustível, agravando o
quadro de colapso total da saúde pública.
Nesse
cenário de devastação, os jornalistas locais tornaram-se tanto testemunhas
quanto vítimas. Em carta assinada pela Sociedade de Jornalistas da AFP
(SDJ), publicada em 21 de julho de 2025, a agência alerta que seus últimos
repórteres em Gaza estão prestes a morrer de fome: “Vemos a situação deles
piorar. São jovens, estão perdendo peso e muitos já não têm mais forças físicas
para trabalhar. Pedir ajuda virou parte da rotina diária”, afirma a nota,
enfatizando que “se nada for feito imediatamente, os últimos jornalistas
em Gaza vão morrer”.
Um dos
casos mais emblemáticos é o de Bashar, fotógrafo freelancer da AFP desde 2010.
Vivendo entre os escombros da casa do irmão em Cidade de Gaza, ele publicou nas
redes: “Não tenho mais forças para continuar trabalhando para a imprensa. Meu
corpo está fraco e não consigo mais.” Ele relatou que seu irmão mais velho
havia morrido de fome. A família enfrenta extrema precariedade e casos de
infecção intestinal, sem sequer conseguir usar transporte motorizado devido ao
alto risco de bombardeio.
Mesmo
recebendo salário mensal simbólico da AFP, os jornalistas não conseguem comprar
alimentos. O sistema bancário colapsou e taxas de até 40% encarecem qualquer
transação. A AFP diz não conseguir abastecer veículos; os deslocamentos só
ocorrem a pé ou em carroças de tração animal.
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Crimes de guerra
Para
Cilene Victor, jornalista e professora da Universidade Metodista de São Paulo,
o bloqueio da ajuda humanitária em Gaza configura uma grave violação das normas
internacionais. “Provocar a morte por inanição é uma forma horrenda de crime de
guerra. Israel conseguiu atualizar todas as formas de violação de direitos
humanos, e isso inclui jornalistas sendo colocados sob risco real de morrer de
fome”, afirma Cilene, que também é líder do grupo de pesquisa Jornalismo
Humanitário e Media Interventions, da universidade.
A
pesquisadora denuncia o apagamento da importância dos jornalistas locais.
“Parece que esses jornalistas valem menos para a sociedade internacional, como
se fossem só mais um palestino entre os outros deixados para trás. Mas são eles
que conhecem cada curva daquele território, são eles que garantem que a
informação continue saindo mesmo quando o mundo se cala”, pontua.
O
testemunho da jornalista Ahlam reforça o cenário de abandono: “Toda vez que
saio para uma entrevista, não sei se voltarei viva.” Para ela, “o maior
problema é a falta de comida e água.”
A FDJ
destaca: “Desde que a AFP foi fundada, em agosto de 1944, alguns de nossos
jornalistas foram mortos em conflitos, feridos ou feitos reféns. Mas nunca
houve registro de que tivéssemos de assistir colegas morrerem de fome.”
Cilene
conclui que “é urgente que Israel permita a entrada da imprensa internacional.
Gaza virou um lugar onde o jornalismo praticamente desapareceu.”
Em
2024, mais de 60 veículos internacionais assinaram uma carta conjunta
pedindo a proteção dos jornalistas que ainda atuam na região. O documento cobra
a criação de corredores humanitários seguros e acesso à ajuda internacional
para trabalhadores da imprensa, que seguem expostos a bombardeios, fome e
doenças. Porém, a realidade piorou. “Gaza inteira hoje é uma cena de tamanha
afronta moral e humanitária. É o inaceitável se tornando cotidiano”, resume
Cilene Victor.
¨
Médicos Sem Fronteiras e mais de 100 organizações
internacionais denunciam o uso da fome como arma de guerra em Gaza
À
medida que o cerco imposto pelo governo israelense mata de fome a população de
Gaza, os profissionais humanitários também entram nas mesmas filas de
distribuição de alimentos, se arriscando apenas por tentar garantir o sustento
de suas famílias. Agora, com os suprimentos totalmente esgotados, as
organizações humanitárias veem seus próprios colegas e parceiros definharem
diante de seus olhos.
Dois
meses após o início da Fundação Humanitária de Gaza — sistema de ajuda
controlado por Israel — mais de 100 organizações soam o alarme. Apelamos aos
governos pela abertura de todas as passagens terrestres e pela retomada total
da entrada de alimentos, água potável, suprimentos médicos, itens de abrigo e
combustível por meio de um mecanismo baseado em princípios e liderado pela ONU.
Apelamos pelo fim do cerco e pela aprovação de um cessar-fogo agora.
“Todas
as manhãs, a mesma pergunta ecoa em Gaza: vou comer hoje?”, compartilha um
profissional de uma agência.
Massacres
em locais de distribuição de alimentos no território estão ocorrendo quase
diariamente. Até 13 de julho, a Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou
que 875 palestinos foram mortos enquanto buscavam alimentos, cerca de 201 deles
estavam em rotas de ajuda humanitária e o restante em postos de distribuição.
Milhares de pessoas ficaram feridas. Enquanto isso, as forças israelenses
deslocaram à força quase 2 milhões de palestinos com a mais recente ordem de
evacuação emitida em 20 de julho, confinando a população a menos de 12% do
território de Gaza. O Programa Mundial de Alimentos da ONU alerta que as
condições atuais tornam as operações insustentáveis. A utilização da fome de
civis como arma de guerra, por si só, é um crime de guerra.
Nos
depósitos nos arredores de Gaza, e até mesmo dentro do próprio território,
toneladas de alimentos, água potável, suprimentos médicos, itens de abrigo e
combustível permanecem bloqueados, com as organizações humanitárias impedidas
de acessá-los ou distribuí-los. As restrições, os atrasos e a fragmentação do
trabalho humanitário impostos pelo governo de Israel geraram caos, fome e morte
em uma Gaza sitiada. Um trabalhador humanitário que presta apoio psicossocial
falou sobre o impacto devastador nas crianças: "as crianças dizem aos pais
que querem ir para o céu, porque pelo menos no céu tem comida."
Os
médicos relatam taxas recordes de desnutrição aguda, especialmente entre
crianças e idosos. Doenças como a diarreia aguda aquosa estão se propagando, os
mercados estão vazios, o lixo está se acumulando e os adultos estão desmaiando
nas ruas de fome e desidratação. A distribuição de ajuda humanitária em Gaza
está restrita, em média, a 28 caminhões por dia, o que é insuficiente para
atender as necessidades de mais de 2 milhões de pessoas, muitas das quais
passaram semanas sem assistência.
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O sistema humanitário liderado pela ONU não falhou, ele foi impedido de
funcionar.
As
agências humanitárias têm capacidade e suprimentos para responder em grande
escala. No entanto, com o acesso negado, somos impedidos de chegar até as
pessoas que precisam de assistência, incluindo nossos próprios profissionais.
Em 10 de julho, a União Europeia e Israel anunciaram medidas para ampliar a
ajuda. Mas essas promessas de “progresso” soam vazias diante da falta de
mudanças concretas na região. Cada dia sem a entrada sustentada de suprimentos
significa mais pessoas morrendo de doenças evitáveis. Crianças estão passando
fome, enquanto esperam por promessas que nunca chegam.
Os
palestinos estão presos em um ciclo cruel de esperança e frustração, esperando
por assistência e pelo cessar-fogo, mas acordando todos os dias em meio a
condições cada vez piores. O sofrimento não é apenas físico, é também
psicológico. A sobrevivência se tornou uma miragem. O sistema humanitário não
pode funcionar com base em promessas vazias. As equipes humanitárias não podem
trabalhar com cronogramas instáveis ou depender de compromissos políticos que
falham em garantir o acesso.
Os
governos devem parar de esperar por permissão para agir. Não podemos continuar
esperando que os acordos atuais funcionem. É hora de tomar medidas efetivas.
Exigir um cessar-fogo imediato e permanente; suspender todas as restrições
burocráticas e administrativas; abrir todas as passagens terrestres; garantir o
acesso das pessoas à assistência em toda a Faixa de Gaza; rejeitar modelos de
distribuição controlados pelos militares; restaurar uma resposta humanitária
baseada em princípios e liderada pela ONU e continuar a financiar organizações
humanitárias imparciais e baseadas em princípios. Os Estados devem adotar
medidas concretas para pôr fim ao cerco, tais como a suspensão do fornecimento
de armas e munições à Israel.
Negociações
parciais e gestos simbólicos, como lançamentos aéreos de ajuda humanitária ou
acordos falhos, funcionam como uma cortina de fumaça para a inação. Esses atos
não substituem as obrigações legais e morais dos Estados de proteger os civis
palestinos e garantir um acesso humanitário em grande escala e efetivo. Os
Estados podem — e devem — agir agora para salvar vidas, antes que não haja mais
vidas a serem salvas.
Signatários:
- American Friends Service Committee (AFSC)
- A.M. Qattan
Foundation
- A New Policy
- ACT Alliance
- Action Against
Hunger (ACF)
- Action for
Humanity
- ActionAid
International
- American Baptist Churches Palestine Justice Network
- Amnesty
International
- Asamblea de Cooperación por la Paz
- Associazione
Cooperazione e Solidarietà (ACS)
- Bystanders No
More
- Campain
- CARE
- Caritas Germany
- Caritas
Internationalis
- Caritas
Jerusalem
- Catholic Agency for Overseas Development (CAFOD)
- Center for Mind-Body Medicine (CMBM)
- CESVI Fondazione
- Children Not
Numbers
- Christian Aid
- Churches for Middle East Peace (CMEP)
- CIDSE- International Family of Catholic Social Justice
Organisations
- Cooperazione
Internazionale Sud Sud (CISS)
- Council for Arab‑British Understanding (CAABU)
- DanChurchAid
(DCA)
- Danish Refugee
Council (DRC)
- Development and
Peace – Caritas Canada
- Doctors against
Genocide
- Episcopal Peace
Fellowship
- EuroMed Rights
- Friends Committee on National Legislation (FCNL)
- Forum Ziviler Friedensdienst e.V.
- Gender Action for Peace and Security
- Glia
- Global Legal Action Network (GLAN)
- Global Witness
- Health Workers 4
Palestine
- HelpAge
International
- Human Concern
International
- Humanity &
Inclusion (HI)
- Humanity First
UK
- Indiana Center for Middle East Peace
- Insecurity
Insight
- International
Media Support
- International
NGO Safety Organisation
- Islamic Relief
- Jahalin
Solidarity
- Japan International Volunteer Center (JVC)
- Justice for All
- Kenya Association of Muslim Medical Professionals (KAMMP)
- Kvinna till
Kvinna Foundation
- MedGlobal
- Medico
International
- Medico
International Switzerland (medico international schweiz)
- Medical Aid for Palestinians (MAP)
- Mennonite
Central Committee (MCC)
- Medicine for the People - Belgium (MPLP/GVHV)
- Médicos Sem
Fronteiras (MSF)
- Médecins du
Monde France
- Médecins du
Monde Spain
- Médecins du
Monde Switzerland
- Mercy Corps
- Middle East Children’s Alliance (MECA)
- Movement for
Peace (MPDL)
- Muslim Aid
- National Justice and Peace Network in England and Wales
- Nonviolence
International
- Norwegian Aid
Committee (NORWAC)
- Norwegian Church
Aid (NCA)
- Norwegian
People’s Aid (NPA)
- Norwegian
Refugee Council (NRC)
- Oxfam
International
- Pax Christi
England and Wales
- Pax Christi
International
- Pax Christi
Merseyside
- Pax Christi USA
- Pal Law
Commission
- Palestinian
American Medical Association
- Palestinian Children’s Relief Fund (PCRF)
- Palestinian Medical Relief Society (PMRS)
- Peace Direct
- Peace Winds
- Pediatricians
for Palestine
- People in Need
- Plan
International
- Première Urgence
Internationale (PUI)
- Progettomondo
- Project HOPE
- Quaker Palestine
Israel Network
- Rebuilding
Alliance
- Refugees International
- Saferworld
- Sabeel‑Kairos UK
- Save the
Children (SCI)
- Scottish
Catholic International Aid Fund
- Solidarités
International
- Støtteforeningen Det Danske Hus i Palæstina
- Swiss Church Aid (HEKS/EPER)
- Terre des Hommes
Italia
- Terre des Hommes
Lausanne
- Terre des Hommes
Nederland
- The Borgen
Project
- The Center for Mind-Body Medicine (CMBM)
- The Global Centre for the Responsibility to Protect (GCR2P)
- The International Development and Relief Foundation
- The Institute for the Understanding of Anti‑Palestinian Racism
- Un Ponte Per
(UPP)
- United Against
Inhumanity (UAI)
- War Child
Alliance
- War Child UK
- War on Want
- Weltfriedensdienst
e.V.
- Welthungerhilfe
(WHH)
Fonte: Agencia
Pública/MSF

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