José
Álvaro de Lima Cardoso: A resistência do Irã muda o jogo no mundo
Se a
guerra no Irã for retomada e escalar, a economia mundial corre o risco de uma
depressão. Não haverá mais petróleo, nem gás, nem hélio, nem fertilizante, nem
nada vindo da região do Golfo Pérsico por muitos anos. Por enquanto, a economia
mundial foi impactada pelo aumento de preços dos derivados de petróleo e uma
certa escassez de alguns produtos. Mas, se a guerra se intensificar, em poucas
semanas a situação piorará consideravelmente. Os agressores acharam que iriam
vencer o Irã com sua capacidade aérea, bombardeando violentamente o país. Essa
estratégia fracassou solenemente, e os EUA ainda gastaram boa parte de suas
reservas de armamentos. Como nenhum dos objetivos militares dos EUA foi
atingido até o cessar-fogo, pode-se dizer que o Irã está ganhando a guerra.
Em
determinados momentos, desde o início do conflito, os EUA, que improvisam o
tempo todo, ensaiaram a invasão do Irã por terra. É consenso entre os
especialistas militares independentes que isso seria um erro grosseiro. Fala-se
que os americanos poderiam mobilizar 50 mil militares para a operação, dos
quais apenas 10 mil seriam de combate; o restante seria pessoal de apoio e
retaguarda. Já as forças armadas do Irã possuem uma das maiores estruturas
militares do mundo, com um contingente ativo estimado em aproximadamente 610
mil militares. Essa força é dividida em dois braços principais:
1.
Exército Regular (Artesh): focado na defesa das fronteiras nacionais e na
soberania territorial;
2.
Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC/Pasdaran): uma força de elite,
ideológica e militar, que protege o sistema político e projeta influência
regional.
Além
dessa estrutura regular, o país dispõe da Força Paramilitar, uma milícia
voluntária que pode mobilizar milhões de civis em caso de guerra total, com
cerca de 220 mil membros prontos e milhões na reserva. Motivação para os
soldados iranianos não falta, já que seu país foi atacado sem nenhuma razão, e
as forças inimigas cometeram uma série de crimes de guerra, matando, inclusive,
o líder religioso máximo do país, Ali Khamenei, uma espécie de "papa"
dos xiitas (95% da população do Irã).
Mesmo
que os 50 mil militares fossem tropas de combate, seria quase impossível o
sucesso em uma invasão do Irã por terra. Para a invasão do Iraque em 2003, os
EUA arregimentaram 185 mil soldados nos países vizinhos. O Iraque tem ¼ da
extensão territorial do Irã. Nas condições atuais da guerra, se os EUA reunirem
os soldados nos países próximos ao Irã, seriam bombardeados por drones, mísseis
balísticos e continentais, talvez antes de entrar em combate.
É bom
recordar que o Irã tem profundidade estratégica, ou seja, a distância entre as
linhas de frente (ou fronteiras) e o coração industrial, político e demográfico
do país é bastante longa. Fator que torna tudo mais difícil para o inimigo, a
começar pela linha de suprimentos. Especialmente considerando a geografia do
país, predominantemente marcada por terrenos acidentados e montanhosos,
elemento que molda o clima, a ocupação humana e a própria defesa estratégica.
Cerca de 55% do território é coberto por montanhas, enquanto o restante é
composto por planaltos elevados e desertos áridos.
Além
disso, quem disse que o povo americano estaria disposto a suportar o sacrifício
decorrente de realizar uma invasão em larga escala no Irã? Conforme mostra a
história, para os norte-americanos, é insuportável sofrer muitas baixas, ver
jovens soldados retornando em sacos pretos, à medida em que transcorre o
conflito. O apoio da população americana à guerra gira em torno de 30%, e está
recuando desde o início das operações, refletindo o cansaço da opinião pública
com conflitos no Oriente Médio. A base de apoio ao governo, a esta altura, está
concentrada quase que exclusivamente no núcleo de apoiadores do Partido
Republicano, que aceita qualquer argumento que venha do governo, por mais
absurdo que seja.
Portanto,
o imperialismo parece não dispor de uma alternativa de invasão terrestre. Por
outro lado, o bloqueio no Estreito de Ormuz pelos americanos, como previsto por
muitos, já desmoronou. Se o bloqueio naval fosse uma arma capaz de vencer uma
guerra, já teria sido utilizado antes na história dos conflitos. Mas, como
estamos vendo, esta não é uma arma que vence uma guerra, ainda mais uma guerra
de verdade, como esta que está sendo travada. A China, que tem uma das maiores
marinhas do mundo, e que investe muito em navios modernos e tem a maior frota
do mundo em número de embarcações, depende muito das importações de petróleo do
Golfo Pérsico, cerca de 55% de suas necessidades, com origem, especialmente, na
Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes. Em algum momento, se o bloqueio do
Estreito estivesse em vigor, os chineses teriam que começar a escoltar
petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o que poderia confrontar militarmente,
diretamente, navios chineses e americanos.
A
realidade é que os EUA não têm uma alternativa minimamente segura de vitória
nesta guerra contra o Irã. Entrar no espaço aéreo de avião e bombardear tudo
não vai resolver, até porque os iranianos começaram a derrubar aviões antes do
cessar-fogo. Todas as alternativas levam à grande possibilidade de derrota. Se
o governo americano tivesse juízo, começaria a trabalhar imediatamente por um
cessar-fogo e por negociações imediatas.
Se os
EUA voltarem a fazer uma campanha massiva de bombardeios no Irã, atacando
infraestrutura de energia, pontes e matando civis, como fizeram em larga escala
até o cessar-fogo, a tendência é o Irã fechar completamente o Golfo Pérsico. E
podem também fechar completamente o Mar Vermelho através dos Houthis, que
compõem também o Eixo da Resistência. O Irã pode ainda atacar a infraestrutura
de energia e as usinas de dessalinização em todo o Golfo Pérsico. Se as usinas
de dessalinização forem destruídas, os países árabes do Golfo entrarão em
colapso. Em função do clima hiperárido e da quase inexistência de rios ou lagos
permanentes, a dessalinização da água do mar não é apenas uma alternativa, mas
a espinha dorsal da sobrevivência urbana e industrial desses países. Em quase
todos os casos, a água dessalinizada responde pela vasta maioria do consumo
potável doméstico nos países árabes do Golfo, em alguns casos em até 100%.
Os
iranianos são um povo religioso e extremamente generoso. Prova disso é que são
o país do mundo que mais apoia abertamente a luta do povo palestino, pagando um
alto preço político e econômico por essa posição. Mas, imaginar que uma
potência estrangeira arrogante irá destruir o país e sair tranquilamente,
enquanto a população assiste placidamente, é uma grande ilusão. O Irã, se
atacado em sua infraestrutura crítica, fará o mesmo nos países árabes do Golfo,
que são cúmplices do imperialismo no ataque genocida ao país. Se o imperialismo
subir na escada da escalada, os iranianos vão usar todas as cartas que ainda
estão na manga.
Os
iranianos estão travando uma guerra pela sua existência. O imperialismo já
provocou um enorme dano ao Irã, porém causará um prejuízo ainda maior à
economia mundial. Os EUA podem até obter certas concessões dos iranianos na
mesa de negociação, mas o fato é que estes estão vencendo a guerra. Portanto,
quando, em algum momento, forem para a negociação, os iranianos tendem a se
sair muito bem. Uma regra fundamental da guerra é que o palco de operação dá a
tônica da negociação.
O Irã
tem utilizado uma espécie de “gradualismo tático” na guerra. Algumas de suas
armas ainda não foram utilizadas, justamente porque não queriam a guerra, e
depois, não desejavam escalar o conflito. Porém, em uma eventual retomada da
guerra, o Irã irá utilizar sistemas de armas que ainda não colocou em campo.
Por outro lado, há fortes indicações de que a maior parte das capacidades
militares do Irã está preservada, na medida em que suas principais fábricas e
centros de pesquisa e desenvolvimento estão bem no fundo da terra. Muitas das
bases de mísseis do Irã nem sequer foram colocadas em operação ainda. Por
exemplo, os especialistas militares dizem que o Irã não usou, até o momento, os
seus mísseis de cruzeiro.
Na
guerra iniciada em 28 de fevereiro, ficou claro que o Irã estava mais preparado
do que na guerra dos 12 dias de junho de 2025. Uma prova disso é que, na guerra
dos 30 dias, de 2026, os iranianos atacaram com força crescente. Como se sabe,
o Irã não queria a guerra, especialmente contra o maior exército do mundo,
teoricamente. No entanto, já que a guerra começou, os iranianos querem que seja
uma guerra longa, pois querem resolver o problema de uma vez por todas. No fim
da guerra, os iranianos querem ter certeza de que nenhum país volte a pensar em
atacar o Irã.
Não tem
como voltar ao passado no Golfo Pérsico. Não tem mais como voltar ao passado no
mundo. O povo iraniano tem consciência de que está travando uma luta pela sua
sobrevivência e está disposto a pagar um preço muito alto por isso, se for
necessário. É o que expressou outro dia, em entrevista, o professor Mohammad
Morandi, da Universidade de Teerã: “A gente está preparado para a guerra.
Estamos preparados para morrer. Não vamos nos curvar diante do império,
preferimos morrer de pé do que viver de joelhos”. É muito difícil subjugar um
povo com essa resiliência e determinação.
¨
Entre a guerra e a saída: o que realmente está em jogo.
Por Reynaldo José Aragon
Por
trás da retórica de guerra e das mesas de negociação, o conflito já se move em
outra direção, uma disputa menos visível em que o poder se mede pela capacidade
de controlar o funcionamento do mundo.
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O conflito se reorganiza em silêncio
A
guerra chegou a um ponto em que seus próprios termos já não explicam o que está
em curso. O que aparece como escalada militar, negociação nuclear e troca de
ameaças funciona hoje mais como superfície do que como centro. O eixo real se
deslocou. A disputa deixou de ser definida apenas pela capacidade de destruição
e passou a se organizar em torno de algo mais profundo: a capacidade de
condicionar o funcionamento do sistema que sustenta o mundo.
Esse
deslocamento não é retórico, é material. Ele aparece nas rotas marítimas, no
preço da energia, no tempo das cadeias logísticas e na capacidade de impor
custos sem cruzar imediatamente o limiar de uma guerra total. É nesse terreno
que a relação entre Estados Unidos, Irã e Israel se torna inteligível. Não se
trata apenas de quem pode vencer no sentido clássico, mas de quem consegue
impedir que a força do outro se converta em vitória política.
É a
partir desse deslocamento que as negociações em curso passam a fazer sentido. O
que se apresenta como impasse entre exigências nucleares e garantias de
segurança encobre uma disputa mais concreta. De um lado, os Estados Unidos
buscam restabelecer a previsibilidade do sistema, reabrir plenamente as rotas e
conter os efeitos econômicos de uma crise que já pressiona energia, inflação e
cadeias globais. Para isso, precisam de um acordo que produza estabilidade sem
carregar o custo político de um recuo.
Do
outro lado, o Irã reorganiza a negociação a partir de uma vantagem específica:
sua capacidade de interferir na circulação. Ao deslocar o centro da crise para
esse ponto, não apenas resiste, mas redefine a própria ordem da negociação. Em
vez de iniciar pelas limitações nucleares, procura condicionar qualquer avanço
ao alívio material do cerco, à recomposição de sua capacidade econômica e ao
reconhecimento implícito de que não foi derrotado.
É nesse
descompasso que o impasse se consolida. Washington precisa estabilizar o
sistema sem parecer que cedeu. Teerã precisa aliviar o bloqueio sem parecer que
capitulou. O conflito entre as propostas não está apenas no conteúdo, mas na
forma como cada lado pode sustentar publicamente o desfecho.
Nesse
ponto, Israel se torna o fator que mais condiciona o limite das negociações,
ainda que não as conduza diretamente. Sua posição não se orienta pela
construção do acordo, mas pela definição do que não pode ser aceito. Qualquer
desfecho que preserve no Irã capacidade de projeção regional, margem nuclear ou
legitimidade política é, na prática, um resultado adverso.
Por
isso, a lógica israelense opera por restrição. Ao manter pressão constante em
outras frentes, especialmente no Líbano e na Faixa de Gaza, impede que o
conflito seja reorganizado exclusivamente em torno da mesa diplomática. A
guerra permanece ativa mesmo quando a negociação avança, não como desvio, mas
como parte do próprio mecanismo de contenção.
O
efeito é direto. Enquanto Estados Unidos e Irã buscam um ponto de acomodação, o
espaço possível desse ajuste é continuamente estreitado. Um acordo amplo o
suficiente para estabilizar o sistema tende, ao mesmo tempo, a preservar
elementos da capacidade iraniana que Israel considera inaceitáveis. É nesse
limite que a negociação encontra sua tensão mais dura.
A
partir daí, a posição iraniana ganha coerência. Ao deslocar o centro da disputa
para a circulação, o Irã transforma uma limitação estrutural em instrumento de
pressão. Sem disputar superioridade militar direta, passa a operar sobre o
ponto mais sensível do sistema: a capacidade de manter fluxos estáveis de
energia, comércio e logística.
Essa
estratégia não exige controle absoluto, mas interferência suficiente para
produzir incerteza, elevar custos e alongar o tempo da crise. Com isso, altera
a relação entre força e resultado. A questão deixa de ser a destruição do
adversário e passa a ser a capacidade de tornar o funcionamento do sistema mais
caro, mais lento e mais imprevisível.
Nesse
movimento, a negociação também é reordenada. Ao priorizar o alívio material do
cerco antes de qualquer compromisso estrutural, o Irã busca não apenas ganhos
imediatos, mas consolidar o fato de que sua capacidade de pressão já produziu
efeitos concretos. Mais do que resistir, procura converter essa pressão em
reconhecimento político.
É dessa
vantagem que deriva sua posição. Não uma vitória no sentido clássico, mas a
capacidade de impedir que a superioridade do adversário se traduza em um
desfecho que possa ser apresentado como derrota iraniana.
Esse
reposicionamento se apoia em um ambiente internacional que deixou de ser
unipolar. China e Rússia não entram no conflito como atores militares diretos,
mas funcionam como estabilizadores externos de uma negociação que interessa a
ambos manter fora do controle exclusivo de Washington.
Para
Pequim, o ponto central é a previsibilidade das rotas e o fluxo contínuo de
energia. Para Moscou, a crise contribui para dispersar a pressão ocidental e
ampliar seu espaço de atuação. Nenhum dos dois precisa transformar o Irã em
aliado pleno. Basta impedir que ele seja isolado a ponto de aceitar um acordo
sob coerção unilateral.
Ao
ampliar interlocuções com países como Omã, Catar e Paquistão, o Irã dilui o
eixo da negociação e evita a armadilha de um acordo bilateral assimétrico. A
multiplicação de canais não é apenas diplomacia, mas estratégia de poder.
Quanto mais distribuída a negociação, menor a capacidade de um único polo impor
o desfecho.
O
resultado é um conflito administrado por equilíbrio, não resolvido por decisão.
A crise deixa de ser encerrada por um ato final e passa a ser sustentada por um
arranjo instável de forças.
Nesse
arranjo, o desfecho mais provável não é uma solução definitiva, mas uma
acomodação funcional. Um acordo limitado, centrado na reabertura parcial das
rotas, na redução do nível de pressão econômica e na retomada de algum grau de
previsibilidade, surge como saída viável. O tema nuclear não desaparece, mas é
deslocado, permitindo que todos os envolvidos apresentem o resultado como
suficiente para evitar o agravamento da crise.
Um
segundo caminho é a manutenção do impasse em forma prolongada. A circulação
permanece tensionada, os custos seguem elevados e a negociação avança de
maneira intermitente, sem ruptura nem resolução. Trata-se de uma guerra
administrada no limite entre pressão e contenção.
Há
ainda o risco de ruptura. Um movimento destinado a quebrar o impasse, por
cálculo ou erro, pode reintroduzir a lógica da escalada direta. Nesse cenário,
a prioridade deixa de ser o controle do sistema e passa a ser a restauração da
dissuasão por meio da força.
Um
acordo amplo permanece como possibilidade remota. Exigiria concessões
simultâneas que, no contexto atual, implicariam custos políticos difíceis de
sustentar para todos os envolvidos.
O que
se desenha não é uma guerra sem saída, mas uma guerra cujo desfecho não pode
ser apresentado como vitória clara por nenhum dos lados. É essa condição que
organiza o conflito neste momento. A disputa já não gira em torno de destruir o
adversário, mas de impedir que ele converta poder em resultado político.
Nesse
cenário, negociar não significa encerrar a guerra, mas definir as condições sob
as quais ela pode ser suspensa. O acordo possível não resolve o conflito.
Apenas estabelece um ponto de equilíbrio entre forças que não podem se derrotar
abertamente.
Entre a
guerra e a saída, o que realmente está em jogo é quem consegue determinar esse
ponto de equilíbrio sem assumir o custo da derrota. É nessa medida que o
desfecho será definido.
Fonte:
Brasil 247

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