Como
o reggae reinventou identidades na Jamaica e em São Luís do Maranhão
Identidades
são construções sociais que envolvem diversos agentes. Até bem recentemente, as
discussões sobre identidade nacional giravam comumente em torno da agência das
elites, do Estado, da intelectualidade. Mesmo ao se discutir a construção de
símbolos nacionais como o samba, por exemplo, o protagonismo das camadas negras
e populares, detentoras da prática, era invisibilizado ou secundarizado. Era
como se os milhares de anônimos que por séculos foram responsáveis pela sua
preservação, transmissão e divulgação não tivessem história.
Nos
últimos anos, diversos trabalhos têm buscado evidenciar o protagonismo desses
segmentos marginalizados na transformação de práticas, antes vistas como apenas
da gente negra, em símbolos da brasilidade.
O
reggae, embora seja uma cultura estrangeira, é um bom exemplo para se analisar
o agenciamento das camadas negras da sociedade e da música negra, em
particular, como elemento central na desconstrução e construção de identidades
numa perspectiva Atlântica, como demonstram os casos da Jamaica e de São Luís
do Maranhão.
Sem
pretender forçar a comparação entre um país e uma cidade, essas duas ilhas do
Atlântico Negro – apesar de sua distância geográfica, linguística, do diferente
passado de colonização, uma portuguesa, outra britânica – têm algumas coisas em
comum que favorecem essa análise.
O amor
pelo reggae, ritmo surgido naquele pequeno país caribenho, no fim dos anos
1960, talvez seja o mais conhecido. A música foi o catalisador para essas duas
ilhas transformarem a sua identidade no século passado.
O caso
ludovicense talvez seja mais familiar para parte dos leitores. Em sintonia com
os projetos de branqueamento em vigor no Brasil e América Latina até as
primeiras décadas do século XX, pautados em teorias racistas, a capital
maranhense, desde o século XIX, cultivava uma identidade europeia promovida por
suas elites brancas, que a nomearam de “Atenas Brasileira”. São Luís seria uma
suposta ilha não negra, mas grega, nos trópicos, onde, de fato, surgiram
diversos literatos de renome nacional como Aluízio e Artur Azevedo, Gonçalves,
Dias, para citar alguns.
Além
disso, um saudosismo de uma também suposta e desejada colonização francesa
fizera com que nas escolas até avançado o século XX, se ensinasse, além da
imagem simbólica da Atenas brasileira, outra, que louvava a “fundação
francesa”. São Luís, que carrega no nome um tributo a um rei da França, era
apresentada orgulhosamente como “a única capital brasileira fundada por
franceses”.
Várias
gerações foram educadas com esse orgulho de um passado europeu que esnobava e
escamoteava os séculos de escravidão, sua herança e o racismo que marcou a
ferro e fogo no pós abolição.
Talvez
por isso, quando, por volta dos anos 1970, começou a chegar e a ganhar corpo
pela cidade uma certa música negra caribenha, depois identificada como reggae
jamaicano, as elites brancas maranhenses tenham ficado atentas e incomodadas.
Inicialmente restrita às periferias, a música foi prontamente adotada pela
população negra da cidade, embalando festejos, barracões, uniões de moradores e
outros ambientes frequentados pela população negra e pobre.
Mesmo
não sendo uma cidade segregada, até a década de 1980, pelo menos, para ouvir e
dançar um bom reggae, era preciso atravessar duas barreiras que se confundiam
amplamente: a territorial e a racial. Em outras palavras, um jovem branco de
classe média ou rico teria que se deslocar até a periferia eminentemente negra
de São Luís, área não frequentada por seu grupo sócio racial.
Tudo
começou a mudar quando, com a paulatina expansão do estilo musical jamaicano,
já dominando toda a periferia da cidade – bailes reunindo milhares de pessoas,
centenas de bares, clubes e muitas aparelhagens de som, as radiolas –, o reggae
finalmente chegou ao rádio.
Como no
caso do Jazz norte americano, como explica a historiadora Amy Absher, em seu
The Black Musicians and the White City (“Os músicos negros e a cidade branca”,
em tradução livre) a chegada ao rádio impulsionou a quebra das segregacionistas
barreiras raciais e territoriais. A partir daí não era mais preciso ir à
periferia para se ouvir e dançar um reggae, bastava sintonizar em uma estação
AM ou FM.
Em
pouco tempo, para desespero das elites que de imediato reagiram em colunas de
jornais com tiradas abertamente racistas contra a Jamaica e seu povo, a Atenas
brasileira fundada por franceses, iniciou um processo de reconstrução
identitária que a levaria a se transformar na orgulhosamente negra Jamaica
Brasileira.
Como no
caso jamaicano, essa revolução cultural e identitária não foi resultado da
agência das elites, do Estado ou de meros intelectuais de gabinete. Pelo
contrário, foi mediada pela música, o reggae; veiculada pelos paredões de
caixas de som, as radiolas, que correspondem aos sound systems jamaicanos; e
agenciada pelo povo negro e pobre, os regueiros, como são conhecidos os
consumidores do ritmo em São Luís.
O caso
da Jamaica, por sua vez, é menos conhecido, pelo menos pelo público brasileiro.
Poucos sabem, por exemplo, que até meados da segunda metade do século XX, a
Jamaica, com 75% da população conformada por pretos e pardos, se apresentava a
partir de uma perspectiva imposta pelas elites e adotada por grande parte da
população, como uma nação branca e britânica, uma extensão da Europa no Caribe.
Sim, a Jamaica nem sempre foi a “ilha do reggae”, orgulhosamente negra,
pan-africana e vista como rastafári.
Enquanto
no Brasil ao longo de boa parte do século XX, a maior parte da população negra
e descendente, adotara a então hegemônica ideia da miscigenação proposta pelo
sociólogo Gilberto Freyre, assumindo o discurso de que éramos todos mestiços,
frutos das “três raças”; na Jamaica, de forma semelhante, cultivava-se uma
imagem do país branca e europeia.
As
classes médias mestiças jamaicanas, por exemplo, não queriam ser negras, muito
menos se misturar com os negros. Como afirma o intelectual jamaicano Stuart
Hall, ao se referir à recusa de sua própria família em adotar uma identidade
negra: “nós éramos pardos”.
Bob
Marley, personagem fundamental para a consolidação da Jamaica como uma
comunidade imaginada negra, parafraseando Benedict Anderson, foi uma exceção à
regra. Também fruto de uma relação mista, mas, diferente de Stuart Hall, criado
na periferia, o rei do reggae, até o início da vida adulta, foi identificado
por parte da população negra jamaicana como branco ou pardo. Todavia, se
afirmou desde muito cedo como negro, como analiso a partir de pesquisa em
andamento sobre o rei do reggae e a construção da identidade negra naquela ilha
caribenha.
Na
Jamaica, como em São Luís, o motor dessa verdadeira revolução cultural surgiu
na periferia da periferia, da gente preta e pobre. Mas não de toda a comunidade
negra, que como dito, ansiava pelos privilégios da branquitude. É resultado de
séculos de luta contra a escravidão e opressão que entre o fim do século XIX e
primeiras décadas do XX se traduziram em movimentos rurais, negros e populares
como o Garveysmo e rastafaranismo.
O
rastafarianismo, talvez o movimento mais popularmente conhecido, surgiu nos
anos 1930 como uma seita rural que elegeu um rei negro etíope, Ras Tafari
Makonen, Hailé Selassie I, como o deus negro, o jesus reencarnado.
Com um
discurso fortemente anticolonialista e pan-africanista, os rastafáris foram
amplamente rejeitados pelo povo e pelas elites da Jamaica, até que na década de
1940, os jamaicanos inventaram os sound systems; na década de 1950, o
aprimoraram, conquistaram as periferias de Kingston, gerando um verdadeiro
mercado de entretenimento que movimentava tanta grana que promoveu o surgimento
na década de 1960 de um potente mercado fonográfico.
Desse
mercado fonográfico, surgiu nessa mesma década a “autêntica música jamaicana”,
o ska, o rocksteady e o reggae. Autêntica e jamaicana para a periferia negra da
Jamaica, porque para as elites era música do gueto, ruído, barulho para os
ouvidos.
Os
rastafáris adentraram o emergente mercado fonográfico desde os primórdios.
Tiveram, é claro, que ultrapassar também a barreira imposta para a sua música.
A despeito de muitas recusas e portas fechadas das gravadoras, foram entrando
pelas brechas. Utilizando até mesmo a violência para tocar no rádio, por
exemplo, como no caso de Bob Marley. E como em São Luís, a conquista do rádio
foi o passo decisivo para ultrapassar barreiras territoriais e raciais,
conquistar a Jamaica inteira e depois do mundo.
Com seu
discurso agora gravado em compactos, os rastas lentamente chegaram ao
mainstream e conquistaram, com o surgimento do reggae, no fim dos anos 1960, o
mercado de entretenimento. Com sua música minaram, por meio de uma revolução
sonora, o supremacismo branco vigente na Jamaica, promoveram o orgulho racial
negro e transformaram a Jamaica, de uma ilha que se olhava no espelho e via um
lorde inglês de peruca grisalha, em outra que mirava e mira, como seu reflexo,
um rei negro africano.
Em São
Luís, por sua vez, depois de conquistar as periferias com as radiolas e bailes,
e o restante da sociedade após sua difusão pelo rádio, o reggae jamaicano
ofuscou as identidades europeias promovidas pelas elites brancas e transformou
a pretensa Atenas dos trópicos em uma orgulhosa e afrodiaspórica Jamaica, a
Jamaica brasileira.
Depois
de décadas de sua chegada a São Luís, seguida da ampla transformação que operou
na cidade, o reggae finalmente foi reconhecido pelo Estado, que passou a adotar
a identidade regueira vinda das periferias negras. Dois eventos simbolizam sua
rendição a essa nova referência: a criação do Museu do Reggae, em 2018 e o
reconhecimento de São Luís, via lei federal 14.668/2023, como a “capital
nacional do reggae”.
Todavia,
se, no século XX, o reggae foi o principal motor dessa transformação
identitária, atualmente novos elementos culturais indicam mudanças em curso.
Recentemente, um fenômeno que atingiu o Brasil inteiro entrou em cena apontando
novos agentes e transformações, em particular em relação à juventude: a
ascensão do funk carioca e do trap.
Apesar
da grande força que tem o reggae na cidade, evidenciada por sua onipresença nas
ruas, existência de inúmeros bares do estilo, grandes festivais e tributos a
ídolos jamaicanos reunindo milhares de pessoas, de acordo com pesquisa
recém-publicada sobre o gosto musical de jovens ludovicenses, apenas cerca de
4% deles consome o reggae.
Em
outras palavras, a pesquisa indica que, enquanto a juventude perde o interesse
pelo ritmo jamaicano e se aproxima de outros, como o funk carioca, a base de
sustentação do reggae na Jamaica brasileira hoje são as gerações mais velhas,
pessoas acima dos 30, 40 e 50 anos.
Esses
ritmos em ascensão, também negros e periféricos, cada vez mais conquistam a
juventude e podem ameaçar, futuramente, se a tendência constatada pela pesquisa
se consolidar, a hegemonia do reggae. Segundo o jornal britânico The Economist,
trata-se de um fenômeno que já extrapola as fronteiras nacionais e, talvez, em
um horizonte não tão distante, o funk carioca se torne a próxima marca do
Brasil no mundo.
O caso
das duas Jamaicas, a caribenha e a brasileira revelam, por um lado, a
complexidade das disputas que giram em torno de construções de identidades,
indo muito além da mera imposição das elites, do Estado ou da predileção de
segmentos da intelectualidade, em geral, branca. E por outro lado, evidenciam o
papel fundamental, no Atlântico Negro, da agência negra, periférica e de sua
produção cultural, em particular a música, para a subversão de velhas
referências coloniais e a emergência de novas referências marcadamente
afrodiaspóricas.
Fonte:
Por Roberto Pereira, no Le Monde

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