sexta-feira, 1 de maio de 2026

Como o reggae reinventou identidades na Jamaica e em São Luís do Maranhão

Identidades são construções sociais que envolvem diversos agentes. Até bem recentemente, as discussões sobre identidade nacional giravam comumente em torno da agência das elites, do Estado, da intelectualidade. Mesmo ao se discutir a construção de símbolos nacionais como o samba, por exemplo, o protagonismo das camadas negras e populares, detentoras da prática, era invisibilizado ou secundarizado. Era como se os milhares de anônimos que por séculos foram responsáveis pela sua preservação, transmissão e divulgação não tivessem história.

Nos últimos anos, diversos trabalhos têm buscado evidenciar o protagonismo desses segmentos marginalizados na transformação de práticas, antes vistas como apenas da gente negra, em símbolos da brasilidade.

O reggae, embora seja uma cultura estrangeira, é um bom exemplo para se analisar o agenciamento das camadas negras da sociedade e da música negra, em particular, como elemento central na desconstrução e construção de identidades numa perspectiva Atlântica, como demonstram os casos da Jamaica e de São Luís do Maranhão.

Sem pretender forçar a comparação entre um país e uma cidade, essas duas ilhas do Atlântico Negro – apesar de sua distância geográfica, linguística, do diferente passado de colonização, uma portuguesa, outra britânica – têm algumas coisas em comum que favorecem essa análise.

O amor pelo reggae, ritmo surgido naquele pequeno país caribenho, no fim dos anos 1960, talvez seja o mais conhecido. A música foi o catalisador para essas duas ilhas transformarem a sua identidade no século passado.

O caso ludovicense talvez seja mais familiar para parte dos leitores. Em sintonia com os projetos de branqueamento em vigor no Brasil e América Latina até as primeiras décadas do século XX, pautados em teorias racistas, a capital maranhense, desde o século XIX, cultivava uma identidade europeia promovida por suas elites brancas, que a nomearam de “Atenas Brasileira”. São Luís seria uma suposta ilha não negra, mas grega, nos trópicos, onde, de fato, surgiram diversos literatos de renome nacional como Aluízio e Artur Azevedo, Gonçalves, Dias, para citar alguns. 

Além disso, um saudosismo de uma também suposta e desejada colonização francesa fizera com que nas escolas até avançado o século XX, se ensinasse, além da imagem simbólica da Atenas brasileira, outra, que louvava a “fundação francesa”. São Luís, que carrega no nome um tributo a um rei da França, era apresentada orgulhosamente como “a única capital brasileira fundada por franceses”. 

Várias gerações foram educadas com esse orgulho de um passado europeu que esnobava e escamoteava os séculos de escravidão, sua herança e o racismo que marcou a ferro e fogo no pós abolição.

Talvez por isso, quando, por volta dos anos 1970, começou a chegar e a ganhar corpo pela cidade uma certa música negra caribenha, depois identificada como reggae jamaicano, as elites brancas maranhenses tenham ficado atentas e incomodadas. Inicialmente restrita às periferias, a música foi prontamente adotada pela população negra da cidade, embalando festejos, barracões, uniões de moradores e outros ambientes frequentados pela população negra e pobre.

Mesmo não sendo uma cidade segregada, até a década de 1980, pelo menos, para ouvir e dançar um bom reggae, era preciso atravessar duas barreiras que se confundiam amplamente: a territorial e a racial. Em outras palavras, um jovem branco de classe média ou rico teria que se deslocar até a periferia eminentemente negra de São Luís, área não frequentada por seu grupo sócio racial.

Tudo começou a mudar quando, com a paulatina expansão do estilo musical jamaicano, já dominando toda a periferia da cidade – bailes reunindo milhares de pessoas, centenas de bares, clubes e muitas aparelhagens de som, as radiolas –, o reggae finalmente chegou ao rádio.

Como no caso do Jazz norte americano, como explica a historiadora Amy Absher, em seu The Black Musicians and the White City (“Os músicos negros e a cidade branca”, em tradução livre) a chegada ao rádio impulsionou a quebra das segregacionistas barreiras raciais e territoriais. A partir daí não era mais preciso ir à periferia para se ouvir e dançar um reggae, bastava sintonizar em uma estação AM ou FM.

Em pouco tempo, para desespero das elites que de imediato reagiram em colunas de jornais com tiradas abertamente racistas contra a Jamaica e seu povo, a Atenas brasileira fundada por franceses, iniciou um processo de reconstrução identitária que a levaria a se transformar na orgulhosamente negra Jamaica Brasileira.

Como no caso jamaicano, essa revolução cultural e identitária não foi resultado da agência das elites, do Estado ou de meros intelectuais de gabinete. Pelo contrário, foi mediada pela música, o reggae; veiculada pelos paredões de caixas de som, as radiolas, que correspondem aos sound systems jamaicanos; e agenciada pelo povo negro e pobre, os regueiros, como são conhecidos os consumidores do ritmo em São Luís.

O caso da Jamaica, por sua vez, é menos conhecido, pelo menos pelo público brasileiro. Poucos sabem, por exemplo, que até meados da segunda metade do século XX, a Jamaica, com 75% da população conformada por pretos e pardos, se apresentava a partir de uma perspectiva imposta pelas elites e adotada por grande parte da população, como uma nação branca e britânica, uma extensão da Europa no Caribe. Sim, a Jamaica nem sempre foi a “ilha do reggae”, orgulhosamente negra, pan-africana e vista como rastafári.

Enquanto no Brasil ao longo de boa parte do século XX, a maior parte da população negra e descendente, adotara a então hegemônica ideia da miscigenação proposta pelo sociólogo Gilberto Freyre, assumindo o discurso de que éramos todos mestiços, frutos das “três raças”; na Jamaica, de forma semelhante, cultivava-se uma imagem do país branca e europeia.

As classes médias mestiças jamaicanas, por exemplo, não queriam ser negras, muito menos se misturar com os negros. Como afirma o intelectual jamaicano Stuart Hall, ao se referir à recusa de sua própria família em adotar uma identidade negra: “nós éramos pardos”.

Bob Marley, personagem fundamental para a consolidação da Jamaica como uma comunidade imaginada negra, parafraseando Benedict Anderson, foi uma exceção à regra. Também fruto de uma relação mista, mas, diferente de Stuart Hall, criado na periferia, o rei do reggae, até o início da vida adulta, foi identificado por parte da população negra jamaicana como branco ou pardo. Todavia, se afirmou desde muito cedo como negro, como analiso a partir de pesquisa em andamento sobre o rei do reggae e a construção da identidade negra naquela ilha caribenha.

Na Jamaica, como em São Luís, o motor dessa verdadeira revolução cultural surgiu na periferia da periferia, da gente preta e pobre. Mas não de toda a comunidade negra, que como dito, ansiava pelos privilégios da branquitude. É resultado de séculos de luta contra a escravidão e opressão que entre o fim do século XIX e primeiras décadas do XX se traduziram em movimentos rurais, negros e populares como o Garveysmo e rastafaranismo.

O rastafarianismo, talvez o movimento mais popularmente conhecido, surgiu nos anos 1930 como uma seita rural que elegeu um rei negro etíope, Ras Tafari Makonen, Hailé Selassie I, como o deus negro, o jesus reencarnado.

Com um discurso fortemente anticolonialista e pan-africanista, os rastafáris foram amplamente rejeitados pelo povo e pelas elites da Jamaica, até que na década de 1940, os jamaicanos inventaram os sound systems; na década de 1950, o aprimoraram, conquistaram as periferias de Kingston, gerando um verdadeiro mercado de entretenimento que movimentava tanta grana que promoveu o surgimento na década de 1960 de um potente mercado fonográfico.

Desse mercado fonográfico, surgiu nessa mesma década a “autêntica música jamaicana”, o ska, o rocksteady e o reggae. Autêntica e jamaicana para a periferia negra da Jamaica, porque para as elites era música do gueto, ruído, barulho para os ouvidos.

Os rastafáris adentraram o emergente mercado fonográfico desde os primórdios. Tiveram, é claro, que ultrapassar também a barreira imposta para a sua música. A despeito de muitas recusas e portas fechadas das gravadoras, foram entrando pelas brechas. Utilizando até mesmo a violência para tocar no rádio, por exemplo, como no caso de Bob Marley. E como em São Luís, a conquista do rádio foi o passo decisivo para ultrapassar barreiras territoriais e raciais, conquistar a Jamaica inteira e depois do mundo.

Com seu discurso agora gravado em compactos, os rastas lentamente chegaram ao mainstream e conquistaram, com o surgimento do reggae, no fim dos anos 1960, o mercado de entretenimento. Com sua música minaram, por meio de uma revolução sonora, o supremacismo branco vigente na Jamaica, promoveram o orgulho racial negro e transformaram a Jamaica, de uma ilha que se olhava no espelho e via um lorde inglês de peruca grisalha, em outra que mirava e mira, como seu reflexo, um rei negro africano.

Em São Luís, por sua vez, depois de conquistar as periferias com as radiolas e bailes, e o restante da sociedade após sua difusão pelo rádio, o reggae jamaicano ofuscou as identidades europeias promovidas pelas elites brancas e transformou a pretensa Atenas dos trópicos em uma orgulhosa e afrodiaspórica Jamaica, a Jamaica brasileira.

Depois de décadas de sua chegada a São Luís, seguida da ampla transformação que operou na cidade, o reggae finalmente foi reconhecido pelo Estado, que passou a adotar a identidade regueira vinda das periferias negras. Dois eventos simbolizam sua rendição a essa nova referência: a criação do Museu do Reggae, em 2018 e o reconhecimento de São Luís, via lei federal 14.668/2023, como a “capital nacional do reggae”.

Todavia, se, no século XX, o reggae foi o principal motor dessa transformação identitária, atualmente novos elementos culturais indicam mudanças em curso. Recentemente, um fenômeno que atingiu o Brasil inteiro entrou em cena apontando novos agentes e transformações, em particular em relação à juventude: a ascensão do funk carioca e do trap.

Apesar da grande força que tem o reggae na cidade, evidenciada por sua onipresença nas ruas, existência de inúmeros bares do estilo, grandes festivais e tributos a ídolos jamaicanos reunindo milhares de pessoas, de acordo com pesquisa recém-publicada sobre o gosto musical de jovens ludovicenses, apenas cerca de 4% deles consome o reggae.

Em outras palavras, a pesquisa indica que, enquanto a juventude perde o interesse pelo ritmo jamaicano e se aproxima de outros, como o funk carioca, a base de sustentação do reggae na Jamaica brasileira hoje são as gerações mais velhas, pessoas acima dos 30, 40 e 50 anos.

Esses ritmos em ascensão, também negros e periféricos, cada vez mais conquistam a juventude e podem ameaçar, futuramente, se a tendência constatada pela pesquisa se consolidar, a hegemonia do reggae. Segundo o jornal britânico The Economist, trata-se de um fenômeno que já extrapola as fronteiras nacionais e, talvez, em um horizonte não tão distante, o funk carioca se torne a próxima marca do Brasil no mundo. 

O caso das duas Jamaicas, a caribenha e a brasileira revelam, por um lado, a complexidade das disputas que giram em torno de construções de identidades, indo muito além da mera imposição das elites, do Estado ou da predileção de segmentos da intelectualidade, em geral, branca. E por outro lado, evidenciam o papel fundamental, no Atlântico Negro, da agência negra, periférica e de sua produção cultural, em particular a música, para a subversão de velhas referências coloniais e a emergência de novas referências marcadamente afrodiaspóricas.

 

Fonte: Por Roberto Pereira, no Le Monde

 

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