sexta-feira, 1 de maio de 2026

CNPq, 75 anos: O papel da ciência na reconstrução do Brasil

Em 1951, a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico marcou uma inflexão na história do Brasil. Ao instituir o CNPq, o país reconhecia, em plena reorganização do pós-guerra, que conhecimento, pesquisa e formação científica não poderiam ser tratados como temas periféricos. Deveriam ser os elementos centrais de um projeto nacional. Não por acaso, o almirante Álvaro Alberto definiu aquela iniciativa como a “Lei Áurea da pesquisa no Brasil”.

Setenta e cinco anos depois, a trajetória do CNPq se confunde com a própria construção do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação. O órgão esteve na base da formação de gerações de pesquisadores, da consolidação da pós-graduação e do fortalecimento de capacidades científicas que permitiram ao Brasil avançar em áreas estratégicas, ampliar sua autonomia e afirmar presença no cenário internacional.

O legado do CNPq não se resume à concessão de bolsas ou ao apoio à pesquisa. Sua contribuição tem sido também institucional. Ao longo de décadas, o Conselho ajudou a estruturar as bases da política científica brasileira, em diálogo com universidades, centros de pesquisa e agências públicas. O CNPq tem contribuído para a consolidação de uma rede nacional de produção de conhecimento com capilaridade e capacidade tecnológica.

Celebrar os 75 anos do CNPq é mais do que reverenciar essa trajetória. É reafirmar uma convicção: não existe desenvolvimento sustentado, soberania efetiva ou inserção internacional qualificada sem ciência forte, continuidade institucional e investimento de longo prazo.

Essa compreensão voltou a ganhar centralidade na estratégia nacional a partir de 2023. A recomposição dos instrumentos públicos de financiamento, em especial com o descontingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, permitiu restabelecer previsibilidade, escala e capacidade de planejamento. Com isso, instituições como o CNPq e a Finep puderam ampliar seu alcance, fortalecer a infraestrutura de pesquisa e apoiar projetos estruturantes para o país. Mais do que uma ação de governo, tratou-se de um movimento de recomposição de capacidades estatais e institucionais essenciais ao desenvolvimento científico e tecnológico.

Mais do que ampliar recursos, o país voltou a reconstruir capacidades estratégicas do Estado. Em ciência e tecnologia, descontinuidades custam caro: interrompem trajetórias, dispersam competências e comprometem o futuro. Retomar o financiamento, reorganizar prioridades e devolver densidade à política científica é reafirmar uma visão de Estado que reconhece no conhecimento um ativo estratégico da nação.

Essa escolha se torna ainda mais decisiva em um cenário internacional marcado pela disputa por capacidades tecnológicas, pela reorganização das cadeias produtivas e pela crescente associação entre inovação, poder econômico e soberania. Estados Unidos, China e União Europeia compreenderam que domínio científico e tecnológico não é apenas vantagem competitiva: é condição de autonomia produtiva, segurança e projeção internacional. A ciência passou a integrar, de forma incontornável, o próprio conceito de soberania. No mundo contemporâneo, soberania não se mede apenas por território ou recursos naturais, mas pela capacidade de produzir conhecimento, dominar tecnologias e transformá-los em poder de decisão.

O Brasil reúne ativos relevantes para ocupar um lugar de maior protagonismo nesse contexto. Esses ativos foram construídos ao longo de décadas, em grande medida com apoio do CNPq e de todo o sistema nacional de ciência e tecnologia. Transformá-los em liderança exige continuidade, coordenação institucional e compromisso de longo prazo.

Mas fortalecer a ciência brasileira não depende apenas de financiamento e coordenação. Exige também enfrentar desigualdades persistentes dentro do próprio sistema. Não haverá ciência forte em um país que restringe o avanço de parte decisiva de seus talentos. No Brasil, as mulheres já são maioria na pós-graduação, representando cerca de 57% dos estudantes, mas seguem sub-representadas nos níveis mais altos da carreira acadêmica e científica. No mundo, apenas cerca de um terço dos cientistas são mulheres. Não se trata de déficit de mérito, mas de barreiras estruturais que ainda limitam trajetórias e oportunidades.

Superar essas barreiras é parte do fortalecimento da ciência brasileira. Por isso, é oportuno lembrar, neste mês das mulheres, a trajetória de Bertha Lutz, cientista, bióloga e liderança política que esteve na linha de frente da construção da Carta das Nações Unidas, em 1945, defendendo a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Ao lembrar Bertha Lutz, reafirma-se que ampliar a participação das mulheres na ciência não é apenas uma agenda de equidade, mas uma condição para que o país mobilize plenamente sua inteligência coletiva e fortaleça seu sistema científico. Sua atuação permanece como referência de que ciência, democracia e inclusão caminham juntas quando um país leva a sério a construção de seu futuro.

Ao completar 75 anos, o CNPq reafirma sua vocação histórica: formar talentos, sustentar a pesquisa, ampliar horizontes e fortalecer o Brasil. Honrar esse legado significa compreender que ciência não é gasto acessório, nem agenda secundária. É decisão estratégica de Estado.

Que o futuro do CNPq seja, como sua história, inseparável do futuro do Brasil.

 

Fonte: Por Luiz Antonio Rodrigues Elias, em Outras Palavras

 

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