CNPq,
75 anos: O papel da ciência na reconstrução do Brasil
Em
1951, a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico marcou uma inflexão na história do Brasil. Ao instituir o CNPq, o
país reconhecia, em plena reorganização do pós-guerra, que conhecimento,
pesquisa e formação científica não poderiam ser tratados como temas
periféricos. Deveriam ser os elementos centrais de um projeto nacional. Não por
acaso, o almirante Álvaro Alberto definiu aquela iniciativa como a “Lei Áurea
da pesquisa no Brasil”.
Setenta
e cinco anos depois, a trajetória do CNPq se confunde com a própria construção
do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação. O órgão esteve na base
da formação de gerações de pesquisadores, da consolidação da pós-graduação e do
fortalecimento de capacidades científicas que permitiram ao Brasil avançar em
áreas estratégicas, ampliar sua autonomia e afirmar presença no cenário
internacional.
O
legado do CNPq não se resume à concessão de bolsas ou ao apoio à pesquisa. Sua
contribuição tem sido também institucional. Ao longo de décadas, o Conselho
ajudou a estruturar as bases da política científica brasileira, em diálogo com
universidades, centros de pesquisa e agências públicas. O CNPq tem contribuído
para a consolidação de uma rede nacional de produção de conhecimento com
capilaridade e capacidade tecnológica.
Celebrar
os 75 anos do CNPq é mais do que reverenciar essa trajetória. É reafirmar uma
convicção: não existe desenvolvimento sustentado, soberania efetiva ou inserção
internacional qualificada sem ciência forte, continuidade institucional e
investimento de longo prazo.
Essa
compreensão voltou a ganhar centralidade na estratégia nacional a partir de
2023. A recomposição dos instrumentos públicos de financiamento, em especial
com o descontingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico, permitiu restabelecer previsibilidade, escala e capacidade de
planejamento. Com isso, instituições como o CNPq e a Finep puderam ampliar seu
alcance, fortalecer a infraestrutura de pesquisa e apoiar projetos
estruturantes para o país. Mais do que uma ação de governo, tratou-se de um
movimento de recomposição de capacidades estatais e institucionais essenciais
ao desenvolvimento científico e tecnológico.
Mais do
que ampliar recursos, o país voltou a reconstruir capacidades estratégicas do
Estado. Em ciência e tecnologia, descontinuidades custam caro: interrompem
trajetórias, dispersam competências e comprometem o futuro. Retomar o
financiamento, reorganizar prioridades e devolver densidade à política
científica é reafirmar uma visão de Estado que reconhece no conhecimento um
ativo estratégico da nação.
Essa
escolha se torna ainda mais decisiva em um cenário internacional marcado pela
disputa por capacidades tecnológicas, pela reorganização das cadeias produtivas
e pela crescente associação entre inovação, poder econômico e soberania.
Estados Unidos, China e União Europeia compreenderam que domínio científico e
tecnológico não é apenas vantagem competitiva: é condição de autonomia
produtiva, segurança e projeção internacional. A ciência passou a integrar, de
forma incontornável, o próprio conceito de soberania. No mundo contemporâneo,
soberania não se mede apenas por território ou recursos naturais, mas pela
capacidade de produzir conhecimento, dominar tecnologias e transformá-los em
poder de decisão.
O
Brasil reúne ativos relevantes para ocupar um lugar de maior protagonismo nesse
contexto. Esses ativos foram construídos ao longo de décadas, em grande medida
com apoio do CNPq e de todo o sistema nacional de ciência e tecnologia.
Transformá-los em liderança exige continuidade, coordenação institucional e
compromisso de longo prazo.
Mas
fortalecer a ciência brasileira não depende apenas de financiamento e
coordenação. Exige também enfrentar desigualdades persistentes dentro do
próprio sistema. Não haverá ciência forte em um país que restringe o avanço de
parte decisiva de seus talentos. No Brasil, as mulheres já são maioria na
pós-graduação, representando cerca de 57% dos estudantes, mas seguem
sub-representadas nos níveis mais altos da carreira acadêmica e científica. No
mundo, apenas cerca de um terço dos cientistas são mulheres. Não se trata de
déficit de mérito, mas de barreiras estruturais que ainda limitam trajetórias e
oportunidades.
Superar
essas barreiras é parte do fortalecimento da ciência brasileira. Por isso, é
oportuno lembrar, neste mês das mulheres, a trajetória de Bertha Lutz,
cientista, bióloga e liderança política que esteve na linha de frente da
construção da Carta das Nações Unidas, em 1945, defendendo a igualdade de
direitos entre homens e mulheres. Ao lembrar Bertha Lutz, reafirma-se que
ampliar a participação das mulheres na ciência não é apenas uma agenda de
equidade, mas uma condição para que o país mobilize plenamente sua inteligência
coletiva e fortaleça seu sistema científico. Sua atuação permanece como
referência de que ciência, democracia e inclusão caminham juntas quando um país
leva a sério a construção de seu futuro.
Ao
completar 75 anos, o CNPq reafirma sua vocação histórica: formar talentos,
sustentar a pesquisa, ampliar horizontes e fortalecer o Brasil. Honrar esse
legado significa compreender que ciência não é gasto acessório, nem agenda
secundária. É decisão estratégica de Estado.
Que o
futuro do CNPq seja, como sua história, inseparável do futuro do Brasil.
Fonte:
Por Luiz Antonio Rodrigues Elias, em Outras Palavras

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