Dyepeson
Martins: Alcolumbre afirmou a líder do PL atuar contra Messias - “faça a sua
parte, faço a minha”
Com
muitos gritos e aplausos, deputados e senadores da direita e da ultradireita
amontoaram-se em frente ao plenário do Senado para celebrar uma derrota
histórica do Governo Lula, na noite desta quarta-feira (29). A Casa rejeitou —
por 42 a 34 votos, além de uma abstenção — o nome do Advogado-Geral da União,
Jorge Messias, à vaga deixada por Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal
(STF). Foi a primeira rejeição de uma indicação presidencial à Corte desde
1894.
A
Agência Pública apurou que o resultado da votação não surpreendeu o presidente
do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União-AP), que teria articulado
ativamente contra Messias e, inclusive, confirmado isso a outro parlamentar.
Em
diálogos com correligionários, o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), teria
repetido várias vezes, em clima de festa, que Jorge Messias foi rejeitado
“graças a Alcolumbre”. Ele ainda contou a amigos que — horas antes da votação —
teria ligado ao presidente do Congresso para obter informações sobre as
tratativas para barrar a indicação de Lula. Alcolumbre teria respondido: “Faça
a sua parte, que eu faço a minha”.
Nas
últimas duas semanas, o Governo montou uma força-tarefa para angariar apoio à
votação no Senado. Senadoras da base governista, por exemplo, foram incumbidas
da missão de convencer as colegas mulheres do parlamento. Até mesmo o ministro
André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e considerado o
nome “terrivelmente evangélico” no Supremo, trabalhou em favor de Jorge
Messias.
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Tensão entre governistas
Desde o
início da sabatina na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), às
9h da manhã, senadores petistas mostraram preocupação com um possível placar
negativo na apreciação em plenário. Diante da preocupação, uma reunião entre o
líder do PT no Senado, Jaques Wagner (BA), e o presidente da República teria
ocorrido no Palácio do Planalto enquanto Messias era sabatinado.
Numa
das coletivas concedidas à imprensa, Wagner foi receoso ao citar o resultado
esperado pelo governo: “mais de 41”, disse ele, referindo-se ao número mínimo
de votos necessários para aprovação. Algo que não foi alcançado.
Com a
rejeição, o presidente Lula precisa anunciar um novo nome ao Supremo, para ser
avaliado novamente pelo Senado.
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O silêncio de Alcolumbre
Alcolumbre
estava insatisfeito com a sugestão de Lula ao STF desde o anúncio feito pelo
petista em 20 de novembro de 2025. O presidente do Congresso atuava pela
indicação de Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e se sentiu traído por Lula ao ser
contrariado.
À época
do anúncio de Lula, a aprovação de Messias era considerada inviável pelo
Governo, pois Davi Alcolumbre estaria “jogando contra” no Congresso. Mesmo após
cinco meses de intensas conversas e reuniões, os líderes do governo não
conseguiram o aval e o apoio do presidente do Congresso para a aprovação de
Messias. Contudo, os parlamentares chegaram a afirmar, nos bastidores, que
tinham conquistado um meio-termo: o “silêncio” de Alcolumbre — uma promessa de
que ele não atuaria nem contra nem a favor.
Em meio
às negociações para aprovar Messias, o governo ofereceu cargos em autarquias ao
grupo de Alcolumbre e a partidos do Centrão. Agora, porém, o Governo promete um
rompimento oficial com o presidente do Congresso, o que pode resultar na
exoneração de cargos em ministérios e outras instituições federais, além de
tensionar as pautas que ainda serão avaliadas pelos congressistas, como a
redução da escala de trabalho 6×1.
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A hora da derrota
Assim
que o resultado da derrota se materializou contra Messias, o Advogado-Geral da
União e agora indicado derrotado ao STF, abraçou sua esposa na sala do
Congresso reservada à liderança do PT. O ar era de consternação.
Ao
anunciar o ineditismo histórico, quando os números finais iluminaram o painel
com a contagem final que enterrava a indicação de Messias, Davi Alcolumbre
levantou-se da mesa e abraçou Jaques Wagner, líder do governo no Senado, que o
aguardava. O encontro entre o fiador da derrota e o representante do governo
teve uma conversa ao pé do ouvido. O conteúdo do sussurro perdeu-se no barulho
do plenário, mas a imagem registrada fala por si.
O
senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, declarou que o episódio
simboliza o fim de “Lula 3”, argumentando que o presidente perdeu credibilidade
e legitimidade para conduzir negociações na Casa.
Do lado
governista, a tentativa foi minimizar os danos institucionais. O líder do
governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), assegurou que a
relação entre Executivo e Legislativo não sofrerá alterações, atribuindo o
resultado a circunstâncias políticas e à proximidade do período eleitoral.
O
relator da indicação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador
Weverton (PDT-MA), reconheceu a derrota e indicou que o presidente não deve
enviar, de imediato, um novo nome para substituir o ministro Luís Roberto
Barroso, que antecipou sua aposentadoria para outubro de 2025.
Já
André Mendonça, ministro do STF, que fez campanha a favor de Messias, declarou:
“Respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar minha opinião.
O Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo. Messias é
um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para
ser Ministro do STF”.
À
Pública, o filósofo Vladimir Safatle comentou o resultado: “O Senado e o
Congresso declararam guerra contra o Executivo.” Para ele, Lula precisa
entender que o Congresso é seu inimigo. “Esse modelo, do Lula conciliatório, já
tenho dito isso há algum tempo, não funciona mais.
• Moraes e Alcolumbre jantaram juntos na
véspera de derrota de Messias no Senado
Um
jantar realizado na residência do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),
Alexandre de Moraes, com a presença do presidente do Senado, Davi Alcolumbre,
na véspera da votação que rejeitou a indicação de Jorge Messias à Corte,
provocou reação no Planalto e alimentou desconfianças do presidente Lula sobre
possível articulação política. As informações são da jornalista Mônica Bérgamo,
da Folha de São Paulo.
O
encontro ocorreu na terça-feira (28), um dia antes da votação em que Messias
foi derrotado no Senado por 42 votos contrários e 34 favoráveis. O presidente
ficou contrariado e demonstrou indignação ao tomar conhecimento da reunião.
Apesar disso, o jantar não teria sido organizado com o objetivo de discutir a
votação no Senado.
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Evento social reuniu autoridades e aliados
O
encontro foi promovido por Moraes para homenagear o procurador e ex-secretário
Nacional de Justiça Mário Luiz Sarrubbo, com quem o ministro tem trajetória no
Ministério Público de São Paulo.
Além de
promotores e procuradores, participaram da reunião figuras próximas ao governo,
como o ministro do STF Cristiano Zanin, o diretor-geral da Polícia Federal
Andrei Rodrigues e o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. Também
estiveram presentes o ministro Gilmar Mendes, que apoiava a indicação de
Messias, e o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG).
De
acordo com um dos convidados, o nome de Jorge Messias foi mencionado apenas em
conversas pontuais, e o encontro teve caráter majoritariamente informal, com
discussões sobre temas diversos. A mesma fonte afirmou que não faria sentido
reunir tantas pessoas, inclusive apoiadores da indicação, para qualquer tipo de
articulação política.
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Versões divergentes sobre bastidores
Por
outro lado, interlocutores do presidente relataram que Lula recebeu informações
de que, durante o jantar, Davi Alcolumbre teria afirmado, em conversas
restritas, já contar com cerca de 50 votos para barrar a indicação de Messias
no plenário.
Ainda
segundo esses relatos, a posição teria sinalizado previamente o resultado da
votação, consolidando o cenário de derrota do advogado-geral da União.
Outra
fonte presente no encontro, no entanto, contestou essa interpretação e afirmou
que a rejeição de Messias já estava definida antes mesmo da realização do
jantar. De acordo com essa versão, a escolha da data foi circunstancial, já que
Sarrubbo estaria em Brasília para participar, no dia seguinte, de uma reunião
do Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social.
• Rejeição de Messias abre frente
antissistema e reflete nova governabilidade. Por LeopoldoVieira
A
rejeição de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF)
oferece ao lulismo uma justificativa para reativar seu posicionamento
antissistema, especialmente em meio ao aprofundamento da disputa sobre o fim da
escala 6x1 — tema com maior apelo junto ao eleitorado do que a composição da
cúpula do Judiciário. O cenário de corrida eleitoral antecipada e polarizada,
por sua vez, sugere que a disputa política tende a se sobrepor ao avanço
concreto de pautas no Legislativo no escrutínio da opinião pública.
Paralelamente, a rejeição de Messias pelo Senado se insere nitidamente no
processo de reabilitação institucional, marcado por uma reacomodação
desarmônica das prerrogativas dos Três Poderes e por uma dinâmica de
governabilidade sintetizada na lógica de “cada Poder com suas atribuições”.
Declarações recentes de chefes do Executivo e do Legislativo reforçam esse
diagnóstico.
No
período recente, ao enviar o pacote de apoio às empresas afetadas pelo tarifaço
americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a “bola” estava
com o Legislativo. Na mesma linha, defendeu sua prerrogativa de indicar Messias
— e não o senador Rodrigo Pacheco — para o STF. Em resposta, o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre, reconheceu essa atribuição do Executivo, porém
ressaltou que caberia ao Senado aprovar ou rejeitar a indicação. Após o revés,
Lula indicou, com tranquilidade, que apresentará um novo nome, enquanto o
presidente do STF, Edson Fachin, reafirmou o respeito da Corte às prerrogativas
constitucionais do Senado. No debate sobre o fim da escala 6x1, o presidente da
Câmara, Hugo Motta, destacou sua competência para definir o rito de tramitação
das matérias, ao optar por uma proposta de emenda constitucional (PEC) — assim
como afirmou caber ao Executivo decidir pelo envio de projetos em regime de
urgência.
Assim,
o episódio Messias também representa um desgaste para concepções tradicionais
de governabilidade, baseadas em instrumentos como emendas parlamentares. Ao
longo da última década, a expansão desses mecanismos — frequentemente apontada
por especialistas como uma forma de deslocamento de prerrogativas do Executivo
— contribuiu para tornar o Parlamento financeiramente mais autônomo e menos
dependente de cargos ou recursos federais como instrumentos de coordenação
política, reduzindo as garantias de alinhamento estável.
TIME IS
POLITICS
O tempo
acelerado da política brasileira tende a deslocar rapidamente a derrota no
Senado da agenda nacional, sobretudo com a provável derrubada dos vetos
presidenciais ao chamado “PL da Dosimetria” no radar. A medida reduz penas de
condenados pelos atos de 8 de janeiro, inclusive do ex-presidente Jair
Bolsonaro, abrindo caminho para a potencial remobilização do antibolsonarismo —
fator crucial para 2026, tanto quanto o antipetismo.
Mas o
fato de Bolsonaro já estar em prisão domiciliar indica limites ao impacto dessa
decisão, enquanto a tramitação do fim da escala 6x1 deve avançar na comissão
especial da Câmara. Nesse ambiente, o discurso antissistema do governo e do PT,
agora ainda mais autorizado, pode se direcionar tanto ao establishment político
quanto ao econômico.
NOVOS
TEMPOS, NOVOS PARÂMETROS
A
rejeição de um nome que seria o segundo ministro evangélico da Corte soma-se a
outros eventos disruptivos recentes, como a derrota de um presidente
incumbente, em 2022, e o peso crescente das redes digitais sobre estruturas
partidárias tradicionais e o tempo de propaganda eleitoral, em 2018. O
ineditismo do fato recomenda cautela na utilização de comparações com padrões
históricos como base para previsões, avaliações e estratégias políticas.
Embora
um combo com duas derrotas governistas pareça razoavelmente contratado no curto
prazo — a rejeição de Messias e a derrubada de vetos no “PL da Dosimetria” —,
ele pode ser ressignificado politicamente e convertido em ativo para o
presidente Lula, ao conectar a questão democrática com pautas sociais, em uma
dinâmica de rápida transição de temas na opinião pública.
Fonte:
Agencia Pública/Brasil 247

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