sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dyepeson Martins: Alcolumbre afirmou a líder do PL atuar contra Messias - “faça a sua parte, faço a minha”

Com muitos gritos e aplausos, deputados e senadores da direita e da ultradireita amontoaram-se em frente ao plenário do Senado para celebrar uma derrota histórica do Governo Lula, na noite desta quarta-feira (29). A Casa rejeitou — por 42 a 34 votos, além de uma abstenção — o nome do Advogado-Geral da União, Jorge Messias, à vaga deixada por Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF). Foi a primeira rejeição de uma indicação presidencial à Corte desde 1894.

A Agência Pública apurou que o resultado da votação não surpreendeu o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União-AP), que teria articulado ativamente contra Messias e, inclusive, confirmado isso a outro parlamentar.

Em diálogos com correligionários, o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), teria repetido várias vezes, em clima de festa, que Jorge Messias foi rejeitado “graças a Alcolumbre”. Ele ainda contou a amigos que — horas antes da votação — teria ligado ao presidente do Congresso para obter informações sobre as tratativas para barrar a indicação de Lula. Alcolumbre teria respondido: “Faça a sua parte, que eu faço a minha”.

Nas últimas duas semanas, o Governo montou uma força-tarefa para angariar apoio à votação no Senado. Senadoras da base governista, por exemplo, foram incumbidas da missão de convencer as colegas mulheres do parlamento. Até mesmo o ministro André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e considerado o nome “terrivelmente evangélico” no Supremo, trabalhou em favor de Jorge Messias.

<><> Tensão entre governistas

Desde o início da sabatina na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), às 9h da manhã, senadores petistas mostraram preocupação com um possível placar negativo na apreciação em plenário. Diante da preocupação, uma reunião entre o líder do PT no Senado, Jaques Wagner (BA), e o presidente da República teria ocorrido no Palácio do Planalto enquanto Messias era sabatinado.

Numa das coletivas concedidas à imprensa, Wagner foi receoso ao citar o resultado esperado pelo governo: “mais de 41”, disse ele, referindo-se ao número mínimo de votos necessários para aprovação. Algo que não foi alcançado.

Com a rejeição, o presidente Lula precisa anunciar um novo nome ao Supremo, para ser avaliado novamente pelo Senado.

<><> O silêncio de Alcolumbre

Alcolumbre estava insatisfeito com a sugestão de Lula ao STF desde o anúncio feito pelo petista em 20 de novembro de 2025. O presidente do Congresso atuava pela indicação de Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e se sentiu traído por Lula ao ser contrariado.

À época do anúncio de Lula, a aprovação de Messias era considerada inviável pelo Governo, pois Davi Alcolumbre estaria “jogando contra” no Congresso. Mesmo após cinco meses de intensas conversas e reuniões, os líderes do governo não conseguiram o aval e o apoio do presidente do Congresso para a aprovação de Messias. Contudo, os parlamentares chegaram a afirmar, nos bastidores, que tinham conquistado um meio-termo: o “silêncio” de Alcolumbre — uma promessa de que ele não atuaria nem contra nem a favor.

Em meio às negociações para aprovar Messias, o governo ofereceu cargos em autarquias ao grupo de Alcolumbre e a partidos do Centrão. Agora, porém, o Governo promete um rompimento oficial com o presidente do Congresso, o que pode resultar na exoneração de cargos em ministérios e outras instituições federais, além de tensionar as pautas que ainda serão avaliadas pelos congressistas, como a redução da escala de trabalho 6×1.

<><> A hora da derrota

Assim que o resultado da derrota se materializou contra Messias, o Advogado-Geral da União e agora indicado derrotado ao STF, abraçou sua esposa na sala do Congresso reservada à liderança do PT. O ar era de consternação.

Ao anunciar o ineditismo histórico, quando os números finais iluminaram o painel com a contagem final que enterrava a indicação de Messias, Davi Alcolumbre levantou-se da mesa e abraçou Jaques Wagner, líder do governo no Senado, que o aguardava. O encontro entre o fiador da derrota e o representante do governo teve uma conversa ao pé do ouvido. O conteúdo do sussurro perdeu-se no barulho do plenário, mas a imagem registrada fala por si.

O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, declarou que o episódio simboliza o fim de “Lula 3”, argumentando que o presidente perdeu credibilidade e legitimidade para conduzir negociações na Casa.

Do lado governista, a tentativa foi minimizar os danos institucionais. O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), assegurou que a relação entre Executivo e Legislativo não sofrerá alterações, atribuindo o resultado a circunstâncias políticas e à proximidade do período eleitoral.

O relator da indicação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Weverton (PDT-MA), reconheceu a derrota e indicou que o presidente não deve enviar, de imediato, um novo nome para substituir o ministro Luís Roberto Barroso, que antecipou sua aposentadoria para outubro de 2025.

Já André Mendonça, ministro do STF, que fez campanha a favor de Messias, declarou: “Respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar minha opinião. O Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo. Messias é um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para ser Ministro do STF”.

À Pública, o filósofo Vladimir Safatle comentou o resultado: “O Senado e o Congresso declararam guerra contra o Executivo.” Para ele, Lula precisa entender que o Congresso é seu inimigo. “Esse modelo, do Lula conciliatório, já tenho dito isso há algum tempo, não funciona mais.

•        Moraes e Alcolumbre jantaram juntos na véspera de derrota de Messias no Senado

Um jantar realizado na residência do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, com a presença do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, na véspera da votação que rejeitou a indicação de Jorge Messias à Corte, provocou reação no Planalto e alimentou desconfianças do presidente Lula sobre possível articulação política. As informações são da jornalista Mônica Bérgamo, da Folha de São Paulo.

O encontro ocorreu na terça-feira (28), um dia antes da votação em que Messias foi derrotado no Senado por 42 votos contrários e 34 favoráveis. O presidente ficou contrariado e demonstrou indignação ao tomar conhecimento da reunião. Apesar disso, o jantar não teria sido organizado com o objetivo de discutir a votação no Senado.

<><> Evento social reuniu autoridades e aliados

O encontro foi promovido por Moraes para homenagear o procurador e ex-secretário Nacional de Justiça Mário Luiz Sarrubbo, com quem o ministro tem trajetória no Ministério Público de São Paulo.

Além de promotores e procuradores, participaram da reunião figuras próximas ao governo, como o ministro do STF Cristiano Zanin, o diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues e o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. Também estiveram presentes o ministro Gilmar Mendes, que apoiava a indicação de Messias, e o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG).

De acordo com um dos convidados, o nome de Jorge Messias foi mencionado apenas em conversas pontuais, e o encontro teve caráter majoritariamente informal, com discussões sobre temas diversos. A mesma fonte afirmou que não faria sentido reunir tantas pessoas, inclusive apoiadores da indicação, para qualquer tipo de articulação política.

<><> Versões divergentes sobre bastidores

Por outro lado, interlocutores do presidente relataram que Lula recebeu informações de que, durante o jantar, Davi Alcolumbre teria afirmado, em conversas restritas, já contar com cerca de 50 votos para barrar a indicação de Messias no plenário.

Ainda segundo esses relatos, a posição teria sinalizado previamente o resultado da votação, consolidando o cenário de derrota do advogado-geral da União.

Outra fonte presente no encontro, no entanto, contestou essa interpretação e afirmou que a rejeição de Messias já estava definida antes mesmo da realização do jantar. De acordo com essa versão, a escolha da data foi circunstancial, já que Sarrubbo estaria em Brasília para participar, no dia seguinte, de uma reunião do Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social.

•        Rejeição de Messias abre frente antissistema e reflete nova governabilidade. Por LeopoldoVieira

A rejeição de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) oferece ao lulismo uma justificativa para reativar seu posicionamento antissistema, especialmente em meio ao aprofundamento da disputa sobre o fim da escala 6x1 — tema com maior apelo junto ao eleitorado do que a composição da cúpula do Judiciário. O cenário de corrida eleitoral antecipada e polarizada, por sua vez, sugere que a disputa política tende a se sobrepor ao avanço concreto de pautas no Legislativo no escrutínio da opinião pública. Paralelamente, a rejeição de Messias pelo Senado se insere nitidamente no processo de reabilitação institucional, marcado por uma reacomodação desarmônica das prerrogativas dos Três Poderes e por uma dinâmica de governabilidade sintetizada na lógica de “cada Poder com suas atribuições”. Declarações recentes de chefes do Executivo e do Legislativo reforçam esse diagnóstico.

No período recente, ao enviar o pacote de apoio às empresas afetadas pelo tarifaço americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a “bola” estava com o Legislativo. Na mesma linha, defendeu sua prerrogativa de indicar Messias — e não o senador Rodrigo Pacheco — para o STF. Em resposta, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, reconheceu essa atribuição do Executivo, porém ressaltou que caberia ao Senado aprovar ou rejeitar a indicação. Após o revés, Lula indicou, com tranquilidade, que apresentará um novo nome, enquanto o presidente do STF, Edson Fachin, reafirmou o respeito da Corte às prerrogativas constitucionais do Senado. No debate sobre o fim da escala 6x1, o presidente da Câmara, Hugo Motta, destacou sua competência para definir o rito de tramitação das matérias, ao optar por uma proposta de emenda constitucional (PEC) — assim como afirmou caber ao Executivo decidir pelo envio de projetos em regime de urgência.

Assim, o episódio Messias também representa um desgaste para concepções tradicionais de governabilidade, baseadas em instrumentos como emendas parlamentares. Ao longo da última década, a expansão desses mecanismos — frequentemente apontada por especialistas como uma forma de deslocamento de prerrogativas do Executivo — contribuiu para tornar o Parlamento financeiramente mais autônomo e menos dependente de cargos ou recursos federais como instrumentos de coordenação política, reduzindo as garantias de alinhamento estável.

TIME IS POLITICS

O tempo acelerado da política brasileira tende a deslocar rapidamente a derrota no Senado da agenda nacional, sobretudo com a provável derrubada dos vetos presidenciais ao chamado “PL da Dosimetria” no radar. A medida reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro, inclusive do ex-presidente Jair Bolsonaro, abrindo caminho para a potencial remobilização do antibolsonarismo — fator crucial para 2026, tanto quanto o antipetismo.

Mas o fato de Bolsonaro já estar em prisão domiciliar indica limites ao impacto dessa decisão, enquanto a tramitação do fim da escala 6x1 deve avançar na comissão especial da Câmara. Nesse ambiente, o discurso antissistema do governo e do PT, agora ainda mais autorizado, pode se direcionar tanto ao establishment político quanto ao econômico.

NOVOS TEMPOS, NOVOS PARÂMETROS

A rejeição de um nome que seria o segundo ministro evangélico da Corte soma-se a outros eventos disruptivos recentes, como a derrota de um presidente incumbente, em 2022, e o peso crescente das redes digitais sobre estruturas partidárias tradicionais e o tempo de propaganda eleitoral, em 2018. O ineditismo do fato recomenda cautela na utilização de comparações com padrões históricos como base para previsões, avaliações e estratégias políticas.

Embora um combo com duas derrotas governistas pareça razoavelmente contratado no curto prazo — a rejeição de Messias e a derrubada de vetos no “PL da Dosimetria” —, ele pode ser ressignificado politicamente e convertido em ativo para o presidente Lula, ao conectar a questão democrática com pautas sociais, em uma dinâmica de rápida transição de temas na opinião pública.

 

Fonte: Agencia Pública/Brasil 247

 

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