Guerra
e autoritarismo minam liberdade de imprensa no mundo
A
capacidade de jornalistas trabalharem com segurança e de forma independente
está sob ameaça em todo o mundo, segundo o Ranking Mundial da Liberdade de
Imprensa de 2026, divulgado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
A ONG,
que monitora anualmente a situação do jornalismo global desde 2002, define
liberdade de imprensa como "a capacidade de jornalistas, como indivíduos
ou coletivamente, de selecionar, produzir e disseminar notícias para o
interesse público, de forma independente de interferências políticas,
econômicas, legais e sociais, e na ausência de ameaças à sua segurança física e
mental".
Atualmente,
a RSF classifica o ambiente da liberdade de imprensa como
"problemático" ou em situação pior em cerca de 75% dos países. Em
mais da metade deles, as condições para o trabalho da mídia vão de
"difíceis" a "muito graves", segundo a organização.
Em
2013, menos de um terço dos países era classificado como tendo condições
"difíceis" ou "muito difíceis", enquanto 71% figuravam como
"problemáticos" ou em situação pior.
O
Brasil ficou entre os países que mostraram sinais de melhora ou relativa
estabilidade, passando da 63ª posição em 2025 para o 52º lugar no ranking deste
ano, embora ainda seja classificado como "problemático".
Apesar
da tendência global de queda, a situação da liberdade de imprensa varia
conforme a região. Em geral, os países mais livres, incluindo os quatro
primeiros colocados do ranking – Noruega, Estônia, Holanda e Dinamarca –, estão
na Europa, enquanto jornalistas em partes da África e da Ásia enfrentam
condições mais duras.
As
discrepâncias dentro de uma mesma região também podem ser marcantes. Na Europa,
por exemplo, há uma divisão clara entre o sul e o leste, onde os desafios à
liberdade de imprensa são maiores, e o norte e o oeste, cujos países, em geral,
aparecem classificados como de situação "satisfatória" a
"boa". De forma semelhante, jornalistas do norte da África tendem a
ser menos livres do que colegas do sul do continente.
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Polônia e Eslováquia seguem caminhos distintos
Outro
exemplo de divisão regional pode ser encontrado no coração da Europa: a
imprensa na Polônia tornou-se mais livre, enquanto na vizinha Eslováquia
cresceu a hostilidade contra os meios de comunicação. Ambos os países ainda são
classificados como de situação "satisfatória", mas caminham em
direções claramente opostas.
De
acordo com a RSF, o ponto de virada na Polônia foi a mudança de governo. Após o
partido Lei e Justiça (PiS), contrário ao aborto e aos direitos LGBTQ+ e
defensor de políticas antimigração, ter sido afastado do poder no fim de 2023,
o novo governo reduziu ataques verbais e ações judiciais contra a imprensa.
Uma
eleição naquele mesmo ano também marcou uma guinada na Eslováquia. Depois de
anos na oposição, Robert Fico iniciou, em 2023, seu quarto mandato como
primeiro-ministro. "Ele tem uma longa carreira, e sempre foi parte de sua
narrativa tratar jornalistas como inimigos", afirmou Lukas Diko,
editor-chefe do Investigative Center of Jan Kuciak (ICJK), organização
jornalística independente que leva o nome de um repórter assassinado durante o
terceiro mandato de Fico.
Kuciak
investigava ligações entre grupos do crime organizado e empresas na Eslováquia
conectadas a integrantes do partido governista de Fico. Embora o assassinato do
jornalista tenha desencadeado uma onda de protestos anticorrupção que
contribuíram para a queda do governo em 2018, Diko afirmou que os ataques à
imprensa se intensificaram desde o retorno de Fico ao poder. "Não há
regras", disse.
Segundo
Diko, o medo causado pelo assassinato do jovem jornalista, somado à retórica
hostil de autoridades, afastou pessoas da carreira jornalística. "Não são
muitos os jovens que querem se tornar jornalistas hoje", afirmou. "O
assassinato de Kuciak ainda é algo que diz a eles para não fazer isso – e eles
tampouco querem ser atacados verbalmente todo dia."
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Ataques à imprensa como estratégia política
A
Argentina é outro país que caiu vertiginosamente no ranking. Campanhas de
difamação contra a imprensa promovidas pelo presidente Javier Milei, cujas
políticas de ultradireita priorizam as liberdades financeiras acima de outras,
criaram um clima hostil para jornalistas. Ele frequentemente usa as redes
sociais para atacar críticos e afirma que jornalistas "não são odiados o
suficiente".
"Quando
Milei insulta um jornalista, ele não faz isso como Milei, o economista, ou
Milei, um cidadão comum", disse Fernando Stanich, presidente do Fórum de
Jornalismo Argentino (Fopea), uma organização que defende a liberdade de
imprensa e promove o jornalismo de qualidade na Argentina. "Ele faz isso
como o principal representante do Estado argentino."
Segundo
Stanich, governos argentinos anteriores também foram hostis à imprensa – a
peronista Cristina Kirchner, por exemplo, entrou em confronto com a mídia
durante sua presidência, entre 2007 e 2015. Mas, de acordo com monitoramentos
do Fopea, o atual nível de ataques verbais contra jornalistas é inédito.
Assim
como Milei, na Argentina, e Fico, na Eslováquia, o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, insulta e ameaça a imprensa desde sua primeira campanha
eleitoral, em 2016. Coincidentemente, os EUA também registraram uma queda
significativa em sua posição no ranking mundial de liberdade de imprensa, ao
lado de outros países cujos líderes seguem a mesma cartilha, como El Salvador.
Argentina,
Eslováquia e Estados Unidos mostram como países considerados relativamente
estáveis e democráticos podem se tornar rapidamente hostis aos jornalistas. Já
em Eritreia, China, Coreia do Norte e Irã, a imprensa nunca foi livre, uma vez
que esses países são governados há décadas por regimes autoritários que
silenciam o jornalismo independente.
O
relatório da RSF aponta conflitos armados como a "razão primária para o
declínio da liberdade de expressão", por exemplo no Iraque, Sudão, Sudão
do Sul e Iêmen. Na guerra em Gaza, a entidade contabiliza mais de 220
jornalistas mortos por ataques israelenses, dos quais ao menos 70 em serviço,
desde que Israel foi alvo de ataques terroristas liderados pelo Hamas em
outubro de 2023.
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Construindo redes para enfrentar ameaças
Vera
Slavtcheva-Petkova, professora do Departamento de Comunicação e Mídia da
Universidade de Liverpool, afirma que as ameaças sociais à liberdade de
imprensa se enquadram em três grandes categorias. O uso de estruturas políticas
para intimidar ou prejudicar jornalistas – incluindo ataques verbais de
autoridades públicas, ameaças de violência e prisão – é o indicador mais
evidente de declínio da liberdade de imprensa.
Os
outros métodos para reprimir a imprensa passam pela perseguição de jornalistas
por gênero, raça ou orientação sexual, e pressões econômicas sobre um mercado
de trabalho precarizado na mídia.
Segundo
Slavtcheva-Petkova, jornalistas podem enfrentar esses desafios ao se unir e ao
colaborar com organizações que compartilham seus valores, como ativistas de
direitos humanos e acadêmicos.
"Saber
que existe alguém em quem você pode confiar para obter apoio é muito
importante", disse. "Quando jornalistas não têm isso, quando não
sabem a quem recorrer por ajuda, acabam sentindo que aquilo que estão vivendo
pode até ser culpa deles."
Com a
maioria dos jornalistas no mundo trabalhando hoje em condições que são, no
mínimo, problemáticas, como demonstra o Ranking Mundial da Liberdade de
Imprensa de 2026, essas redes tendem a se tornar ainda mais importantes nos
próximos anos, tanto dentro dos países quanto internacionalmente.
No
geral, 17 países melhoraram seus índices de liberdade de imprensa entre 2013 e
2026, enquanto 163 apresentaram piora.
A
África do Sul é um exemplo de país em que essas estratégias parecem estar
funcionando. No ranking da RSF, o país se destaca em relação aos vizinhos
regionais. Desde 2013, mantém a classificação "satisfatória", o que
resultou em uma subida constante no ranking à medida que outras nações perderam
posições.
Glenda
Daniels, jornalista e professora de estudos de mídia na Universidade de
Witwatersrand (Wits), em Joanesburgo, afirma que uma sociedade civil forte
ajudou a África do Sul a manter esse status, mesmo com o declínio global da
liberdade de imprensa. Apesar de desafios comuns a jornalistas em todo o mundo
– incluindo preconceitos e ameaças contra mulheres na mídia e um mercado de
trabalho em retração –, Daniels diz que redes sólidas ajudaram a preservar a
liberdade de imprensa no país.
Ela
própria atua como secretária-geral do South African National Editors' Forum
(Sanef), entidade que defende o direito de jornalistas exercerem sua profissão.
"O Sanef é barulhento e faz ruído", afirmou. "Faz diferença ter
uma abordagem forte da sociedade civil, com advocacy e ativismo."
• Prêmio de liberdade de expressão da DW
vai para Jimmy Lai
O
empresário de comunicação e ativista pró-democracia de Hong Kong Jimmy Lai
recebeu o Freedom of Speech Award de 2026 da DW, em reconhecimento à sua defesa
das liberdades de imprensa e de expressão.
Em
fevereiro, Lai, de 78 anos, foi sentenciado por um tribunal de Hong Kong a 20
anos de prisão após ser considerado culpado em dezembro de duas acusações de
conspiração para conluio com forças estrangeiras e de um crime de sedição
vinculado à difusão de material subversivo.
Crítico
ferrenho do governo chinês, ele se tornou uma das primeiras figuras
proeminentes a serem presas e condenadas sob a lei de segurança nacional
imposta pela China ao território semiautônomo em 2020.
A
sentença gerou preocupação entre governos estrangeiros e grupos de direitos
humanos, que pediram a libertação do cidadão britânico. Mas o Ministério do
Exterior da China afirmou que Lai é um cidadão chinês e instou outros países a
respeitarem sua soberania e o Estado de Direito em Hong Kong.
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Quem é Jimmy Lai?
Nascido
em 1947 em Cantão, Lai chegou a Hong Kong ainda criança e começou a trabalhar
numa fábrica têxtil, onde ascendeu a gerente antes de iniciar o próprio
negócio.
Em 1981
ele fundou a cadeia de roupas Giordano, que se expandiu pela Ásia e outros
mercados, e no início dos anos 90 começou a se dedicar à comunicação social.
O
primeiro passo foi dado em 1990, quando fundou uma empresa de comunicação
social com a qual lançou a revista online Next Magazine, que desde o início
criticou Pequim, combinando sensacionalismo com análises políticas e
econômicas.
Cinco
anos depois, à medida que se aproximava a devolução de Hong Kong à China, Lai
criou o Apple Daily, um jornal que rapidamente se tornou o segundo mais lido no
território.
O Apple
Daily não só refletia as preocupações da sociedade de Hong Kong num momento de
transição política como também desempenhou um papel crucial na promoção da
agenda pró-democracia, consolidando-se como um bastião da imprensa livre numa
região cada vez mais vigiada por Pequim.
As
manifestações antigovernamentais de 2019 em Hong Kong, inicialmente convocadas
contra um projeto de lei de extradição, colocaram Lai no centro do debate
público. O Apple Daily deu ampla cobertura aos protestos e adotou uma linha
editorial crítica em relação às autoridades de Hong Kong e Pequim.
A
entrada em vigor da lei de segurança nacional, em 2020, transformou o ambiente
midiático e político da cidade, e Lai definiu a regulamentação, imposta por
Pequim após os protestos em larga escala, como uma sentença de morte para Hong
Kong.
Nos
meses seguintes, Lai foi detido várias vezes e o seu grupo editorial ficou sob
crescente escrutínio, até fechar as portas, em junho de 2021.
Lai
permanece numa prisão de segurança máxima desde sua detenção em dezembro de
2020 e cumpre também uma pena de cinco anos e nove meses por fraude num outro
caso.
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"Dedicação indispensável aos valores democráticos"
Sebastien
Lai, filho de Jimmy que há muito tempo atua por sua libertação, disse à DW que
"as pessoas que lutam pela liberdade, que lutam pela liberdade dos outros,
nunca estão sozinhas". Ele considera significativa a escolha do pai para
ser laureado com prêmio. "Acho que se ele soubesse disso, ficaria muito
feliz."
A
diretora-geral da DW, Barbara Massing, disse que, com o prêmio, a DW homenageia
a "dedicação indispensável de Jimmy Lai aos valores democráticos".
"Jimmy
Lai defendeu inabalavelmente a liberdade de imprensa em Hong Kong, correndo
grandes riscos pessoais, mesmo quando o espaço para o jornalismo independente
se tornou cada vez mais limitado. Com o Apple Daily, ele deu aos jornalistas
uma plataforma para reportagens livres e uma voz ao movimento democrático em
Hong Kong. Seu compromisso nos lembra que a liberdade de imprensa nunca é
garantida – ela deve ser constantemente defendida."
Desde
2015, o Freedom of Speech Award da DW homenageia jornalistas e defensores dos
direitos humanos como forma de chamar a atenção para as restrições à liberdade
de imprensa e para situações preocupantes de direitos humanos em todo o mundo.
No ano
passado, a premiação foi entregue à ativista Tamar Kintsurashvili, que luta
contra a desinformação e o discurso de ódio na Georgia.
Fonte:
DW Brasil

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