Barcarena
espera por reparação
Roberto
Cravo carrega décadas de violação no corpo e na memória. Como presidente da
Associação da Comunidade Quilombola Indígena Sítio Conceição, ele viu gerações
de pessoas de sua comunidade serem contaminadas por metais pesados, pelo
descaso de licenciamentos ambientais e pela ausência de qualquer medida de
fiscalização. E tudo isso enquanto o polo industrial de Barcarena, no nordeste
do Pará, crescia e era celebrado como vitrine do desenvolvimento econômico do
Estado. Por isso, quando a liderança soube que a Justiça havia determinado, em
26 de março, a realização de diagnósticos detalhados de saúde humana e
ambiental no município, Cravo não soube ao certo o que sentir.
Jorge
Curuperê, presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do Curuperê,
tampouco. Para ele, a decisão é bem-vinda, e cobra transparência na publicação
dos laudos, mas afirma que ela chega depois de muita dor acumulada e promessas
jamais cumpridas. “Várias pessoas já se foram, morreram com câncer, ou
sobrevivem com outras doenças relacionadas à poluição em Barcarena”, diz ele,
expressando a angústia de quem convive há anos com o desconhecimento da real
situação da saúde de sua comunidade.
A
história recente de Barcarena é marcada por essa tensão permanente: de um lado,
o interesse do Estado do Pará em consolidar um polo industrial que movimenta
bilhões de reais; do outro, comunidades tradicionais e ribeirinhas que veem
suas vidas serem corroídas pela contaminação de metais pesados, por doenças,
despejos e incertezas.
A
Amazônia Real acompanha esse drama há anos (Veja em “Barcarena, uma Chernobyl
na Amazônia” e “Venha para Barcarena, juíza“). Agora, quase um mês depois da
decisão judicial, a reportagem ouviu as lideranças locais, pesquisadores e o
Ministério Público para entender o que essa nova determinação representa – e
por que a desconfiança ainda fala mais alto que a esperança.
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A decisão
O
Tribunal de Justiça do Estado do Pará aceitou um pedido de tutela de urgência
em uma Ação Civil Pública (ACP) ajuizada pelo Ministério Público do Pará
(MPPA). A decisão obriga o Estado do Pará e a Companhia de Desenvolvimento
Econômico do Pará (CODEC) – órgão estadual responsável pela administração e
gestão dos distritos industriais – a iniciarem, no prazo de 60 dias,
diagnósticos detalhados de saúde humana e ambiental no município.
O
diagnóstico ambiental deverá reunir dados sobre resíduos, efluentes e emissões
de cada planta industrial, medir efeitos cumulativos e sinérgicos, incluindo
gases de efeito estufa, além de analisar a qualidade da água, do ar e do solo
em busca de contaminantes que afetam comunidades locais.
Já o
diagnóstico de saúde humana prevê estudo epidemiológico e clínico das
populações potencialmente expostas ao polo industrial, com foco em contaminação
por substâncias químicas e metais pesados, investigação do aumento de casos de
câncer e compilação de indicadores de saúde e acidentes ambientais dos últimos
20 anos. A decisão também estabelece que os estudos devem contemplar a
informação à população local sobre os riscos dos contaminantes e a adoção de
providências para os tratamentos necessários nos casos identificados. Além
disso, a Secretaria de Estado da Saúde do Pará (Sespa) deve fornecer, em até 60
dias, dados de notificações por intoxicação entre 2018 e 2024 existentes no
Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério de Saúde.
Em
entrevista à Amazônia Real, Márcio Maués de Faria, Promotor de Justiça de
Barcarena do Ministério Público, explicou que a Ação Civil Pública foi motivada
pelo descumprimento sistemático do Termo de Compromisso nº 02/2016, firmado há
10 anos pelo Estado do Pará e empresas do polo industrial, para financiar e
implementar estudos ambientais e de saúde na região. Com a decisão judicial, o
MPPA passa a ter o poder de fiscalização com respaldo jurisdicional. “Uma ordem
judicial para cumprimento de obrigação, ainda que passível de recurso, possui
força e relevância maiores” que o acordo descumprido, afirmou o promotor.
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Entre o ceticismo e a esperança
Para
Roberto Cravo, a decisão do juiz Charbel Abdon Haber Jeha, da 1ª Vara Cível e
Empresarial da Comarca de Barcarena, permitirá combater a desinformação sobre
os crimes ambientais cometidos na região. Ele aponta a violação histórica que
vivem desde as décadas de 1970 e 1980, especialmente nas questões territorial,
ambiental e de saúde. E adverte que o rito dos licenciamentos ambientais, que
deveria seguir as etapas de Licença Prévia (LP), Instalação (LI) e Operação
(LO), tem sido sistematicamente ignorado pela falta de fiscalização e omissão
dos agentes responsáveis. A liderança disse que “Não houve consulta prévia,
livre e informada garantida pela Convenção 169 da Organização Internacional do
Trabalho (OIT), não há um Estudo de Componente Quilombola em nossos quilombos.”
Cravo
reforça que, apesar de diversos estudos de instituições como o Instituto
Evandro Chagas (IEC), Universidade Federal do Pará (UFPA), Laboratório Central
de Saúde Pública do Pará (LACEN) e outras instituições já terem comprovado a
contaminação por metais no sangue e cabelo da população, nenhuma medida eficaz
de saúde foi implementada até hoje.
Paulo
Feitosa, presidente do Instituto dos Ribeirinhos do Pará, compartilha a
desconfiança. Ele questiona o compromisso do Estado, que é ao mesmo tempo
parceiro e sócio das empresas do polo industrial. Para Feitosa, há o risco de o
Estado realizar um “estudozinho” que sirva apenas para viabilizar novos
projetos, como a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) que vem sendo
promovida pelo governo estadual e que poderia agravar a contaminação já
existente.
Apesar
das críticas, a medida judicial também é vista pelo seu lado positivo. Roberto
Cravo destaca que a decisão dá visibilidade aos povos tradicionais, renovando a
esperança por justiça.
Outro
ponto considerado positivo é que o diagnóstico ambiental exigido contempla a
identificação e dimensionamento dos efeitos cumulativos e sinérgicos sobre a
dinâmica ambiental da região. Por muito tempo, explica o promotor Márcio Maués,
as avaliações e perícias ambientais eram pontuais e avaliavam eventos de forma
isolada, o que impossibilitava a identificação de danos e o estabelecimento de
nexos de causalidade.
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O direito de saber o que está no corpo
Jorge
Curuperê destaca que as comunidades de Barcarena já foram alvo de diversas
pesquisas, mas os resultados, segundo ele, nunca chegaram nas mãos de quem mais
precisa, e não houve nenhum tipo de remediação ou atendimento médico para os
casos já identificados. A transparência da informação é um dos itens que falta
para dar conforto às famílias que sofrem com os impactos da contaminação.
A
professora Simone Pereira, coordenadora do Laboratório de Química Analítica e
Ambiental (Laquanam) da Universidade Federal do Pará (UFPA), reforça
tecnicamente essa necessidade. Embora estudos de 2018 já mostrassem a exposição
a elementos tóxicos por meio da análise de cabelo, o diagnóstico definitivo
depende da análise sanguínea, da transparência dos dados e da tomada de decisão
para tratar os casos. “O que de fato estava ficando no corpo dessas pessoas só
poderia ser desvendado através da análise do sangue”, afirma a pesquisadora.
Ela
recorda que o Laboratório Central (Lacen) chegou a realizar exames de sangue de
quase 200 pessoas. Os resultados revelaram níveis elevados de alumínio, cádmio,
chumbo, cromo e níquel em amostras de sangue e cabelo. Os laudos foram
entregues à Prefeitura de Barcarena, mas nunca foram amplamente divulgados.
“Ficaram restritos apenas à prefeitura e ao morador. A gente não ficou
sabendo”, disse a professora Simone, criticando também a ausência de
acompanhamento médico especializado para os casos encontrados.
O
promotor Márcio Maués de Faria responde diretamente à inquietude das
lideranças: “O direito à informação ambiental deve estar no centro dessa
discussão” com o Estado do Pará e a CODEC. Com a decisão da Justiça, o
fornecimento dos dados sobre os impactos ambientais e na saúde da população
será uma prova importante para que toda a sociedade tenha conhecimento e
ciência da real situação sanitária das comunidades. Com a revelação desse
histórico, será possível “demandar os tratamentos de saúde para as pessoas que
eventualmente tenham sido afetadas de alguma forma por contaminantes, além das
necessárias responsabilizações pelos danos causados”, afirmou.
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A guerra dos laudos
Um dos
pontos mais explosivos levantados pelos entrevistados diz respeito à validade
dos laudos técnicos produzidos após os desastres. Paulo Feitosa explica que,
quando ocorre um acidente e, segundo ele, em Barcarena já foram mais de 30,
instituições reconhecidas como o Instituto Evandro Chagas, o Laquanam e o Lacen
do Pará produzem estudos que apontam níveis de contaminação acima do permitido.
A resposta das empresas é quase imediata e sempre a mesma: contestar o laudo e
contratar laboratórios particulares para contradizê-lo. “As empresas pegam,
contratam uma empresa particular e a empresa particular vem e faz um laudo
fajuto e mentiroso que diz que não houve contaminação”, afirma Feitosa.
A
professora Simone Pereira detalha as falhas técnicas desses laudos
encomendados. Uma delas é metodológica: os laboratórios particulares
frequentemente apresentam resultados descritos como “abaixo do limite de
quantificação” para quase todos os metais pesados, o que, na prática, significa
ausência de dados numéricos utilizáveis. “Eles precisam apresentar resultados
válidos. A média tem que ser feita com números, não se pode fazer com letras,
nem com símbolos”, critica a professora.
Outra
falha apontada por ela é estrutural: a quebra da cadeia de custódia das
amostras. “Quem coleta é o cliente. Então, a indústria que quer essa análise é
ela mesma que coleta o material a ser estudado. O laboratório não se
responsabiliza pela cadeia de custódia dessas amostras.” Sem uma instituição
isenta para acompanhar a coleta, lacrar as amostras e garantir que não houve
adulteração, a validade química de todo o processo é comprometida.
A
reportagem entrou em contato com a Codec para obter um posicionamento sobre a
decisão judicial e os prazos estabelecidos. A resposta foi de que a instituição
ainda não havia sido comunicada da decisão.
Fonte:
Amazônia Real

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