Futebol:
O Nordeste reivindica seu protagonismo
No
domingo, 26 de outubro, uma torcedora do Fortaleza denunciou dois torcedores,
pai e filho, que assistiam ao jogo no setor destinado à torcida do Leão. Ambos
vestiam roupas neutras e foram identificados como mistos, torcedores que
dividem a paixão entre clubes locais e times do eixo Rio–São Paulo. Pouco
antes, outro grupo de torcedores mistos havia sido expulso pela polícia depois
de ser localizado por um homem da torcida do Fortaleza. Mas foi o vídeo da
mulher, gritando e exigindo a retirada do pai e do filho, que viralizou nas
redes e transformou o episódio em símbolo de uma disputa muito mais profunda:
quem pertence, de fato, ao território simbólico do futebol nordestino.
O caso
reacendeu o debate sobre o misto, uma figura complexa nascida de uma profunda e
histórica desigualdade estrutural do futebol brasileiro. O status secundário da
região Nordeste no cenário nacional não foi um resultado natural da competição,
mas uma realidade construída e ativamente perpetuada por um sistema de poder
econômico e midiático concentrado no Sudeste do Brasil. Para compreender a
tensão social no estádio, é preciso analisar a arquitetura dessa hegemonia. Ela
foi edificada sobre um duplo monopólio: o da narrativa e o das fontes de
receita.
Historicamente,
a própria identidade do futebol brasileiro foi definida não como uma expressão
nacional, mas como uma rivalidade entre cariocas e paulistas. Essa dinâmica
relegou o restante do país a uma condição periférica, uma vez que as primeiras
entidades gestoras do esporte foram fundadas nessas duas cidades, consolidando
ali o centro de poder político e econômico.
A
chegada da televisão amplificou essa centralização de forma exponencial. A
consolidação da Rede Globo como principal vitrine do esporte a partir dos anos
1970 permitiu à emissora não apenas transmitir, mas fundamentalmente moldar o
futebol como um espetáculo. A criação de programas como o Globo Esporte em 1978
e o “padrão Globo de transmissão” nos anos 1990 estabeleceram uma linguagem
hegemônica que definia o que era relevante no esporte nacional. Essa relevância
estava, invariavelmente, atrelada aos clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo,
cujas partidas eram transmitidas para todo o país, atendendo aos interesses de
sua principal audiência e de seus maiores anunciantes.
Esse
monopólio da comunicação foi cimentado por um monopólio financeiro. O ponto de
inflexão ocorreu em 2011, com a implosão do Clube dos 13, a entidade que
negociava coletivamente os direitos de transmissão. Ao abandonar a licitação e
negociar individualmente com os clubes, a Rede Globo quebrou a frente unida e
fortaleceu seu controle sobre o produto. Essa manobra, considerada pelo
Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) como uma prática contrária à
livre concorrência, resultou em um modelo de distribuição de cotas que
aprofundou drasticamente a desigualdade.
Como as
cotas de TV representam a principal fonte de receita para a maioria dos clubes,
o modelo individual favoreceu desproporcionalmente Flamengo e Corinthians. Isso
perpetuou um ciclo vicioso: os clubes do Sudeste recebiam mais dinheiro,
montavam times melhores, ganhavam mais títulos, atraíam mais torcedores e,
consequentemente, garantiam cotas ainda maiores. Para os clubes nordestinos,
essa estrutura significou um subfinanciamento crônico, privando-os de recursos
para competir e mantendo-os em subalternidade estrutural.
O
torcedor misto é o sintoma mais visível dessa estrutura, não sua causa. Por
décadas, o torcedor do Nordeste cresceu sob o domínio de transmissões e
narrativas que davam protagonismo aos clubes do Sudeste. A adesão a um clube de
fora não era traição, mas uma resposta racional e quase inevitável a uma
invisibilidade forçada. Essa exposição massiva criou uma “proximidade
simbólica”. Enquanto os clubes do “eixo” eram vistos todo domingo com craques
da Seleção, equipes como Ceará e Fortaleza lutavam na segunda divisão e
recebiam apenas notas de rodapé. O misto é, portanto, um produto direto de uma
“alienação” midiática, uma busca por se conectar com o sucesso em um campo onde
as opções locais eram apresentadas como secundárias.
A
primeira reação coesa a essa dominação política e comunicacional surgiu por
volta de 2008, com os movimentos organizados “anti-mistos”. Nascidos nas
arquibancadas e amplificados por comunidades virtuais, esses grupos usaram
slogans como “A Vergonha do Nordeste” para “conscientizar” os torcedores sobre
a importância de apoiar exclusivamente os clubes locais. A importância desse
movimento foi sua capacidade de diagnosticar corretamente as estruturas de
poder, direcionando a crítica não apenas ao torcedor, mas ao sistema que o
produzia: a CBF, o Clube dos 13 e, principalmente, a Rede Globo, acusados de um
projeto intencional para manter o status quo. Foi o primeiro passo para
transformar o torcedor de consumidor passivo da mídia hegemônica em um agente
ativo na construção de sua própria soberania cultural.
Essa
resistência cultural, contudo, precisava de uma base material para florescer. O
período entre 2003 e 2016, a “primeira onda” de transformação, forneceu essa
fundação. Foi uma fase impulsionada por catalisadores externos. Fatores
macroeconômicos, como o crescimento do PIB regional acima da média nacional
(2,8% ao ano, contra 2,5% do Brasil), e políticas sociais como o Bolsa Família,
dinamizaram as economias locais e expandiram a classe consumidora. Esse novo
contingente de consumidores criou um mercado interno robusto, com renda
disponível para ingressos e produtos.
Se a
economia criou o mercado, a Copa do Mundo de 2014 forneceu o palco. Os
investimentos federais diretos dotaram Salvador, Recife, Fortaleza e Natal de
uma infraestrutura de arenas moderna, um salto qualitativo financiado em grande
parte pelo BNDES. Contudo, esse legado foi ambíguo. As arenas trouxeram altos
custos operacionais e o risco de se tornarem “elefantes brancos”. A Arena
Pernambuco, por exemplo, enfrentou baixa utilização pelos clubes locais,
enquanto o Castelão e a Fonte Nova, embora mais bem-sucedidos em se integrar,
impuseram um desafio financeiro constante aos clubes, que viam os altos custos
de operação consumirem boa parte da receita das partidas.
Essa
primeira onda, portanto, foi necessária, mas não suficiente. Ela criou o
potencial, mas expôs as fragilidades de gestão dos clubes, que não estavam
preparados para capitalizar as novas oportunidades. A verdadeira transformação
exigia uma revolução vinda de dentro.
Nos
últimos anos, esse quadro se inverteu. A “segunda onda” de ascensão,
consolidada a partir de 2016, foi caracterizada pela agência interna. Clubes
como o Fortaleza reconfiguraram sua gestão, rompendo com décadas de modelos
amadorísticos e politizados. O Fortaleza tornou-se um paradigma de
profissionalização e crescimento orgânico. Sob a gestão de Marcelo Paz,
iniciada em 2017, o clube saiu de oito anos na Série C para uma final
continental. Isso foi resultado de uma implementação deliberada de gestão empresarial:
diretoria remunerada e profissional, planejamento estratégico e
responsabilidade fiscal. A prioridade na saúde financeira, garantindo salários
em dia, tornou-se um diferencial crucial para atrair talentos.
Os
resultados dessa nova política interna são quantificáveis. A receita do
Fortaleza saltou de R$ 24 milhões em 2017 para R$ 371 milhões em 2023, a maior
já registrada por um clube nordestino. O ápice foi a transformação em SAF em
2023, mas em um modelo pioneiro no qual a associação civil manteve 95% do
controle, permitindo governança corporativa robusta sem ceder o controle a um
investidor.
O
Esporte Clube Bahia exemplifica o outro paradigma bem-sucedido: a rota
globalizada. A aquisição de 90% de sua SAF pelo City Football Group (CFG) em
2023 foi um investimento de R$ 1 bilhão, o segundo maior da história do grupo.
O impacto foi imediato: 86% da dívida histórica foi quitada no primeiro balanço
e mais de R$ 170 milhões foram investidos em jogadores no primeiro ano. O Bahia
ganhou acesso a uma rede global de scouting, ciência do esporte e gestão.
Esses
dois modelos, um de “construção” e um de “compra”, compartilham o elemento
essencial: a ruptura definitiva com a gestão amadorística. Eles provaram que a
governança profissional é a condição indispensável para a competitividade fora
do eixo hegemônico.
Essa
revolução na gestão e o sucesso em campo tornaram-se símbolos de afirmação
regional e foram consolidados por uma revolução na comunicação. Um novo
ecossistema de jornalismo digital regional emergiu para preencher o vácuo de
cobertura deixado pela imprensa tradicional. Plataformas como o portal NE45 e o
Podcast 45 Minutos tornaram-se referências ao oferecer uma cobertura diária,
aprofundada e apaixonada. Diferente da mídia do Sudeste, que tratava o Nordeste
como bloco secundário, esses novos veículos falavam a língua do torcedor local,
compreendiam as rivalidades regionais e fizeram do futebol nordestino o
protagonista absoluto.
A
ascensão de influenciadores digitais e de canais de comunicação dos próprios
clubes intensificou essa mudança. Essa nova camada midiática permitiu contornar
completamente os “gatekeepers” da imprensa tradicional, estabelecendo uma linha
direta com os torcedores. Influenciadores como Vitor Augusto (Memes
Futebolísticos) e canais do YouTube como o NERD FUTEBOL NORDESTE promoveram a
identidade regional e descentralizaram a opinião, quebrando o monopólio
narrativo.
O
resultado foi a conquista de uma “soberania informacional”. O sucesso em campo
deu histórias à nova mídia, e a cobertura apaixonada dessa mídia amplificou o
orgulho e o engajamento, gerando mais receita para os clubes. Esse ciclo
virtuoso enfraqueceu drasticamente os pilares que sustentavam o fenômeno do
“torcedor misto”. Com times locais competitivos para torcer e uma mídia
dedicada para acompanhá-los, a lógica da dupla filiação perdeu força. A
torcida, por sua vez, passou a reivindicar o direito de ser protagonista no
próprio estádio. O anti-mistismo, antes visto como intolerância, expressa agora
a vontade de ocupar plenamente um espaço historicamente negado.
Essa
transformação cultural é um fato comprovado por dados. Uma pesquisa de 2025 (O
GLOBO/Ipsos-Ipec) revelou que os torcedores da região são os mais “fanáticos”
do Brasil, com 42,3% avaliando sua paixão com nota 9 ou 10. Os nordestinos
lideram em todas as métricas de engajamento: são os que mais assistem aos jogos
(58,8%), os que mais acompanham o noticiário do clube (59,8%) e os que mais se
sacrificam por uma partida (11,4%). É a prova empírica de uma nova identidade.
O torcedor nordestino deixou de ser um espectador periférico do futebol do
Sudeste para se tornar o protagonista apaixonado de sua própria cena
futebolística.
A
reação de parte da mídia e torcida do Flamengo, que chegou a ironizar o
episódio dizendo que o Fortaleza deveria agradecer por sua presença, apenas
reatualiza a velha hierarquia simbólica que o Nordeste vem desafiando. O
Castelão, lotado de tricolores, é o retrato dessa virada: ali, o torcedor
nordestino não é figurante de um espetáculo alheio, mas autor da própria
narrativa. O grito “lugar de misto é na visitante” não é sobre exclusão. É
sobre pertencimento, sobre ηa consolidação de um novo e relevante polo de poder
no futebol brasileiro, e sobre o direito de existir em voz alta dentro da
própria casa após emergir de décadas de subalternidade.
Fonte:
Por Sara Goes, no GGN

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