Marcio
L. V. Cruz: IMPUNIDADE E ANISTIA, NUNCA MAIS - Tentativa de golpe de 2023, não
acabou
As
grandes manifestações de 2013 representaram o prelúdio da narrativa social pelo
pedido de tutela militar sobre o poder presente em todas as manifestações
da extrema direita no Brasil. O fetiche por um governo militar não é recente.
Para lembrar, com o fim da monarquia, entre 1889 e 1894, o país foi dominado
por setores militares. Desde a independência de Portugal, (1822) até 1964,
ocorreram 9 golpes de Estado e 23 tentativas de interrompem o curso normal do
poder político regido por leis. A luta pelo poder a partir da ruptura da ordem
instituída é uma ideia com padrão histórico e está presente, ainda hoje, como
nos lembra o filósofo Newton Bignotto na obra Golpe de Estado: a
história de uma ideia.
Em
2014, um ano após os atos, Dilma Rousseff foi reeleita para mais quatro anos
como presidenta da república. Contudo, Aécio Neves (PSDB/MG) não reconheceu a
derrota e incitou a narrativa da Lava Jato de que o governo do PT era uma
“organização criminosa”. A narrativa fazia parte do roteiro do golpe
institucional que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em
2016, e fora patrocinado pelo vice-presidente Michel Temer (MDB/SP), pelo
presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (MDB/RJ), setores econômicos,
militares, sistema de justiça e os grandes veículos da comunicação.
O golpe
institucional de 2016, contra o governo da presidenta Dilma Rousseff, no
entanto, fazia parte de uma estratégia mais ampla. Visava o fim do ciclo
vertiginoso de democracia na América Latina. Ele interrompeu o desenho
geopolítico a partir do Sul Global, desmontando o Mercosul, a Unasul,
inviabilizando a Celac – Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos –
e comprometendo fortemente os BRICS e o Banco do Sul. Além disso, anulou a
construção de uma política soberana de exploração do pré-sal e a busca por uma
transição ecológica no Brasil, financiada com os recursos do petróleo.
Como
lembra Christian dos Reis, sociólogo e amigo, “o jogo é jogado e o peixe é
pescado”. O pescador experiente sabe que é preciso conhecer o comportamento dos
peixes que nadam solitários ou em cardumes, compreende as águas e as marés e
cultiva o hábito da paciência. Por fim, tanto o resultado do jogo quanto o
sabor do peixe, não se conhece de antemão.
Com
Temer no poder, o segundo lance do jogo foi colocado em prática. Lula, líder
nas pesquisas, foi condenado e preso. Impedido de concorrer à presidência, ele
passou o bastão a Fernando Haddad (PT/SP) e Manuela D’Ávila (PCdoB/RS).
Bolsonaro foi eleito no segundo turno. Os quatro anos seguintes são
indescritíveis, tanto pelo desgoverno quanto pela pandemia em si, com centenas
de milhares de mortes no Brasil.
O
desgoverno Bolsonaro terceirizou o orçamento da União ao Congresso Nacional e,
de forma sorrateira e silenciosa, sem que nos déssemos conta, alterou
profundamente o sistema político brasileiro. Isso afetou, em particular, o
sistema de freios e contrapesos na relação entre os poderes. O escandaloso
“orçamento secreto”, um movimento tático do golpe, fraturou o presidencialismo
de coalizão.
Para
explicar melhor: anteriormente, deputados federais e senadores precisavam
compor com o Poder Executivo para promover obras, serviços e políticas públicas
nos estados, uma vez que o Poder Executivo detinha o controle sobre o Orçamento
da União. Por sua vez, o Poder Executivo necessitava dos votos das bancadas
para aprovar projetos de seu programa de governo. Havia, então, uma composição
de interesses legítimos: um de governar, outro de levar para suas bases bens e
serviços do governo federal. Atualmente, um deputado federal tem mais recursos
disponíveis a partir das emendas ao orçamento, incluindo o “orçamento secreto”,
do que muitos ministros de Estado. Essa jogada, promovida por Arthur Lira
(Progressista/AL), alterou o padrão de pesos e contrapesos entre Executivo e
Legislativo.
Lembra-se
da paciência do pescador? Festejado pela mídia, pelo agronegócio e por clubes
militares, o ex-juiz federal Sergio Moro abandonou a magistratura para se
tornar ministro de Estado no governo Bolsonaro. Ele foi considerado juiz
imparcial nas ações da Lava Jato que condenaram o presidente Lula e todas as
suas ações, contra o presidente, foram posteriormente extintas.
Lula
sai da prisão injusta. Apaixonado por Janja, casou-se e tornou-se novamente
candidato à presidência da república pelo PT. Foi eleito (2022) por uma margem
de votos apertada, menos de 3 milhões de votos. A vitória mais grandiosa de
todos os tempos.
Mas,
lembre-se: jogo é jogado, peixe é pescado. Inconsolados com a derrota,
apoiadores de Bolsonaro realizaram mais de dois meses de acampamentos em frente
aos quartéis em todo o Brasil, pedindo uma intervenção militar. Em janeiro de
2023 foram a Brasília. Praticaram atos de incitação ao golpe contra o poder
instituído. Destruíram símbolos nacionais, depredaram patrimônio da União tanto
no Congresso quanto no STF, cometeram violência contra servidores públicos e,
tudo indica, visavam colocar em prática o plano “Punhal verde e
amarelo” para matar o Presidente da República, o vice-presidente e
ministros da Suprema Corte. Os golpistas, por fim, esperavam do Executivo, do
Congresso Nacional e do STF uma rendição. E, neste caso, vejam vocês, por muito
pouco, o arco-íris muda de cor e a rosa nunca mais desabrocha.
No dia
seguinte à tentativa de golpe, em 9 de janeiro de 2023, a resposta veio. Um
cordão humano, patrocinado pelo presidente Lula, caminhou em direção ao STF,
reunindo ministros, presidentes da Câmara e do Senado, e os 27 governadores –
inclusive os mais bolsonaristas, como Zema (Novo/MG), Tarcísio
(Republicanos/SP) e Jorginho Mello (PL/SC), estavam presentes no ato em defesa
da democracia. Dias depois, em 27 de janeiro de 2023, em um novo encontro com
governadores, o governo divulga a carta pela democracia onde se lê: “A
democracia é um valor inegociável”.
Mais de
dois anos após o 8 de janeiro de 2023, 898 pessoas foram responsabilizadas
pelos atos golpistas. Dessas, 371 foram condenadas, enquanto outras 527
admitiram a prática de crimes menos graves e firmaram acordo com o Ministério
Público Federal (MPF). Entre as condenações, 225 resultaram em 17 anos e 6
meses de prisão, com base em provas classificadas como graves. As outras 146
foram condenadas por incitação e associação criminosa (abolição do Estado
Democrático de Direito), consideradas crimes simples. Os condenados devem usar
tornozeleira eletrônica por um ano, pagar multa, prestar 225 horas de serviços
à comunidade e participar de um curso presencial sobre democracia –
adoraria ver!
O
ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado em julgamento no STF, em 11 de
setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão. Ele já estava inelegível
por 8 anos devido a outra condenação. Aguardam julgamento outros 23 réus pela
tentativa de golpe contra a democracia, incluindo militares de alta patente.
O
governo Lula 3 recolocou o Brasil, de forma soberana, como um importante player
na geopolítica global. Atualmente, somos a 8ª economia mundial, estamos entre
os 5 países com maior crescimento do PIB, ocupamos a 6ª posição em produção
diária de Petróleo e nossa balança comercial, no 3º trimestre de 2025,
registrou superávit, mesmo diante da agressão das tarifas do governo Trump.
Internamente, temos a menor taxa de desemprego da série histórica
(5,8%) e, novamente, sob o governo do PT, o país deixou o mapa da fome.
“Mas a
tentativa de golpe não terminou ainda, você não tinha notado?” Na Câmara
Federal, duas manobras foram aceitas pelo presidente Hugo Motta
(Republicano/PB): a primeira, foi a aprovação, em tempo recorde de dois turnos,
da Emenda Constitucional chamada PEC da blindagem, que impede a investigação,
prisão e condenação de parlamentares do Congresso Nacional. Caso seja
promulgada, deputados federais poderão tramar golpes de Estado à luz do dia,
além de crimes hediondos. Incrível, não é? Oxalá, o Senado não dê asas a doido.
A segunda manobra é um incentivo para golpistas: a tal anistia. Ampla ou
restrita? Não importa! A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 começou na
anistia dada aos militares golpistas em 1979. A constante sabotagem das forças
armadas à Comissão da Verdade sobre os crimes do regime militar é só mais uma
face da violência. A sequência de golpes de Estado vem acompanhada de
impunidade.
Os
grandes jogadores do Capital global estão em ação neste momento, sim, neste
exato momento enquanto você lê este artigo, caso tenha chegado até aqui. Alguns
controlam mercados e transações globais, como as big techs, livres
de regulamentação. Outros desestabilizam democracias, destituem governos,
promovem guerras, crises humanitárias e genocídio, a exemplo do governo de
Benjamin Netanyahu (Israel) contra o povo palestino. As sanções do governo
Trump, parte do jogo do Capital, visam reduzir a velocidade do comércio mundial
e da corrida tecnológica (especialmente da China) embaralhando as cartas e
redesenhando fluxos de transações. Contra o Brasil, as tarifas representam um
ingrediente de apoio ao permanente clima de golpe contra a democracia. Em 1964,
o governo americano realizou a Operação Brother Sam, apoiando o golpe militar
com um porta-aviões. Atualmente, impõe tarifas maiores ao Brasil, tentando
desestabilizar o governo democrático, mas, sem sucesso.
Vivemos
em um clima de permanente instabilidade democrática. A corrida armamentista
global também coloca em pauta a guerra fria e o retorno do autoritarismo na
América Latina conforme alertado pelo Itamaraty na Organização dos Estados
Americanos e evidenciado pela presença de navios de guerra dos Estados Unidos
na costa da vizinha Venezuela.
A hora
é agora!
Neste
domingo, 21 de setembro 2025, foi o preludio da nova primavera da democracia.
Grandes manifestações tomaram as ruas em todo o Brasil contra a PEC da
blindagem e contra a anistia a golpistas. A bandeira verde amarela foi
resgatada na luta pela soberania e o poder popular. As mobilizações nas ruas,
nas redes sociais, na organização de base nos territórios, devem seguir até que
seja alterada, nas eleições de 2026, a composição do Congresso Nacional e
garantida a reeleição do presidente Lula. Estas são as condições para a
manutenção da soberania e da democracia no país.
Para
além de uma derrota jurídica e eleitoral, deve ser imposta uma derrota moral
aos que semeiam o ódio e a ideia de golpe contra a democracia. Sem anistia, sem
acordos, sem retrocessos, sem dar a outra face ao tapa, chega! IMPUNIDADE E
ANISTIA, NUNCA MAIS!
Que
venham as flores de um novo tempo!
¨
A serpente do golpismo nos quartéis. Por Marco Mondaini e
Capitão Quitaúna
Os dois
autores do presente artigo possuem em comum o fato de terem estudado na sua
adolescência ou juventude em escolas militares, de verem na extrema direita
bolsonarista um inimigo político a ser combatido e derrotado em todos os
espaços sociais e institucionais do território nacional, e de serem conscientes
do fato de os valores que alimentam o golpismo e o neofascismo em nosso país
permanecerem sendo produzidos e reproduzidos dentro dos quartéis e academias
militares.
É
preciso acrescentar que a motivação que nos levou a redigir as páginas a seguir
tem suas origens no questionamento crítico em relação à percepção politicamente
irresponsável de algumas vozes do campo da esquerda que (implícita ou
explicitamente, moderada ou exageradamente) observaram no julgamento e
condenação de Jair Bolsonaro e da sua camarilha golpista, pela Primeira Turma
do Supremo Tribunal Federal, a derrota do neofascismo e do golpismo no Brasil.
Um
questionamento crítico que não tem a pretensão de desconsiderar, muito pelo
contrário, a importância histórica da condenação de oficiais de alta patente
das Forças Armadas brasileiras pela tentativa de abolição violenta do Estado
Democrático de Direito e golpe de Estado, além da prática de outros três
crimes.
Num
exercício aproximado daquilo que os historiadores franceses denominaram de
“ego-história”, talvez seja pertinente registrar que o primeiro autor deste
texto passou quatro anos da sua adolescência na mesma escola em que estudou o
condenado a vinte e quatro anos de prisão, o ex-Comandante da Marinha do
governo de Jair Bolsonaro, Almirante Almir Garnier: a Escola Técnica do Arsenal
de Marinha do Rio de Janeiro (ETAM). Uma escola, diga-se de passagem, que
compartilhava o mesmo espaço físico de um quartel, de uma fábrica e de uma
prisão, na Ilha das Cobras.
Já o
segundo autor deste texto atravessou quatro anos da sua juventude na mesmíssima
academia militar por onde passaram, em períodos distintos, os igualmente
condenados General Augusto Heleno, General Walter Braga Netto, General Paulo
Sérgio Nogueira, Tenente-Coronel Mauro Cid e o Capitão (e ex-Presidente da
Reública) Jair Messias Bolsonaro: a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).
Por
fim, um esclarecimento necessário. Pelo fato de ainda estar na ativa, o segundo
autor do artigo apresenta-se aqui identificado, por razões óbvias, com um
pseudônimo. Isso, da mesma maneira que cadetes e oficiais do Exército
Brasileiro citados ou que tiveram mensagens de whatsApp transcritas no decorrer
do texto.
Pois
bem, o presente artigo tem o propósito de dar uma minúscula cota de
contribuição para a desconstrução das possíveis ilusões que venham a crescer de
tamanho no que diz respeito à potencialidade contida no julgamento e condenação
pelo STF daqueles que tentaram interromper o sofrido processo de construção
democrática no Brasil durante os quatro anos de Governo Bolsonaro – isso,
imaginando que, por si só, os valorosos votos dos ministros Alexandre de
Moraes, Flavio Dino, Carmen Lúcia e Cristiano Zanin seriam capazes de extirpar
as profundas raízes do golpismo e do neofascismo em nosso país, uma tarefa que,
na verdade, exigirá das esquerdas uma “guerra de longa duração”, para fazer uso
de uma figura de linguagem oriunda dos meios militares, bastante utilizada na
teoria política.
Para
tanto, num primeiro momento, serão apresentados e comentados alguns dos livros
e manuais ainda hoje utilizados dentro das academias militares e nos seus
cursos de formação de oficiais, os quais procuram manter viva a retrógrada
ideia anticomunista (em verdade, antidemocrática) de que as Forças Armadas
possuem a função precípua de combater os inimigos internos da Nação.
Na
sequência, abordaremos alguns dos elementos materiais e simbólicos, abertamente
autoritários, presentes no cotidiano das academias e quartéis, que insistem em
se fazer presentes inobstante a passagem de quarenta anos do fim da ditadura
militar em 1985.
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Sobre livros e manuais
“Esse
bando de FDP leram a sentença debochando e rindo. Hoje no encontro com o
ex-condenado também ficaram rindo, zombando. E nós que fomos treinados para
guerra, para defender dos inimigos internos, ficamos olhando, sem dar um pior.
É uma vergonha. O comando da nossa força é um Lixo!” (Mensagem de um grupo de
antigão que frequenta o regimento aq).
“A
velha guarda tá revoltada p krl kkkkkkkkkk (1º Tenente Osório (13/09/2025).
O 1º
Tenente Osório, do Exército Brasileiro, é um jovem militar em início de
carreira. Não tem mais do que trinta anos de idade e cursou a Academia Militar
das Agulhas Negras na segunda metade dos anos 2010. Entretanto, sua forma de
pensar o papel a ser desempenhado pelas Forças Armadas no país permanece fiel à
dos “antigão que frequenta o regimento”, ou seja, coronéis e generais que
cursaram a mesma Academia Militar das Agulhas Negras nas décadas de 1980 e
1990.
Tal
qual os generais Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio (bem como, é claro,
o capitão reformado Jair Bolsonaro), o 1º Tenente Osório acredita integralmente
na ideia de que a guerra a ser travada pelo Exército Brasileiro – e pelas suas
coirmãs Marinha e Aeronáutica – é aquela contra os “inimigos internos” da
nação, que, exageros à parte, são atualmente identificados no Governo Lula e no
Supremo Tribunal Federal, além de, obviamente, no Partido dos Trabalhadores,
seus partidos aliados à esquerda e movimentos sociais como o MST e o MTST.
São
inúmeras as razões que fazem compreender tal relação de continuidade que
remonta, grosso modo, ao ano de 1944, quando a escola de formação de oficiais
do Exército Brasileiro foi transferida da cidade do Rio de Janeiro para a
cidade de Resende, recebendo em definitivo o nome de Academia Militar das
Agulhas Negras no ano de 1951.
Para os
propósitos do presente artigo, trataremos única e exclusivamente de alguns
elementos constituintes do processo de formação desses militares, que, de
maneira absolutamente antagônica aos princípios que regem o Estado Democrático
de Direito brasileiro, continuam produzindo e reproduzindo a autoritária noção
da existência de “inimigos internos” a serem combatidos numa guerra.
É o que
será analisado, no próximo artigo, por meio da discussão sobre alguns livros de
história militar e manuais de operações militares que permanecem sendo
utilizados no processo de formação e aperfeiçoamento continuado de oficiais do
Exército Brasileiro.
Fonte:
Le Monde/A Terra é Redonda

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