A
reação dos bolsonaristas à aproximação entre Trump e Lula: 'Confiamos na
anistia'
"Firmeza
estratégica combinada com inteligência política."
Foi
assim que bolsonaristas repercutiram o possível encontro de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na próxima
semana.
Em seu
discurso na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (23/9), Trump afirmou que
o presidente brasileiro é "um cara legal" e disse que ambos os
mandatários devem se encontrar na semana que vem.
"Nós
o vimos, eu o vi. Ele me viu e nos abraçamos. E então eu disse: 'Você acredita
que vou falar em apenas dois minutos?' Na verdade, combinamos de nos encontrar
na semana que vem. Não tivemos muito tempo para conversar, uns vinte segundos e
pouco, pensando bem", afirmou Trump.
O breve
encontro entre os dois presidentes foi confirmado pela assessoria de Lula em
seguida.
Segundo
a BBC News Brasil apurou, Trump assistiu ao discurso de Lula pelo telão, e,
após a fala de Lula, os dois se encontraram, se cumprimentaram e conversaram
brevemente.
Apesar
do otimismo expressado pelos governistas após a situação, analistas
historicamente veem com cautela os movimentos do líder americano, lembrando que
suas táticas de negociação não raramente têm resultados "exóticos".
O
deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está vivendo nos Estados
Unidos, enxergou a promessa de Trump como uma estratégia que mostraria a
"genialidade" do presidente americano como negociador.
"Nada
do que aconteceu foi surpresa. Ele fez exatamente o que sempre praticou: elevou
a tensão, aplicou pressão e, em seguida, reposicionou-se com ainda mais força à
mesa de negociações", publicou no X.
"Ontem
mesmo, sancionou a esposa do maior violador de direitos humanos da história do
Brasil, um recado claro e direto", disse Eduardo em referência à mulher de
Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na
segunda-feira (22/09), o Departamento de Estado americano anunciou que a
advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, seria punida pela Lei
Magnitsky.
Moraes,
relator da ação penal que condenou por golpe de Estado e outros crimes o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — alinhado ideologicamente a Trump —, já
havia sido submetido à Magnitsky no fim do julho.
A
aplicação dessa lei é umas das punições mais severas disponíveis contra
estrangeiros considerados pelos EUA autores de graves violações de direitos
humanos e práticas de corrupção.
"Depois
disso, [Trump] sorriu e mostra-se aberto a dialogar em uma posição
infinitamente mais confortável, fiel àquilo que sempre defendeu: os interesses
dos americanos em primeiro lugar. É a marca registrada de Trump: firmeza
estratégica combinada com inteligência política", continuou Eduardo.
Também
nesta segunda, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou nesta o
deputado federal por coação no curso de processo, por ter articulado sanções
contra o país e autoridades brasileiras, numa tentativa de influenciar o
resultado do julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
"Ao
final Trump ainda arrebatou que sem os EUA o Brasil vai mal. Ou seja, não há
para onde correr, o Brasil precisa dos EUA, reconheça isto ou não. Entende
porque confiamos na anistia ampla, geral e irrestrita?", questionou o
deputado.
Nesta
terça-feira, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta
(Republicanos-PB), barrou a indicação feita pelo PL para que Eduardo fosse o
líder da minoria na Casa.
O
partido fez o pedido porque o cargo não exige comparecimento à Câmara para as
sessões. Com a decisão de Motta, as faltas de Eduardo, fora do país desde
fevereiro deste ano, seguem sendo computadas, e ele pode perder o mandato.
Um
parlamentar não pode ter mais do que um terço de ausências não justificadas em
sessões deliberativas. Até julho, Eduardo estava afastado do mandato por conta
de uma licença, que trava a contagem de faltas.
"A
ausência de comunicação prévia sobre o afastamento do território nacional, como
ocorre no caso em análise, constitui, por si só, uma violação ao dever
funcional do parlamentar", diz o parecer de Motta.
"Mais
do que isso, essa omissão impede que a ausência à Casa seja enquadrada em
qualquer hipótese de excepcionalidade que autorize o registro de presença à
distância. Um afastamento não comunicado à Presidência da Câmara não pode, sob
nenhuma ótica, ser considerado uma missão autorizada, pois lhe faltam os
elementos essenciais de autorização, formalidade e ciência oficial."
Além da
decisão de Motta, o Conselho de Ética da Câmara decidiu também hoje abrir um
processo para averiguar uma acusação de que Eduardo Bolsonaro estaria agindo de
forma incompatível com o decoro parlamentar com sua atuação nos EUA.
O
empresário e influenciador Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo e neto do
ex-ditador João Batista Figueiredo, também chamou Trump de "gênio" e
ressaltou o discurso de que Trump usa o encontro como arma de negociação. Ele
também foi denunciado pela PGR.
"Deixou
o presidente brasileiro numa situação impossível: ter que ir para a mesa de
negociação ouvir verdades e negociar algo que não tem como cumprir. Entenderam
que a anistia será ampla, geral e irrestrita?", compartilhou no X com
texto semelhante ao de Eduardo Bolsonaro.
No
domingo (21/9), manifestações em diversas capitais brasileiras ocorreram contra
o perdão dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado e a PEC da Blindagem.
Já o
vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), também filho do ex-presidente, disse que
Trump expôs em seu discurso "uma verdadeira lição de soberania
nacional".
• Dudu Bananinha diz que elogios de Trump
a Lula 'não foram surpresa'
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP)
afirmou nesta terça-feira (23) que os elogios feitos pelo presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
durante a Assembleia Geral da ONU não representam surpresa para quem conhece o
estilo do republicano. A declaração foi publicada em suas redes sociais pouco
depois do discurso de Trump em Nova York.
Eduardo,
que ao lado do blogueiro Paulo Figueiredo atua na articulação de sanções e
tarifas impostas por Washington contra o Brasil, interpretou a fala de Trump
como parte de uma estratégia calculada. “Para quem conhece as estratégias de
negociação de Donald Trump, nada do que aconteceu foi surpresa. Ele fez
exatamente o que sempre praticou: elevou a tensão, aplicou pressão e, em
seguida, reposicionou-se com ainda mais força à mesa de negociações”, escreveu.
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"Genialidade como negociador"
Na
publicação, Eduardo Bolsonaro exaltou a forma como Trump conduziu sua fala na
ONU, mesclando ataques e elogios ao Brasil e ao presidente Lula. O deputado
destacou que o norte-americano chegou a sancionar, na véspera, a esposa do
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o “maior
violador de direitos humanos da história do Brasil” e, logo depois, acenou para
o diálogo.
“Ontem
mesmo, sancionou a esposa do maior violador de direitos humanos da história do
Brasil, um recado claro e direto. Depois disso, sorriu e mostra-se aberto a
dialogar em uma posição infinitamente mais confortável, fiel àquilo que sempre
defendeu: os interesses dos americanos em primeiro lugar”, declarou.
Eduardo
concluiu defendendo que a postura do republicano reflete uma “genialidade como
negociador”: “Ele entra na mesa quando quer, da forma que quer e na posição que
quer. Enquanto isso, outros líderes, como Lula, assistem impotentes, sem
qualquer capacidade real de influenciar o jogo global".
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Pressão sobre Lula
O filho
de Jair Bolsonaro (PL) disse ainda que cabe a Lula “aproveitar a rara
oportunidade de sentar-se com Trump” e tentar extrair algum benefício para o
Brasil em um cenário que considera desfavorável. “Na verdade Lula agora é que
está na obrigação de aproveitar a rara oportunidade de sentar-se com Trump e
com a difícil missão de extrair algo de positivo nesta mesa”, escreveu.
Para
Eduardo, a mensagem final de Trump — de que o Brasil “vai mal” e só prosperará
se estiver ao lado dos Estados Unidos — é um recado direto de dependência. “Ou
seja, não há para onde correr, o Brasil precisa dos EUA, reconheça isto ou
não”, concluiu, antes de reforçar sua confiança na “anistia ampla, geral e
irrestrita” aos que foram condenados por tentativa de golpe de Estado no
Brasil.
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Paulo Figueiredo endossa discurso
O
blogueiro Paulo Figueiredo, aliado político de Eduardo Bolsonaro, também
comentou o episódio em suas redes. Ele chamou Trump de “gênio” e avaliou que o
presidente norte-americano deixou Lula em uma situação “impossível”.
“Trump
é realmente um gênio. Ele denuncia a ditadura brasileira e a invasão da
jurisdição americana bem na ONU. Em seguida, diz que gosta do Lula, que o
chamou para conversar e complementa dizendo que o Brasil vai continuar indo mal
exceto se estiver ao lado dos EUA. Deixou o presidente brasileiro numa situação
impossível: ter que ir para a mesa de negociação ouvir verdades e negociar algo
que não tem como cumprir”, afirmou.
Assim
como Eduardo, Figueiredo também mencionou a expectativa de uma “anistia ampla,
geral e irrestrita”, repetindo a narrativa de que o governo norte-americano
exerce pressão decisiva sobre o Brasil.
• Postura de Lula na ONU foi decisiva para
afago de Trump, avalia especialista
O
discurso realizado pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva nesta
terça-feira (23/09), na abertura da 80ª Assembleia Geral da Organização das
Nações Unidas (ONU), incluindo suas críticas aos Estados Unidos, pode ter sido
decisivo para um possível encontro entre o mandatário brasileiro e seu homólogo
norte-americano, Donald Trump.
Segundo
o cientista político e professor de Relações Internacionais Bruno Lima Rocha,
“Trump muitas vezes atua como um desses brigões de escola, que faz bullying nos
garotos que considera mais fracos, como vimos no caso do Zelensky este ano, mas
se você peita o brigão e mostra que não é tão fraco, que é mais altivo, ele
recua, e foi isso que o Lula fez no discurso de hoje”.
O
especialista enfatizou que “embora o Trump não seja um interlocutor confiável,
que tem a credibilidade de um apostador em um cassino, essa a empatia gerada
por Lula no discurso de hoje abre caminho para uma reunião que seja arquitetada
sob condições mais sérias, sem as velhas bravatas da extrema direita”.
“Além
disso, o Itamaraty é muito profissional e capaz de gestar uma reunião a partir
de protocolos seguros, sabendo que há esse interesse por parte dos Estados
Unidos”, analisou Lima Rocha.
Para o
analista internacional, “o principal momento do discurso foi quando Lula
defendeu o sistema internacional e o multilateralismo”.
“Ele
enfatizou um tema essencial, que o mundo precisa de democracias fortes, e que
as democracias não se sustentam sem uma política de distribuição de renda capaz
de diminuir as desigualdades. Isso foi crucial para gerar uma empatia que deve
marcar esta assembleia”, acrescentou o analista internacional.
De
acordo com Lima Rocha, “Lula entendeu o que estava em jogo no dia de hoje, e
seu discurso foi um contraste perfeito ao que foi dito em seguida pelo
presidente dos Estados Unidos, que atacou o multilateralismo, disse que a ONU
gasta demais, que deveria acabar, em uma fala que choca com os interesses da
maioria dos representantes ali presentes”.
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Transformar em ações
Por sua
vez, o jurista e analista político Hugo Albuquerque afirmou que Lula fez um
discurso “corajoso e sofisticado, mas precisará se transformar em atos, em um
momento em que o perigo de uma conflagração mundial é extremo, com o estouro de
várias guerras regionais de intensidades variadas”.
“O
governo atual, muito mais moderado que os dois mandatos anteriores de Lula,
busca se aliar às frentes entre socialistas e liberais contra a extrema direita
ao estilo do mundo rico, enquanto defende a linha mais geral das aspirações do
mundo pobre e em desenvolvimento”, comentou Albuquerque, que também é um dos
coordenadores da editora Autonomia Literária.
O
especialista destacou a defesa do multilateralismo e da democracia como os
pontos fortes da fala de Lula. “Exatamente o oposto de que foi dito por Trump
em seu discurso”, ressaltou.
“Mesmo
que Donald Trump tenha tido a oportunidade de falar depois de Lula, isso só
mostrou a enorme diferença entre os dois líderes e a vulgaridade imperial do
atual líder norte-americano”, concluiu Albuquerque.
• Messias: 'diálogo entre Lula e Trump
significa um novo momento' na relação Brasil-EUA
O
advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, afirmou nesta terça-feira (23)
que o diálogo entre os presidentes Lula e Donald Trump “significa um novo
momento” na relação entre Brasil e Estados Unidos.
O chefe
da AGU teve o seu visto de entrada nos Estados Unidos cancelado por decisão do
governo Trump. Messias disse que o assunto é "página virada", ao
participar do seminário "Direito,
democracia e crédito: construindo um desenvolvimento sustentável e
equitativo". “Visto é um ato de império de cada estado. Não vou atrás
disso. Acredito que hoje [terça] já é um novo dia", disse Messias em
entrevista a jornalistas no Rio de Janeiro.
O
presidente norte-americano já havia suspendido vistos de outros ministros do
STF para os EUA como parte das sanções contra o Brasil por causa do inquérito
da trama golpista envolvendo Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos de
prisão. Mais sete réus foram condenados. Novos julgamentos acontecerão.
Além da
suspensão dos vistos, o governo Trump anunciou um tarifaço de 50% sobre as
exportações brasileiras enviadas aos EUA. Na área da política, a gestão do
presidente Lula vem negociando com autoridades norte-americanas a queda da
tarifa. Na área da economia, a resposta do governo brasileiro foi um crédito de
R$ 30 bilhões para o financiamento do Plano Brasil Soberano. A proposta foi
dividida em três eixos: fortalecimento do setor produtivo, proteção ao
trabalhador, e diplomacia comercial e multilateralismo.
Sanções
A
retaliação dos EUA direcionada ao STF teve como principal alvo o ministro
Alexandre de Moraes, relator do inquérito do plano golpista na Corte.
O
governo americano usou a Lei Magnitsky contra o magistrado.As penalidades
aplicadas ao ministro incluem o bloqueio de eventuais bens e ativos financeiros
em território norte-americano. Instituições bancárias dos EUA são obrigadas a
informar o Office of Foreign Assets Control (OFAC) sobre a existência desses
recursos, e Moraes fica impedido de realizar transações ou movimentar fundos em
solo americano.
Segundo
interlocutores, Alexandre de Moraes minimizou a medida, ressaltando que ela
"não vai mudar nada", já que não possui contas, investimentos ou
patrimônio sob jurisdição dos Estados Unidos.
Nesta
semana, os EUA aumentaram a ofensiva contra o Brasil e resolveram impor algumas
sanções contra a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF
Alexandre de Moraes.
Fonte:
BBC News Brasil/Opera Mundi/Brasil 247

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