'Sedutores
de idosos': perfis fingem romance para monetizar redes e exploram a solidão na
terceira idade
"Você
é o amor da minha vida", diz o homem na tela. "Tenho algo especial
para você", declara uma mulher, olhando fixamente para a câmera. Nos
comentários, centenas de pessoas acreditam ter encontrado um amor. No TikTok,
vídeos assim têm se multiplicado: criadores fingem estar se declarando para
quem assiste. Criadores de conteúdo têm usado declarações românticas genéricas
para engajar pessoas em situação de vulnerabilidade afetiva — e lucrar com
isso.
Os
vídeos são feitos como se fossem uma chamada, muitos embalados por músicas
antigas. Fazem isso justamente para atrair o público mais fiel: pessoas idosas.
No final, os "sedutores" pedem curtidas e compartilhamentos como
forma de demonstrar afeto – o que, na verdade, atrai a monetização.
Alguns
desses perfis têm mais de um milhão de seguidores, com publicações diárias, e
reúnem milhares de comentários de pessoas que interagem como se estivessem em
um vínculo afetivo.
Especialistas
explicam que os casos escancaram a crise da solidão na terceira idade, que
afeta homens e mulheres. Com pouco contato com outras pessoas e mais
solitários, esses indivíduos enfrentam a carência e encontram, nesses vídeos, a
atenção que já não têm mais, mas que pode representar um risco à saúde mental.
Você
percebe que os aspectos relacionados à carência — seja pela falta da presença
de amigos, de família, seja pela falta de um cônjuge — aparecem com força. As
pessoas tiveram perdas afetivas nessa fase da vida e se sentem mais carentes de
afeto e vínculo. Pelo fato de se sentirem invisíveis e ignoradas, elas se
apegam facilmente a um conteúdo, a um vídeo. Têm a sensação de que estão
recebendo alguma atenção. — Larissa Fonseca, psicóloga especialista em
ansiedade e depressão.
Até
poucos meses atrás, esses influenciadores alimentavam a mentira, sem deixar
claro que estavam fazendo os vídeos por engajamento. Nos últimos meses, após
relatos de golpes usando suas imagens, passaram a incluir avisos de que eram
apenas personagens.
O
advogado especialista em crimes digitais Danilo Pardi explica que, apesar de os
golpes não serem aplicados pelos donos dos perfis, há responsabilidade
indireta, já que eles alimentam uma mentira, fazendo de pessoas vulneráveis
iscas para criminosos.
<><>Os
‘sedutores de idosos’
Um
deles é o perfil do homem que se diz chamar José Fernandes. Ele tem cerca de
700 mil seguidores e mais de 18 milhões de curtidas. Todo o engajamento foi
conquistado com esse tipo de conteúdo, focado em mulheres.
No
final dos vídeos, ele pede que as seguidoras curtam e compartilhem para
demonstrar afeto e até para conversar com ele – o que não é verdade. Os
comentários na conta nunca são respondidos. Mas a estratégia funciona: o g1
analisou mais de 50 vídeos, e a maioria tinha mais de mil comentários. Todo
esse engajamento pode ser revertido em monetização para o criador.
Outro
caso é o da mulher que diz se chamar Monica Santos. Nos vídeos, ela conversa
com homens, chama de amor, diz estar apaixonada e que quer muito conversar com
eles. Ao final, também pede pelo engajamento, sob a promessa de que vão
conseguir seu contato ou falar com ela, o que também não é verdade.
Monica
tem 1,6 milhão de seguidores nas redes sociais e 28 milhões de curtidas em seu
perfil, que só traz conteúdos desse tipo.
Nos
últimos meses, esses criadores tiveram que vir a público explicar que, apesar
do conteúdo, não é bem assim: eles são personagens e não entram em contato com
os seguidores. Isso tudo porque, segundo contam, criminosos estavam usando sua
imagem para aplicar golpes.
No caso
de José Fernandes, ele disse que chegou a registrar um boletim de ocorrência
porque recebeu a informação de que criminosos usaram sua imagem para enganar
uma seguidora. Nos comentários, algumas relatam prejuízos de até R$ 9 mil
depois de receberem ligações com pessoas que usavam a imagem do perfil no
TikTok.
Nos
vídeos, José Fernandes conta que tem um relacionamento, filho e que não está em
busca de uma relação – tudo não passa de encenação. Após postar um dos vídeos
com a explicação, seguidoras disseram estar de coração partido e se sentiram
traídas por ele, que estava em outra relação.
O
advogado especialista em crimes digitais Danilo Pardi afirma que a forma como o
conteúdo é feito, somada ao público-alvo mais vulnerável, cria um contexto
propício para golpes. Com isso, ainda que o criador não seja o responsável
direto pelo crime, ele alimenta esse cenário, mesmo que de forma involuntária.
“Quando
um conteúdo emocional é produzido em larga escala, com foco em atrair idosos
vulneráveis, é preciso reconhecer que existe responsabilidade. Não se trata de
censura, mas de responsabilidade digital. O princípio do conteúdo pode até não
ser aplicar o golpe, mas, se o efeito prático está sendo o aliciamento de
vítimas, é dever da plataforma agir e do próprio influenciador de repensar como
e para quem está falando”, explica.
O g1
procurou o TikTok e perguntou se esse tipo de conteúdo é permitido na
plataforma, já que os perfis estão sendo usados para que criminosos encontrem
vítimas de golpe, mas não teve retorno até a publicação.
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A solidão na terceira idade
E o que
explica os idosos acreditarem que estão mantendo um relacionamento com uma
pessoa que nunca viram na internet?
• O primeiro ponto é a falta de letramento
digital, que faz com que acreditem que os vídeos são exclusivamente para eles.
• O segundo ponto, segundo especialistas,
tem a ver com a solidão na terceira idade e a incidência de depressão.
➡️ Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) indicam que os idosos compõem o grupo mais afetado pela
depressão no país. Ela atinge cerca de 13% da população entre 60 e 64 anos.
Segundo
os especialistas, a depressão nessa idade é comum e resulta de vários fatores:
• Mudanças no corpo;
• Declínio da habilidade motora e
cognitiva;
• Isolamento social com a aposentadoria;
• Perda de entes queridos e amigos;
• Perda da independência.
Nesse
novo cenário de vida, muitas pessoas nessa idade se sentem isoladas e sozinhas.
A psicóloga Larissa Fonseca, especialista em ansiedade e depressão, explica que
essa fase é desafiadora para a saúde mental.
“Você
percebe que os aspectos relacionados à carência, seja pela falta da presença de
amigos, de família, seja pela falta de um cônjuge, aparecem com força. As
pessoas tiveram perdas afetivas nessa fase da vida e se sentem mais carentes de
afeto e vínculo. Pelo fato de se sentirem invisíveis e ignoradas, elas se
apegam facilmente a um conteúdo, a um vídeo. Têm a sensação de que estão
recebendo alguma atenção”, explica.
O g1
conversou com um familiar de uma alguém que se enquadra nesse perfil. Na
conversa, a pessoa, que preferiu não se identificar, contou que a avó
acreditava estar em uma relação e que a família não tinha coragem de contar a
verdade porque ela se sentia feliz com isso.
Recentemente,
vídeos desse tipo ‘furaram a bolha’, e muitos nos comentários tentam alertar
quem acredita estar em um romance, mas alguns se recusam.
A
psicóloga explica que é preciso entender a realidade do idoso antes de contar a
verdade. Para Larissa, o primeiro passo deve ser tratar o problema: a solidão e
a carência. Isso pode ser feito com:
• Inclusão do idoso em atividades;
• Mais interação e conversa;
• Chamadas de vídeo frequentes se a
família não consegue ser tão presente;
• Reforço de carinho com o toque físico.
Depois
disso, a família pode contar a verdade, mostrar os comentários de outras
pessoas e promover a alfabetização digital. A especialista ressalta que essas
pessoas não se habituaram com a sociedade digital em que vivemos hoje. Por
isso, acabam acreditando quando veem vídeos como esses.
Ela
alerta que, caso o idoso já esteja em declínio cognitivo, sem tanta noção do
que é real, e encontre felicidade nesse tipo de vídeo, a estratégia deve ser
monitorar, mas permitir que continue consumindo esse conteúdo.
A
antropóloga e pesquisadora sobre a terceira idade, Mirian Goldenberg, explica
que no caso da mulher ainda há o contexto da construção social da necessidade
de um parceiro para as mulheres ao longo de toda a vida.
"É
preciso cultivar redes de apoio que não passam só por um companheiro, por um
amor. Ter redes de amigas que se apoiam, que conversam, que aconselham e que
protegem essas mulheres que se sentem tão solitárias. Com isso, elas vão ter
propósitos de vida que não passem por ter um companheiro, porque essa sensação
de vazio existencial e de solidão é muito porque elas não enxergam o
caminho", explica.
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Por que essas pessoas produzem esse tipo de conteúdo?
De
acordo com a professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora em
comunicação digital, Issaaf Karhawi, os vídeos que simulam romance com quem
assiste fazem parte de uma lógica mais ampla de produção de conteúdo moldada
pelas regras de monetização do TikTok.
A
plataforma remunera quem publica vídeos, mas, para começar a ganhar dinheiro,
os criadores precisam atender a critérios como número mínimo de seguidores e
visualizações, além de produzir vídeos autorais com certas características de
duração e formato.
“Quando
alguém decide ser um criador, essa pessoa se sujeita à lógica da
plataformização, que exige o atendimento a parâmetros e métricas específicas da
plataforma. Criadores usam estratégias sutis e sedutoras para incentivar o
engajamento (como pedir para o usuário ‘fazer o coração ficar vermelho’)
justamente porque entendem que estão à mercê dessas dinâmicas e métricas para
conseguir monetizar ou ter visualizações qualificadas”, afirma a especialista.
Ou
seja, os vídeos são feitos para engajar. Usam 'gatilhos' que levam ao
compartilhamento e às curtidas e, com isso, tudo é revertido em monetização. O
g1 perguntou à plataforma se os perfis citados na reportagem são monetizados,
mas a resposta recebida foi que só o criador poderia confirmar. Na análise dos
perfis, no entanto, todos seguem os pré-requisitos.
Para
Issaaf, isso é intensificado pelo contexto econômico do país. Com o aumento da
inflação e a instabilidade, muitas pessoas veem na plataforma uma forma de
ganhar dinheiro, de fazer uma renda extra, mas, muitas vezes, sem entender a
dimensão da responsabilidade que isso traz.
“Tem
relação com a questão econômica no Brasil e a percepção de que o TikTok vai ser
uma possibilidade de renda fazendo alguma coisa simples, mas, na verdade,
quando alguém decide produzir conteúdo nas redes sociais, essa pessoa se vê à
mercê da lógica da plataformização”, explica.
Fonte:
g1

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