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que governo Lula não 'torce' por prisão de Bolsonaro (agora)
O
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), principal adversário do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), é apontado como um dos responsáveis pelo tarifaço de
50% sobre produtos brasileiros anunciado pelo presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump. A carta enviada por Trump ao governo brasileiro ameaçando a
imposição das tarifas, alega que Bolsonaro está recebendo tratamento injusto
pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Bolsonaro
é réu no processo que tramita no STF por tentativa de golpe de Estado e, desde
a semana passada, está usando tornozeleira eletrônica e impedido de usar redes
sociais.
Mas por
mais que possa parecer contra intuitivo, segundo pessoas próximas a Lula, o
governo não estaria torcendo por uma eventual prisão de Bolsonaro antes do seu
julgamento pelo STF.
Três
integrantes do governo ouvidos em caráter reservado relataram por que uma
prisão de Bolsonaro antes do julgamento pelo STF não interessaria ao governo:
• ela poderia alimentar a retórica de
perseguição política adotada pelo ex-presidente e seus aliados e fortalecer
Bolsonaro;
• ela poderia criar ruídos ainda maiores
em meio à tentativa do governo de negociar as tarifas de Trump
A
possibilidade de uma prisão iminente de Bolsonaro passou a ser especulada em
Brasília nesta semana depois que o ministro Alexandre de Moraes cobrou
explicações à defesa de Bolsonaro sobre sua participação em entrevistas e
transmissões em redes sociais.
Após
receber as explicações dos advogados do ex-presidente, Moraes decidiu nesta
quinta-feira (24/07) não decretar prisão preventiva porque Bolsonaro teria
cometido "uma irregularidade isolada". Mas o ministro advertiu que,
em caso de "novo descumprimento", a prisão será decretada.
Na
semana passada, Moraes havia determinado que Bolsonaro usasse tornozeleira
eletrônica e o proibiu de acessar a redes sociais, inclusive por meio de
terceiros.
O
argumento para a decisão era de que ele estaria agindo, junto com o filho, para
convencer o governo dos Estados Unidos a adotar medidas contrárias à soberania
do Brasil no contexto das tarifas anunciadas por Trump.
No
pedido de esclarecimentos feito na segunda-feira (21/07), Moraes deu 24 horas
para a defesa do ex-presidente se manifestar sob pena de prisão.
A
defesa de Bolsonaro respondeu antes do prazo dizendo que o ex-presidente não
havia descumprido a decisão do ministro. Argumentou que a publicação nas redes
sociais de trechos da conversa que Bolsonaro manteve com jornalistas no prédio
da Câmara dos Deputados estava fora do controle do ex-presidente.
O tom
do governo federal em relação ao assunto foi dado por Lula na mesma
segunda-feira, durante uma entrevista coletiva em Santiago, no Chile, ao ser
questionado sobre o uso de tornozeleira eletrônica por Bolsonaro.
"É
um problema da Justiça. Eu não vou dar palpite sobre a questão da Justiça. Ele
está sendo julgado, está sendo denunciado, ele pode ser absolvido, ele pode ser
culpado. É um problema da Justiça. Eu não me meto nisso", disse o
presidente.
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Retórica de vítima
Integrantes
do entorno do presidente Lula afirmam que um dos principais motivos pelos quais
a prisão de Bolsonaro neste momento não seria um resultado desejado é a
possibilidade de que ela poderia alimentar o que classificam como
"narrativa vitimista" que, segundo eles, vem sendo adotada pelo
ex-presidente.
Bolsonaro
é réu no processo sobre uma suposta tentativa de golpe de Estado. O caso está
caminhando para a sua fase final, no STF e o ex-presidente alega inocência.
Em suas
alegações finais, a Procuradoria Geral da República (PGR) pediu a condenação de
Bolsonaro a uma pena que pode superar os 40 anos de prisão. A expectativa é de
que o julgamento possa ser concluído nos próximos dois meses.
Desde o
início das investigações, no entanto, Bolsonaro argumenta que é vítima de uma
perseguição política perpetrada por inimigos políticos e membros do judiciário,
entre eles, o ministro Alexandre de Moraes.
"Não
roubei os cofres públicos, não desviei recurso público, não matei ninguém, não
trafiquei ninguém. Isso aqui é um símbolo da máxima humilhação em nosso país.
Uma pessoa inocente. Covardia o que estão fazendo com um ex-presidente da
República. Nós vamos enfrentar a tudo e a todos. O que vale para mim é a lei de
Deus", disse Bolsonaro na segunda-feira (21/07), durante ida ao Congresso
Nacional.
Na
avaliação de um interlocutor do governo, Bolsonaro e seus aliados estão
amplificando esse discurso a partir de manifestações como a ida dele ao
Congresso Nacional nesta semana, quando ele exibiu sua tornozeleira eletrônica
ao público presente no local, levando Moraes a cobrar explicações.
Esse
movimento poderia, em tese, minimizar a percepção captada pela pesquisa de
opinião pública feita pela empresa Quaest na semana passada sobre como as
tarifas de Trump impactaram negativamente a família Bolsonaro, que celebrou o
anúncio.
A
pesquisa mostrou que 44% dos entrevistados avaliam que Lula estaria agindo
corretamente diante das tarifas, enquanto apenas 29% tinham essa avaliação em
relação a Bolsonaro e seus aliados.
A
pesquisa mostrou ainda que 57% dos entrevistados afirmaram que Trump não tinha
direito de criticar o processo no qual Bolsonaro é réu.
A
crítica à decisão de Moraes em relação a Bolsonaro, especialmente sobre a
proibição do uso de redes sociais, não ficou restrita apenas a militantes
bolsonaristas.
Em
entrevista à BBC News Brasil na semana passada, o advogado e professor de
Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro, Thiago Bottino,
criticou a decisão do ministro.
"Tornozeleira
eletrônica, recolhimento domiciliar noturno e durante o final de semana,
proibição de contactar determinadas pessoas. Todas essas [medidas] estão na
lei. Proibição de usar rede social não está", disse.
Um
monitoramento sobre manifestações em redes sociais feito pela Quaest após a
operação da semana passada contra Bolsonaro apontou, no entanto, que 59% das
menções sobre o assunto eram favoráveis à operação, enquanto 41% defendiam o
ex-presidente.
Os
números indicariam uma reversão na queda de popularidade do governo Lula
causado pela reação dos brasileiros ao tarifaço de Trump e ao que tudo indica,
o governo não quer correr o risco de perder o "bom momento".
Um dos
interlocutores de Lula ouvido pela BBC News Brasil afirmou que o melhor cenário
para o governo seria aquele em que Bolsonaro passe pelo julgamento no STF antes
de a ser preso, caso considerado culpado.
Segundo
ele, a ideia é que, submeter Jair Bolsonaro ao rito do julgamento completo,
incluindo eventuais recursos, mostraria ao eleitorado indeciso que o
ex-presidente não foi submetido a uma perseguição política, como defendido por
Bolsonaro e seus aliados.
O foco,
segundo ele, é no eleitorado indeciso porque a fatia de eleitores que hoje
apoia o ex-presidente dificilmente mudaria de opinião durante e após o
julgamento de Bolsonaro.
Um
ministro de Estado também ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado
disse que o governo pretende se manter distante do julgamento de Bolsonaro.
Segundo
ele, Lula orientou todos os seus colegas de ministério a evitarem manifestações
sobre o andamento do processo de Bolsonaro, especialmente após a decretação do
uso de tornozeleira eletrônica feita por Moraes.
Outro
integrante disse que, internamente, o governo não está fazendo cálculos
políticos baseados na possibilidade de Bolsonaro ser preso agora.
Ele
diz, no entanto, que há preocupação de que Bolsonaro poderia adotar um tom de
suposta provocação às ordens do STF e acabar "cavando" sua própria
prisão e, com isso, criar mais instabilidade.
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Ruído em meio a tarifaço
O
segundo motivo apontado pelos interlocutores ouvidos pela BBC News Brasil para
que a prisão de Bolsonaro antes do julgamento não fosse desejada pelo governo é
o de que ela poderia tumultuar ainda mais o processo de negociação que o Brasil
tenta estabelecer com os Estados Unidos para mitigar ou evitar o tarifaço
anunciado por Trump.
Um
membro do governo ouvido pela BBC News Brasil afirmou que, embora o governo não
tenha ingerência sobre o processo de Bolsonaro no STF, uma eventual prisão do
ex-presidente neste momento poderia ser interpretada em Washington como uma
provocação do Judiciário brasileiro ao governo americano e isso poderia
atrapalhar as tentativas do governo de estabelecer canais de comunicação com a
administração Trump.
Segundo
ele, o momento seria de evitar o que classificou como ruídos desnecessários em
meio à dificuldade de interlocução com o governo americano.
A carta
em que Trump anunciou as tarifas ao Brasil e as manifestações subsequentes do
governo americano vincularam as tarifas ao suposto tratamento injusto ao qual
Bolsonaro estaria sendo submetido no Brasil.
Trump
classificou o processo de Bolsonaro como uma "caça às bruxas" que
deve parar "imediatamente".
Em uma
carta de Trump enviada ao ex-presidente brasileiro na semana passada, o
presidente americano voltou a defendê-lo ao vincular as tarifas ao seu
julgamento.
"Manifestei
veementemente minha desaprovação, tanto publicamente quanto por meio de nossa
política tarifária. É minha sincera esperança que o Governo do Brasil mude de
rumo, pare de atacar oponentes políticos e acabe com seu ridículo regime de
censura. Estarei observando de perto", diz um trecho da carta.
Um
outro sinal de contrariedade do governo americano em relação ao andamento do
caso de Bolsonaro foi o anúncio da cassação dos vistos de viagem do ministro
Alexandre de Moraes e "de seus aliados", no mesmo dia em que
Bolsonaro foi obrigado a usar tornozeleira eletrônica.
"A
caça às bruxas política do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de
Moraes, contra Jair Bolsonaro criou um complexo de perseguição e censura tão
abrangente que não apenas viola os direitos básicos dos brasileiros, mas também
se estende além das costas do Brasil para atingir os americanos", disse o
secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio ao anunciar as sanções.
Em
entrevista à BBC News Brasil, o brasilianista Brian Winter, editor da revista
Americas Quarterly, disse acreditar que Trump reagiria a uma eventual prisão de
Bolsonaro.
"Sem
dúvida. Se isso acontecer, acho que o presidente Trump usará todas as
ferramentas à sua disposição", disse.
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‘Vai para o xilindró sim senhor’, diz Lula sobre o
‘fujão’ Bolsonaro
Durante
visita ao Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, nesta quinta-feira (24), o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um pronunciamento incisivo contra
o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu filho, o deputado federal licenciado
Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Lula
classificou Bolsonaro como um “fujão” e ironizou sua postura após a derrota nas
eleições de 2022. “Nem sei como aquele cara chegou a ser tenente do Exército,
porque se borrou todo; perdeu as eleições e ficou dentro de casa chorando,
chorando…”, declarou o presidente.
Lula
destacou ainda que Bolsonaro tentou impedir sua posse por meio de articulações
golpistas que, segundo ele, estão sendo apuradas pelas autoridades brasileiras:
“Preparam um golpe, nós ficamos sabendo, a polícia investigou, eles mesmos se
delataram, ele foi indiciado, o procurador-geral pediu a condenação dele e ele
vai, sim senhor, se a Justiça decidir, com base nos autos do processo, vai para
o xilindró”.
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Críticas a Eduardo Bolsonaro e relação com Trump
Lula
também voltou a denunciar a atuação de Eduardo Bolsonaro junto ao presidente
dos Estados Unidos, Donald Trump, que iniciou seu segundo mandato em 2025. O
petista afirmou que o deputado atuou de forma irresponsável ao interceder por
seu pai no exterior, em uma tentativa de obter apoio contra as investigações em
curso no Brasil.
“O
filho é deputado federal. O filho abandona o mandato de deputado, vai para os
Estados Unidos e fica ‘ô Trump, solta meu pai, solta meu pai, ajuda meu pai,
ajuda meu pai’. Coisa de moleque irresponsável, que na hora de falar merda na
internet não tem responsabilidade”, afirmou Lula.
Segundo
o presidente, esse tipo de atitude compromete a soberania nacional e afronta o
respeito devido ao povo brasileiro. “Fez as merdas que fez, pague pelas merdas
que fez e respeite os brasileiros”, enfatizou.
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“Não fugi, provei minha inocência”
No
mesmo discurso, Lula relembrou o período em que esteve preso, por 580 dias, em
Curitiba, e afirmou que jamais cogitou deixar o país ou buscar asilo em
embaixadas, como muitos o aconselharam à época. “Quando inventaram as mazelas
contra mim, quando inventaram as mentiras contra mim, massacraram não a mim,
mas muita gente nesse país. [...] E eu dizia: ‘um cara que não morreu de fome
até os cinco anos de idade e sobreviveu, não vai correr não. Vou provar minha
inocência’”, relatou.
Ao
destacar a diferença entre sua postura e a de Bolsonaro, Lula reafirmou que
confia na Justiça brasileira, a qual considera independente, e reforçou que o
ex-presidente deve ser responsabilizado por suas ações: “Obviamente que depende
da Justiça, e no Brasil a Justiça é independente”.
Fonte:
BBC News Brasil

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