Petroleiros
contra a ditadura empresarial-militar
Na
última década, o campo de estudos sobre a ditadura instaurada em 1964 no Brasil
tem se renovado. A despeito de seus limites institucionais, os trabalhos da
Comissão Nacional da Verdade (2011-2014), bem como a instalação de comissões
locais e setoriais, vinculadas a entidades públicas e organizações da sociedade
civil, contribuíram para consolidar noções e recuperar informações e
testemunhos acerca das violações de direitos cometidas sob o regime
autoritário. Ao mesmo tempo, tais iniciativas, por limitadas que fossem,
despertaram com frequência a sanha dos apologistas da ditadura, que contra elas
dirigiram acusações de “parcialidade” e “revanchismo”. As batalhas pela memória
social das ditaduras, travadas a partir das “redemocratizações” no Cone Sul,
seguem abertas, mas, especialmente no caso brasileiro, parece cada vez mais
evidente a relação entre a ausência de medidas contundentes de justiça de
transição, por um lado, e a ascensão de uma “narrativa neurótica enviesada e
negacionista” sobre o passado ditatorial, servindo de suporte a novas aventuras
golpistas, por outro.
As
fontes legadas pelas comissões da verdade, contudo, provaram-se particularmente
úteis para novas empreitadas historiográficas, que, em alguns casos,
extravasaram o âmbito acadêmico, articulando-se a políticas públicas e
iniciativas da sociedade civil para a promoção de memória, verdade, justiça e
reparação. No campo da historiografia do trabalho, à disponibilidade dos novos
acervos documentais, soma-se, com cada vez mais frequência, a perspectiva
teórico-metodológica da responsabilidade empresarial em violações de direitos,
que tem orientado a condução de investigações sobre a participação das classes
dominantes, de grandes empresas e agentes econômicos na implantação de
ditaduras e na condução das atividades repressivas características desses
regimes no contexto da Guerra Fria, com especial atenção para as consequências
dessa aliança empresarial-militar sobre os mundos do trabalho. Entre as
questões levantadas pelos estudos dessa seara, cada vez mais frequentemente
conduzidos desde uma perspectiva multidisciplinar, constam relevantes debates
propriamente historiográficos, como o das especificidades de ditos regimes, a
temática das permanências e rupturas que acompanharam sua instalação, bem como
as verificadas durante as “transições democráticas,” e o problema das
periodizações adequadas a cada regime. Na esteira dos trabalhos da Comissão
Nacional da Verdade (CNV), e como resultado da militância contínua de
trabalhadores, sindicalistas, perseguidos políticos e seus familiares,
prosperaram algumas iniciativas de questionamento ao papel cumprido por grandes
empresas que atuaram no Brasil durante a ditadura. Entre 2015 e 2020, três
inquéritos civis investigaram a responsabilidade da Volkswagen em violações de
direitos humanos, culminando em um Termo de Ajustamento de Conduta, bem como na
imposição de uma multa à empresa. Uma parcela do montante destinou-se ao
financiamento de novas pesquisas, coordenadas pelo Centro de Arqueologia
Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp), que, entre 2021 e
2023, escrutinaram a atuação de dez grandes empreendimentos econômicos e a
amplitude de seus vínculos com o regime.
Petrobras
e petroleiros na ditadura detalha os resultados da investigação sobre a então
estatal no âmbito desse projeto. Assinam o volume a coordenadora da pesquisa,
Luci Praun, e os membros de sua equipe, Alex de Souza Ivo, Carlos Freitas,
Claudia Costa, Julio Cesar Pereira de Carvalho, Márcia Costa Misi e Marcos de
Almeida Matos, que se revezam na autoria dos capítulos. O livro conta com um
breve prólogo de Victoria Basualdo, uma das maiores especialistas
latino-americanas na temática da responsabilidade empresarial em violações de
direitos, e com um prefácio de Rosa Maria Cardoso da Cunha, em que a advogada,
integrante e coordenadora da CNV, apresenta possíveis conexões entre a atuação
da Petrobras nos “anos de chumbo” e a Doutrina de Segurança Nacional (DSN).
O
restante da obra organiza-se em quatro partes. A primeira, “Origens: a empresa
e seus trabalhadores”, corresponde aos dois primeiros capítulos e oferece um
panorama da evolução da empresa, desde sua fundação, em 1953, até a década de
1980. O primeiro capítulo, “Breve histórico das políticas petrolíferas”,
redigido por Julio Carvalho, dedica-se a contextualizar a história da empresa a
partir dos embates entre distintas concepções acerca do papel que ela deveria
cumprir no âmbito de um projeto de industrialização na periferia do
capitalismo, com foco nas movimentações das classes dominantes. No capítulo 2,
“As primeiras gerações de petroleiros”, Luci Praun complementa tal abordagem,
reconstruindo as trajetórias de vida de sete trabalhadores que atuaram na empresa
entre as décadas de 1950 e 1960, articulando-as às lutas operárias mais gerais
do período e aos avanços verificados no âmbito da organização sindical no
pré-golpe. Frequentemente em diálogo com o trabalhismo e com o PCB, petroleiros
que, via de regra, partilhavam origens humildes e pouca ou nenhuma experiência
política prévia, engajaram-se em atividades sindicais, bem como nas massivas
campanhas de defesa da estatal, cristalizadas na palavra de ordem “O Petróleo é
Nosso”, resultando no que Praun identificou como um processo de politização que
os levou a desenvolver um “nacionalismo peculiar” (p. 76).
A
segunda parte do volume, “Empresa estratégica: controlar a Petrobras, derrotar
os petroleiros”, abrange os capítulos 3 a 10, e dá conta de diversos aspectos
da pesquisa referentes ao período da ditadura empresarial-militar. Enquanto o
capítulo 3, “Golpe de 1964 e ‘operação limpeza’ nas unidades da Petrobras”,
assinado por Praun e por Alex Ivo, aborda o imediato pós-golpe, apontando os
vínculos entre o alto comando da estatal e as Forças Armadas, responsáveis pela
perseguição politicamente motivada contra milhares de petroleiros (que incluiu
centenas de Inquéritos Policiais Militares e mais de 500 demissões ainda
naquele ano, para além das graves denúncias acerca de prisões ilegais e tortura
realizadas dentro de instalações da empresa), o texto seguinte, “Sentidos da
militarização da Petrobras”, elaborado por Julio Carvalho, explora os efeitos
da penetração da DSN e do acirramento da Guerra Fria sobre a caserna, elemento
importante para a implementação do controle militar sobre unidades produtivas
“estratégicas”, que resultou num modelo de intensificação da exploração e da
repressão contra seus trabalhadores. O capítulo 5, “Nem episódicas, nem
acidentais”, redigido por Praun e Costa, visa detalhar a estrutura repressiva
montada na Petrobras a partir do golpe, responsável pelo planejamento e pela
execução de uma série de violações de direitos contra seus trabalhadores,
dentro e fora da estatal, e é sem dúvida um dos pontos altos da obra.
No
sexto capítulo, “Ciclo de lutas de 1967-1968, recomposição da ação sindical
petroleira e seus desfechos no pós-AI-5”, Praun e Ivo tratam da retomada da
atividade sindical no período, rapidamente interrompida por um novo ciclo
repressivo. Outro ponto de destaque da obra está no capítulo seguinte, “O
manejo do direito pela ditadura empresarial-militar: o caso do FGTS na
Petrobras”, escrito por Freitas, Praun e Ivo. Aqui, o trio dá conta das
alterações impostas ao direito do trabalho no período, evidenciando as manobras
da estatal para dispensar trabalhadores antes que eles obtivessem estabilidade
em seus postos. O capítulo 8, “Perseguição a trabalhadores homossexuais pela
Petrobras durante a ditadura”, assinado por Freitas e Márcia Costa Misi,
relaciona o conservadorismo ditatorial e o controle moralista que a empresa e
as agências repressivas que operaram desde seu interior buscavam exercer sobre
as vidas pessoais de seus operários.
Avançando
sobre a temática do controle político e complementando aspectos delineados no
capítulo 5, o nono texto, “Tessituras da colaboração empresarial-militar”,
redigido por Praun e Freitas, recupera a atuação da Petrobras em organismos
mais amplos de vigilância e monitoramento, indicando o protagonismo da estatal
nas teias repressivas espalhadas por todo o país, que visavam livrar o mercado
de trabalho brasileiro dos “subversivos” e dos “indesejados”. Tais organismos,
efetivamente, contribuíram para o prolongamento dos ecos de processos
repressivos prévios enfrentados por trabalhadores da Petrobras, por exemplo, ao
colocar demitidos políticos em situação de desemprego crônico, como resultado
do intercâmbio de informações entre empresas e agências de “segurança e
informações” que, na prática, operavam como elaboradoras de “listas sujas”. Por
fim, no capítulo 10, “Punhos erguidos”, Alex Ivo trata do ciclo de lutas de
1978-1983, indicando a importância da militância petroleira no cenário de
enfraquecimento do regime ditatorial.
A
terceira parte da obra, “Fome de petróleo, não importa onde”, engloba os três
capítulos seguintes, e dá conta de temáticas que apenas recentemente passaram a
compor a agenda de investigações acerca da responsabilidade empresarial por
violações de direitos durante os regimes ditatoriais da segunda metade do
século XX. No capítulo 11, “A fome de petróleo: expansão da Petrobras,
repressão e o vínculo com capitais privados”, Julio Carvalho aprofunda a
análise iniciada no capítulo 1, e elenca indícios das vantagens econômicas
obtidas por diretores da estatal durante a ditadura; o décimo segundo capítulo,
“Vila Socó e Pojuca: violações contra comunidades urbanas vulneráveis”,
assinado por Claudia Costa, adentra a seara das violações ambientais, indicando
as relações entre o projeto ditatorial para a empresa e as negligências,
omissões e ações perpetradas pela Petrobras contra as comunidades que habitavam
os arredores de suas refinarias, a partir da análise de dois episódios com
consequências trágicas. Por sua vez, o capítulo 13, elaborado por Marcos de
Almeida Matos em colaboração com Vitor Cerqueira Góis, recupera violações de
direitos dos povos originários, a partir da atuação da estatal na prospecção de
petróleo e gás no Vale do Javari, entre 1972 e 1985.
A
quarta parte da obra, “Lições do passado: olhar o presente, mudar o futuro”,
composta dos capítulos 14 e 15, traz análises de questões candentes no debate
público atual, e que servem de conclusão ao volume. O capítulo 14, “Não há
transição energética numa sociedade do crescimento”, escrito pelo historiador
Luiz Marques a convite dos autores, oferece-nos prognósticos realistas (e,
portanto, nada otimistas) acerca das perspectivas de um declínio da utilização
de combustíveis fósseis, tão necessário quanto distante. Marques arrola ainda
evidências de que “a responsabilidade do Brasil na aceleração do caos climático
situa-se entre as piores do mundo” (p. 300), e de que a Petrobras segue
ignorando as ameaças à biodiversidade oriundas de seu modelo de atuação, a
despeito de incontáveis alertas, pareceres técnicos e graves acidentes.
Encerrando a obra, o capítulo 15, “A necessidade do debate jurídico na luta por
reparações no campo da justiça de transição”, assinado por Freitas e Misi,
esmiúça os sentidos e o alcance das políticas de reparação implementadas desde
a redemocratização no Brasil e, a partir dos resultados do estudo de caso da
Petrobras, propõe uma tipificação das violações comprovadas e dos grupos de
vítimas atingidas, além de indicar possíveis caminhos para uma efetiva política
de memória, justiça e reparação.
Ainda
que brevemente delineadas (Cf. p. 319-322), as tipologias construídas pelos
autores para historiar as relações entre a Petrobras e a ditadura são
abrangentes, e denotam sua preocupação em extrair elementos úteis de
empreitadas similares (como a pesquisa encabeçada pelo Archivo Nacional de la
Memoria na Argentina, responsável pelos dois volumes do relatório
Responsabilidad Empresarial en Delitos de Lesa Humanidad, de 2015),
adaptando-os às especificidades da estatal brasileira. Os resultados obtidos, impressionantes
em si mesmos, tornam-se ainda mais significativos se levarmos em conta que a
metodologia de pesquisa empregada pode ser utilizada com proveito para o estudo
das relações entre a ditadura e outras empresas, setores econômicos e
categorias de trabalhadores.
Particularmente
útil a todos os que se interessam pelo período ditatorial brasileiro, e
fundamental para quaisquer estudos vindouros sobre a Petrobras em perspectiva
histórica, a obra atesta a importância das empreitadas coletivas de pesquisa
para o enfrentamento da problemática da responsabilidade empresarial em
violações de direitos humanos. Mesmo uma equipe altamente qualificada, com
relevantes trabalhos monográficos publicados sobre o assunto, enfrentou
inescapáveis dificuldades para conduzir a pesquisa, e teve de efetuar escolhas
metodológicas (a partir de critérios apresentados na introdução do volume) para
lidar com o gigantismo da documentação sobre a Petrobras e com a abrangência
nacional da atuação da estatal. Note-se que, embora hoje possamos encontrar em
arquivos públicos um volumoso corpus documental oriundo da Petrobras, os
autores puderam perceber que “a disponibilização do material foi precedida de
seleção” (p. 33), estando ausentes, por exemplo, os relatórios e a
correspondência relacionada aos chamados “Planos de Busca”, típicos da
atividade repressiva da empresa no período ditatorial.
Um
debate que a leitura da obra pode suscitar entre os historiadores do trabalho
relaciona-se ao fato de que as perspectivas mais recentes dessa produção
historiográfica, por vezes, parecem não ultrapassar o âmbito de nossa própria
disciplina. Exemplo disso pode ser encontrado na opção tomada pelos autores de
não se aprofundarem na análise das complexas relações entre organizações de
classe, partidos e trabalhadores no período anterior ao golpe (p. 58), muito
embora tal problemática permeie os depoimentos apresentados ao longo do
capítulo 2. Ainda que a opção seja compreensível, especialmente diante da
natureza original da obra, formulada com o intuito de comprovar violações de
direitos e fundamentar políticas de reparação, uma abordagem mais atenta às contribuições
da historiografia do trabalho traria nuances importantes às conclusões e
generalizações propostas pelos autores, neste e em outros pontos. Parece-nos
que as investigações acerca dos mundos do trabalho sob a ditadura, mesmo quando
reúnem especialistas de áreas diversas, seguem privilegiando um referencial
eminentemente sociológico, enquanto o diálogo com os acúmulos historiográficos
tende a ocorrer de maneira ilustrativa e incidental. Esse fenômeno talvez
reflita aquilo que Larissa Correa e Paulo Fontes definiram como uma entrada
tardia da historiografia nos debates acerca da ditadura brasileira, e nos
incita a empenhar maiores esforços na divulgação científica e na proposição de
debates interdisciplinares, muito embora a responsabilidade pela incorporação
dessas perspectivas, evidentemente, caiba a todos os profissionais que lidam
com a história dos trabalhadores.
Petrobras
e petroleiros na ditadura não é, portanto, um trabalho que pretenda esgotar as
questões que levanta, e mesmo a análise das violações cometidas no âmbito da
Petrobras deixa margens amplas para seu aprofundamento (especialmente em termos
geográficos, já que os autores optaram por privilegiar a pesquisa acerca das
unidades da empresa situadas nos estados da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo).
Ainda assim, trata-se de um dos mais bem-acabados resultados das investigações
coordenadas pelo CAAF/Unifesp, e sua publicação indica a importância da
colaboração entre diferentes instituições e esferas da sociedade no acerto de
contas com os traumas de nosso passado recente. Além disso, delineia uma das
estratégias que nos parecem mais poderosas para que aqueles que estão
comprometidos com a defesa de valores democráticos e com o “Nunca Mais”
intervenham na disputa, sempre política, da memória social da ditadura:
responder ao negacionismo com evidências empíricas robustas, que põem abaixo a
ideia de que a ditadura respondia aos anseios de uma sociedade supostamente
homogênea, indicando, pelo contrário, que ela surgiu dos (e serviu aos)
interesses das classes dominantes.
Fonte:
Por Richard Martins, no Blog da Boitempo

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