Maurício
Alfredo: O protecionismo de Trump e a guerra silenciosa contra a China e o Sul
global
A volta de Donald Trump à
presidência dos EUA marca
não apenas a reencenação de sua figura política, mas a ressurreição de uma
retórica que remonta aos períodos mais intensos do imperialismo econômico
estadunidense. Em seu segundo mandato, Trump ressurge como o porta-voz de uma
agenda ultranacionalista. Essa abordagem, que mescla apelos emocionais à
suposta grandeza dos EUA com práticas econômicas diretamente inspiradas no
mercantilismo clássico, se revela particularmente preocupante.
Essa
doutrina, que erroneamente enxerga o comércio internacional como um jogo de
soma zero, onde o ganho de um país representa, necessariamente, a perda de
outro, é o que realmente guia a postura protecionista do presidente.
Obsessivamente focado na obtenção de superávits comerciais a qualquer custo,
Trump não hesitaria em renovar sua ofensiva contra acordos multilaterais,
impondo novas barreiras tarifárias e prometendo fortalecer a indústria
doméstica através de um isolacionismo convenientemente calculado.
Essa
estratégia, no entanto, mostra-se anacrônica diante da interdependência que
caracteriza a economia global contemporânea. Ignorar as complexidades das
cadeias de suprimentos, comprometer a lógica cooperativa do comércio
internacional e reduzir a política externa a uma extensão da balança comercial
são práticas que tensionam não apenas as relações comerciais dos EUA, mas
também sua legitimidade como potência articuladora da ordem econômica global. A
pergunta que se impõe, portanto, é: quem ainda acredita que o mundo pode
voltar a caber nas fórmulas simplistas de um mercantilismo de
ocasião?
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A crise econômica e o colapso da “prosperidade americana”
O pano
de fundo da nova narrativa trumpista é uma economia em transição turbulenta. A
inflação, com taxas próximas a 3% em 2024, teima em desafiar os mecanismos
convencionais do Federal Reserve, que tem como meta 2%1. O endividamento
interno também atinge patamares históricos, superando US$36 trilhões em 2024 e
representando mais de 120% do PIB2. Além disso, os efeitos de uma
desindustrialização prolongada continuam a corroer as bases do chamado “American
Dream“. Segundo dados sobre a economia dos EUA, o setor manufatureiro
diminuiu sua participação no PIB de cerca de 25% no pós-guerra para
aproximadamente 11% atualmente, e sua fatia no emprego total caiu de
aproximadamente 30% para menos de 10%3.
As
estatísticas também mostram uma enorme concentração de riqueza na economia
estadunidense. Nas últimas décadas, a desigualdade de renda e riqueza aumentou
significativamente, com dados indicando que o 0,1% no topo da pirâmide social
detém nada menos do que 13,8% da riqueza total dos EUA – um nível recorde que,
quatro anos antes, era de 13%4.
Trump
se aproveita dessas fissuras para resgatar o discurso da “América esquecida”,
exatamente a mesma retórica que o alçou ao poder em 2016. Contudo, sua proposta
de solução não passa de um revivalismo ideológico que combina nostalgia
econômica, agressividade retórica e políticas que, na prática, pouco ou nada
alteram a estrutura do sistema que marginaliza boa parte da
população.
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A retórica mercantilista e o fetiche das tarifas
O
coração econômico da agenda de Donald Trump reside em sua tentativa anacrônica
de ressuscitar uma lógica mercantilista no século XXI. Ao eleger o déficit
comercial como símbolo da decadência americana e ao apontar a China e o México
como os principais vilões, Trump construiu uma retórica agressiva contra o
livre comércio que lhe rendeu forte adesão em estados desindustrializados. Sob
o lema do “America First“, propôs tarifas e sanções com o objetivo
declarado de “proteger a indústria americana”, embora, na prática, tenha
promovido uma guerra comercial de resultados ambíguos, marcada mais por efeitos
colaterais do que por ganhos estruturais.
De
fato, tarifas significativas foram aplicadas sobre o aço e o alumínio (25% e
10%, respectivamente), além de uma vasta gama de produtos chineses. Mas, as
efetividades dessas medidas foram mitigadas, muitas foram revertidas, atenuadas
ou mesmo ignoradas em sua aplicação. Como demonstra Vasconcelos (2019), O
discurso protecionista, nesse cenário, serviu mais como um mecanismo de
mobilização política e de apelo à base eleitoral do que como um instrumento
econômico consistente para reverter a desindustrialização. Além disso, o
aumento de preços provocado pelas tarifas não só gerou um desarranjo
significativo nas cadeias de produção globais, mas também penalizou diretamente
o consumidor estadunidense. Foram eles que, ironicamente, arcaram com os custos
repassados pelas empresas importadoras, uma contradição cruel para um governo
que prometia devolver prosperidade ao “povo trabalhador”5.
Na
realidade, o protecionismo de Trump funcionou como cortina de fumaça para
ocultar a ausência de um projeto industrial estruturado e de longo prazo. Não
houve investimento coordenado em inovação tecnológica, nem esforço sério de
requalificação da força de trabalho. Em vez disso, o governo reforçou sua
dependência do complexo militar-industrial e da lógica rentista de Wall
Street o que, como argumenta Fiori (2018), é coerente com a forma
histórica de acumulação de capital nos EUA. A promessa de reconstruir a base
industrial americana converteu-se em peça de marketing político,
sem sustentação técnica ou orçamentária. Segundo Noam Chomsky (2020), essa
contradição é estrutural ao trumpismo, que (…) “mobiliza afetos de classe sem
jamais tocar nos fundamentos materiais do poder econômico”.
Dessa
forma, a retórica do “America First“, ao invés de inaugurar uma nova era
de soberania produtiva, encobriu a ausência de um projeto industrial robusto.
Baseada no fetiche das tarifas e no mito da autossuficiência nacional, a
retórica mercantilista de Trump operou como uma cortina de fumaça, pois
enquanto promovia o antagonismo externo como forma de coesão interna,
perpetuava as desigualdades estruturais e aprofundava o esvaziamento do Estado
como planejador e investidor estratégico.
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O Brasil no alvo: Protecionismo ou contenção geopolítica?
Embora
o foco retórico de Trump tenha sido a China, o Brasil também se tornou alvo de
suas novas medidas tarifárias. Em 9 de julho, Trump anunciou a aplicação de uma
tarifa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto. Em
suas justificativas, alegou desequilíbrios tarifários e não-tarifários e
criticou decisões do STF sobre o ex-presidente Bolsonaro.
No
entanto, a justificativa esbarra em dados concretos, uma vez que os EUA mantêm
superávit comercial com o Brasil, que chegou a US$ 1,7 bilhão no primeiro
semestre de 2025, um crescimento de 500% em relação a 20246. A questão,
portanto, não é econômica, mas geopolítica.
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Diante da afirmação, cabe a seguinte pergunta: Quais os verdadeiros motivos da
tarifação de Trump sobre o Brasil?
As
tarifas impostas ao Brasil por Donald Trump vão além do discurso nacionalista:
operam como instrumento de contenção geopolítica frente ao avanço chinês na
América Latina.
Em maio
de 2025, o artigo “A geopolítica dos bilhões: Brasil, China e a nova ordem
global”, chama atenção para o crescimento expressivo das relações
bilaterais entre Brasil e China, especialmente a partir de um novo aporte de R$
27 bilhões (cerca de US$ 5,2 bilhões) destinados a setores estratégicos da
economia brasileira. O objetivo não era apenas econômico, mas geopolítico:
consolidar o Brasil como protagonista na cooperação entre os países do Sul
Global.
Segundo
Alfredo, esses investimentos devem ser interpretados à luz das transformações
estruturais em curso na geoeconomia mundial e da ascensão da China como ator
central na redefinição da ordem internacional. No contexto da Nova Rota da Seda
(Belt and Road Initiative), lançada em 2013, Pequim não apenas amplia
sua presença no Sudeste Asiático, na África e no Leste Europeu, mas avança
decisivamente sobre o Sul Global, financiando obras de infraestrutura,
controlando ativos estratégicos e promovendo alianças energéticas e
tecnológicas.
As
tarifas impostas ao Brasil devem ser compreendidas como parte de uma reação
estratégica à crescente presença chinesa na América Latina. Com essa medida,
Trump sinaliza claramente que os EUA não admitem concorrência ou autonomia na
periferia do sistema, especialmente quando essa autonomia se articula com a
potência rival chinesa, buscando resguardar interesses em uma região
historicamente vista como zona de influência exclusiva dos Estados
Unidos.
Sobrinho
(2025) aponta que “enquanto os EUA erguem barreiras comerciais contra aliados
na América Latina, (…) a China avança sobre o continente investindo bilhões em
infraestrutura para intensificar sua presença na região”.
O
“tarifaço” sobre as exportações brasileiras deve, portanto, ser compreendido
como parte de uma guerra geopolítica em curso, na qual a economia funciona como
campo de batalha e o protecionismo atua como pretexto. A disputa por hegemonia
na América Latina não se dá mais apenas por meio de golpes, bases militares ou
fundos de investimento: ela agora passa pelo controle de fluxos logísticos,
cadeias produtivas, tecnologias estratégicas e infraestrutura crítica. Ao punir
o Brasil por estreitar laços com a China, Washington envia uma mensagem clara
não aos mercados, mas aos governos do Sul Global: quem buscar autonomia, pagará
o preço.
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O imperialismo sem projeto
Ao
contrário das grandes reconfigurações lideradas pelos EUA no século XX, como o
pragmatismo do New Deal ou a reconstrução do pós-guerra, a
agenda internacional de Trump é marcada por improvisação, personalismo e um
notável vazio estratégico. Sua retórica aguerrida, frequentemente direcionada
contra a China, o Irã e até mesmo aliados históricos da OTAN, não se traduziu
em uma hegemonia renovada, mas sim instabilidade geopolítica e uma considerável
perda de legitimidade global.
A
promessa de “America First” revelou-se, na prática, uma dolorosa “America
Alone”. Ao abandonar acordos multilaterais cruciais como o Acordo de Paris
sobre o clima, e ao enfraquecer deliberadamente instituições internacionais
como a OMC e a OMS, o trumpismo expôs sua natureza unilateralista, descolada de
qualquer projeto coerente de reorganização da ordem global. Taís em seu
artigo “O retorno do mercantilismo na América de Donald Trump”, aponta que o
trumpismo “reeditou a lógica mercantilista sem oferecer as soluções de longo
prazo que o próprio mercantilismo clássico buscava, como o fortalecimento do
Estado e a construção de uma base produtiva sólida”. O resultado é que sua
estratégia contribuiu mais para a corrosão da ordem liberal internacional,
criada no pós-guerra e sustentada por Washington, do que para a formulação de
uma nova arquitetura geopolítica.
Em vez
de recolocar os Estados Unidos no centro do tabuleiro mundial como potência
incontestável, a política isolacionista de Trump gerou não apenas desordem
externa, mas também um colapso interno via populismo reacionário que minou
consensos democráticos como, o enfraquecimento da imprensa, do sistema
eleitoral e nas instituições judiciais. Ao mesmo tempo, seus estragos
diplomáticos desestabilizaram aliados históricos e estratégicos, revelando um
império em declínio, mais reativo do que reformulador.
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Considerações finais
A
agenda imperialista de Donald Trump configura um edifício erguido sobre ruínas:
sejam elas econômicas, sociais ou simbólicas. Promete restaurar uma grandeza
americana, mas sem apresentar caminhos sustentáveis para tal feito. Invoca um
protecionismo vazio, incapaz de romper com a lógica neoliberal que ele próprio,
por outras vias, acaba por reforçar. Trata-se, em essência, de uma farsa
ideológica que se sustenta muito mais pelo ressentimento social, mobilizado em
forma de medo, hostilidade e recuo civilizatório do que por um projeto factível
ou pela própria realidade econômica.
A
verdadeira questão que se impõe, portanto, não é meramente quem ainda deposita
sua fé em Trump, mas sim o que a persistência e o avanço dessa crença revelam
sobre os limites da democracia liberal e a profunda crise do projeto imperial
americano em pleno século XXI.
¨
Antonio Prado: Trump e a estratégia do absurdo negociado
Donald
Trump tem um estilo de negociação próprio, que rompe com os protocolos
tradicionais da diplomacia. Ele se apoia em uma verdade incontestável: o acesso
ao mercado norte-americano é um ativo de altíssimo valor para países e empresas
de todo o mundo. Mas, a partir desse fato, simula um poder absoluto — como se
os Estados Unidos pudessem impor qualquer condição, em qualquer circunstância,
sem custo ou consequência.
Este
simulacro de soberania ilimitada ignora a realidade central do mundo
contemporâneo: a interdependência dos mercados, das cadeias produtivas e das
instituições multilaterais. Trump sabe disso, mas atua como se não soubesse.
Impõe exigências econômicas extravagantes. E faz mais: introduz no processo de
negociação exigências que não podem ser atendidas, sob pena de violar a
soberania ou os princípios constitucionais do país interlocutor.
É o que
se viu em diversos episódios:
• Com o
Canadá, impôs tarifas sem precedentes desde a criação do NAFTA e culpou o
Canadá pela crise do fentanil, ao não controlar adequadamente sua fronteira ao
tráfico da droga, que já matou milhares nos EUA.
• Com o
México, também condicionou as relações comerciais à já fracassada “guerra
contra as drogas”, como se o problema da demanda interna nos EUA fosse
irrelevante, mas que, na verdade, mostra a incapacidade deste país de combater
com eficácia o tráfico de drogas.
• Com a
Dinamarca, propôs a compra da Groenlândia, território autônomo com população e
governo próprios, rompendo com qualquer lógica geopolítica ou ética.
• Com a
União Europeia, ele instaurou um ambiente constante de tensão, utilizando
tarifas como forma de pressão política e manteve o rompimento com a OTAN no
horizonte de possibilidades.
• E
agora, no caso brasileiro, insinua que a liberação do ex-presidente Jair
Bolsonaro — réu perante o Supremo Tribunal Federal — seria condição inescapável
para melhorar o diálogo bilateral e permitir a negociação da tarifa absurda de
50% nas importações dos EUA.
Essa
prática revela uma estratégia recorrente: lançar exigências impossíveis, que
estão fora do campo técnico e do escopo da negociação. O objetivo não é obter
concessões razoáveis, mas sim desnortear o interlocutor, colocá-lo em uma
posição defensiva e deslocar o debate para uma lógica de força. É a negação do
multilateralismo, que nunca foi fácil, mas que criou um marco legal para as
negociações comerciais entre países.
Esta
estratégia de Trump faz parte de um modelo de diplomacia de intimidação, que se
ancora na assimetria de poder real, mas a explora por meio do absurdo e da
extravagância retórica. Em lugar de buscar acordos estáveis, Trump prefere
impor constrangimentos e chantagens, criando uma atmosfera na qual o outro lado
não tem margem para negociação legítima, a não ser se submeter ao arbítrio e
capitular.
No
Brasil, é fundamental que se mantenham os princípios constitucionais e a
autonomia das instituições. A sugestão — ainda que indireta — de que o
presidente da República possa interceder em favor de um réu no STF para obter
benefícios diplomáticos é inaceitável. Não há margem, em um Estado democrático
de Direito, para que se negocie fora dos marcos da legalidade.
Ao
contrário do que Trump tenta fazer parecer, não se trata de uma disputa entre
vontades políticas. Trata-se de um limite institucional inegociável.
O
Brasil deve se relacionar com os Estados Unidos — como com qualquer parceiro —
com pragmatismo e responsabilidade. Mas sem jamais ceder à lógica da submissão
ou da intimidação. É assim que se defende a soberania nacional.
¨
A regra da política externa de Trump
é acabar com as regras
Na
semana passada, após o envio de uma carta do presidente americano ao presidente
Lula, o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) iniciou uma investigação comercial sobre o Brasil
em função de alegações como: proteção inadequada dos direitos de propriedade
intelectual e práticas que prejudicam a competitividade das empresas no setor
de comércio digital e serviços de pagamento, e até a recente decisão do Supremo
Tribunal Federal que introduziu um novo regime de responsabilidade de
intermediários no país.
O
movimento do governo americano, apesar de surpreendente, não é novo: Trump
anunciou a imposição de tarifas a vários países ao redor do mundo, e em alguns
destes espaços tem usado a estratégia para evitar a aplicação ou atualização de
regras sobre Plataformas digitais que possam – eventualmente – gerar mais
custos de implementação de regulações sobre o ambiente digital. Um dos
principais exemplos é o da União europeia, lá a representação dos Estados
Unidos no bloco enviou uma carta sobre o
recém-publicado Código de Prática sobre modelos de inteligência artificial de
uso geral e, logo no início do ano, declarações do vice-presidente
americano,
JD Vance, têm apontado para a importância do desenvolvimento de tecnologias sem
freios regulatórios.
Ao
longo dos últimos seis meses, as novas diretrizes do Governo Trump têm
desestabilizado o debate em torno de direitos digitais e direitos humanos. E
pontos como o abandono do apoio aos objetivos de
desenvolvimento sustentável até o desmantelamento de agências
internacionais de desenvolvimento e o extermínio de departamentos e
gabinetes do
Departamento de Estado responsáveis por lidar com abusos de direitos humanos,
são alguns dos fatores que vivenciamos. A partir da introdução de tarifas e
posicionamentos muito claros sobre a não intervenção de Estados soberanos sobre
a forma de operação de empresas sediadas no país, Trump acaba formalizando a
clássica falácia sobre “regulações serem impeditivos para a inovação
tecnológica” em uma diretriz e sedimenta uma agenda desreguladora ao nível
global.
O bloco
dos BRICS foi outro ponto de tensão que motivou a investida dos EUA. Os gestos
unilaterais dos americanos para promover conflitos comerciais, políticos e
militares no mundo expõem o desgaste e a necessidade de transformação do
sistema internacional multilateral no concerto entre as nações. Diante deste
cenário, o BRICS tem se estabelecido como um
importante fórum para
coordenação destes esforços transformadores do multilateralismo. Na área
específica de direitos digitais, a declaração do bloco sobre a necessidade
de construção de uma governança global sobre o desenvolvimento e implementação
de sistemas de Inteligência Artificial exemplifica o esforço de articulação
multilateral.
A carta
dos EUA ao Brasil condiciona a ameaça de imposição das tarifas comerciais à
interrupção do julgamento sobre os golpistas de 8 de janeiro de 2023, em
especial o ex-presidente Jair Bolsonaro, sob alegação falsa de ser uma “caça às
bruxas”. A defesa vai além do fato da figura do ex-presidente ser um aliado
subserviente de Washington, se deve, também, ao fato que o campo político da
extrema-direita tem atuado de forma alinhada aos interesses políticos e
econômicos. Exemplo disto foi a forma coordenada com que a bancada de
extrema-direita e as plataformas digitais atuaram para impedir a votação do
Projeto de Lei nº 2.630, em maio de 2023, e seguem tentando desidratar o
Projeto de Lei n. 2338/2023, que visa regular Inteligência Artificial no
Brasil.
Em
suma, os ataques ao Brasil integram uma estratégia mais ampla de defesa e
avanço internacional da desregulação do setor de tecnologia e plataformas
digitais no mundo, bem como completa aversão a regras que possam avançar no
sentido de uma governança equilibrada dos avanços de sistemas de IA. Para o
Brasil, a saída passa, no âmbito doméstico, por fazer avançar uma proposta de
regulação que melhor estruture o regime de responsabilidades e obrigações sobre
as plataformas digitais e demais empresas do setor de tecnologia e, em
articulação com o âmbito internacional, construir e fortalecer mecanismos
multilaterais – como os BRICS – de resguardo ao exercício de autodeterminação
de cada povo e cada país.
Fonte:
Outras Palavras/Le Monde

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