sexta-feira, 25 de julho de 2025

Maria Luiza Falcão Silva: Os últimos suspiros da dinastia Bolsonaro

Durante algum tempo, parecia que a família Bolsonaro chegara para ficar. Com discursos inflamados, presença constante nas redes sociais e uma base fiel que misturava religião, conservadorismo e desconfiança do sistema político, eles dominaram o noticiário, a internet e o poder. Contudo, como toda dinastia que se apoia mais em símbolos e menos em realizações concretas, os sinais de desgaste começaram a aparecer. Agora, passados seis anos da eleição de Jair Bolsonaro à presidência, a pergunta é: será que a era Bolsonaro está terminando?

<<< Do baixo clero ao centro do poder

Jair Bolsonaro foi deputado federal por quase trinta anos, mas era conhecido por pouca gente fora do Congresso. Representava a ala mais reacionária da Câmara, com frases polêmicas e uma defesa cega da ditadura militar. Era parte do "baixo clero" -sem protagonismo, sem grandes articulações. Um parlamentar medíocre, político de nicho.

O ano de 2018, ano de eleições majoritárias, não foi um ano qualquer. O país vinha de um golpe institucional em 2016, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, e da prisão política de Lula, líder nas pesquisas e símbolo de um projeto popular que seguia vivo no imaginário do povo. Com o PT criminalizado dia após dia por uma campanha orquestrada entre setores da mídia, do Judiciário e do mercado, criou-se um ambiente ideal para o avanço da extrema direita.

A Operação Lava Jato, já claramente seletiva, alimentava o antipetismo como força central da política nacional. Sem Lula na disputa, abriu-se espaço para um nome que prometia "quebrar tudo": Jair Bolsonaro. Um político obscuro, ex-capitão expulso do Exército, que transformou discurso de ódio em projeto de poder, apoiado por parte do empresariado, do fundamentalismo religioso e da velha elite ressentida, surfou na onda do antipetismo.

A estranha facada, nunca realmente desvendada, em plena campanha eleitoral o transformou em mártir e acelerou sua consagração. As redes sociais fizeram o resto. Com uma militância digital agressiva, um discurso direto e sem freios, e a bênção de setores evangélicos e das forças de segurança, Bolsonaro chegou à presidência da República.

Foi a eleição do ressentimento. Começava ali a dinastia Bolsonaro — agressiva, familiar, digital e sem compromisso com a verdade.

Junto com ele, vieram os filhos: Flávio no Senado, Carlos na estratégia digital e Eduardo na Câmara como “embaixador informal” da extrema direita global. Nascia ali o projeto de uma dinastia, com cada membro da família ocupando um espaço específico do poder.

<<< O reinado: entre o caos e o controle

Durante o governo, o bolsonarismo se organizou como um projeto autoritário, mas com aparência de democracia. O discurso era de combate à velha política. O que se viu, no entanto, foi o uso descarado do orçamento secreto, a compra de apoio parlamentar, o loteamento de cargos. O Brasil mergulhou, consciente ou não, num ciclo autoritário com verniz democrático.

Na pandemia, o negacionismo bolsonarista, matou mais de 700 mil pessoas dais quais estima-se que 400 mil poderiam ter sido evitadas. As vacinas chegaram propositadamente tarde, o país virou pária internacional e as instituições, do Supremo Tribunal Federal à imprensa, foram atacadas dia sim, dia também. Mesmo assim, Bolsonaro manteve sua base firme, alimentada por uma narrativa de guerra cultural contra os “comunistas”, contra o "sistema", contra a “ciência”, contra qualquer crítica.

Tudo isso funcionava enquanto o líder estava no comando e podia disputar eleições. Mas o segundo mandato não veio.

<<< A queda: inelegibilidade, investigações e desmantelamento

Depois da derrota para Lula em 2022, Jair Bolsonaro não só se recusou a reconhecer o resultado como tentou minar a democracia. As investigações revelaram reuniões de preparação para um golpe de Estado, planos de anular as eleições, articulações com os militares e assassinatos do presidente Lula, do vice-presidente Alckmin e do ministro do STF Alexandre de Moraes. Foi o ponto de ruptura com setores que até então o toleravam ou apoiavam.

Em 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível até 2030. Ele virou um problema jurídico, não só político. Perambula com tornozeleira eletrônica, chorando covardemente à espera de ser preso. A família também começou a desmoronar sob o peso das investigações. Flávio responde por rachadinhas, Carlos por esquemas de espionagem ilegal, Eduardo busca o protagonismo articulando de Miami, com aliados de Trump, medidas punitivas contra o Brasil. Usa o pretexto de combater o “comunismo” para pedir sanções contra o país. A primeira-dama Michelle até tentou posar de sucessora, mas foi rapidamente engolida pelas contradições do clã.

A máquina digital, que já foi afiada e imbatível, perdeu fôlego. As redes ainda existem, os influencers bolsonaristas continuam na ativa, mas sem o mesmo vigor e poder de impacto político e mobilizador. Manifestações a favor da família são cada vez menos numerosas. A extrema direita segue viva, mas começa a se fragmentar.

<<< O bolsonarismo sem Bolsonaro?

Aqui está o ponto central. O bolsonarismo ainda é uma força política no Brasil e está cada vez mais se afastando da figura do ex-presidente. Políticos como Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO) tentam herdar parte desse eleitorado, mas mantendo distância segura do radicalismo bolsonarista raiz. O Partido Liberal (PL), partido que cresceu muito com Bolsonaro, já ensaia um novo rumo, mais institucional, menos incendiário. Tenta se descolar do clã.

Mesmo os militares, que foram peça-chave do governo, agora parecem estar mais preocupados com sua imagem institucional do que com aventuras golpistas. Alguns aguardam resultados de inquéritos que podem levá-los à cadeia junto com o capitão. E o empresariado, que embarcou no bolsonarismo em 2018, hoje prefere estabilidade.

Aos poucos, a dinastia Bolsonaro vai sendo empurrada para a irrelevância. Sem poder formal, sem projeto claro e com as investigações batendo à porta, os filhos do ex-presidente tentam manter a chama acesa, mas os ventos da história parecem estar soprando em outra direção.

<<< A história mostra que toda dinastia acaba

A história política do Brasil e do mundo mostra que famílias no poder tendem a cair quando confundem o Estado com seus interesses pessoais. O caso dos Bolsonaro não é exceção. Eles criaram um império baseado no confronto, na mentira, no medo, no enriquecimento familiar às custas de dinheiro público. Não conseguiram construir instituições, alianças ou políticas duradouras.

A dinastia Bolsonaro está ruindo. Pode levar tempo até desaparecer de vez, mas o seu auge já passou. E o Brasil, aos poucos, começa a respirar outros ares. A democracia resiste.

<><> Bolsonaro vai a culto evangélico com aliados e chora diante das câmeras de TV

Na manhã desta quinta-feira (24), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) compareceu a um culto evangélico e foi flagrado chorando diante das câmeras no momento em que era divulgada a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que afastou, por ora, a possibilidade de sua prisão preventiva. As informações são da Veja.

A cerimônia ocorreu com a presença de aliados, como o senador Magno Malta (PL-ES), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o filho mais novo do ex-presidente, o vereador Jair Renan Bolsonaro (PL-SC). Imagens compartilhadas nas redes sociais mostram Bolsonaro emocionado, com lágrimas nos olhos. Um pedaço da tornozeleira eletrônica que ele passou a usar na última semana apareceu sob a calça, mas o ex-presidente não comentou o equipamento.

Segundo a CNN, Bolsonaro autorizou a entrada da imprensa e a captação das imagens no local, mas não concedeu entrevistas. O culto ainda não havia terminado quando a decisão de Moraes foi divulgada.

A manifestação do ministro ocorreu após a defesa de Bolsonaro protocolar um pedido de esclarecimento na terça-feira (22), solicitando que o STF especificasse os limites das medidas cautelares impostas. Moraes respondeu nesta quinta, autorizando o ex-presidente a conceder entrevistas à imprensa, desde que respeite as demais restrições: o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica, o recolhimento domiciliar entre 19h e 6h e a proibição de utilizar redes sociais — inclusive por meio de terceiros.

Na decisão, Moraes advertiu que qualquer tentativa de driblar as medidas pode levar à prisão preventiva. O ministro citou, inclusive, que se o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, fizer postagens sobre o pai em suas redes sociais, isso poderá ser interpretado como descumprimento da ordem judicial. “A Justiça é cega, mas não é tola”, escreveu Moraes.

Na última segunda-feira (21), poucas horas após o ministro ter reiterado a proibição do uso de redes sociais, Bolsonaro foi à Câmara dos Deputados, onde mostrou a tornozeleira eletrônica a jornalistas e falou brevemente com a imprensa. O gesto levou Moraes a dar 24 horas para que a defesa esclarecesse se houve violação das cautelares.

Desde sexta-feira passada (19), Bolsonaro está proibido de utilizar redes sociais, de sair de casa à noite e permanece sob monitoramento por tornozeleira, por determinação do STF no inquérito que apura tentativa de golpe de Estado.

¨      Marcia Carmo: Lula e a ampliação do campo progressista em tempos de Trump, ‘o’ admirado por Bolsonaro

Na segunda-feira, no histórico Palácio presidencial La Moneda, em Santiago, cinco líderes do campo progressista se reuniram no encontro “Democracia Sempre”. Foi a segunda edição do encontro que nasceu, no ano passado, por iniciativa do presidente Lula e do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez. Esse grupo continua crescendo. 

Na capital chilena estavam os presidentes Lula, Yamandú Orsi, do Uruguai, Gustavo Petro, da Colômbia, e o anfitrião Gabriel Boric. Boric tem menos de um ano de mandato pela frente. Passará a faixa presidencial no dia 11 de março de 2026, após as eleições presidenciais de novembro deste ano. No Chile o mandato é de quatro anos e sem reeleição. 

A presença dos líderes internacionais do campo progressista na segunda-feira, em Santiago, acabou virando tema de campanha. Na esquerda, unida em torno do nome da presidenciável Jeannette Jara, do Partido Comunista, o “Democracia Sempre” foi aplaudido. Na extrema-direita chilena, simpatizante de Trump e de Bolsonaro, surgiram críticas contra o encontro. “Está nascendo um grupo grande”, disse Boric. 

Em setembro, quando será realizada a Assembleia das Nações Unidas, em Nova York, o grupo terá novos participantes, com os líderes do México, de Honduras, da África do Sul, do Canadá, da Inglaterra, da Austrália e da Dinamarca. Eles têm preocupações em comum: as desigualdades social e econômica, o papel das Big Techs, o meio ambiente, os imigrantes, a desinformação, o discurso de ódio e....Trump. 

No início deste século, a afinidade política e objetivos similares eram parte do diálogo frequente entre Lula, Mujica, Tabaré Vázquez e outros presidentes da América do Sul. A meta agora é que, em defesa do multilateralismo e de uma democracia sólida, ganhe força o combate ao que o espanhol Pedro Sánchez chamou de “internacional anti reacionária”.

¨      Réu no 8 de janeiro, delegado da PF chora no STF e culpa PMDF por omissão

O delegado da Polícia Federal Fernando de Souza Oliveira chorou ao prestar depoimento nesta quinta-feira (24), em audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), e negou qualquer participação no plano golpista que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023. Réu no processo, Oliveira é acusado de ter se omitido enquanto exercia o cargo de secretário-executivo da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, órgão diretamente envolvido na resposta institucional ao ataque que depredou as sedes dos Três Poderes.

“Jamais arriscaria a minha vida profissional, a minha família, em prol de qualquer ação de qualquer pessoa que não conheço”, disse, emocionado, interrompendo a fala por diversas vezes. “Não conheço qualquer militar ou político.”

No início do depoimento, transmitido ao vivo pelos canais do STF, Oliveira buscou rebater a principal acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR): a de que teria sido omisso diante da escalada golpista. Segundo ele, houve uma ruptura por parte da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), que ignorou o planejamento elaborado no Plano de Ação Integrada (PAI) — documento elaborado para proteger a Esplanada dos Ministérios.

“Não sei por que a PM não cumpriu nada que foi estabelecido no PAI”, afirmou.

De acordo com o delegado, ele próprio inspecionou, no dia 8 de janeiro, as barreiras montadas na Esplanada por volta do horário do almoço e foi tranquilizado pelo comando da PM sobre a suficiência da operação. Quando os atos violentos começaram, Oliveira afirmou ter assumido de imediato o gabinete de crise, pedido reforço e acionado o governador Ibaneis Rocha.

“Peço desesperadamente que sejam colocadas todas as tropas no Supremo Tribunal Federal e no Palácio do Planalto, porque já estavam entrando no Congresso, e eu queria ali salvar os prédios dos outros poderes”, relatou.

Ele também disse que foi surpreendido pela ausência de Anderson Torres, então secretário de Segurança Pública, que havia viajado para o exterior mesmo ciente da possibilidade de distúrbios no domingo. “Questionei sobre a viagem. Ele disse que confiava na PMDF e no plano, que julgou perfeito.”

<><> Acusações da PGR vão além da omissão

Fernando Oliveira integra o chamado “núcleo 2” da suposta trama golpista, formado por servidores de alto escalão que teriam gerenciado ações para reverter o resultado das eleições de 2022 e manter Jair Bolsonaro no poder. Ele responde a cinco crimes: organização criminosa armada, golpe de Estado, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. As penas, somadas, podem ultrapassar 30 anos de prisão.

Além da conduta nos atos do 8 de janeiro, a PGR acusa o delegado de, quando ocupava cargo no Ministério da Justiça, ter ordenado a produção de relatórios para tentar vincular o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva ao crime organizado. Oliveira nega. Disse que entrou no ministério ainda sob gestão de André Mendonça, hoje ministro do STF, e que foi escolhido por seu perfil técnico.

Também justificou a mudança para Brasília por razões pessoais: o casal tentava ter filhos e buscava acesso a melhores tratamentos de fertilidade.

 

Fonte: Brasil 247

 

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