Aliados
de Israel veem cada vez mais evidências de crime de guerra em Gaza
Dois
anos atrás, o Hamas estava dando os
últimos retoques em seu plano para atacar Israel. Em Israel, o
primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, acreditava que
os palestinos eram um
problema a ser administrado. A verdadeira ameaça, ele insistia, era o Irã.
A
retórica de Netanyahu contra o Hamas permanecia inabalável, mas ele também
havia dado permissão para o Catar enviar dinheiro para Gaza. Isso abria espaço
para suas verdadeiras prioridades na área de política externa — confrontar o
Irã e encontrar uma maneira de normalizar as relações com a Arábia Saudita.
Em
Washington, o então presidente Joe Biden e seu governo
acreditavam que estavam próximos de fechar um acordo entre os sauditas e os
israelenses.
Tudo
não passou de uma série de ilusões.
Netanyahu
se recusou a abrir um inquérito para investigar os erros que cometeu, junto ao
seu Exército e chefes de segurança, que deram ao Hamas a oportunidade de atacar
seu território com um efeito tão mortal em 7 de outubro de 2023.
O conflito de um século entre judeus e
árabes pelo controle da terra entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo estava sem
resolução, se agravando e prestes a explodir em uma guerra que parece ser tão
significativa quanto seus outros marcos, em 1948 e 1967.
O Oriente Médio se transformou
desde aquele 7 de outubro e, quase dois anos após o início da guerra, o
conflito em Gaza se encontra em outro ponto de inflexão.
Essa
tem sido uma guerra difícil de ser coberta pelos jornalistas.
Eles
foram pegos de surpresa no dia 7 de outubro, quando o Hamas atacou e, desde
então, Israel proibiu jornalistas internacionais de fazer reportagens
livremente em Gaza. Os jornalistas palestinos dentro da Faixa de Gaza fizeram
um trabalho extraordinário, e quase 200 foram mortos no exercício de suas
funções.
Mas os
principais fatos são claros. O Hamas cometeu uma série de crimes de guerra nos
ataques que lançou em 7 de outubro, matando 1,2 mil pessoas, sobretudo civis
israelenses. O Hamas fez 251 reféns, dos quais acredita-se que talvez 20 ainda
estejam vivos em Gaza.
E há
evidências claras de que Israel cometeu uma série de crimes de guerra desde
então.
A lista
de Israel inclui a fome dos civis de Gaza, a falha em
protegê-los durante as operações militares nas quais as forças israelenses
mataram dezenas de milhares de inocentes, e a destruição indiscriminada de
cidades inteiras de uma maneira que não é proporcional ao risco militar que
Israel enfrenta.
Netanyahu
e seu ex-ministro da Defesa são alvo de mandados de prisão por crimes de
guerra emitidos
pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Eles insistem em sua inocência.
Israel
também condena um processo na Corte Internacional de
Justiça (CIJ) que
alega que o país está cometendo genocídio contra os palestinos. Israel nega as
acusações e compara o processo a um "libelo de sangue" — uma falsa
alegação de que judeus assassinaram cristãos para usar o seu sangue em rituais
antigos — antissemita.
Israel
está ficando sem amigos. Os aliados que se uniram após os ataques do Hamas em 7
de outubro perderam a paciência diante da conduta de Israel em Gaza.
Até
mesmo o aliado mais importante de Israel, Donald Trump, estaria perdendo a
paciência com Netanyahu depois de ter sido pego de surpresa quando o líder
israelense ordenou o bombardeio de Damasco — atacando o
novo regime da Síria, que Trump
reconheceu e encorajou.
Outros
aliados ocidentais de Israel perderam a paciência meses atrás.
Outra
declaração conjunta, condenando as ações de Israel, foi assinada em 21 de julho
pelos ministros das Relações Exteriores do Reino Unido, de grande parte da
União Europeia, do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia e do Japão. Eles
usaram palavras fortes para descrever o sofrimento dos civis em Gaza e o
sistema de distribuição de ajuda humanitária falho e mortal
administrado pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla
em inglês), que Israel introduziu para substituir os métodos testados e
confiáveis usados pela ONU e pelos principais grupos de ajuda humanitária a
nível global.
"O
sofrimento dos civis em Gaza atingiu novos patamares", diz o comunicado.
"O
modelo de fornecimento de ajuda do governo israelense é perigoso, alimenta a
instabilidade e priva os habitantes de Gaza da dignidade humana. Condenamos o
fornecimento de ajuda a conta gotas, e a morte desumana de civis, incluindo
crianças, que buscam atender às suas necessidades mais básicas de água e
comida. É aterrorizante que mais de 800 palestinos tenham sido mortos enquanto
buscavam ajuda."
"A
negação da ajuda humanitária essencial à população civil por parte do governo
israelense é inaceitável. Israel precisa cumprir suas obrigações de acordo com
o direito humanitário internacional."
David
Lammy, secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, fez um discurso, após
a divulgação da declaração conjunta, usando uma linguagem semelhante, no
parlamento do Reino Unido.
Isso
não foi suficiente para os parlamentares do Partido Trabalhista (governista),
que querem que palavras fortes sejam acompanhadas por ações fortes. Um deles me
disse que havia "fúria" diante da relutância do governo em agir de
forma mais decisiva. No topo da agenda deles, está o reconhecimento de um
Estado palestino, o que já foi feito pela maioria dos membros das Nações
Unidas. O Reino Unido e a França discutiram a possibilidade de fazer isso em
conjunto, mas até agora parecem acreditar que não é o momento certo.
O
parlamento de Israel, conhecido como Knesset, está a poucos dias do seu recesso
de verão, que vai durar até outubro. Isso significa que Benjamin Netanyahu vai
ter uma folga da ameaça de um voto de desconfiança dos nacionalistas
extremistas em sua coalizão que se opõem a um cessar-fogo em Gaza. A relutância
de Netanyahu em negociar uma trégua é resultado das ameaças deles de deixar seu
governo. Se Netanyahu perdesse o poder em uma eleição, o dia do acerto de
contas pelos erros cometidos em 7 de outubro — assim como o fim de seu longo
julgamento por corrupção — se aproximaria rapidamente.
Um
cessar-fogo parece mais possível, uma chance de sobrevivência para os civis de
Gaza e para os reféns israelenses que são prisioneiros do Hamas há tanto tempo.
Nada
disso significa que o conflito vai terminar. A guerra o levou a novos
patamares. Mas se houver um cessar-fogo, haverá outra chance de trocar a
matança pela diplomacia.
¨ Israel reedita práticas nazistas em
Gaza; silêncio torna União Europeia cúmplice
Em
Gaza, a morte já não é uma notícia que causa espanto. O sangue que escorre
diariamente sob o cerco e os bombardeios já não é apenas um episódio efêmero,
mas transformou-se em parte da rotina da vida. Contudo, o que acontece hoje em
Gaza não pode ser tratado como números abstratos ou cenas passageiras nos
noticiários: é uma repetição grosseira e aterradora dos capítulos mais
horrendos da história humana, com métodos assustadoramente semelhantes aos
usados nas câmaras de gás nazistas.
Nos
campos de concentração nazistas, as vítimas eram solicitadas a tirar as roupas
sob o pretexto de banho, recebiam sabão e toalha, e eram conduzidas às câmaras
de gás para serem sufocadas até a morte, sem resistência. Hoje, a mesma
cena se repete, porém, com a linguagem e ferramentas modernas: em Gaza, os
famintos são direcionados para locais supostamente destinados à “ajuda
humanitária”, mas tão logo chegam, são recebidos com tiros de metralhadoras
pesadas, enquanto drones sobrevoam para abater aqueles que tentam escapar do
buraco da morte.
Será
isso mera coincidência? Essas práticas podem ser consideradas inconscientes? Ou
o que acontece ultrapassa o ato militar, representando um ódio sádico
organizado, que visa aterrorizar todo um povo, quebrar sua vontade e destruir
sua estrutura social e humana?
O que
ocorre em Gaza não é uma guerra convencional, mas um projeto de extermínio
sistemático sob o disfarce de “operações de segurança”, onde a fome é usada
como arma, o engano como roteiro e as balas como método para eliminar as
vítimas em seus momentos mais vulneráveis. Como podemos descrever uma cena
na qual os famintos são convocados para receber alimentos e, em seguida, são
exterminados coletivamente a tiros? Não é essa a mesma mentalidade nazista que
o mundo tentou apagar para sempre?
<><>
O sadismo israelense não conhece limites
A
questão ética aqui não se limita a quem dispara as armas, mas estende-se também
a quem justifica, quem se cala e quem é cúmplice pelo silêncio e pelas posições
ambíguas. Israel, que se promove como “a única democracia no Oriente Médio”,
hoje pratica exatamente o oposto de tudo o que representa a democracia,
expandindo seus instrumentos criminosos para além das
fronteiras de Gaza, assassinando assim a consciência do mundo livre.
Se o
silêncio dos regimes cúmplices é esperado, o maior choque está na postura
da União Europeia, que sempre exaltou seus valores humanitários e
cláusulas legais baseadas no respeito aos direitos humanos. Entretanto,
esses valores se evaporam quando o assunto é Israel. Nem mesmo a cláusula
explícita no acordo de parceria comercial Europa-Israel, que exige o respeito
aos direitos humanos, foi suficiente para suspender o acordo diante dos massacres e crimes cometidos contra
civis desarmados.
<><>
União Europeia: parceira pelo silêncio
Com
essa postura, a União Europeia deixa de ser apenas uma observadora impotente e
se torna uma parceira cúmplice. O silêncio
aqui não é neutralidade, mas um apoio implícito ao criminoso, oferecendo uma
cobertura política para que o exército de ocupação continue sua agressão sem
responsabilização.
Continua
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O crime
da fome deliberada, o crime dos ataques durante a distribuição de ajuda
humanitária, o crime de assassinatos em massa com uso de drones… todos estão
documentados com áudio e imagem. Ainda assim, a consciência deste mundo
“civilizado” só se manifesta quando se trata de condenar e demonizar a vítima.
O que
ocorre hoje em Gaza não é apenas um extermínio físico, mas também uma tentativa
de apagar a memória humana e reescrever a história através da força e do
racismo. Porém, este povo, que já enfrentou catástrofes, massacres e
deslocamentos, não pode ser vencido pela fome ou pelo engano. Por mais
prolongado que seja o silêncio mundial, a verdade continuará batendo às portas
e a máscara do sadismo cairá, mesmo que tarde.
¨
Cresce a indignação global sobre a matança de civis
famintos em Gaza por Israel
Israel
está enfrentando uma condenação internacional cada vez maior por matar civis palestinos famintos em Gaza e por
seus ataques aos esforços humanitários, já que o secretário-geral da ONU,
António Guterres, disse que "as últimas linhas de vida que mantêm as
pessoas vivas [na faixa] estão entrando em colapso".
Um coro
furioso de figuras importantes, entre elas o secretário de Relações Exteriores
do Reino Unido, David Lammy , e um alto clérigo católico, expressaram na
terça-feira um crescente sentimento de horror global sobre as ações de Israel.
“Falei
novamente com [o ministro das Relações Exteriores de Israel] Gideon Saar para
relembrar nosso entendimento sobre o fluxo de ajuda e deixei claro que as IDF
[Forças de Defesa de Israel] devem parar de matar pessoas em pontos de
distribuição”, escreveu a chefe de política externa da UE, Kaja Kallas, no X.
“A morte de civis que buscam ajuda em Gaza é indefensável.”
Ela
disse que “todas as opções estavam sobre a mesa” caso Israel não cumprisse as
promessas de ajuda, mas não disse quais eram essas opções.
De
acordo com autoridades da ONU na terça-feira, mais de 1.000 palestinos
desesperados foram mortos pelas forças israelenses desde o final de maio
tentando chegar às distribuições de alimentos administradas pela controversa
Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apoiada pelos EUA e Israel, em
meio a condições crescentes de fome no território palestino.
Os
comentários foram feitos enquanto forças israelenses atacavam armazéns e
acomodações de funcionários em Deir al-Balah, o principal centro de ajuda
humanitária de Gaza, pertencente à Organização Mundial da Saúde .
Os
ataques israelenses às instalações da OMS ocorreram depois que Israel cancelou
o visto de trabalho de Jonathan Whittall, chefe do Escritório da ONU para a
Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) em Gaza e o mais alto funcionário
de ajuda humanitária da ONU na faixa costeira.
Falando
ao Conselho de Segurança da ONU na terça-feira, Guterres descreveu a situação
em Gaza como um "espetáculo de horrores", condenando os ataques
israelenses aos escritórios da ONU.
“A
desnutrição está aumentando e a fome bate a todas as portas em Gaza”, disse
Guterres. “E agora estamos testemunhando o último suspiro de um sistema
humanitário construído com base em princípios humanitários. A esse sistema
estão sendo negadas as condições para funcionar. Negado o espaço para realizar
entregas. Negado a segurança para salvar vidas.”
Os
comentários de Guterres foram feitos horas depois de uma declaração conjunta contundente feita na
segunda-feira por 27 países ocidentais, incluindo Reino Unido, França,
Austrália e Canadá, criticando duramente as restrições de Israel à ajuda
humanitária e pedindo o fim imediato da guerra.
Guterres
disse que "lamentava os crescentes relatos de crianças e adultos sofrendo
de desnutrição", enquanto autoridades de saúde em Gaza relataram mais 33
mortes, incluindo 12 crianças, nas últimas 48 horas.
Lammy
amplificou essa mensagem em uma entrevista à BBC na terça-feira, descrevendo-se
como "horrorizado [e] enojado" com o que
estava acontecendo em Gaza.
“Estas
não são palavras normalmente usadas por um secretário de Relações Exteriores
que está tentando ser diplomático”, disse Lammy.
“Mas
quando vemos crianças inocentes estendendo a mão para pedir comida e as vemos
baleadas e mortas da maneira que vimos nos últimos dias, é claro que a
Grã-Bretanha deve denunciar isso.”
Thameen
Al-Kheetan, porta-voz do escritório de direitos humanos da ONU, disse: “Mais de
1.000 palestinos foram mortos pelos militares israelenses enquanto tentavam
obter comida em Gaza desde que a Fundação Humanitária de Gaza começou a operar.
“Até 21
de julho, registramos 1.054 pessoas mortas em Gaza enquanto tentavam obter
alimentos; 766 delas foram mortas nas proximidades dos locais do GHF e 288
perto de comboios de ajuda da ONU e de outras organizações humanitárias.”
O chefe
da principal agência da ONU para os palestinos, a UNRWA, descreveu Gaza na
terça-feira como um "inferno na Terra".
Philippe
Lazzarini disse que a própria equipe da Unrwa, assim como médicos e
trabalhadores humanitários, estavam desmaiando em serviço devido à fome e
exaustão, já que Israel limitava o acesso à ajuda humanitária vital, e que
muitos estavam sobrevivendo com uma única pequena refeição por dia.
“Cuidadores,
incluindo colegas da UNRWA em Gaza, também precisam de cuidados agora –
médicos, enfermeiros, jornalistas, humanitários, entre eles funcionários da
UNRWA, estão com fome. Muitos estão desmaiando de fome e exaustão enquanto
desempenham suas funções”, disse ele em um comunicado em uma coletiva de
imprensa em Genebra.
O
Programa Mundial de Alimentos da ONU disse na segunda-feira que suas avaliações
mostraram que um quarto da população de Gaza estava enfrentando condições "semelhantes à fome" e quase 100.000
mulheres e crianças estavam sofrendo de desnutrição aguda grave.
A
avaliação mais recente da fome em Gaza feita pela Classificação Integrada de
Fases de Segurança Alimentar (IPC), um grupo que inclui o Programa Mundial de
Alimentos e a OMS, disse que cerca de 10% da população do território — 244.000
pessoas — enfrentavam níveis catastróficos de fome e 93% estavam passando por
altos níveis de insegurança alimentar aguda.
Separadamente,
o clérigo mais antigo da Igreja Católica Romana na Terra Santa disse que a
situação humanitária em Gaza era "moralmente inaceitável", após
visitar o território palestino devastado pela guerra.
“Vimos
homens se expondo ao sol por horas na esperança de uma refeição simples”, disse
Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, em uma coletiva de
imprensa. “É moralmente inaceitável e injustificado.”
O
premiê irlandês, Micheál Martin, também pediu o fim da guerra em Gaza,
descrevendo as imagens de crianças famintas como "horríveis". Martin
pediu que um aumento na ajuda humanitária fosse permitido em Gaza.
Em uma
publicação nas redes sociais, ele disse: "A situação em Gaza é horrível. O
sofrimento de civis e a morte de crianças inocentes são intoleráveis.
“Repito
o apelo dos ministros das Relações Exteriores de 28 países pela libertação de
todos os reféns e por um aumento na ajuda humanitária. Esta guerra precisa
acabar, e precisa acabar agora.”
Apesar
das críticas de alto nível nos últimos dias, agências de ajuda humanitária
criticaram a falta de ações significativas dos governos que assinaram a
declaração conjunta, incluindo o Reino Unido, contra Israel.
Kristyan
Benedict, da Anistia Internacional do Reino Unido, disse que a "falha do
governo britânico em tomar medidas firmes para prevenir o genocídio não é
acidental", acrescentando que "como um estado parte da convenção
sobre genocídio, o Reino Unido tem o dever legal de prevenir e punir o
genocídio — um dever que está falhando miseravelmente em cumprir".
O
crescente furor internacional ocorreu quando tropas israelenses invadiram a
cidade de Deir al-Balah, no centro de Gaza, onde diversas organizações
internacionais de ajuda estão sediadas, no que pareceu ser o mais recente
esforço para dividir o território palestino com corredores militares.
Deir
al-Balah é a única cidade na Faixa de Gaza que não passou por grandes operações
terrestres nem sofreu devastação generalizada em 21 meses de guerra, levando à
especulação de que o grupo militante Hamas mantém um grande número de reféns
lá.
¨
Chefe da OMS diz que fome em massa é "causada pelo
homem" em Gaza
O chefe
da Organização Mundial da Saúde afirmou que uma grande parte da população de
Gaza está passando fome. "Não sei como chamar isso, a não ser fome em
massa — e é uma causa humana", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus.
Enquanto
isso, organizações humanitárias pediram a Israel que aliviasse o bloqueio de ajuda, já
que mais palestinos morriam de fome.
Pelo
menos 10 pessoas morreram de fome nas últimas 24 horas, elevando o número de
vítimas da fome para 111, incluindo 80 crianças, informou a autoridade de saúde
de Gaza na quarta-feira.
Mais de
100 agências de ajuda humanitária já haviam emitido um alerta de que a fome em
massa estava se espalhando por Gaza e instaram Israel a permitir que ajuda humanitária entrasse na faixa
sitiada para aliviar a crescente crise de fome causada pelo homem.
Uma
carta assinada por 109 agências, incluindo Médicos Sem Fronteiras, Oxfam
Internacional e Anistia Internacional, diz que o governo israelense está
impedindo organizações humanitárias de distribuir efetivamente ajuda vital.
“Nos
arredores de Gaza, em armazéns – e até mesmo dentro da própria Gaza – toneladas
de alimentos, água potável, suprimentos médicos, itens de abrigo e combustível
permanecem intocados, com organizações humanitárias impedidas de acessá-los ou
entregá-los”, escreveram as agências. “As restrições, os atrasos e a
fragmentação impostas pelo governo de Israel sob seu cerco total geraram caos,
fome e morte.”
A
declaração citou um trabalhador humanitário em Gaza que disse: “As crianças
dizem aos pais que querem ir para o céu, porque pelo menos o céu tem comida”.
A carta
chega em um momento em que um número crescente de pessoas em Gaza começa a
morrer por falta de alimentos, resultado de uma crise de fome que grupos
humanitários alertavam há meses como iminente. Relatos de pessoas desmaiando de
fome na longa caminhada em direção aos poucos pontos de distribuição de ajuda e
imagens de cadáveres com costelas para fora tornaram-se comuns.
A
distribuição diária de ajuda humanitária equivale, em média, a cerca de 28
caminhões de suprimentos humanitários. Antes da guerra, cerca de 500 caminhões
de ajuda humanitária entravam em Gaza para alimentar seus mais de 2 milhões de
habitantes.
Com o
aumento da fome, os assassinatos de civis por Israel aumentaram. Uma pessoa foi
morta por Israel a cada 12 minutos em julho, tornando-se um dos meses mais
mortais da guerra de Gaza, revelou uma análise de dados da ONU .
Na
quarta-feira, ataques israelenses mataram pelo menos 21 pessoas, mais da metade
delas mulheres e crianças, segundo autoridades de saúde palestinas. O exército
israelense afirmou que os ataques estavam "aprofundando" a atividade
na Cidade de Gaza e no norte de Gaza.
Entre
os mortos estavam dois jornalistas palestinos, Tamer al-Za'anin e Walaa
al-Jabari, que estava grávida, elevando o número
de profissionais da mídia mortos no território para 229 desde o início
da guerra.
Israel
prorrogou a detenção do Dr. Marwan al-Hams, diretor interino dos hospitais de
campanha de Gaza, até o final do mês, informou a Associated Press. Hams foi
preso no início desta semana e tem um ferimento de bala na perna, que teria
sofrido durante sua detenção.
Alimentos
em Israel agora são distribuídos pela Fundação Humanitária de Gaza
(GHF), apoiada pelos EUA e por Israel , cujos locais
foram descritos por funcionários da ONU como " armadilhas mortais ". Reportagens anteriores do Guardian relataram os
perigos enfrentados pelos palestinos que buscam alimentos nos locais da GHF.
O GHF
alega que impede o grupo palestino Hamas de roubar alimentos por meio de seus pontos de
distribuição, um ponto ecoado por Israel. Humanitários têm condenado amplamente
a organização pelo que consideram uma violação dos princípios da ajuda
humanitária e potencial cumplicidade no crime de guerra de transformar a fome
em arma.
Autoridades
da ONU relatam que o exército israelense matou mais de 1.000 palestinos que tentavam
chegar a locais de distribuição de alimentos desde o final de maio.
Israel
matou pelo menos 72 palestinos nas últimas 24 horas , segundo o
Ministério da Saúde de Gaza. Israel também atacou instalações da Organização
Mundial da Saúde em
Deir al-Balah e cancelou o visto do mais alto funcionário humanitário da ONU em
Gaza.
À
medida que a atividade militar israelense em Gaza se intensificava, o ímpeto
por um cessar-fogo parecia crescer. O enviado dos EUA para o Oriente Médio,
Steve Witkoff, viajava para Roma na quarta-feira, onde se encontraria com
o principal conselheiro israelense, Ron Dermer, e negociadores palestinos.
Se
houver progresso no acordo, Witkoff viajará para Doha, onde negociações
indiretas estão ocorrendo entre as duas partes.
Ao
longo da última semana, as divergências entre o Hamas e Israel sobre o acordo
de cessar-fogo foram gradualmente superadas, embora ainda persistam sérios
obstáculos. Uma fonte israelense disse que Israel ainda aguarda uma resposta do
Hamas, que deve ser divulgada no próximo dia.
Em 21
de julho, 28 países, incluindo o Reino Unido e outros
aliados israelenses, emitiram uma declaração pedindo o fim
da guerra em Gaza e classificando a "negação de assistência humanitária
essencial" por Israel como "inaceitável". A declaração também se
manifestou contra a violência dos colonos israelenses na Cisjordânia,
bem como contra os planos israelenses de transferir palestinos para uma
" cidade humanitária ",
descrita por um ex-primeiro-ministro israelense como um "campo de
concentração" e equivalente a uma limpeza étnica.
A
declaração, embora fortemente formulada, não ameaçou impor sanções nem
mencionou quaisquer medidas políticas concretas que seriam tomadas contra o
governo israelense se ele não mudasse de rumo.
A carta
de quarta-feira das organizações humanitárias pede ação direta. “Acordos
fragmentados e gestos simbólicos, como lançamentos aéreos ou acordos de ajuda
falhos, servem como cortina de fumaça para a inação. Não podem substituir as
obrigações legais e morais dos Estados de proteger os civis palestinos e
garantir acesso significativo em larga escala”, afirma.
O
exército israelense disse que “considera a transferência de ajuda humanitária
para Gaza uma questão de extrema importância” e trabalha para facilitar sua
entrada em coordenação com a comunidade internacional.
O grupo
negou as acusações de que estaria impedindo que ajuda chegasse a Gaza e acusou
o Hamas de roubar alimentos, o que o Hamas nega.
Mais de
59.000 pessoas foram mortas em Gaza pela campanha militar de Israel, que
começou após o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, no qual
cerca de 1.200 pessoas foram mortas.
Fonte:
BBC News/Diálogos do Sul Global/The Guardian

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