Miguel Borba de Sá: Como Marx veria as
tarifas de Trump?
Em setembro de 1847, o jovem Karl Marx
compareceu a um congresso de economistas ‘livre-cambistas’ em Bruxelas, na
Bélgica, onde se encontrava exilado. Mas não lhe foi dada a palavra. Pouco
depois, no início de janeiro do ano seguinte, ele teve a chance de expor suas
ideias sobre o assunto ao pronunciar um discurso na Associação
Democrática de Bruxelas, que ele mesmo ajudara a criar, meses antes, e
da qual era vice-presidente. Não sabemos se o fundador do ‘socialismo
científico’ possuía em suas mãos um copo de cerveja ou de vinho. Mas podemos
ter a certeza de que sua fala naquela noite não pode ser compreendida sem
considerar as boas doses de ironia que, aliás, caracterizam a personalidade de
Marx e perpassam toda a obra do comunista alemão.
No ‘Discurso sobre o problema do
livre-comércio’, como o próprio título adianta, Marx apresenta uma reflexão
sobre o posicionamento da classe trabalhadora diante do debate que dividia as
elites capitalistas já naquela época: livre-comércio versus protecionismo
alfandegário. Em termos narrativos, Marx opta por um estilo quase teatral, ao
criar personagens ideal-típicos que verbalizam as diferentes posições de
classes (e frações de classe) envolvidas no debate econômico, criando, assim,
uma espécie de fábula que permite à plateia sentir-se representada e
compreender didaticamente quais são os seus próprios interesses em meio à
cacofonia ideológica daquela discussão intra-burguesa.
Antecipando um estilo alegórico e satírico
que depois seria consagrado por Bertold Brecht em peças como A
Resistível Ascensão de Arturo Ui, Marx inventa diálogos fictícios (porém
bastante verossímeis no debate econômico) nos quais os propagandistas
burgueses tentam convencer os trabalhadores a endossarem suas respectivas
doutrinas econômicas. Tanto protecionistas quanto free-traders buscam
explicar aos operários, camponeses e pequenos comerciantes que suas condições
materiais de existência irão melhorar caso a política que defendem seja
implementada. Os trabalhadores, sempre inteligentes, respondem-nos com
perguntas desconcertantes que vão, aos poucos, desmascarando as promessas de
ambas as teorias burguesas em disputa, bem como as boas intenções dos propagandistas
burgueses, sejam quais forem.
Ao fim, percebem que tanto uns quanto outros
querem transmitir seus interesses particulares como se fossem universais.
Contudo, apesar de toda a pressão ideológica, os trabalhadores do teatro de
Marx não se deixam levar pela falsa consciência e, neste caso, tampouco pela
falsa concorrência oferecida pelos discursos dominantes. Os trabalhadores
chegam à inevitável conclusão de que trata-se de uma disputa sobre que
tipo de capitalismo seria o mais eficiente; quando, em realidade, do
ponto de vista dos interesses de classe do proletariado, a verdadeira questão
deve ser outra: qual das opções, se é que alguma delas, aguça mais as
contradições do capitalismo de modo a abrir caminho para a revolução
social contra este regime?
Ou seja, ao debate intra-burguês sobre como
tornar o capitalismo mais eficiente (e até humanizado), Marx retruca com
indiferença e certo desdém, recolocando os termos da discussão de modo a evitar
que a classe trabalhadora se deixasse levar pela falsa questão que volta e meia
monopoliza a atenção da opinião pública. Afinal, as ideias dominantes
são as ideias da classe dominante, como diz o Manifesto (do mesmo
autor e do mesmo ano, por sinal). A única questão que nos interessa
verdadeiramente, e que jamais podemos esquecer, é como liquidar com o sistema.
Eis o nosso problema, que não pode ser eclipsado pelos problemas das classes
inimigas.
É deste ângulo que devemos analisar o debate
intra-burguês: em vez de eleger um aliado dentre os exploradores, Marx
insiste que é preciso abolir a exploração.
Além disso, prossegue Marx, já com ares
professorais e menos teatrais, trata-se de uma falsa questão até do ponto de
vista puramente econômico, uma vez que livre-comércio e protecionismo são, na
realidade, dois lados da mesma moeda: não se trata de um par
dicotômico que se exclui mutuamente, mas de uma totalidade dialética,
mutuamente constituída. É assim – e somente assim – que pode-se entender a
conclusão de Marx em favor do livre-comércio diante de seus camaradas naquela
fria noite de inverno belga:
“Ademais, o sistema protecionista não é mais
do que um meio de estabelecer em um país a grande indústria, ou seja: de
fazê-lo depender do mercado mundial. Mas, desde o momento em que se depende do
mercado mundial, já se depende mais ou menos, do livre-câmbio. Também o sistema
protecionista contribui para desenvolver a livre concorrência no interior do
país. Por isto, vemos que, nos países em que a burguesia começa a se fazer
valer como classe, na Alemanha, por exemplo, ela realiza grandes esforços para obter
tarifas protetoras. Para ela, estas tarifas são armas contra o feudalismo e
contra o poder absoluto, são, para ela, um meio de concentrar suas forças e de
realizar o livre-câmbio no interior do próprio país”.
Dialeticamente, no entanto, ele conclui:
“Mas, em geral, o sistema protecionista é, em
nossos dias, conservador, enquanto que o sistema do livre-câmbio é
destruidor. Dissolve as velhas nacionalidades e leva ao extremo o
antagonismo entre a burguesia e o proletariado. Numa palavra, o sistema da
liberdade de comércio acelera a revolução social. E só neste sentido
revolucionário, eu voto, senhores, a favor do livre-câmbio”.
Fosse mais apurada, a transcrição do discurso
certamente traria um ponto de exclamação ao final da frase de Marx, que pode
muito bem ter sido seguida de um brinde coletivo e, talvez, de uma grande
gargalhada geral. A ironia de Marx hoje nos faz falta quando chega a nossa vez
de enfrentar o debate hegemônico que os políticos burgueses e seus porta-vozes
na imprensa nos obrigam a participar. A genialidade da postura de Marx reside
justamente no fato de que, apesar de eleger uma dentre das opções dominantes, ele
não sucumbe ao Conto do Vigário de nenhuma delas. Sua conclusão revoluciona o
próprio debate, agora definido entre um modelo ‘conservador’ e outro
‘destruidor’. Nenhum deles nos serve. Marx, a princípio, nos convida a torcer
pela própria briga. Essa é a graça de sua tirada.
Em nenhum momento ele aceita as teses
livre-cambistas sobre o aumento do fluxo global de comércio como benéfico, em
termos absolutos, para todos em toda parte, ainda que desigualmente em termos
relativos. As frases de abertura do discurso já zombam do slogan ‘cheap
food, high wages’ (comida barata, salários altos) difundido pelos free-traders.
Por outro lado, ele tampouco se coloca como defensor de ‘sua’ própria burguesia
nacional, supostamente interessada em garantir empregos e prover salários
dignos domesticamente. Nada disso. Em ambos os casos, Marx nos relembra: os
trabalhadores perdem. Sua crítica da economia política, portanto,
não é direcionada apenas ao liberalismo de Smith e Ricardo, mas também, e
enfaticamente, ao nacionalismo econômico de List e Hamilton, todos capitalistas
à sua maneira.
Hoje, quando os capitalistas mundo afora
novamente se debatem sobre este mesmo tema (ora, que surpresa!) nossa posição
não pode ser a de irrefletidamente tomar um lado, acreditando que este lado
possa ser ‘nosso’ de alguma maneira. Mas é o que tem acontecido,
lamentavelmente. Esta tornou-se a nossa triste ironia atual, que não faria
sorrir nem mesmo o bem-humorado Marx.
Pois quem lutou com sucesso contra a ALCA
poderá agora lamentar as tarifas de Trump contra o aço ‘brasileiro’? Quem
denunciou o livre-comércio e a globalização neoliberal pode agora endossar a
teoria das vantagens comparativas da noite para o dia? Quem uniu-se à
resistência das comunidades impactadas por mega-empreendimentos exportadores,
como a TKCSA/Ternium, no Rio de Janeiro, pode agora mudar de lado sem um pedido
de perdão a estas mesmas comunidades? Quem se consternou com o suicídio de um
camponês coreano em protesto contra a OMC pode agora sentir saudades desta
funesta organização? Somente porque é Trump que está destruindo, a seu modo,
alguns de nossos alvos políticos de décadas devemos então, subitamente, passar
a defendê-los? E, neste caso, sem fazer uma tremenda autocrítica de nossa
posição anterior?
Por fim: estivemos equivocados este tempo
todo e devemos, portanto, jogar a nossa biografia política no lixo?
Parece que não. A verdade é que estamos
equivocados somente agora, ao esquecer da ironia de Marx e de sua metodologia
de análise para casos deste tipo. Em vez de sucumbir perante o canto das
burguesias choronas ou cair na tentação de embarcar na canoa furada
liberal-progressista em seu embate particular contra outros representantes da
Casa Grande global, nós precisamos urgentemente recolocar os termos do debate
em função dos interesses finais (e não apenas os imediatos) das classes
trabalhadoras.
Pois, atualmente, a ironia que emerge do
debate público não é a mesma captada por Marx: é sim, pelo contrário, o fato de
que a nossa incapacidade de afirmar uma linha política própria tem nos
transformado em objeto de chacota das classes dominantes ou em piada de
mau-gosto aos olhos dos setores populares, perplexos com o abandono de todas as
nossas bandeiras de luta justamente na hora em que o debate político mais se
polarizou. Só que agora já não fazemos mais parte de nenhum dos polos. Viramos,
por (des)graça, uma espécie de bobo da corte, vacilante e coadjuvante, nas
intrigas palacianas entre os donos do poder.
¨
Joseph Stiglitz: EUA com
Trump, maior paraíso fiscal global. Por Fernando Nogueira da Costa
Joseph Stiglitz, ex-economista-chefe do Banco
Mundial e ex-presidente o Conselho de Assessores Econômicos da presidência dos
EUA, é professor na Universidade Columbia e prêmio Nobel de Economia.
Seu livro mais
recente é “The Road to Freedom: Economics and the Good Society”.
Abaixo, o artigo de Joseph Stiglitz, citado
no título
EUA com Trump: maior paraíso fiscal global
A passos rápidos, Donald Trump está
transformando os Estados Unidos no maior paraíso fiscal da história. Basta ver:
1. a
decisão de Departamento do Tesouro de se retirar do regime de transparência que
compartilha as identidades reais de donos de empresas;
2. o
abandono pelo governo das negociações para estabelecer uma Convenção de
Cooperação Tributária Internacional das Nações Unidas;
3. sua
recusa em fazer cumprir a Lei Contra Práticas Corruptas Estrangeiras; e
4. a
desregulamentação em massa dos criptoativos.
Isso parece ser parte de uma estratégia maior
para enfraquecer 250 anos de salvaguardas institucionais.
O governo Trump tem infringido tratados
internacionais, ignorado conflitos de interesse, desmantelado os freios e
controles do sistema e retido fundos aprovados pelo Congresso.
O governo não está debatendo políticas
governamentais. Está pisoteando o Estado de Direito.
No entanto, Trump de fato adora um tipo de
imposto: as tarifas de importação.
Ele parece acreditar que são os estrangeiros
que pagam a conta, proporcionando assim o dinheiro para cortar os impostos
sobre os bilionários.
Também parece acreditar que essas tarifas
eliminarão os déficits comerciais e trarão de volta atividades industriais aos
EUA.
Não importa que as tarifas sejam pagas pelos
importadores, elevando os preços internos, e que estejam sendo aplicadas no
pior momento possível, justo quando os EUA ainda se recuperam de um episódio
inflacionário.
Além disso, a macroeconomia elementar mostra
que déficits comerciais multilaterais são reflexo do desequilíbrio entre a
poupança interna e o investimento interno.
Os cortes dos impostos sobre os bilionários
planejados por Trump ampliarão essa diferença, pois os déficits reduzem a
poupança interna nacional.
Portanto, por ironia, políticas como os
cortes dos impostos sobre os ricos e grandes empresas elevam o déficit
comercial.
Desde Ronald Reagan, os conservadores
argumentam que cortes de impostos pagam a si mesmos ao impulsionar o
crescimento econômico. No entanto, isso não funcionou dessa forma nem com
Reagan nem com Trump em seu primeiro mandato.
Pesquisas empíricas confirmam que os cortes
dos impostos sobre os ricos não têm impacto mensurável no crescimento ou no
desemprego, mas aumentam de forma imediata e persistente a desigualdade de
renda.
A proposta de estender a Lei de Empregos e de
Corte de Impostos de 2017, o maior corte de impostos sobre pessoas jurídicas da
história dos EUA, acrescentaria cerca de US$ 37 trilhões à dívida nacional nos
próximos 30 anos, sem proporcionar o impulso econômico prometido.
Trump está agravando o déficit comercial,
também, na esfera microeconômica. Os EUA se tornaram uma economia de serviços.
Entre suas maiores exportações estão o
turismo, a educação e a saúde, mas Trump tem sistematicamente enfraquecido cada
uma dessas áreas.
Que turista, estudante ou paciente gostaria
de vir aos EUA sabendo que pode ser detido arbitrariamente e mantido preso por
semanas?
O enfraquecimento de instituições
educacionais de primeiro nível, o cancelamento arbitrário de vistos estudantis
e o corte do financiamento a pesquisas científicas lançaram uma grande sombra
sobre esses setores vitais.
Essa abordagem estratégica falha já está
saindo pela culatra.
A China é um dos maiores parceiros comerciais
dos EUA, e o país depende dos chineses para diversas importações críticas.
A China já retaliou. O temor de uma
estagflação tem abalado os mercados. E isso é só o começo.
Graças ao Departamento de Eficiência
Governamental, de Elon Musk, a arrecadação com impostos pode desabar mais de
10% em 2025, em razão da redução na fiscalização e no cumprimento das leis.
O corte de cerca de 50 mil funcionários do
IRS resultaria em uma perda de US$ 2,4 trilhões em arrecadação nos próximos dez
anos, em comparação com o aumento de US$ 637 bilhões projetado nas provisões da
Lei de Redução da Inflação, que previa ampliar o quadro pessoal do órgão.
A agenda é clara: não apenas reduzir os
impostos sobre os ricos, mas também enfraquecer a aplicação da lei.
Em um mundo em que o capital e as pessoas
ricas conseguem atravessar fronteiras com facilidade, a cooperação
internacional é a única forma para que os governos garantam uma tributação
justa das empresas multinacionais e indivíduos ultrarricos.
Nesse contexto, suspender a fiscalização da
coleta de dados sobre os donos reais das empresas, tolerar mercados de
criptoativos que promovem o anonimato e abandonar o processo de criação de uma
nova convenção tributária da ONU e de um imposto mínimo mundial revelam um
padrão deliberado: o desmantelamento de estruturas multilaterais criadas para
combater a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro.
A “pausa” na aplicação da Lei Contra Práticas
de Corrupção no Exterior indica que os EUA já não se importam nem com subornos
e propinas.
Testemunhamos uma tentativa de Trump, Musk e
bilionários aliados estabelecer um capitalismo moldado nas zonas sem lei do
mundo offshore.
Não é apenas uma revolta contra os impostos;
é um ataque a qualquer lei que ameace a acumulação extrema de riqueza e poder.
Estamos testemunhando uma tentativa de Trump,
Musk e seus aliados bilionários de estabelecer uma espécie de capitalismo
moldado nas zonas sem lei do mundo offshore.
Não se trata apenas de uma revolta contra os
impostos; é um ataque total a qualquer lei que ameace a acumulação extrema de
riqueza e poder.
Nada deixa isso mais evidente do que a forma
como eles abraçaram os criptoativos. O crescimento explosivo de bolsas de
criptoativos pouco regulamentadas, cassinos on-line e plataformas de apostas
tem impulsionado a economia ilícita mundial.
No governo Trump, o Departamento do Tesouro
suspendeu sanções e regulamentações sobre plataformas que obscurecem
transações.
Trump chegou até a assinar um decreto
executivo para estabelecer uma “reserva estratégica de criptomoedas” e promoveu
a primeira “cúpula cripto” da Casa Branca.
Trump, que lançou, ele próprio, uma
controversa moeda “meme” e pode em breve lançar um videogame baseado no “Banco
Imobiliário” e nas criptomoedas, agora colocou uma pessoa que faz parte do
mundo dos criptoativos para comandar a Securities and Exchange Commission
(SEC). Paul Atkins é membro de um grupo setorial de defesa dos criptoativos e
dos sistemas financeiros não bancários.
As criptomoedas se tratam de uma única coisa:
o sigilo.
Já temos moedas perfeitamente boas no dólar,
no iene e no euro, entre outras. E temos plataformas de negócios eficientes
para comprar bens e serviços.
A demanda por criptomoedas provém do desejo
de esconder o dinheiro. Pessoas que participam de atividades ilícitas, como
lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, não querem que seu dinheiro seja
rastreado com facilidade.
O restante do mundo não pode ficar parado
assistindo.
Já vimos que a cooperação internacional pode
funcionar, como mostra o imposto mínimo global de 15% sobre os lucros de
multinacionais, que mais de 50 países estão agora adotando.
No G20, o consenso obtido em 2024 sob a
liderança do Brasil defende que os muito ricos paguem sua parte justa.
Os EUA têm se afastado de acordos
internacionais, mas, paradoxalmente, a ausência da diplomacia americana pode
ajudar a fortalecer as negociações multilaterais para que tragam resultados
mais ambiciosos.
No passado, os EUA exigiam que os acordos
fossem enfraquecidos (normalmente para beneficiar um interesse especial ou
outro) mas, no fim, se recusavam a assiná-los.
Foi o que ocorreu durante as negociações da
OCDE sobre a tributação das multinacionais.
Agora, o resto do mundo pode seguir em frente
com a tarefa de criar uma arquitetura tributária global justa e eficiente.
Combater a desigualdade extrema por meio da
cooperação internacional e de instituições inclusivas é a verdadeira
alternativa à ascensão do autoritarismo.
O isolamento autoimposto dos EUA cria uma
oportunidade para reconstruir a globalização com base em fundamentos
verdadeiramente multilaterais – um “G-menos-um” para o século XXI.
Fonte:
Opera Mundi/Blog Cidadania e Cultura

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