sexta-feira, 26 de julho de 2024

Luís Eustáquio Soares: ‘Sigam o matriarcado’

mather pátria por meio da qual e na qual abandonaremos os patriarcados, com o advento da matrilinearidade cosmológica da Terra, água de todos e de ninguém; natureza e sociedade indiscerníveis

·        Abandonem tudo e sigam o matriarcado

No Evangelho de Marcos, Jesus põe à prova a fé dos fariseus, dizendo-lhes “abandona tudo e siga-me”! O patriarcado e o matriarcado detêm o mesmo desafio: exigem que abandonemos tudo para segui-lo.

No entanto, são princípios opostos, “o abandonar tudo e siga-me”!, num caso e noutro. Para o patriarcado, abandonar tudo é aceitar tudo; é render-se ao existido, ao constituído, à ordem das coisas; é abandonar a si mesmo em nome do poder soberano que existe para limitar e matar a vida.

Para o matriarcado, no entanto, o “abandonar tudo e siga-me!”, detém outro sentido, totalmente diverso, qual seja: abandona o constituído, a ordem das coisas, o mundo existente para construir um mundo habitável para as mulheres, porque efetivamente delas; porque de ninguém.

Na era moderna, a ordem das coisas do patriarcado institui-se pela exigência de seguirmos a reprodução ilimitada do capital e muito especialmente a ordem das coisas constituída pelo burocrata-mor(te), do capital: o imperialismo; hoje, o norte-americano; irmão da mentira (sabe sorrir sem deixar de ser infame) e da guerra; e assim da morte.

Em nome de seu próprio capital, o imperialismo diz-nos: “Abandona tudo, a própria vida em abundância, e siga-me”. E o trabalho alienado segue, rendendo-se ao constituído: à sua própria morte.

Karl Marx, esse matriarca de barbas, disse ao trabalhador: “Abandona o capital e siga o seu próprio destino”. É por isso que o marxismo é a ciência da liberação individual-coletiva, porque emerge fora da servidão forçada e voluntária.

Com o marxismo, o trabalho não tem que seguir senão a si mesmo, fora do patriarcado e sua herança de tempo circular, porque tempo em que a história se dá como um presente que reproduz o passado e impõe-se no futuro.

Friedrich Engels em 1884 asseverou que a história do patriarcado é a história do golpe de estado patrilinear, que tomou de assalto o poder feminino da matrilinearidade, monopolizando a produção econômica, ao escravizar a prole, isto é, as filhas e filhos do matriarcado; assim como a reprodução da prole, ao retirar o direito de herança (no limite todo o passado social) da chancela feminina, transformando, doravante, o Estado, a família e a propriedade privada na cara escarrada dos varões, então separados da comunidade das mulheres, empurradas para a objetiva condição de prostituídas.

Rosa Luxemburgo, por sua vez, disse-nos: “Abandona tudo e siga-me fora da acumulação do capital, gerenciada pelo patriarcado imperialista, esse Estado patriarcal que impõe a propriedade privada monopólica sobre e contra a produção e reprodução dos povos do planeta, ao expandir o mercado patrilinear para todas as dimensões da vida, violentamente”.

·        O devir mulher do marxiano

É por isso que o marxismo é devir mulher revolucionário, porque, na vanguarda, são as mulheres coletivas que seguimos, como trabalhadores, rumo à invenção de um mundo sem soberano, sem patriarcado, sem capital, sem imperialismo; sem rendição ao existente, ao instituído.

O matriarcado é o verdadeiro nome do marxismo. Ao segui-lo não seguimos senão a igualdade sem fim, no fim do túnel do estado de exceção permanente do inferno patriarcal.

Mulheres do mundo, uni-vos fora do patriarcado do capital e, sobretudo, do capital acumulado sob o manto mortal do imperialismo ocidental-estadunidense. Este se impõe antes de tudo contra vocês, mas também contra os homens trabalhadores, assim como contra trans, negros, amarelos, índios, povos.

Uni-vos e assumam a vanguarda do fim definitivo da escravidão, inclusive da masculina, sabendo desde logo que o patriarcado é muito mais que um rosto: são instituições internacionais, são as relações sociais de produção e reprodução da ordem das coisas; o dólar, esse deus de todos os patriarcados, a sanguessugar os intercâmbios afetivos, familiares, nacionais, epistêmicos, culturais, impondo-se como valor de troca pela guerra, pela inflação, pela chantagem, por golpes de Estado, revoluções coloridas, pelos genocídios.

Para superar o patriarcado, há que superar o sociometabolismo patrilinear multitudinário que o alimenta, retroalimenta, condenando-nos à pré-história da humanidade, posto que a história de fato, se o for, é a história sem patriarcado; a história que se produz como um parto: nascendo-nos para parir-nos, matriarcalmente, quer dizer, como comuns, comunistas, porque todos os dias, numa nova era matrilinear, há de ser o dia da prole, isto é, da classe trabalhadora, num mundo, para lembrar o Manifesto antropófago de Oswald de Andrade, em que a realidade, esse fracasso patriarcal do Ocidente, não mais abrigará loucuras, complexos, prostituições, penitenciárias.

·        Patriarcados e mundo multipolar

Não há, entretanto, uma oposição maniqueísta entre matriarcado e patriarcado porque não existe unidade discursiva, isto é, nada é ( está aqui o patriarcado!) e ponto final (e aqui está o matriarcado). Há dialética, movimento ininterrupto entre a inessência do matriarcado, esse outro nome para o comunismo; e a inessência do patriarcado, na unidade da contradição.

Em diálogo com Michael Hudson de The Collapse of Antiguity (2023) e The destiny of Civilization: Finance Capitalism, Industrial Capitalism, or Socialism: (i) há três mil anos, desde a Idade do Bronze, sociedades não ocidentais, sobretudo no Oriente Médio, como Babilônia, Assíria, Suméria, região que criou o dinheiro e o crédito, o patriarcado realmente existente, baseado no Palácio, tinha uma tradição de tábula rasa e, com esta, de perdão periódica das dívidas agrárias e pessoais, liberando escravizados e devolvendo terras confiscadas; (ii) entre 1200 a aproximadamente 750 a.C., uma Idade das Trevas, com alterações climáticas radicais, teria atingido o Oriente Próximo, chegando à região do Mediterrâneo, destruindo as economias dos palácios precedentes.

(iii) No final desse período, teria emergido uma classe oligárquica no interior da Grécia antiga, que, referenciando-se no sistema de crédito/ dinheiro das civilizações mesopotâmicas, abandonou, entretanto, a cultura do perdão de dívidas, impondo-se pela servidão financeira ao conjunto da sociedade; (iv) o Império Romano teve como classe dominante uma oligarquia bélica herdeira da grega, atualizando ainda mais relações sociais de produção baseadas na absoluta hegemonia do credor, em detrimento do devedor.

Ainda em interlocução com Michael Hudson, no período de decadência do Império Romano cristianizado, cinco patriarcados se espalharam, no Ocidente e no Oriente: o de Constantinopla, o de Antióquia, o de Alexandria, o de Jerusalém e o propriamente ocidental, o de Roma. Os quatro primeiros eram tolerantes, sob o ponto de vista religioso e cultural; e combatiam internamente a oligarquização de suas respetivas sociedades. O último, de tradição oligárquica, levou adiante uma guerra sem quartel contra os quatro primeiros. Foram as Cruzadas medievais, com os papas seguindo ordens do patriarcado romano.

As Cruzadas, assim, não foram simplesmente contra os mouros, que dominavam boa parte do patriarcado de Constantinopla. Foram contra os demais patriarcados, com objetivo de impor uma ordem unipolar, patriarcalmente. O Ocidente (colonial, capitalista e imperialista, até chegar no ultraimperialismo estadunidense, e, assim, a Wall Street, a Black Rock, Vanguard; e meia dúzia de trilionários oligarcas como os Rothschild, os Rockfeller, os Du Pont) pode ser interpretado, nesse contexto, como o patriarcado unipolar em incessante cruzada contra os patriarcados tolerantes e verdadeiramente multiculturais, esconjurando e antecipadamente o advento da civilização comunista matriarcal.

Não se pode, assim, falar em patriarcado abstratamente; e tampouco em capitalismo e, por consequência, em imperialismo, porque todas essas formações econômico-sociais, mundialmente estabelecidas, são herdeiras do patriarcado oligárquico de Roma, de perspectiva efetivamente unipolar. Nem todo patriarcado, portanto, é a priori negativo, oposto ao matriarcado. Com o fim do patriarcado da URSS em 1991, de base socialista, o patriarcado unipolar do ultraimperialismo estadunidense, com sua rede mundial de alianças oligárquicas, impôs ao mundo uma nova cruzada religiosa – a segunda guerra fria – com o objetivo de destruir implacavelmente os patriarcados milenares como o iraniano, o russo, o chinês, o turco.

A guerra entre o unipolaridade patriarcal do Ocidente oligárquico, contra a emergência do patriarcado multicultural e multipolar não apenas retoma, em outras bases, as Cruzadas do século XI, XII e XIII, mas também, sob a liderança de Vladimir Putin e Xi Jinping, põe em cena a farsa total da cultura woke, a serviço da Casa Branca (como escravizados domesticados), essa Casa Grande contra os povos potencialmente matriarcais., porque sem origem e sem destino próprios, porque, do passado para o presente e para o futuro, matrilineares, sem terras prometidas, sem propriedade privada, sem Estado oligárquico com seu Complexo industrial-militar-cultural a impor a servidão por dívida de modo oligárquico e, assim, ocidental, razão pela qual, com Frantz Fanon: “Se quisermos responder a expectativa de nossos povos, é preciso buscar em outro lugar que não a Europa” ( FANON, 2022, 327).]

Atualizando-o: é preciso buscar em outro lugar, que não os Estados Unidos da América. Sim, em Vladimir Putin, em Xi Jinping, esses dois patriarcas multipolares da antessala do matriarcado plurissocialista, com seus devires homoafetivos, negros, amarelos, pluriétnicos e plurilibidinais, em práxis geopolítica expressados pelo fato mesmo de, como Zumbi dos Palmares, forçarem, com Estados patriarcais fortes, o advento de um mundo sem a ordem baseada em regras da milenar ditadura oligárquica ocidental, fugindo desta para a futura autocriação do matriarcado comunista, a partir do qual, quando todas e todos apreenderem o aqui e o agora sem alienação, “surgirá no mundo algo que brilha para todos na infância e onde ninguém esteve ainda: a pátria” (BLOCH, 2006, p.462).

mather pátria por meio da qual e na qual abandonaremos os patriarcados, com o advento da matrilinearidade cosmológica da Terra, água de todos e de ninguém; natureza e sociedade indiscerníveis.

 

•        Resistência ao autoritarismo. Por Ilona Szabó e Melina Risso

O protagonismo de lideranças que flertam com o autoritarismo tem levantado inúmeras preocupações sobre o futuro das democracias ao redor do mundo. Só no último mês, exemplos incluem a composição de um Parlamento Europeu majoritariamente conservador, a coalizão de extrema direita de Marine Le Pen, formada para as eleições francesas, e o risco de reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos, inflamado pelo recente atentado ao candidato americano do Partido Republicano, acelerando a trajetória da polarização que pode potencializar ciclos de violência.

Estes líderes representam uma tendência inquietante: a ascensão de candidaturas que se apresentam como anti establishment em resposta ao crescente sentimento de descontentamento popular frente à condição econômica, social e política de seus países em meio a uma avalanche de desinformação. O problema é que quando assumem, desmontam as instituições de dentro para fora e com elas os pesos e contrapesos tão fundamentais para uma democracia saudável, concentrando poder e reduzindo os meios de responsabilização.

No Brasil, essa ameaça materializou-se durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que empregou diversas táticas para consolidar sua influência e restringir o espaço cívico, como claramente exposto e evidenciado pelas operações da Polícia Federal “Vigilância Aproximada” e “Última Milha” sobre a chamada “ABIN paralela”, que revelaram o uso da agência oficial de inteligência do país para espionar políticos, jornalistas e organizações sociais.

Durante seu mandato, vimos o ex-presidente atacar a imprensa, perseguir organizações da sociedade civil (sobretudo as ambientalistas), deslegitimar o processo eleitoral e flexibilizar leis de controle de armas e munição, criando um ambiente propício para a formação de milícias armadas. Sua administração foi marcada por dezenas de decretos e interferências políticas nos órgãos públicos e judiciais, subvertendo as suas funções, desequilibrando os três poderes, minando a confiança nas instituições e reduzindo os espaços de participação abertos ao público.

Foi para analisar as principais estratégias então utilizadas que, em pleno governo Bolsonaro, o Instituto Igarapé criou o GPS do Espaço Cívico, a partir de uma tipologia desenvolvida para monitorar diariamente os ataques à democracia brasileira. No período de janeiro de 2021 a 31 de dezembro de 2022, foram monitorados 3.088 ataques ao espaço cívico no Brasil. Ao longo deste tempo, as principais táticas observadas incluíram a disseminação de notícias falsas e campanhas de desinformação, com 1.154 episódios (37% dos casos monitorados), táticas de intimidação e assédio contra críticos e opositores, com 578 casos (19% do total), seguidas pelo abuso de poder, que foi documentado em 412 casos (13%).

No entanto, a sociedade civil brasileira demonstrou uma capacidade notável de resistência, adaptando-se e reagindo às ameaças contínuas de maneira criativa e eficaz. O resultado do desmonte do Estado brasileiro e das políticas públicas só não foi pior porque a sociedade civil brasileira é vibrante, diversa e ativa.

Mapeamos algumas formas de atuação utilizadas, como, por exemplo, a identificação e a formação de alianças com atores estratégicos, tanto nos governos municipais e estaduais, como no Congresso Nacional, fazendo com que muitas vezes a pauta do executivo federal não avançasse. Além das alianças, o caminho judicial também foi utilizado na defesa da democracia, seja no âmbito nacional, com julgamentos de Ações de Inconstitucionalidade e defesa de pessoas injustamente acusadas, como no âmbito internacional, com denúncias em cortes e organismos internacionais para aumentar a pressão sobre o governo brasileiro.

O combate à desinformação foi outra peça central na proteção do processo democrático. Em resposta a compartilhamentos de notícias falsas nas redes sociais e campanhas de perseguição, organizações da sociedade civil desenvolveram formas de monitorar o ambiente digital, identificar e combater a disseminação de fake news e criar redes de denúncia e checagem de fatos, muitas vezes em colaboração com a mídia tradicional e com o Tribunal Superior Eleitoral.

Apesar das importantes vitórias, os desafios persistem. Ainda há um longo caminho para reconstruir a confiança nas instituições públicas, reduzir a polarização, combater as redes de desinformação e fomentar alianças de amplo espectro democrático.

A resistência contra o fechamento do espaço cívico segue exigindo colaboração, financiamento e articulação entre diferentes atores.  As ameaças anti-direitos e anti-democráticas persistem, e será necessário repensar e coordenar esforços para proteger e fortalecer a democracia, mantendo a vigilLância, a proatividade, e desenvolvendo novas estratégias. Não podemos baixar a guarda.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Le Monde

 

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