Celso
Pansera: Eleição de deputados e senadores é cartada decisiva para a democracia
É comum
ouvirmos as pessoas dizerem que não se lembram mais em quem votaram para
vereador, deputado estadual ou federal, as chamadas eleições proporcionais. Em
geral, as atenções se voltam para as disputas majoritárias de prefeitos,
governadores e presidente da República.
Contudo,
para o bem do regime democrático, esse é um quadro que precisa ser revertido,
pois a pouca valorização dos pleitos para o Legislativo abre caminho para a
eleição de candidatos sem compromisso popular e republicano, ou representando
todo tipo de lobby, alguns inclusive pautados exclusivamente pela defesa de
interesses econômicos, ideológicos ou religiosos específicos.
A
composição atual da Câmara dos Deputados, especialmente, mas também do Senado,
reflete a pouca importância dada pelo eleitor para a eleição de deputados e
senadores. Isso contribuí para que tenhamos ainda uma democracia de baixa
intensidade em nosso país.
Como
consequência disso, observa-se uma flagrante sub-representação da grande
maioria de pobres e da classe média baixa, enquanto os donos do capital contam
com bancadas numerosas e desproporcionais ao número de privilegiados existente
na população brasileira.
Chamam
a atenção as dificuldades de governabilidade enfrentadas pelo governo Lula para
aprovar seus projetos em um Congresso em que dois terços dos parlamentares ou
pertencem ao Centrão, ou são de extrema direita.
A
explicação para tamanha distorção é complexa e vai de problemas no nível de
informação e politização do eleitorado à força do dinheiro nos processos
eleitorais - que continua presente a despeito do financiamento público das
campanhas -, entre vários outros fatores, cuja abordagem mais detalhada
consumiria vários artigos.
Como
diz o ex-ministro José Dirceu, chega a ser um milagre que Lula consiga governar
e apresentar tantas realizações em benefício do povo brasileiro diante de um
Legislativo tão hostil. Haja habilidade política e competência.
O fato
é que precisamos enfrentar esse desafio no curto prazo, já que em menos de um
ano acontecerão as eleições para a renovação total da Câmara e dois terços do
Senado. E, se as eleições para o parlamento sempre foram relevantes para o
pleno funcionamento do estado de direito democrático, que dirá agora quando o
Congresso ampliou sobremaneira seus poderes, notadamente na destinação de
recursos do orçamento da União.
No
campo popular e progressista, é preciso que a prioridade para as eleições
legislativas vá além da retórica. É fundamental uma campanha de valorização do
parlamento, mostrando para as pessoas que muitos assuntos que impactam
diretamente nas suas vidas são pautados, debatidos e votados pelo Congresso
Nacional.
A
definição das chapas de candidatos a deputado e a senador deve merecer também
atenção especial, dando-se preferência a nomes com densidade eleitoral já
consolidada, candidatos ligados aos movimentos sociais e às entidades da
sociedade civil e, portanto, com potencial eleitoral, além de personalidades
reconhecidas na sociedade, embora sem vínculo partidário efetivo.
Não
custa lembrar que a extrema direita não esconde de ninguém que seu grande
projeto estratégico em 2026 é chegar a 41 senadores, número que lhe permitiria
manietar a democracia, alvejar atribuições do Supremo Tribunal Federal e até
votar impeachment de ministros do tribunal.
Impedir
esse retrocesso e eleger bancadas que deem sustentação política e parlamentar
ao governo Lula 4 que vem aí, apresentando e aprovando projetos que ampliem as
conquistas populares, é a nossa tarefa. Vamos à luta !
Direita
tenta isolar Lula em 2026, diz analista. Por Esmael Moraes
O
presidente da Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, afirmou que setores da direita
ensandecida articulam um plano para isolar o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) na disputa presidencial de 2026. A avaliação foi feita em palestra
no encontro estadual da UGT-PR, em Foz do Iguaçu, acompanhada pelo Blog do
Esmael.
Hidalgo
afirmou que, se o candidato da oposição for o governador de São Paulo, Tarcísio
de Freitas (Republicanos), a direita tentará montar um cinturão partidário
semelhante ao que isolou Jair Bolsonaro (PL) na eleição passada. A diferença,
segundo ele, é que o alvo agora seria o próprio Lula.
Bolsonaro
está preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, onde iniciou
esta semana o cumprimento da pena de 27 anos e três meses pela tentativa de
golpe de Estado.
A chave
dessa operação da direita seria a adesão de partidos como PSD e MDB a uma
candidatura Tarcísio. Hidalgo lembrou que, segundo declarações recentes do
comando do PSD, o partido só embarcaria numa disputa nacional se o governador
paulista entrar no jogo. O MDB, pelas contas do pesquisador, também tenderia a
caminhar com Tarcísio, caso a direita decida marchar unida.
Hidalgo
avaliou que esse alinhamento ampliaria a pressão sobre o Palácio do Planalto e
criaria um cenário de isolamento político semelhante ao enfrentado por
Bolsonaro em 2022.
O
presidente da Paraná Pesquisas afirmou ainda que a eleição presidencial de 2026
pode ser decidida no primeiro turno. Para ele, a polarização Lula x Tarcísio
reduziria drasticamente o espaço para outras candidaturas. Segundo Hidalgo, há
uma margem de apenas 6% que define a movimentação do eleitorado brasileiro.
“Podemos
ter um placar de 52% a 48% ou 53% a 47%, dependendo de como o Brasil vai chegar
lá na frente”, disse.
Ao
discutir mapa eleitoral, Hidalgo projetou uma mudança importante no
comportamento regional. Ele vê possibilidade de Lula crescer no Sul em relação
à eleição de 2022, especialmente no Paraná e em Santa Catarina, onde o desgaste
da direita tradicional avança.
O
alerta, contudo, vem do Nordeste. Hidalgo afirmou que Lula perdeu tração na
região, principalmente no Ceará e na Bahia, estados que podem ter candidaturas
fortes da oposição em 2026. Ele citou diretamente o nome de Ciro Gomes (PSDB),
provável candidato ao governo do Ceará, e o de ACM Neto (União), que deve
tentar novamente assumir o governo baiano.
A
leitura do pesquisador é que candidaturas competitivas nesses estados podem
puxar votos para o campo conservador e reduzir o desempenho lulista no
Nordeste, que foi decisivo em 2022.
Diante
da plateia de dirigentes sindicais, Hidalgo também advertiu para a força de uma
narrativa ainda não explorada: saúde, segurança pública e economia. Segundo
ele, esses três eixos devem dominar o debate eleitoral e influenciar a
oscilação dos 6% decisivos.
A
palestra, longa e detalhada, reforçou um ponto central: a eleição de 2026 deve
ser uma das mais imprevisíveis desde a redemocratização, com alta tensão
política e movimentos bruscos do eleitorado.
• Pacto Democrático: disputa entre PT e
Centrão pode ser reaberta após início do cumprimento de pena por Bolsonaro e
militares
O
início do cumprimento de pena pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e por oficiais
de alta patente das Forças Armadas representa uma derrota histórica, depois da
própria redemocratização, das visões e herdeiros das forças “linha dura” que
dirigiram a Ditadura Militar, abrindo caminho para que a disputa mal resolvida
entre petismo e Centrão, na fundação da Nova República, volte à cena principal,
agora em torno de uma atualização — ou superação — do Pacto Democrático de
1988.
Se o
risco de outra deriva autoritária pode ter sido superado no curto e médio
prazos, permanece sem desfecho o restante das previsões da Carta Magna, uma vez
que o Centrão tem agido mais como mediador do capital do que como centro
moderado.
Na
época da Constituinte, o bloco foi incentivado por articulações empresariais e
ruralistas, grupos em geral associados ao regime anterior, a limitar as
propostas do campo político-social liderado por Lula. Nesse processo, o Centrão
venceu os embates decisivos, mas o êxito parcial do PT moldou o viés de
“Constituição Cidadã”, sobretudo pelos direitos sociais consagrados por meio do
engajamento civil.
Mas,
apesar da estabilidade monetária e dos avanços sociais alcançados na Nova
República, um discurso antissistema direcionado pela direita ideológica contra
o Poder Público e o establishment político estimulou nostalgias da Ditadura,
muitas vezes em razão da disfuncionalidade que estudiosos apontam no modelo
conhecido como “presidencialismo de coalizão”, cujo beneficiário sempre foi o
bloco — na visão desses estudiosos.
Nos
últimos dias, a relação entre Executivo e Legislativo entrou em uma nova rodada
de conflito, coerente com períodos de maior e menor tensionamento que se
tornaram o padrão — um sintoma de reabilitação institucional, com maior
alinhamento ao ideário de separação e independência dos Poderes —, embora
continue pendente uma repactuação das prerrogativas dos Poderes. Estas, por sua
vez, foram desorganizadas, juntamente com alguns direitos sociais, entre 2015 e
2022, uma era marcada por forte protagonismo do Centrão. Agora, esses direitos
estão na mira de um "acerto de contas fiscal" a partir de 2027,
destacadamente em caso de vitória de um candidato do bloco.
Em
paralelo, Lula fecha seu terceiro ano com balanços e perspectivas alinhados aos
objetivos da República — como buscar a erradicação da pobreza, da
marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais —, o que acena
para uma disposição de aprofundá-los.
Essas
contradições renovadas entre petismo e Centrão projetam que o Pacto Democrático
está novamente sob estresse. Ou seja, os entendimentos nacionais sobre
democracia, soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana e valores sociais
estão se tornando cada vez mais líquidos.
Assim,
ao pleitear um quarto mandato, Lula, que se apresenta como a única alternância
de poder de fato na história do país, sinaliza que deseja concluir sua
trajetória liderando um novo pacto entre os “andares” de cima e de baixo, ou a
resistência do campo político-social que sempre o acompanhou, projetando um
“pós-Lula” para muito além da escolha de um sucessor.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário