terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Celso Pansera: Eleição de deputados e senadores é cartada decisiva para a democracia

É comum ouvirmos as pessoas dizerem que não se lembram mais em quem votaram para vereador, deputado estadual ou federal, as chamadas eleições proporcionais. Em geral, as atenções se voltam para as disputas majoritárias de prefeitos, governadores e presidente da República.

Contudo, para o bem do regime democrático, esse é um quadro que precisa ser revertido, pois a pouca valorização dos pleitos para o Legislativo abre caminho para a eleição de candidatos sem compromisso popular e republicano, ou representando todo tipo de lobby, alguns inclusive pautados exclusivamente pela defesa de interesses econômicos, ideológicos ou religiosos específicos.

A composição atual da Câmara dos Deputados, especialmente, mas também do Senado, reflete a pouca importância dada pelo eleitor para a eleição de deputados e senadores. Isso contribuí para que tenhamos ainda uma democracia de baixa intensidade em nosso país.

Como consequência disso, observa-se uma flagrante sub-representação da grande maioria de pobres e da classe média baixa, enquanto os donos do capital contam com bancadas numerosas e desproporcionais ao número de privilegiados existente na população brasileira.

Chamam a atenção as dificuldades de governabilidade enfrentadas pelo governo Lula para aprovar seus projetos em um Congresso em que dois terços dos parlamentares ou pertencem ao Centrão, ou são de extrema direita.

A explicação para tamanha distorção é complexa e vai de problemas no nível de informação e politização do eleitorado à força do dinheiro nos processos eleitorais - que continua presente a despeito do financiamento público das campanhas -, entre vários outros fatores, cuja abordagem mais detalhada consumiria vários artigos.

Como diz o ex-ministro José Dirceu, chega a ser um milagre que Lula consiga governar e apresentar tantas realizações em benefício do povo brasileiro diante de um Legislativo tão hostil. Haja habilidade política e competência.

O fato é que precisamos enfrentar esse desafio no curto prazo, já que em menos de um ano acontecerão as eleições para a renovação total da Câmara e dois terços do Senado. E, se as eleições para o parlamento sempre foram relevantes para o pleno funcionamento do estado de direito democrático, que dirá agora quando o Congresso ampliou sobremaneira seus poderes, notadamente na destinação de recursos do orçamento da União.

No campo popular e progressista, é preciso que a prioridade para as eleições legislativas vá além da retórica. É fundamental uma campanha de valorização do parlamento, mostrando para as pessoas que muitos assuntos que impactam diretamente nas suas vidas são pautados, debatidos e votados pelo Congresso Nacional.

A definição das chapas de candidatos a deputado e a senador deve merecer também atenção especial, dando-se preferência a nomes com densidade eleitoral já consolidada, candidatos ligados aos movimentos sociais e às entidades da sociedade civil e, portanto, com potencial eleitoral, além de personalidades reconhecidas na sociedade, embora sem vínculo partidário efetivo.

Não custa lembrar que a extrema direita não esconde de ninguém que seu grande projeto estratégico em 2026 é chegar a 41 senadores, número que lhe permitiria manietar a democracia, alvejar atribuições do Supremo Tribunal Federal e até votar impeachment de ministros do tribunal.

Impedir esse retrocesso e eleger bancadas que deem sustentação política e parlamentar ao governo Lula 4 que vem aí, apresentando e aprovando projetos que ampliem as conquistas populares, é a nossa tarefa. Vamos à luta !

Direita tenta isolar Lula em 2026, diz analista. Por Esmael Moraes

O presidente da Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, afirmou que setores da direita ensandecida articulam um plano para isolar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial de 2026. A avaliação foi feita em palestra no encontro estadual da UGT-PR, em Foz do Iguaçu, acompanhada pelo Blog do Esmael.

Hidalgo afirmou que, se o candidato da oposição for o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a direita tentará montar um cinturão partidário semelhante ao que isolou Jair Bolsonaro (PL) na eleição passada. A diferença, segundo ele, é que o alvo agora seria o próprio Lula.

Bolsonaro está preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, onde iniciou esta semana o cumprimento da pena de 27 anos e três meses pela tentativa de golpe de Estado.

A chave dessa operação da direita seria a adesão de partidos como PSD e MDB a uma candidatura Tarcísio. Hidalgo lembrou que, segundo declarações recentes do comando do PSD, o partido só embarcaria numa disputa nacional se o governador paulista entrar no jogo. O MDB, pelas contas do pesquisador, também tenderia a caminhar com Tarcísio, caso a direita decida marchar unida.

Hidalgo avaliou que esse alinhamento ampliaria a pressão sobre o Palácio do Planalto e criaria um cenário de isolamento político semelhante ao enfrentado por Bolsonaro em 2022.

O presidente da Paraná Pesquisas afirmou ainda que a eleição presidencial de 2026 pode ser decidida no primeiro turno. Para ele, a polarização Lula x Tarcísio reduziria drasticamente o espaço para outras candidaturas. Segundo Hidalgo, há uma margem de apenas 6% que define a movimentação do eleitorado brasileiro.

“Podemos ter um placar de 52% a 48% ou 53% a 47%, dependendo de como o Brasil vai chegar lá na frente”, disse.

Ao discutir mapa eleitoral, Hidalgo projetou uma mudança importante no comportamento regional. Ele vê possibilidade de Lula crescer no Sul em relação à eleição de 2022, especialmente no Paraná e em Santa Catarina, onde o desgaste da direita tradicional avança.

O alerta, contudo, vem do Nordeste. Hidalgo afirmou que Lula perdeu tração na região, principalmente no Ceará e na Bahia, estados que podem ter candidaturas fortes da oposição em 2026. Ele citou diretamente o nome de Ciro Gomes (PSDB), provável candidato ao governo do Ceará, e o de ACM Neto (União), que deve tentar novamente assumir o governo baiano.

A leitura do pesquisador é que candidaturas competitivas nesses estados podem puxar votos para o campo conservador e reduzir o desempenho lulista no Nordeste, que foi decisivo em 2022.

Diante da plateia de dirigentes sindicais, Hidalgo também advertiu para a força de uma narrativa ainda não explorada: saúde, segurança pública e economia. Segundo ele, esses três eixos devem dominar o debate eleitoral e influenciar a oscilação dos 6% decisivos.

A palestra, longa e detalhada, reforçou um ponto central: a eleição de 2026 deve ser uma das mais imprevisíveis desde a redemocratização, com alta tensão política e movimentos bruscos do eleitorado.

•        Pacto Democrático: disputa entre PT e Centrão pode ser reaberta após início do cumprimento de pena por Bolsonaro e militares

O início do cumprimento de pena pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e por oficiais de alta patente das Forças Armadas representa uma derrota histórica, depois da própria redemocratização, das visões e herdeiros das forças “linha dura” que dirigiram a Ditadura Militar, abrindo caminho para que a disputa mal resolvida entre petismo e Centrão, na fundação da Nova República, volte à cena principal, agora em torno de uma atualização — ou superação — do Pacto Democrático de 1988.

Se o risco de outra deriva autoritária pode ter sido superado no curto e médio prazos, permanece sem desfecho o restante das previsões da Carta Magna, uma vez que o Centrão tem agido mais como mediador do capital do que como centro moderado.

Na época da Constituinte, o bloco foi incentivado por articulações empresariais e ruralistas, grupos em geral associados ao regime anterior, a limitar as propostas do campo político-social liderado por Lula. Nesse processo, o Centrão venceu os embates decisivos, mas o êxito parcial do PT moldou o viés de “Constituição Cidadã”, sobretudo pelos direitos sociais consagrados por meio do engajamento civil.

Mas, apesar da estabilidade monetária e dos avanços sociais alcançados na Nova República, um discurso antissistema direcionado pela direita ideológica contra o Poder Público e o establishment político estimulou nostalgias da Ditadura, muitas vezes em razão da disfuncionalidade que estudiosos apontam no modelo conhecido como “presidencialismo de coalizão”, cujo beneficiário sempre foi o bloco — na visão desses estudiosos.

Nos últimos dias, a relação entre Executivo e Legislativo entrou em uma nova rodada de conflito, coerente com períodos de maior e menor tensionamento que se tornaram o padrão — um sintoma de reabilitação institucional, com maior alinhamento ao ideário de separação e independência dos Poderes —, embora continue pendente uma repactuação das prerrogativas dos Poderes. Estas, por sua vez, foram desorganizadas, juntamente com alguns direitos sociais, entre 2015 e 2022, uma era marcada por forte protagonismo do Centrão. Agora, esses direitos estão na mira de um "acerto de contas fiscal" a partir de 2027, destacadamente em caso de vitória de um candidato do bloco.

Em paralelo, Lula fecha seu terceiro ano com balanços e perspectivas alinhados aos objetivos da República — como buscar a erradicação da pobreza, da marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais —, o que acena para uma disposição de aprofundá-los.

Essas contradições renovadas entre petismo e Centrão projetam que o Pacto Democrático está novamente sob estresse. Ou seja, os entendimentos nacionais sobre democracia, soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana e valores sociais estão se tornando cada vez mais líquidos.

Assim, ao pleitear um quarto mandato, Lula, que se apresenta como a única alternância de poder de fato na história do país, sinaliza que deseja concluir sua trajetória liderando um novo pacto entre os “andares” de cima e de baixo, ou a resistência do campo político-social que sempre o acompanhou, projetando um “pós-Lula” para muito além da escolha de um sucessor.

 

Fonte: Brasil 247

 

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