‘Narcoterrorismo’:
discurso da extrema-direita global nas mídias religiosas
A
abordagem de ações policiais violentas de forma sensacionalista e focada numa
luta do “bem” contra o “mal” por parte da mídia brasileira não é novidade. Mas
a cobertura da chacina comandada pelo governo do estado do Rio de Janeiro nos
complexos do Alemão e da Penha traz um destaque: a repetição, sem
questionamento, do discurso do governo Cláudio Castro (PL-RJ) que classificou o
crime organizado como “narcoterrorismo”.
O termo
apareceu em diversos veículos da mídia comercial, incluindo as evangélicas, e
se disseminou pelas redes sociais, sendo enfatizado por parte de políticos e
lideranças religiosas, evangélicas e católicas, da base do bolsonarismo.
No
portal Pleno.News, do grupo MK de Comunicação, da família do político
evangélico Arolde de Oliveira, falecido em 2020, a associação do crime
organizado ao terrorismo apareceu em destaque em quatro manchetes na
sexta-feira, 31 de outubro:
o “Secretário aponta que membros de
facções são narcoterroristas”
o “Ao contrário do Brasil, Paraguai
declara CV e PCC como terroristas”
o “O fetiche do governo Lula em não
reconhecer o CV como grupo terrorista” – artigo de Lawrence Maxumus
o “O narcoterrorismo no Rio de Janeiro: de
quem é a culpa?” – artigo do pastor, cantor e senador Magno Malta (PL-ES).
Em
todas essas matérias, as fontes que falam — em sua totalidade, políticos da
extrema direita — declaram que classificam o crime organizado como
narcoterrorismo. O cientista político Lawrence Maxumus diz que essa
classificação segue recomendações do governo de Donald Trump e destaca o apoio
dos governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Romeu Zema (Novo-MG),
e de outros políticos como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), relator
de projeto sobre o tema na Câmara.
Na
segunda matéria listada, são reproduzidos trechos do decreto assinado pelo
presidente do Paraguai, Santiago Peña, que afirma que o CV e o PCC têm as
características “de verdadeiras organizações terroristas internacionais”. A
matéria lembra também que o Paraguai, alinhado ao governo dos Estados Unidos,
declarou organizações de outros países como terroristas, entre elas o Cartel de
los Soles, grupo que os Estados Unidos vinculam ao regime da Venezuela, a
Guarda Revolucionária Islâmica, o grupo palestino Hamas e o grupo xiita libanês
Hezbollah.
O
Pleno.News publicou ainda duas manchetes que fortalecem essa definição:
“Advogado de Trump elogia Castro e acusa STF de favorecer o crime” e “Operação
no Rio apreendeu fuzis das Forças Venezuelanas”. Na última, chama a atenção o
destaque dado à Venezuela no título, uma vez que o corpo do texto informa, na
parte de baixo da página, depois de mostrar fotos expondo imagens dos presos,
que um número igual de fuzis seriam das Forças Armadas Brasileiras, além da
argentina e da peruana.
No
portal de notícias evangélico Gospel Mais, a palavra narcoterrorismo também
apareceu em uma manchete na sexta-feira, 31 de outubro, em forma de pergunta:
“A morte de narcoterroristas pode ser comemorada por cristãos?”. O texto
corrobora o termo “narcoterroristas” para definir integrantes de facções
criminosas, no entanto, questiona “os limites entre a aplicação da justiça e a
prática da misericórdia” ao observar a “controvérsia” que o tema gerou entre
cristãos nas plataformas digitais. O texto destaca a opinião de Nikolas
Ferreira e os trechos bíblicos que o deputado usou para dizer que integrantes
da esquerda “confundem misericórdia com permissividade”. O “outro lado” foi
apresentado de forma genérica como quem defende “não violência e compaixão”,
“acolhimento e perdão”, também com base em passagens bíblicas.
O
portal também apresentou o termo “narcoterrorista” em matéria que repercute
nota publicada por Michelle Bolsonaro, presidenta do PL Mulher, em 30 de
outubro. Destaca que o documento critica sobretudo o presidente Lula, incluindo
o argumento de que ele não reconhece os traficantes como “narcoterroristas”, a
exemplo do que a nota chama de “Trio da Destruição”, que seria formado pelo
líder brasileiro e os presidentes Nicolás Maduro, da Venezuela, e Gustavo
Petro, da Colômbia.
O
Gospel Mais repercutiu, ainda, a fala do pastor e deputado federal Otoni de
Paula (MDB-RJ). O deputado, que se define como conservador, foi descrito como
“o pastor que recentemente vem adotando uma postura pró-Lula” e alguém com uma
opinião sobre segurança pública que contraria a da maioria dos conservadores.
O texto
destaca as críticas do parlamentar à atuação do governador Cláudio Castro, sua
fala de que pelo menos quatro jovens vinculados à sua igreja, a Assembleia de
Deus Ministério Missão de Vida, foram mortos durante a operação e sua
atribuição das mortes ao racismo. O portal não citou, no entanto,
posicionamento de lideranças evangélicas de esquerda que condenaram a chacina,
como a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) e o pastor e deputado federal
Henrique Vieira (Psol-RJ).
Na
sexta-feira, 31 de outubro, enquanto o Pleno.News reiterava a visão do governo
do estado do Rio sobre o “sucesso” da operação, o Gospel Mais dava destaque, em
diversas manchetes, ao papel da igreja evangélica na “conversão” de
ex-traficantes, entre elas: “Em meio à operação no RJ, ex-traficante
testemunha: ‘Deus tinha um propósito para mim’”.
Em
outra, que estava em destaque mesmo tendo sido publicada meses antes da
operação, o preconceito contra a população LGBT+ é declarado na mesma chave:
“Ex-traficante abandona o crime e a homossexualidade: ‘Sem Cristo, não teria
forças’”.
Uma
explicação mais aprofundada e contextualizada sobre o termo “narcoterrorismo”
apareceu na cobertura do portal de notícias R7, parte do Grupo Record, do bispo
Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). O texto
“Narcoterrorismo x facção criminosa: por que Rio e governo federal usam termos
diferentes?” explica que o termo escolhido por Cláudio Castro, pela direita
brasileira e utilizado por Donald Trump, não recebe respaldo do governo Lula e
não consta no ordenamento jurídico brasileiro.
Apresenta
falas do Ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, e de
dois especialistas, Adilson Paes de Souza e Azor Lopes da Silva Júnior, que
diferenciam terrorismo de facções criminosas, destacando o caráter político e
ideológico do primeiro. Souza diz também que a classificação tem como objetivo
abrir espaço para a intervenção dos Estados Unidos em países da América do Sul.
A matéria cita ainda o PL em tramitação no Congresso Nacional que busca ampliar
o conceito de terrorismo e falas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sugerindo que
Trump deveria bombardear navios no Brasil.
Mas o
portal R7 também apresentou ao longo da semana outras matérias que defendem o
uso do termo, como “Especialista diz que seria benéfico ao Brasil considerar
facções como grupos terroristas”. A cobertura do R7 traz muitas matérias que
apresentam o ponto de vista do governo do estado do Rio de Janeiro, mas também
textos com falas de especialistas que apontam os limites da operação, além de
debates sobre a PEC da Segurança Pública proposta pelo governo federal.
Já no
portal da Universal, não houve defesa da operação. No dia 28 de outubro, o
portal destacou as ações da igreja durante a operação, entre elas uma “oração
pelo fim da violência no Rio de Janeiro”, transmitida ao vivo pelo Instagram do
bispo Renato Cardoso, o “ponto de fé” montado pelo bispo Honorilton Gonçalves e
voluntários da igreja nos complexos do Alemão e da Penha, oferecendo apoio
espiritual, de saúde, água e comida aos familiares dos mortos, além de visita
ao Hospital Central da Polícia Militar (HCPM).
O
deputado federal e ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella
(Republicanos-RJ), sobrinho de Edir Macedo, reproduziu, em suas redes sociais,
o mesmo tom adotado pelo portal da Universal, sem elogiar nem criticar a
operação do governo Cláudio Castro.
É
preciso destacar que este texto não analisou a cobertura de outros veículos do
grupo Record, como as emissoras de TV e programas policialescos conhecidos por
exaltar a violência policial, como o Cidade Alerta.
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Narcoterrorismo nas redes sociais de evangélicos e católicos da base do
bolsonarismo
No
mesmo dia da chacina, 28 de outubro, os termos “terrorismo” e “narcoterrorismo”
já apareciam nas redes sociais de políticos e lideranças evangélicos e
católicos ligados ao bolsonarismo. Uma das vozes mais contundentes foi a da
deputada federal Bia Kicis (PL-DF), integrante da Frente Parlamentar Católica
Apostólica Romana. Já no primeiro dia, ela reproduziu um vídeo em que uma voz
de homem mostrava imagens do que seria o Comando Vermelho equiparando sua
atuação “a terroristas do Oriente Médio”.
Há
também postagens que acusam Lula de “traidor da pátria” por se recusar a
enquadrar facções como terroristas e elogios a esse enquadramento por parte dos
governos da Argentina e do Paraguai. Outra parlamentar católica que deu ênfase
ao termo foi Chris Tonietto (PL-RJ).
Entre
os evangélicos, destacamos as falas do deputado federal Nikolas Ferreira
(PL-MG), que chamou a chacina de “a maior faxina da história do RJ” e as do
pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que,
diferente de Nikolas, não comemorou a morte de “bandidos”, mas justificou a
ação da polícia como “defesa”.
Esse
tom se aproxima do discurso também ambíguo do afilhado político de Silas
Malafaia, Sóstenes Cavalcanti (PL-RJ), como analisou Christina Vital. Nessas
postagens, algumas vezes o CV e o PCC são citados como as organizações que
deveriam ser enquadradas, mas não há nenhuma palavra sobre a atuação das
milícias no Rio de Janeiro. Em outras, como nas falas de Malafaia, a crítica à
esquerda equipara “defesa de bandidos” à defesa do aborto.
Grande
parte dos evangélicos conservadores monitorados não condenou nem defendeu a
operação, enfatizando chamados a orações pelo Rio, na chave da batalha
espiritual, como os pastores e cantores André Valadão (Igreja Batista da
Lagoinha) e Ana Paula Valadão (Igreja Diante do Trono), Estevam e Sônia
Hernandes (Igreja Renascer em Cristo) e a cantora e pastora Fernanda Brum
(Igreja Profetizando as Nações). Esta última também postou conteúdo ao lado de
agentes do Bope.
Entre
evangélicos definidos como progressistas, os chamados à oração eram
acompanhados da condenação da chacina e ações de solidariedade, como nas redes
do Movimento Negro Evangélico do Brasil e da Frente de Evangélicos pelo Estado
de Direito.
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Mídias católicas: oração e solidariedade, com poucas críticas diretas
Se
parlamentares católicos ligados ao bolsonarismo ajudaram a reproduzir o
discurso do governo do estado em suas redes sociais, veículos de mídia ligados
à Igreja Católica preferiram, na maior parte, omitir sua posição em relação à
operação, focando em manifestações de solidariedade e em pedidos de oração pela
cidade do Rio de Janeiro, como nos portais e nas redes sociais da Canção Nova e
do Portal A12, ligado ao Santuário Nacional de Aparecida.
Essas
mídias católicas seguem a linha adotada pela Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) que publicou em suas redes sociais, no dia 29 de outubro, em
colaboração com os portais Vatican News e da Arquidiocese do Rio de Janeiro,
uma nota em “solidariedade pelos graves episódios de violência na cidade do Rio
de Janeiro”.
No dia
seguinte, fez outra postagem, com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, pedindo
sua intercessão “por nossos irmãos” e orações pelo Rio de Janeiro e suas
autoridades. No mesmo sentido, o portal Vatican News publicou nota emitida pelo
arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Orani João Tempesta, que pede oração e
expressa solidariedade “às famílias que choram a perda de seus entes queridos”.
Ambas as notas falam em “justiça”, “reconciliação”, e a nota de Dom Orani fala
ainda em “dignidade de cada pessoa, especialmente dos mais pobres e
vulneráveis”.
Mas
houve também textos mais críticos vindos de autoridades católicas. Entre eles,
artigo do padre Carlos Augusto Azevedo da Silva, Vigário Judicial Adjunto da
Arquidiocese do Rio de Janeiro, publicado no Vatican News no dia 31 de outubro.
No texto intitulado “Rio de Janeiro: as diversas camadas de uma tragédia
social”, o padre define o crime organizado como “um poder paralelo ao poder do
Estado”, que se desenvolveu desde os anos 1960 em territórios “abandonados pelo
Estado e sem serem alcançados pelas políticas públicas”.
Sem
mencionar o governo de Cláudio Castro, o texto critica “aqueles que se
aproveitam das tragédias sociais para transformar a dor e sofrimento em palco e
espetáculo, em oportunidade de lucro político ou forma de favorecimento de seu
discurso ideológico”.
Em
outro texto, no dia 3 de novembro, o site da Arquidiocese de São Sebastião do
Rio de Janeiro qualificou o ocorrido como “violenta operação policial” e
“brutalidade do confronto”, chamando a atenção também para fala do padre Edmar
Augusto Costa, da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na Penha, relembrando o
“cenário de horror” que presenciou, a dor da comunidade e “o olhar
estigmatizado que muitas vezes se lança sobre os moradores das favelas”. O
texto destacou ainda as ações da paróquia no local.
No dia
4 de novembro, o site da CNBB também publicou texto do arcebispo Dom Luiz
Fernando Lisboa, bispo titular de Cachoeiro de Itapemirim (ES), condenando a
“banalização da morte” no “confronto policial no Rio de Janeiro”. Intitulado
“Quando o cristão comemora a morte, o evangelho se cala”, o texto afirma que
“Vivemos uma cultura que confunde justiça com vingança e ordem com violência.
O
arcebispo reafirma a posição da Igreja Católica que incluiu seu ativismo contra
o aborto: “O Papa Leão XIV recordou recentemente que “não se pode ser contra o
aborto e, ao mesmo tempo, defender a pena de morte” e afirmou que “defender a
vida não é proteger o crime, mas reafirmar que o mal se vence com o bem”.
Embora
a posição da Igreja Católica condene a comemoração das mortes na operação, seu
pedido de paz e justiça não endereça o Estado, em particular o governo de
Cláudio Castro, como agente promotor da violência.
A
Igreja se omitiu também diante das falas de parlamentares e organizações que
advogam falar em seu nome, como as parlamentares católicas já citadas, e o
Centro Dom Bosco de Fé e Cultura (CDB), organização leiga com sede no Rio, que
chegou a afirmar que a violência no Rio é produto do “abandono da fé”,
compreendida como a diminuição do número de católicos no país.
Segundo
o CDB, de 1500 a 1960, enquanto o Brasil possuía “95% de católicos”, não havia
problema de violência no país, fala que não tem nenhuma base na realidade e que
omite a violência do processo de colonização com a participação da própria
Igreja Católica. A omissão da Igreja também foi notada pela iniciativa Imagine
a Dor Adivinhe a Cor, que articulou um abaixo-assinado, dirigido à CNBB,
“manifestando indignação diante do ocorrido no último domingo, Dia de Finados,
no Rio de Janeiro, quando o governador do Estado — dias depois da maior e mais
letal operação policial nas comunidades cariocas — foi aplaudido durante uma
missa”. O fato aconteceu em uma paróquia na Barra da Tijuca em que Cláudio
Castro congrega e atua como cantor católico.
Fonte:
Por Olívia Bandeira e Victor Merete

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