É
possível projetar cidades que melhorem a saúde mental das pessoas? A ciência
explica
Todos
os anos desde 2014, no dia 31 de outubro, o Dia Mundial das Cidades é celebrado
pela Organização das Nações Unidas (ONU) para recordar que o futuro das cidades
deve ser construído de forma coletiva, sustentável e inclusiva no mundo todo.
Em meio a tantas transformações mundiais, viver bem e de forma saudável nas
cidades tem sido um desafio diário em vários níveis, inclusive de saúde mental.
Erin
Peavey estava grávida de quatro meses quando perdeu a mãe para o câncer. Depois
que sua filha nasceu, em janeiro de 2019, a solidão se instalou. Sua mãe tinha
sido seu porto seguro, uma fonte de apoio constante. Agora, sozinha em casa com
um recém-nascido e seu marido trabalhando em tempo integral, Peavey se agarrou
a um conselho que sua mãe sempre lhe dava: mantenha-se conectada.
Todos
os dias, Peavey amarrava seu bebê ao peito e saía para passear em seu bairro em
Dallas, no Texas (Estados Unidos). Ela frequentava cafeterias, conversava com
as pessoas no supermercado e adquiriu o hábito de visitar outros “terceiros
lugares” — um termo usado por sociólogos urbanos para se referir a pontos de
encontro informais que não são a casa ou o trabalho, mas que podem promover o
senso de comunidade.
Erin
Peavey, que é arquiteta, diz que não precisava de conversas profundas com
outras pessoas, apenas sentia uma conexão compartilhada quando saía.
“Era
como um antídoto para a solidão e o sofrimento mental de perder minha mãe ao
mesmo tempo em que me tornava mãe pela primeira vez”, comenta ela. “Fiquei
impressionada com esse presente que meu ambiente construído era para mim...
Isso me permitiu lidar de uma melhor forma com a situação.”
Muitos
especialistas consideram atualmente a solidão uma epidemia de saúde pública,
com o ex-cirurgião-geral dos Estados Unidos alertando que ela afeta cerca de
metade dos adultos norte-americanos e aumenta o risco de morte prematura para
níveis comparáveis ao de fumar 15 cigarros por dia.
Mas, à
medida que esses desafios de saúde mental aumentam, especialistas como Peavey
se perguntam: e se os espaços ao nosso redor nas cidades pudessem nos ajudar a
nos sentir menos sozinhos?
“O
ambiente construído, que inclui tudo, desde nossas ruas até moradias e sistemas
de transporte, é uma parte muito importante de como realmente interagimos uns
com os outros”, afima Julia Day, sócia da empresa global de estratégia urbana
Gehl. “Embora o combate a uma epidemia exija várias ferramentas, mudanças no
design urbano e na programação dos locais são um ingrediente fundamental.”
Um
relatório de 2024 da Foundation for Social Connection reforça esse ponto,
mostrando como o ambiente construído pode impedir ou incentivar interações
sociais significativas, sejam elas breves ou profundamente pessoais.
Essas
ideias não são novas, mas vêm ganhando força. Peavey diz que isso se deve, em
parte, ao fato de que a pandemia ajudou a desestigmatizar a solidão e tornou as
pessoas mais conscientes do ambiente físico ao seu redor enquanto estavam
presas em casa. “Nos últimos cinco anos, começamos a reconhecer que existem
fatores estruturais das cidades que afetam muito nossa saúde, bem-estar,
resultados econômicos etc.”, diz ela. “E um deles é nosso ambiente físico e
construído.”
“
Existem fatores estruturais das cidades que afetam muito nossa saúde,
bem-estar, resultados econômicos, entre outras coisas.” por Erin Peavey,
arquiteta
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Projetos urbanos para conexão das pessoas
Não
existe uma abordagem única para projetar conexões sociais em espaços urbanos.
No entanto, arquitetos, urbanistas, formuladores de políticas públicas e outros
profissionais desenvolveram várias estratégias que aumentam as chances de
interações espontâneas ou significativas, tanto em residências particulares
quanto em espaços públicos.
Peavey
tem diretrizes de design baseadas em evidências para a saúde social que ela
chamou de PANACHe. Um tipo de lugar com esses elementos, diz ela, são as praças
italianas: elas são abertas ao público (acessibilidade), têm um centro de
restaurantes e lojas (ativação) e prédios com tijolos de barro natural e
pedras, muitas vezes cobertos de vegetação (natureza).
“Quando
os lugares podem nos ajudar a nos sentir mais seguros e calmos, o que é uma
grande parte do que a natureza oferece, isso pode ajudar as pessoas a se
sentirem mais abertas, sociáveis e tranquilas”, comenta a arquiteta.
Essas
ideias também se refletem em um campus residencial para estudantes da
Universidade da Califórnia em San Diego, na Califórnia (Estados Unidos)
projetado em conjunto pela Safdie Rabines Architects e pela HKS Architects,
onde a Peavey é líder em design na área de saúde e bem-estar.
Ele
conta com espaços compartilhados para cozinhar e socializar, escadas
interconectadas e grandes janelas com vista para as áreas comuns, a fim de
promover interações sociais e acadêmicas. Após a conclusão, estudos mostraram
uma queda de 8,2% na depressão auto-relatada pelos estudantes e um aumento de
quase 28% na satisfação com os espaços residenciais.
Em
outro lugar, uma empresa de consultoria canadense chamada Happy Cities está
ajudando a aplicar ideias semelhantes à habitação urbana. Com uma crescente
crise global de habitação, Emma Avery, urbanista e líder de comunicação da
empresa, diz que tem havido um interesse maior em sua abordagem para habitações
multifamiliares, como prédios de apartamentos e casas geminadas.
“Temos
a questão da moradia inacessível. Temos a crise climática. Temos a crise do
isolamento social e da solidão, e realmente precisamos trabalhar juntos para
resolver todas essas questões de uma vez”, afirma Avery. “Se estamos
construindo milhares de novas casas nessas torres altas envidraçadas, como
podemos garantir que não estamos agravando o isolamento social?”
Para
esse fim, a Happy Cities e o Hey Neighbour Collective coproduziram um kit de
ferramentas baseado em mais de uma década de pesquisa. As principais
recomendações incluem integrar os edifícios ao bairro circundante, criar
transições graduais entre espaços públicos e privados e co-localizar
comodidades compartilhadas.
Esses
conceitos orientaram o desenvolvimento do Our Urban Village em Vancouver, no
Canadá, um projeto de “co-habitação leve” de 12 unidades onde os residentes
vivem de forma colaborativa. Em linha com seu princípio de convite, por
exemplo, há amplas passarelas externas, um pátio compartilhado e recantos
sociais para incentivar a permanência e a interação. Um estudo mostrou que,
seis meses após a mudança, 100% dos residentes disseram que nunca ou raramente
se sentiam solitários, e 88% consideravam dois ou mais vizinhos como amigos.
“A
solidão não está necessariamente relacionada à falta de relações sociais, mas
sim ao grau de satisfação que você sente nessas relações”, explica Avery. É por
isso que “estamos realmente focados em criar esses espaços convidativos para
que as pessoas possam fazer uma pausa e se sintam mais abertas à conexão, no
seu próprio ritmo”.
Os
espaços públicos são outra área em que têm observado mais interesse,
especialmente desde a pandemia. Embora o seu conjunto de ferramentas se
concentre na habitação, Avery afirma que alguns conceitos também se podem
aplicar aos espaços públicos. Um deles é a ativação, em que o espaço é ativado
com coisas intencionais para ver e fazer, sejam elas assentos, um parque
infantil ou uma horta comunitária.
Um
estudo recente realizado por Gehl e pesquisadores de saúde pública da
Universidade de Toronto, no Canadá, destaca o valor da ativação de espaços
públicos. Eles examinaram o The Bentway, um espaço antes esquecido sob uma
importante rodovia em Toronto que foi transformado por meio de design e
programação. A maioria dos visitantes disse se sentir mais saudável e
socialmente conectada no espaço, especialmente com a inclusão de elementos
paisagísticos, assentos públicos e eventos artísticos.
Day
afirma que, embora os planejadores urbanos reconheçam cada vez mais o valor
dessas características, os profissionais de saúde pública muitas vezes precisam
de dados mais concretos sobre os benefícios para apoiar sua inclusão.
“Obter
mais pesquisas sobre isso, como o projeto The Bentway, é realmente útil para
formar parcerias mais significativas entre a saúde pública e os planejadores e
desenvolvedores urbanos, que podem então realmente trabalhar juntos conforme
necessário e garantir que o combate ao isolamento social seja uma parte
essencial do briefing do projeto”, diz ela.
“Parcerias
mais significativas entre a saúde pública e os planejadores e desenvolvedores
urbanos... Para garantir que o combate ao isolamento social seja uma parte
essencial dos projetos.” - por Julia Day Sócia da empresa global de estratégia
urbana Gehl
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Desafios e possibilidades
Traduzir
essas ideias de design em realidade está longe de ser simples. Os ambientes
construídos são fortemente regulamentados e negociados entre várias partes
interessadas, incluindo incorporadoras, governos locais e estaduais e membros
da comunidade, que muitas vezes têm interesses conflitantes. As prioridades e
políticas também podem mudar com a mudança de governo em cada cidade.
É
necessária mais colaboração intersetorial e mais pesquisa. Candice Ji,
urbanista e designer da Gehl, diz que havia poucos dados sistemáticos
disponíveis quando começaram a analisar essa questão. “Continuamos a construir
uma base de evidências para ação por meio dos diferentes estudos que estamos
realizando”, comenta a urbanista.
Eric
Klinenberg, professor de sociologia da Universidade de Nova York, nos Estados
Unidos, e autor do livro “Palaces for the People”, afirma que houve um maior
reconhecimento do valor da infraestrutura social na última década, mas isso nem
sempre levou a mais recursos.
“O
investimento em espaços públicos e infraestrutura social continua sendo
mesquinho e desigual”, afirma ele. “Os cortes nos gastos sociais do governo com
parques, escolas, bibliotecas e espaços públicos ameaçam aumentar o risco de
solidão e isolamento justamente no momento em que as pessoas precisam de laços
mais fortes.”
Fonte:
National Geographic Brasil

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