segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Por que a queda dos preços nem sempre é tão boa quanto parece

A inflação representou uma ameaça persistente para a América Latina por décadas. Mas existem, agora, dois países no continente que apresentam deflação, ou seja, nível de inflação negativo.

A Costa Rica (-1%) e o Panamá (-0,3%) fecharam o mês de setembro com seu Índice de Preços ao Consumidor (IPC) no vermelho, em comparação com o mesmo período do ano passado.

As principais razões diferem entre cada país, mas existem também algumas causas comuns.

O secretário-executivo do Conselho Monetário Centro-Americano, Odalis Marte, explica que a queda dos preços dos combustíveis, ao lado da redução do valor de certos alimentos no mercado internacional, colaboraram para que alguns países da região registrassem inflação muito baixa ou até negativa nos últimos meses.

El Salvador, depois de cinco meses de deflação, acaba de voltar ao índice positivo, mas com apenas 0,3% de inflação. Neste caso, entre outros motivos, também houve a influência da redução de impostos sobre a importação de alimentos.

Já no caso da Costa Rica, o fator determinante foi a valorização da moeda local frente ao dólar.

O ex-presidente do Banco Central da Reserva de El Salvador, Carlos Acevedo, trabalha atualmente como consultor independente.

Para ele, a deflação que estamos observando no momento também é explicada pelo "efeito pós-pandemia", ou seja, o custo de vida chegou a níveis tão exorbitantes, que as baixas atuais não são reflexo de uma crise, como ocorreu em outros países que enfrentaram situações deflacionárias.

Na verdade, como a base de comparação é alta, a deflação não é um sintoma preocupante.

"Considero uma estabilização dos preços, uma correção dos preços", comenta Acevedo para a BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

A Costa Rica acumula cinco meses consecutivos de queda dos preços. Já o Panamá completou um ano de IPC negativo.

A deflação é um fenômeno bastante incomum na América Latina.

No Brasil, apesar de deflações pontuais, como a registrada em agosto, quando o índice oficial de preços ao consumidor calculado pelo IBGE recuou 0,11% em relação ao mês anterior, não há registros recentes de deflação consistente.

O pesquisador Benjamin Gedan, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, explica que a deflação "não constitui um objetivo da política econômica, especialmente se ocorrer em consequência da paralisação da economia".

O senso comum poderia nos dizer que, quanto mais se reduzirem os preços, melhor para o nosso bolso. Mas, na verdade, não é bem assim.

<><> E o bolso dos consumidores?

Marte destaca que, no curto prazo, os consumidores ficam felizes, pois a deflação aumenta sua capacidade de compra.

Mas, no médio prazo, "a deflação pode prejudicar o crescimento econômico e a capacidade das famílias de gerar mais renda".

É preciso considerar que, "em muitos países, quando a inflação é muito baixa ou negativa, não há aumentos salariais", o consumo é reduzido, existe menos produção e a economia cresce menos.

É possível que se forme uma espécie de ciclo negativo, segundo o qual, embora os preços estejam mais baixos do que um ano atrás, o poder de compra dos consumidores pode continuar sendo baixo.

E, certamente, sem empregos ou com os salários congelados, a deflação não é favorável para as finanças pessoais.

A deflação no Panamá e na Costa Rica "não é preocupante", segundo Marte, porque a economia dos dois países está crescendo. Ao contrário de outros casos, trata-se de uma deflação alinhada ao crescimento.

Nos dois países, se a deflação se estender por alguns trimestres, "nada acontece", explica ele, pois ela faz parte de um processo de adaptação.

Observando estes países, a deflação não é consequência de recessão, mas sim um fenômeno associado à evolução de fatores externos e internos, segundo Marte.

Para entender como esta deflação influencia o contexto internacional, é conveniente levar em conta que a estrutura dos gastos das famílias varia de um país para outro, segundo o peso de cada produto dentro da cesta familiar utilizada para medir o IPC.

Na Costa Rica, no Panamá e em El Salvador (que acaba de sair da deflação, mas seu IPC ainda está em torno de 0%), Marte destaca que os preços dos combustíveis e dos alimentos têm grande peso na avaliação geral do custo de vida.

Isso não ocorre em outros países, onde a importância de certos produtos importados não é tão preponderante.

E, com referência a assuntos mais locais, a decisão de um determinado governo de subsidiar certos produtos também causa influência.

Em El Salvador, por exemplo, o preço dos combustíveis é subsidiado. Esta política permite compensar a alta de preços no mercado externo.

Do ponto de vista mais amplo, se a deflação persistir na economia de um país por muito tempo, sua situação poderá ficar mais complicada, à medida que ela afeta a atividade econômica. Mas, por enquanto, não parece ser o caso centro-americano.

"Não acredito que a redução dos preços nestes três países seja permanente", afirma o economista.

Carlos Acevedo também não acredita que esta deflação passe a ser um problema. Mas, após a forte alta de preços no pós-pandemia, muitas famílias não sentem que os preços realmente tenham diminuído.

O IPC pode ser comparativamente baixo ou até negativo, mas "a vida continua sendo cara", considerando os preços praticados antes da pandemia.

O melhor exemplo é o da Costa Rica, "um país caro porque a redução dos preços é marginal" em relação ao alto custo de vida, explica Acevedo.

"As pessoas não sentem no bolso", segundo ele. E, de fato, quando conversamos com costa-riquenhos, a primeira coisa que ouvimos é que a vida está caríssima.

<><> O que acontece quando a deflação se torna permanente?

Um dos exemplos mais marcantes de deflação muito negativa é o caso japonês, conhecido como "a década perdida" do país asiático.

Nos anos 1990, o Japão sofreu uma profunda crise econômica, com redução da demanda interna, baixas taxas de juros, fragilidade do iene, altos níveis de dívida e falta de investimentos empresariais.

Com uma população muito envelhecida e mais preocupada em economizar do que em consumir, as empresas reduziram seus preços sem conseguir a reativação do consumo, em meio a um estancamento econômico, quebra de empresas e aumento dos empréstimos em atraso.

A deflação crônica sofrida pelo Japão representou um grande problema econômico por muitos anos.

O que costuma ocorrer é que, em um processo deflacionário, as pessoas postergam o consumo, à espera de que os preços continuem caindo. Isso, por sua vez, dificulta ainda mais a recuperação da economia.

O processo cria um círculo vicioso, no qual a redução do consumo agrava a queda dos preços e a falta de investimento.

Níveis de inflação muito altos ou muito baixos não são boas notícias. E, embora cada país defina sua meta inflacionária (o nível de inflação conveniente para aquela economia específica), como regra geral, o objetivo ideal de movimentação dos preços costuma ser de cerca de 2% a 4%, segundo os economistas.

É o que se costuma considerar "nível saudável" de inflação.

De qualquer forma, os economistas continuam observando o que acontece atualmente na Costa Rica, El Salvador e Panamá como sendo um fenômeno passageiro, considerando que suas economias crescem a um ritmo até mais rápido que outros países da região.

Claramente, eles estão no caminho contrário da recessão.

Historicamente, a América Latina ganhou fama pelo seu controle da inflação. As "experiências dolorosas" do passado impulsionaram reformas em muitos países, que garantem a independência dos bancos centrais e uma política monetária responsável, segundo Benjamin Gedan.

E, embora seja sempre um enorme desafio atingir o nível inflacionário ideal para cada país, os economistas concordam que as lições aprendidas nas décadas passadas deixaram uma marca positiva no continente.

•        Trump diz estar aberto a reduzir tarifas do Brasil 'diante das circunstâncias certas'

Donald Trump confirmou que deve se encontrar com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante uma rápida conversa que teve com jornalistas na noite de sexta-feira (24/10).

O presidente dos Estados Unidos também mostrou estar aberto a reduzir as tarifas impostas sobre o Brasil nos últimos meses.

A entrevista com repórteres aconteceu no Air Force One, o avião presidencial americano, que estava a caminho da Malásia, onde Trump participará de uma cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).

O presidente do Brasil também estará no evento e algumas informações indicavam que ele poderia aproveitar a ocasião para se encontrar com Trump para uma negociação sobre as tarifas e as sanções.

Questionado por um jornalista se esse encontro estava confirmado, Trump disse acreditar que a reunião com Lula deve acontecer.

"Nós nos encontramos brevemente durante a Assembleia Geral das Nações Unidas", lembrou o presidente americano.

Quando perguntado se estaria aberto a rever e reduzir as tarifas sobre o Brasil, Trump respondeu: "Sim, diante das circunstâncias certas."

Horas depois, Lula afirmou a repórteres em frente ao hotel onde está hospedado que vê a possibilidade da reunião "com otimismo" para "encontrar uma solução".

"Não tem exigência dele e não tem exigência minha ainda, vamos colocar na mesa os problemas e tentar encontrar uma solução", disse o presidente brasileiro

"Então pode ficar certo que vai ter uma solução", complementou ele.

<><> O que esperar de encontro entre Lula e Trump

Há uma possibilidade cada vez mais real de que um encontro cara a cara entre Trump e Lula aconteça às margens da cúpula da Asean, em Kuala Lumpur.

Os dois líderes se cruzaram brevemente durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em setembro, e Washington e Brasília vêm mantendo contato próximo desde então.

A reunião na Malásia, porém, deve ser o primeiro encontro presencial formal entre os chefes de Estado desde a implementação de tarifa de 50% sobre a maioria dos produtos exportados pelo Brasil em agosto e a consequente deterioração das relações entre os dois países.

Além das tarifas, o USTR, escritório do representante comercial dos EUA, abriu em julho uma investigação contra o governo brasileiro por supostas práticas desleais de comércio.

A Casa Branca também adotou restrições de vistos a autoridades brasileiras e sanções financeiras contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e sua mulher, Viviane Barci de Moraes, em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A reunião bilateral com Trump ainda não foi confirmada oficialmente, mas a expectativa é que o encontro aconteça no domingo (26/10), às margens da cúpula da Asean.

Mesmo com a perspectiva de um encontro para tentar selar a paz, os dois líderes têm dado sinais de que não pretendem recuar de suas posições.

Na quarta-feira (22/10), Trump afirmou que os pecuaristas americanos "estão indo bem" graças à tarifa imposta sobre o gado de outros países, como o Brasil.

"Os pecuaristas, que eu adoro, não percebem que a única razão pela qual estão indo tão bem — pela primeira vez em décadas — é porque impus tarifas sobre o gado que entra nos Estados Unidos, incluindo uma tarifa de 50% sobre o Brasil", escreveu em sua rede social.

O republicano acrescentou que, se não fosse por ele, os criadores de gado americanos "estariam na mesma situação dos últimos 20 anos", que classificou como "péssima".

Já Lula, na quinta-feira (23/10), voltou a defender alternativas ao dólar no comércio global.

Durante a visita que faz à Indonésia, o presidente afirmou que tanto o Pix quanto o sistema de pagamentos indonésio têm potencial para facilitar o intercâmbio entre os dois países e entre os membros do Brics.

"O século 21 exige que tenhamos a coragem que não tivemos no século 20", disse Lula, ao defender "uma nova forma de agir comercialmente, para não ficarmos dependentes de ninguém", sem citar diretamente os Estados Unidos.

A defesa de moedas alternativas à americana, reforçada pelo Brasil durante a cúpula dos Brics em julho, foi apontada por Trump como um dos motivos para a imposição das tarifas às exportações brasileiras.

Para especialistas, a recente ligação entre Trump e Lula e o primeiro encontro entre os chanceleres do Brasil e dos EUA realizado em Washington na semana passada são indícios de que há espaço para um diálogo pragmático, mesmo com divergências ideológicas.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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