Joaquim
de Carvalho: Lava Jato e seus crimes
A Lava
Jato não tem mais o prestígio e o poder que fizeram dela um instrumento para
arruinar a economia brasileira e promover injustiças colossais. Mas seus
agentes continuam impunes.
O
ministro Dias Toffoli tem tomado decisões que escancaram as ilegalidades da
operação e anulado processos que nunca deveriam ter sido abertos. Muito se fala
na recuperação de dinheiro desviado da Petrobras.
Mas
nada se compara aos 2,3 bilhões que tentaram desviar para projetos pessoais de
seus integrantes, com o consequente enriquecimento ilícito. Há algumas semanas,
um desses casos veio à tona, com a anulação de um processo que tinha o advogado
Guilherme Gonçalves como um de seus alvos.
Não há
indício de que o advogado tenha cometido crime algum. Assim mesmo, ficou três
dias presos e teve dois de seus endereços profissionais vasculhados por decisão
de Sergio Moro, depois de um movimento de procuradores que revela conluio.
O
“crime” de Guilherme Gonçalves foi advogar para dois importantes quadros do
Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo.
Como
fazia parte da elite da advocacia curitibana, foi tratado como inimigo e a
injustiça de que foi vítima ainda é uma página que precisa ser escrita na
grande infâmia que foi a Lava Jato.
É o que
começaremos a fazer por aqui, antes que seus agentes enganem mais uma vez a
sociedade brasileira e se passem por cidadãos com propósitos diferentes dos de
Jair Bolsonaro, o nome mais conhecido do fascimo à brasileira.
São
farinha do mesmo saco, sacripantas que buscam o mesmo objetivo: manter o Brasil
com a estrutura colonial e escravocrata.
A
perseguição a esse advogado tem um marco, 11 de agosto de 2015, na semana em
que ONGs ligadas aos procuradores, como o Vem Pra Rua, o Nas Ruas de Carla
Zambelli e o MBL preparavam uma das maiores manifestações do período, a do dia
16, um domingo.
Essas
manifestações eram de pessoas insatisfeitas como a reeleição de Dilma Rousseff
e pediam seu impeachment, sem um fato que o justificasse.
Às
10h14 daquele dia 11, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima avisa seus
colegas, no Chat PF-MPF Lava Jato 2, acessado por Walter Delgatti Neto, e
depois divulgados com o nome Vaza Jato.
“Estou
tentando entrar em contato com o Russo”, escreve. Russo era o codinome do juiz
Sergio Moro.
Dezesseis
minutos depois, Carlos Fernando informa: “Marquei às 14 horas na Justiça”.
Às
14h11, Roberson Pozzobon, o Robito, que foi estagiário de Deltan Dallagnol e
tinha sido convocado por este para integrar a força-tarefa, diz que ele e
outros já estavam na sede da Justiça Federal no Paraná.
Welter,
outro procurador, informa que estavam dentro (provavelmente na sala).
No dia
seguinte, Moro insere no sistema da justiça (e-Proc) uma decisão sigilosa.
Seriam feitas prisões temporárias e buscas e apreensões de quinze alvos.
Detalhe: a decisão do juiz, de 12 páginas, ocorre 30 minutos depois da
apresentação do pedido da força-tarefa.
Não é
preciso ser Sherlock Holmes para constatar que já estava tudo previamente
combinado. O nome disso é conluio, como anotou o ministro Dias Toffoli na
decisão que anulou os processos de algumas das vítimas de Sergio Moro, entre
elas Guilherme Gonçalves.
No dia
seguinte, o advogado teve os escritórios de advocacia como alvos de mandados de
busca e apreensão, o que é absolutamente ilegal. Guilherme também teria sua
prisão temporária decretada alguns meses depois.
As
decisões de Moro foram cumpridas no dia 13 de agosto, antes das 8 horas da
manhã. Carlos Fernando estava ansioso. No chat, às 7h35, pergunta aos colegas
no chat: “Festa em andamento?
Robito
posta de dentro do escritório de Guilherme Gonçalves: “Perspectivas fantásticas
do PIXULECO II (nome dessa fase da operação)”. E acrescenta: “Estou analisando
os materiais e tem muuuita coisa legal”.
Deltan Dallagnol está exultante: “Ferrooooo!”
Robito
provavelmente tem acessos a documentos internos do escritório, que é
inviolável, e cita nomes que poderiam ser perseguidos, entre eles Paulo
Ferreira, Gushiken (Carlos Fernando lembra: “falecido”), Valter Correia e
Carlos Roberto Cortegoso.
Robito
comenta: “Precisamos nos reunir com o Russo amanhã, quem poderia participar de
uma reunião com ele e PF amanhã de manhã?”. Moro era, na prática, o chefe do
grupo.
Na
conversa, combinam de se reunirem antes do encontro com Moro para finalizarem o
projeto do grupo. Eles queriam driblar o STF, onde Gleisi tinha foro por ser
senadora, e decidiram que o melhor era decretar algumas prisões antes de enviar
o caso para a corte em Brasília.
Em 8 de
outubro de 2015, quando o caso já estava sob jurisdição do sistema de justiça
em São Paulo, Carlos Fernando sugere pressionar o juiz em São Paulo: “Use
psicologia reversa com ele dizendo que se fosse em Curitiba todos esperariam
que houvesse a prisão.”
Em
consequência, uma nova operação seria deflagrada alguns meses depois, com o
nome Custo Brasil (Pixuleco 3), com outras vítimas e a decretação da prisão de
Guilherme Gonçalves, sobre quem Carlos Fernando parecia ter uma obsessão.
“A
decisão que determinou a deflagração da “Operação Custo Brasil (Pixuleco 3)”,
na qual o peticionário foi preso e sofreu nova busca e apreensão, juntamente
com Paulo Bernardo e outras nove pessoas, está fundamentada integralmente no
material que foi obtido ilegalmente no escritório do peticionário, em
decorrência do conluio entre a Força-Tarefa Lava Jato e o ex-Juiz Sérgio Moro”,
escreveu o advogado Eduardo Sanz, na petição enviada a Toffoli, com o pleito de
anular os processos.
Essa
operação foi realizada no dia 23 de junho de 2016, com Dilma já afastada pelo
golpe do impeachment, tendo como alvo principal a Consist, que tinha sede em
São Paulo. Carlos Fernando comenta: “Poxa. O Guilherme era meu preso favorito”.
Os
procuradores dão os parabéns ao procurador Andrey Borges de Mendonça, por conta
da operação que é um desdobramento daquela de agosto de 2015. Isabel Groba
Vieira informa: “Anunciada a prisão de Paulo Bernardo”.
Os
procuradores comemoram.
No
mesmo dia, às 07h12, Carlos Fernando dá uma demonstração de que a perseguição
ao advogado tem caráter pessoal: “Não sei se você sabe, Andrey, mas o Guilherme
namora a filha do Clémerson Cleve.”
Não é
segredo para ninguém que Curitiba é uma cidade em que as relações são
provincianas.
Tacla
Durán, por exemplo, também perseguido pela Lava Jato, é neto do fundador de uma
grande construtora da cidade, e suspeita que tenha sido “pescado” por conta
desse parentesco.
Guilherme
Gonçalves, sócio de uma respeitada banca de advogados, conhecia Carlos Fernando
em razão de suas atividades profissionais e pessoais.
Seu
sogro, Clèmerson Merlin Clève é um dos constitucionalistas mais conhecidos do
Brasil, da geração de Luís Roberto Barroso, Oscar Vilhena, Ingo Sarlet e Lenio
Streck.
Clèmerson
já foi cotado algumas vezes para vaga no Supremo Tribunal Federal, e Carlos
Fernando foi colega dele no Ministério Público Federal.
Carlos
Fernando e Clèmerson tinham amigos em comum no Ministério Público, e por certo
o mentor da Lava Jato sabia que, em 2004, Guilherme Gonçalves tinha advogado
para o constitucionalista num caso pessoal.
Era
conhecido em Curitiba como um advogado brilhante, e, depois que teve seu nome
exposto, a Lava Jato tentou passar imagem dele como a de um bandido.
Qual o
crime dele? Advogar para Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann. Há outros
ingredientes pessoais que justificariam a abertura de um procedimento no
Conselho Nacional do Ministério Público por falta de imparcialidade.
Promotores
e procuradores são fiscais da lei, e não podem escolher alvos para persecução
penal. As mensagens acessadas por Walter Delgatti foram periciadas, mas ainda
há pudor de profissionais garantistas de usar essas provas para acusar, o que é
uma pena.
Diferentemente
de Deltan Dallagnol, Castor de Mattos, Sergio Moro e Gabriela Hardt, Carlos
Fernando sempre se manteve na sombra, e, em vez de se lançar na carreira
política, se aposentou do Ministério Público e passou a ganhar dinheiro em
bancas privadas.
Fez
parte de um escritório de advocacia que recebeu R$ 25 milhões da Eletrobras,
depois da Lava Jato. A Eletrobras, como se sabe, foi alvo da Lava Jato,
primeiramente de sua matriz, em Curitiba, depois no Rio de Janeiro, sua
franquia, com o agora punido Marcelo Bretas à frente.
Nos
diálogos da Vaza Jato, Orlando Martello comenta, a propósito da maledicência de
Carlos Fernando: “Então, agora Clèmerson deve está ao Andrey”
Andrey
dá uma gargalhada.
Jerusa
Viecelli, aquela que espalhou fofoca sobre a Lula em outra oportunidade, mostra
que a vida pessoal alheia é um tema recorrente para ela: “A namorada mora com
ele”.
“Meio
brega a menina (Comentário tititi)”, prossegue a procuradora da república.
Robito
solta uma gargalhada.
Carlos
Fernando pergunta se alguém tirou selfie na casa do investigado.
Laura
Tessler, também procuradora, diz que faltou o preso no (sic) selfie.
No dia
26 de junho, Jerusa informa: “Guilherme Gonçalves preso em São Paulo”.
Diogo
Castor de Mattos, que seria demitido pelo Conselho Nacional do Ministério
Público, posta um emoji de sorriso. Sua pena não foi cumprida, por decisão de
uma juíza m Curitiba, confirmada pelo TRF-4
Um
detalhe: Orlando Martello revela que a imprensa tem um papel estratégico nas
ações executadas por eles.
“Destinação
do dinheiro - acho q a única chance q temos é o SG comprar a ideia. Estamos em
época de vacas magras, assim está pode ser uma saída para eles tb. Lauro não
comprou a questão. De qq forma, agora ficou difícil reverter a decisão. Não a
li, mas como a imprensa deu destaque ao assunto, e aprovou a decisão, difícil
revertê-la, ainda que junto a outros ministros. Essas leading cases tem de ser
conversados”.
O
procurador Paulo, por sua vez, mistura que o privado e público eram
indiferentes para o grupo. Paulo ironiza: “Ontem a noiva do Guilherme
Gonçalves, advogado da Gleisi que tá preso, defendeu dissertação de mestrado
ontem aqui (UFPR) em Ciência Política sobre financiadores de campanha nas
eleições de 2010 e 2014…”
Tamanha
obsessão pela vida pessoal do advogado mostra a suspeição do grupo. Ou seria
gang?
Quando
Dias Toffoli determina a libertação da prisão ilegal do advogado, em
consequência da soltura do ex-ministro Paulo Bernardo, os procuradores se
revoltam.
“Q merda esse toffoli. Revoltante. Olha o
resultado”, diz o procurador Athayde.
“Que palhaçada!!!!”, adenda Laura Tessler,
aquela que Moro diz não estar preparada para participar de audiências
relevantes.
O
ex-estagiário de Deltan, Robito, afirma: “Ridículo! Pelo menos não soltou Paulo
Ferreira, o que geraria uma situação preocupante”.
“O
estrago do Toffoli foi grande”, finaliza Athayde.
“Em
síntese, todos esses diálogos antirrepublicanos reproduzidos nesta peça revelam
a flagrante violação do princípio da imparcialidade do Juiz e o conluio
processual com a acusação em detrimento dos direitos fundamentais do
peticionário GUILHERME DE SALLES GONÇALVES, exatamente da mesma forma como já
foi assentado por este STF no âmbito da “Operação Lava Jato”, observa o
advogado Eduardo Sanz na petição que foi aceita pelo ministro do STF, Dias
Toffoli.
A
decisão de Toffoli tem sido criticada por aliados da Lava Jato, mas
tecnicamente é irretocável. A prisão de Guilherme foi fruto de uma árvore
envenenada, como saberia um estudante de direito.
Em sua
própria defesa, o Ministério Público tem o dever de investigar e punir seus
membros, aposentados ou não, que abusaram de seu poder. E a Ordem dos Advogados
do Brasil não deve ter em seus quadros um profissional que, como procurador,
atuou para, em conluio, violar um dos pilares da advocacia, que é a
inviolabilidade dos escritórios.
• Tacla Duran solicita à PGR
encaminhamento de processos internacionais ao STF
O
advogado Rodrigo Tacla Duran pediu que o Supremo Tribunal Federal determine
novamente à Procuradoria-Geral da República o envio da íntegra dos processos de
cooperação internacional (PCIs) relacionados a ele.
De
acordo com Tacla Duran, o Ministério Público Federal mantém a tramitação dos
PCIs com a Espanha e outros países, embora os procedimentos se refiram a ações
penais suspensas no Brasil por decisões do STF.
O
advogado prestava serviços para a construtora Odebrecht e foi acusado de
lavagem de dinheiro pela “lava jato”. Ele mora na Espanha, mas há restrições
quanto ao seu deslocamento para o Brasil, devido à ação penal que ainda tramita
contra ele no país europeu.
Em nova
petição, Tacla Duran aponta que a Secretaria de Cooperação Internacional (SCI)
da PGR ainda não encaminhou os PCIs ao STF, embora Toffoli já tenha determinado
isso em 2023 e, posteriormente, reiterado a ordem.
Segundo
o advogado, isso impede o andamento de uma cooperação internacional com a
Espanha, cujo objetivo é viabilizar seu deslocamento para o Brasil e sua
participação em uma audiência pública na Câmara dos Deputados para esclarecer
denúncias de extorsão na “lava jato”.
Tacla
Duran também alega que, além de não encaminhar os PCIs, o MPF mantém
comunicações paralelas com autoridades espanholas, por meio do procurador da
República Walter José Mathias Júnior.
Na
petição, o advogado diz que Mathias Júnior “vem sabotando as cooperações
jurídicas internacionais” determinadas pelo STF, para impedir seu
comparecimento ao Congresso e obstruir as investigações sobre ilícitos
praticados pelo ex-procurador, ex-coordenador da “lava jato” e ex-deputado
federal Deltan Dallagnol.
A
desobediência, segundo Tacla Duran, também favoreceria outros membros da “lava
jato”, o senador e ex-juiz Sergio Moro (União-PR) e outros magistrados que o
substituíram.
O
advogado incluiu na petição um print de email em que Mathias Júnior mantém
contato com autoridades de Singapura. Na troca de mensagens, o procurador diz
que a cooperação internacional determinada por Toffoli “não emanava de
autoridades brasileiras”.
Segundo
a petição, o MPF “vem deliberadamente tramitando os supramencionados PCIs
instrumentais às ações penais suspensas, com o intuito de prosseguir com
persecução penal em desfavor de Rodrigo Tacla Duran em jurisdição alienígena,
promovendo um bypass processual”.
Fonte:
Brasil 247/Conjur

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