Viver
até os 150 anos: será que a imortalidade virá de transplantes de órgãos? A
ciência investiga
“É
possível que, neste século, os seres humanos possam viver até os 150 anos”,
disse o presidente chinês Xi Jinping em uma conversa com o líder russo Vladimir
Putin, em uma reunião que ocorreu na primeira semana de setembro deste ano em
Pequim.
A frase
de Xi foi uma resposta ao comentário de Putin acerca de um antigo desejo da
humanidade: viver muito mais anos, quem sabe até conseguir evitar a morte. “A
biotecnologia está avançando”, falou Putin por meio de um tradutor. “Haverá
transplantes constantes de órgãos humanos e talvez até mesmo as pessoas fiquem
mais jovens à medida que envelhecem, alcançando até a imortalidade.”
A
conversa – que veio à público com o vazamento de áudio de uma gravação captada
durante o encontro dos líderes –, surpreendeu o mundo. Imaginava-se que entre
os temas discutidos pelos representantes das duas potências globais estariam
temas como segurança energética, comércio global ou conflitos militares – e não
o uso de transplantes de órgãos e medicina moderna para viver mais tempo.
A
curiosa conversa entre dois homens de 72 anos suscitou a discussão: será que os
transplantes de órgãos podem realmente ajudar as pessoas a viverem até 150
anos?
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Será que a busca por longevidade está indo longe demais?
Não
exatamente, dizem os especialistas. “O transplante de órgãos não é o caminho
para a imortalidade”, afirma Arthur Caplan, professor, chefe da divisão de
ética médica da Faculdade de Medicina Grossman, de Nova York, um especialista
em ética do transplante de órgãos.
Para
aqueles que sofrem com uma falência orgânica, os transplantes podem salvar
vidas. Mas para outros que tentam combater o envelhecimento, os transplantes de
órgãos são muito arriscados, caros e apresentam sérias limitações: um
transplante não cura muitas das doenças sistêmicas comuns do envelhecimento.
Também
não há órgãos suficientes para atender à demanda existente, muito menos para
apoiar a substituição generalizada de órgãos. E atualmente é impossível
transplantar o cérebro. Imagine viver com um coração forte e um cérebro em
deterioração — isso é um pesadelo, diz Caplan.
“O
movimento da longevidade está no nível molecular, não no nível da substituição
de órgãos”, acrescenta.
Nir
Barzilai, professor de medicina e genética da Faculdade de Medicina Albert
Einstein, em Nova York, e presidente da Academia de Pesquisa em Saúde e
Expectativa de Vida, concorda. Os cientistas desenvolveram estratégias muito
melhores, como edição de genes, medicamentos antienvelhecimento e terapias com
células-tronco para viver mais, diz ele, acrescentando:
“Podemos
retardar o envelhecimento e até mesmo revertê-lo”, diz Barzilai.
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Como aconteceu o surgimento dos transplantes de órgãos
Durante
milhares de anos, a mitologia antiga relatou histórias milagrosas de
transplantes de órgãos para curar doenças. Mas foi somente em meados da década
de 1950 que esses mitos se tornaram medicina moderna.
Em
1954, cirurgiões realizaram o primeiro transplante de órgão humano
bem-sucedido, transferindo um rim de um gêmeo idêntico para outro. No final da
década de 1960, os cirurgiões já haviam realizado com sucesso transplantes de
fígado, coração e pâncreas, enquanto os transplantes de pulmão e intestino
começaram na década de 1980.
Nos
anos seguintes, os cientistas superaram complexos obstáculos técnicos para
tornar os transplantes de órgãos mais seguros e eficazes: os pesquisadores
aprenderam a conectar melhor os vasos sanguíneos, preservar a função dos órgãos
fora do corpo durante o armazenamento e gerenciar a resposta imunológica para
evitar a rejeição de órgãos por meio de medicamentos imunossupressores.
Em
2024, no Brasil, foram feitos 30 mil transplantes de órgãos, enquanto em países
como os Estados Unidos, foram mais de 800 mil pacientes cujas vidas foram
salvas ou tiveram a qualidade dela melhorada graças aos transplantes.
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Será que a substituição de órgãos pode fazer alguém viver para sempre?
Mesmo
com grandes avanços, os transplantes de órgãos ainda apresentam alto risco.
A
principal preocupação com essas operações é a rejeição do órgão. Sem
intervenção, o sistema imunológico ataca a parte do corpo que foi transplantada
como um invasor estranho. Os medicamentos imunossupressores, desenvolvidos na
década de 1980, permitem que os médicos manipulem as defesas imunológicas do
corpo para aceitar o novo órgão.
Mas os
mesmos medicamentos poderosos que bloqueiam a rejeição de órgãos também
aumentam significativamente o risco de infecções bacterianas, virais e
fúngicas, que podem ser graves e fatais. Portanto, os médicos devem encontrar
um equilíbrio delicado entre suprimir o sistema imunológico para bloquear a
rejeição e mantê-lo forte o suficiente para combater os patógenos.
Os
imunossupressores geralmente precisam ser tomados por toda a vida e também
podem causar efeitos colaterais como diabetes, hipertensão, colesterol alto e
até câncer a longo prazo. Passar por várias rodadas de imunossupressores para
múltiplos transplantes agrava esses efeitos.
“Para
transplantar todos os órgãos do seu corpo, você precisaria tomar cerca de 378
litros de imunossupressores todos os dias”, explica Caplan — uma perspectiva
perigosa.
Outro
problema do uso de transplantes de órgãos para viver mais tempo é que nossos
corpos se tornam menos resistentes à medida que envelhecemos. É mais difícil se
recuperar após uma cirurgia, suportar estressores físicos e combater infecções.
“Ainda
não existe transplante para fragilidade ou demência”, afirma Henry Pleass,
professor de cirurgia da Universidade de Sydney, na Austrália, e cirurgião de
transplantes do Hospital Westmead.
E
embora os órgãos transplantados durem mais do que nunca — muitas vezes décadas
—, eles não duram necessariamente a vida toda, o que significa que a
substituição de órgãos não é uma solução milagrosa.
“Primeiro,
você tem que sobreviver a um transplante”, explica Barzilai. “Depende do órgão,
mas se você for idoso ou frágil, pode não se recuperar totalmente. E,
eventualmente, você pode precisar de outro órgão. Essa não é uma estratégia
para a longevidade.”
Caplan
compara essa abordagem futurista de biohacking à cirurgia plástica. “Você pode
mudar sua aparência, mas ainda assim vai morrer na mesma idade.”
Os
transplantes contínuos de órgãos são mesmo viáveis?
Atualmente,
a demanda por órgãos para transplante excede em muito a oferta, mesmo para os
pacientes com maior necessidade.
Em todo
o mundo, apenas cerca de 10% da demanda por transplantes é atendida, com
grandes disparidades entre os países. Essa escassez global significa que a
substituição generalizada de órgãos para viver mais tempo não é viável, sem
falar na questão ética, diz Caplan.
“O
movimento da longevidade desvia a atenção das reais necessidades de saúde da
maioria das pessoas no mundo que estão morrendo prematuramente devido a
problemas evitáveis”, diz Caplan, observando que as intervenções
antienvelhecimento propostas devem ser acessíveis para as massas.
“Neste
momento, a ideia de usar transplantes para prolongar a vida não é algo que
possamos fazer ou mesmo considerar, especialmente porque há uma enorme escassez
de órgãos”, concorda Eric Verdin, gerontologista e presidente e CEO do Buck
Institute (entidade de pesquisa biomédica independente localizada no estado da
Califórnia, nos Estados Unidos).
Além
disso, para muitos este é um processo proibitivamente caro. Os custos do
transplante variam entre 260 mil dólares, nos Estados Unidos, para um único rim
e mais de um milhão de dólares para um novo coração, e isso sem contar os
custos da medicação para o resto da vida.
Os
cientistas estão correndo para remediar esses dois problemas. Alguns estão
utilizando técnicas de edição de genes, como o CRISPR (sigla para Repetições
Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaciadas), para modificar
geneticamente órgãos de porcos, tornando-os efetivamente “livres de rejeição” —
um modelo que se provou viável em dois pacientes.
Outras
estratégias incluem o cultivo de órgãos a partir de células-tronco humanas, o
desenvolvimento de “miniórgãos” cultivados em laboratório, chamados organóides,
e o uso da bioimpressão 3D para produzir órgãos sob demanda. No entanto,
nenhuma dessas estratégias foi implantada para uso clínico em larga escala.
“Os
transplantes de órgãos podem até parecer uma solução para pessoas mais ricas,
mas eles não são mesmo uma solução completa”, diz Caplan. Essas operações
muitas vezes substituem uma “doença crônica por uma doença aguda”, porque é
preciso tomar imunossupressores, diz Caplan.
Em vez
de transplantar órgãos, Alejandro Soto-Gutierrez, professor de patologia da
Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, também nos Estados Unidos,
diz acreditar que o verdadeiro futuro da extensão da vida está nas técnicas que
reprogramam órgãos velhos e doentes. “Vejo um futuro sem transplantes reais.”
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Que outras estratégias da ciência poderiam funcionar melhor para a longevidade?
Embora
os xenotransplantes e a fabricação de órgãos tenham avançado
“consideravelmente” nos últimos cinco a dez anos, Soto-Gutierrez argumenta que
o campo da medicina transcricional avançou mais rapidamente.
Essa
abordagem usa tecnologias como mRNA, CRISPR e reprogramação celular para
alterar a forma como os genes são expressos. Os cientistas esperam que o
direcionamento dos quatro fatores Yamanaka – proteínas com a capacidade de
reprogramar células adultas mais velhas em células-tronco pluripotentes mais
jovens, possa ajudar a reverter as chamadas marcas do envelhecimento em humanos
— o Santo Graal da pesquisa sobre o envelhecimento.
“Pessoalmente,
acredito que as medicinas transcricionais serão desenvolvidas mais rapidamente
e que não haverá necessidade de transplantes nos próximos anos, prolongando
assim a vida de órgãos mais jovens e saudáveis”, diz Soto-Gutierrez.
Barzilai
imagina um tratamento que um dia apagará os sinais do envelhecimento. “Se
conseguirmos chegar aos 150 anos, não acho que será em um corpo velho, mas em
um jovem”, diz Barzilai, observando que é muito mais fácil retardar o
envelhecimento do que revertê-lo.
Os
cientistas agora podem manipular parcialmente o envelhecimento celular,
rejuvenescer tecidos mais velhos e eliminar células senescentes que causam
inflamação e doenças. No futuro, talvez possamos fazer isso de forma
sistemática, provavelmente injetando um “coquetel de produtos biológicos”.
“Você
receberá um tratamento e ele apagará partes do seu envelhecimento, seu
envelhecimento diminuirá e você permanecerá saudável por muito mais tempo”, diz
Barzilai.
Em vez
da substituição de órgãos, Barzilai sugere focar em mudanças no estilo de vida
baseadas em evidências, como uma dieta rica em vegetais e exercícios regulares.
Na
terceira idade, muitos medicamentos mostram potencial antienvelhecimento – como
metformina, GLP-1s, inibidores de SGLT2, rapamicina e bisfosfonatos — embora
seja importante observar que eles são aprovados pela FDA para certas condições
de saúde, mas não para longevidade. Qualquer medicamento deve ser tomado sob os
cuidados do seu profissional de saúde.
“Com
certeza, teremos algumas moléculas que tratarão o envelhecimento de forma
duradoura em 20 anos”, prevê Verdin. No
entanto, cuidado com os “remédios milagrosos”, alerta Barzilai. Nossa obsessão
coletiva por viver mais tempo criou um enorme mercado global para terapias de
longevidade, estimado em 44,2 bilhões até 2020. “Há muitos charlatões por aí
dizendo bobagens”, acrescenta.
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Algum dia será possível viver até os 150 anos?
Quando
se trata das previsões de Xi, os especialistas não concordam: Verdin ficou
surpreso que Putin e Xi tenham mencionado 150 anos como uma idade alcançável.
“Viver
150 anos é mais como um sonho impossível, algo que pode inspirar as pessoas,
mas não algo que a maioria dos cientistas sérios acredita hoje”, diz Verdin.
“Essa previsão diminui algumas das coisas incríveis que podemos realizar, que é
ajudar todos a viver até os 95 ou 100 anos.”
Barzilai
discorda: com investimento e ação, o especialista diz que chegar aos 150 anos é
possível. “Eu diria que Xi tem grandes chances de estar certo”, diz Barzilai.
E esse
investimento está acontecendo. Os governos de Xi e Putin investiram pesadamente
em pesquisas sobre o envelhecimento, assim como inúmeros outros líderes
globais, investidores e instituições científicas.
Ambos
os países têm problemas de envelhecimento — a expectativa de vida média da
Rússia está diminuindo, enquanto a China lida com a maior população idosa do
mundo.
A
expectativa de vida já aumentou antes. Durante milhares de anos, a duração da
vida humana oscilou em torno dos 30 anos. Então, durante a Revolução Industrial
e o advento de medidas de saúde pública – como saneamento, segurança alimentar,
vacinas e água potável, a expectativa de vida humana mais que dobrou, chegando
a 71 anos no século 21.
Agora,
o limite máximo da vida humana é de cerca de 122 anos. No entanto, adicionar
décadas à nossa expectativa de vida atual também trará novas doenças
imprevistas, adverte Verdin. É por isso que, por enquanto, sua melhor aposta é
otimizar cinco estratégias antienvelhecimento comprovadas: exercícios,
nutrição, sono, controle do estresse e conectividade social.
“Muitas
pessoas procuram a gente em busca de algum suplemento ou pílula mágica”, diz
Verdin. “Não temos nada que tenha o mesmo efeito da atividade física, nutrição
e um estilo de vida saudável.” Melhor ainda, não há cirurgia envolvida.
Fonte:
National Geographic Brasil

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