José
Maurício Domingues: A estratégia da barbárie - A chacina como contraofensiva da
extrema-direita
A
política é uma atividade humana das mais dinâmicas que se conhece. Qualquer um
que dela participe com algum grau de dedicação ou ao menos de atenção sabe que
os agentes não ficam parados assistindo uns aos outros se moverem, sobretudo
quando se está perdendo. Já se disse inclusive como nuvem. Assim, as
contraofensivas devem ser sempre esperadas quando algum agente se vê
sobrepujado em algum momento. Se muitos podiam talvez imaginar que a situação
política e eleitoral de 2026 estava resolvida com a condenação do golpista Jair
Bolsonaro e o comportamento tresloucado de seu filho Eduardo Bolsonaro nos
Estados Unidos, com uma aproximação ao menos parcial de Donal Trump com o
presidente Lula, isso se provou ledo engano.
Se o
primeiro tema se resolveu com a resolução do Supremo Tribunal Federal,
especialmente do ministro Alexandre de Moraes, de seguir até o fim com a
punição à bizarra e anacrônica, mas nem por isso menos potencialmente
sangrenta, tentava de golpe de base militar, a segunda linha de ataque que
mobilizava sanções contra o Brasil se mostrou patética e contraproducente. A
direita parte com tudo para uma nova ofensiva, tentado retomar o terreno
perdido e cacifar-se para as eleições do próximo ano. O cenário principal dessa
operação não podia ser senão o Rio de Janeiro e o tema que lhes sobra neste
momento com grande impacto na opinião pública é o da segurança.
A
chacina perpetrada pelas polícias do estado do Rio de Janeiro, sob as ordens do
governador Claudio Castro, nessa terça-feira 28/10/2025, deu início a essa
contraofensiva. Mais já de 140 pessoas se contam entre os mortos nos complexos
do Alemão e da Penha, em sua maioria pardos e pretos, ou pobres que de tão
pobres viram negros, muitos com traços evidentes de execução com armas de fogo
e até mesmo faca, segundo noticia a imprensa, jogados como lixo no mato e lá
encontrados por moradores da área. Certamente eram traficantes de drogas
muitos, outros, não, não importa, realmente. Não é disso que se trata. Essa
chacina se configura como o principal massacre até hoje no Brasil desde o
início da Nova República em 1985. O jogo é claro: polarizar o país em torno ao
tema da segurança, onde a violência que a extrema direita não hesita em usar se
apresenta vistosa – tanto quanto, como se sabe há décadas, ineficaz.
No
estado do Rio a extrema direita tem o controle do aparelho do Estado em
particular em seus ramos repressivos. Controla também o sistema político. Joga
há muito, mesmo que politicamente fosse mais amorfa até há pouco, com a
sedução, em bom estilo do fascismo, pela brutalidade e pelo culto à violência
aberta. Hoje, além de aumentar a intensidade da aplicação direta da força,
parece estar pronta a apostar também em um plano de tipo Nayb Bukele ou de
“antinarcoterrorismo” ao estilo de Trump. A bola da segurança pública está
quicando na área há décadas e é tema costumeiro da direita desde sempre, sem
que nenhuma solução incisiva tenha sido buscada para o problema, afora o muito
recente projeto do governo federal, que sequer foi aprovado ainda. As pessoas
estão cansadas de lidar com a criminalidade e esse tipo de política tem um
indubitável apelo popular, no “asfalto” assim como na “favela”. Mas até hoje, a
despeito de tentativas frustradas em sua plena implementação e acossadas por
uma quantidade de problemas sociais que elas mesmas não podem resolver, não
conseguimos consolidar uma política de segurança que não seja baseada na
barbárie.
O Rio
de Janeiro, estado e capital, é o centro do bolsonarismo no país. Ele nasceu e
enraizou-se aqui depois de muitos governos em que grassou a corrupção, aumentou
a criminalidade, bem como a violência policial, e pouco se fez pela população,
cujos direitos básicos estão longe de ser respeitados, a começar por seus
direitos civis, pela criminalidade assim como pelo Estado. O crescimento atual
da cidade do Rio de Janeiro, em especial, baseado na mercantilização
generalizada, emprega muita gente e faz o dinheiro circular, mas os problemas
de base seguem intocados. Some-se a isso que quase todos os governadores do
estado nas últimas décadas estão presos, inclusive o que fez a apologia mais
direta da violência sem peias, Wilson Witzel; Castro ele mesmo andou na corda
bamba e a eleição se anuncia muito ruim para ele, segundo as pesquisas.
Foi
essa autodestruição da política no estado e na cidade que permitiu, com bases
nas taras históricas que torturam sua população, a ascensão da extrema direita
de forma ainda mais acentuada que no passado. Além do mais essa população é
dominada em parte pelas milícias e em larga escala pelo clientelismo. Era aqui,
evidentemente, que a contraofensiva da extrema direita, centrada na questão da
segurança, teria que começar.
A
perspectiva de perder a eleição está dada para a extrema direita, ela nada têm
a perder, talvez os grilhões merecidos de alguns. Essa estratégia de violência
sem limite foi ensaiada em 2022 com a chacina do Jacarezinho, mas pode-se
presumir que preferiram engavetá-la naquele momento. Agora, com as dificuldades
se acumulando, tudo indica que vão apostar tudo nela, seja com violência aberta
– possibilidade terrível –, seja insistindo em supostos planos draconianos de
combate ao crime, certamente vãos, ainda que espalhafatosos. Como disse Castro:
a operação foi um sucesso e foi só o começo. Além do mais, não foi sozinho que
ele adotou essa estratégia e tomou as decisões dela decorrentes.
Mas que
ninguém se engane: essa contraofensiva não se deterá por aqui. Não por acaso,
no momento em que escrevo este texto, todos os govenadores de direita já tinham
se solidarizado com Castro e planejavam vir ao Rio de Janeiro para apoiar suas
ações. O jogo ainda não terminou, não terminará tão cedo, sequer em 2026. Temos
que segurar essa contraofensiva e contra-atacar.
Para
começar, a frente democrática contra a barbárie ou o fascismo, o bolsonarismo
ou a extrema direita, ou como se quiser defini-la, tem que ser mantida e
promovida. Ninguém deve deixar de ser o que é para seguir essa perspectiva
estratégica, com suas próprias táticas, visões de mundo e programas, muito pelo
contrário: é a soma de diferenças que dá força a esta frente. Crucial é
igualmente manifestar-se e protestar, mobilizar todos os recursos políticos e
legais possíveis, demandar que todos os políticos minimamente decentes condenem
essa chacina. É preciso empurrar a imprensa para discutir os problemas de fundo
que alimentam a criminalidade, seus braços financeiros e sua capacidade de se
armar até os dentes, mas também a vida sem horizonte de jovens que acabam no
tráfico por absoluta falta de perspectivas de uma vida decente e feliz, presos
em territórios desolados, sobrando-lhes apenas, do outro lado, as Igrejas
evangélicas – fora ou dentro da prisão, quando sobrevivem a seu envolvimento
com o cruel mundo do tráfico e ao confronto com a polícia.
O golpe
que não ocorreu em 2023 em parte se projeta agora, com a estratégia da
barbárie, pelo menos em espírito. Poderia ser uma bomba em uma estação de trem
ou metrô, sabe-se lá, como em Brasília um tresloucado já ensaiou e o fascismo
explorou à exaustão na Itália do pós-guerra.
A
defesa da civilização e da democracia estão em questão. Pagamos já muito caro
pelo governo Bolsonaro e quase pagamos ainda mais com sua quase reeleição e
tentativa de golpe. Há realmente muito em jogo – infelizmente, de novo. Hoje
mais que nunca, sair dos gabinetes da política formal é imperativo, somos todos
nós, cidadãos, que temos que nos mobilizar e retornar às ruas. O Rio de Janeiro
hoje somos todos nós.
¨
O pacto racial contra a democracia. Por Edson Teles
Imagine
acordar com o seu bairro sitiado por forças militares entrando nas casas e,
assustado(a) e acuado(a), você ficar em algum canto de sua residência ouvindo
tiros, bombas e gritos de pessoas sendo executadas. Imagine dezenas de corpos
dilacerados e enfileirados enquanto familiares procuram seus entes
desaparecidos, fazendo o reconhecimento da identidade e chorando nessa cena
trágica.
Claro
que se a sua residência for em um bairro de população majoritariamente branca
essas cenas nunca passarão de uma reportagem de TV ou de algum vídeo em redes
sociais.
Em uma
ação violenta e criminosa, o estado do Rio de Janeiro realizou uma operação
militar em território pobre e historicamente abandonado pelas instituições e
repetiu aquilo que é uma das marcas da história nacional, o
massacre.
A
violência estatal é um dos modos pelos quais se pode contar a história do país.
Desde a instalação do poder colonial, com a hierarquização de corpos brancos,
negros e indígenas, o Brasil tem se constituído enquanto uma sociedade
racializada, que assim classifica sua população por diferentes graus de
humanidade. Mesmo diante da gravidade dessa violência, o século XX nasceu com o
investimento na ideia de democracia racial e de relações harmoniosas entre
esses distintos humanos, apostando no projeto de que a República seria um modo
de embranquecer e assimilar aqueles que se encontravam em situações
inferiores.
Isso
seguiu mais ou menos disseminado na sociedade e com características que foram
variando a depender do momento político e social. A partir de 1964, com a
ditadura, houve uma estatização da ideia de democracia racial e um investimento
nela como um mito de constituição da identidade nacional. Não se falava tanto
em embranquecer, como em momentos anteriores, mas se negava a existência do
racismo. A ditadura criou regramento de penalização por racismo a quem
denunciasse a sua existência, perseguindo os militantes de movimentos negros.
Como diz Muniz Sodré, o racismo à brasileira passou a se apresentar sob uma
dupla negação: negava-se a existência do negro e se negava, também, o
racismo.
Dessa
forma, ao se fazer o elogio da mestiçagem e da mistura, a ditadura tentava
desaparecer com o racismo ao mesmo passo em que seguia desaparecendo com o
negro. E, aqui, não não me refiro somente a uma retórica do apagamento da
presença da população negra na sociedade, mas à violência de Estado que seguiu
com a política de morte contra a população preta e pobre.
O
Estado, naqueles anos, investiu fartamente na militarização da segurança
pública como modo de controle social da população pobre que poderia se revoltar
e controle político dos movimentos oposicionistas. Sob a justificativa de
combate aos chamados “subversivos”, que tiveram a coragem de pegar em armas
contra o regime ditatorial, o Estado se preparou, investiu nas polícias
militares, criou instituições de produção da violência e equipou o sistema
jurídico-policial para manter desaparecidos os fatos e os corpos.
Com o
início do processo de transição para a democracia uma série de estruturas e
estratégias da ditadura passaram a ser objeto de relações de forças e de
negociações. A ambiguidade da ideia de democracia racial, com a imposição de um
violento racismo ao mesmo tempo em que se negava sua existência, foi repaginada
nas novas (velhas) estruturas de segurança pública da democracia. O inimigo da
doutrina de segurança nacional da ditadura, o subversivo, foi discursivamente
substituído pelo inimigo causador da violência urbana e da
criminalidade.
Em um
lance de xadrez social, o crime foi relacionado aos territórios pobres e aos
corpos pretos. Seja por falta de oportunidades, seja pelo rebaixamento dos
seres humanos vítimas do racismo, se montou a imagem de que nesses territórios
habitavam aqueles que impediam o país de seguir em ordem e em desenvolvimento.
Assim, ao invés do subversivo, o aparato militar de segurança pública e de
combate ao inimigo interno foi mantido em democracia (e sofisticado) para caçar
e matar a população dos “territórios do crime”.
Isso
não foi acertado nas mesas de negociação dentro dos palácios, nem imposto por
meia dúzia de generais. O pacto racial de manutenção da violência de Estado foi
fruto de uma economia política e social das elites racializadas brancas para
manterem seus privilégios, fosse qual fosse o regime político, e aceito (ou
“não percebido”) pela maioria das forças políticas da redemocratização.
A
Constituição cidadã de 1988, ao incluir uma série de direitos, inclusive para
os segmentos cujas vidas valiam menos, manteve praticamente intacto o modo
militar de combate ao inimigo da segurança pública. Permaneceu com as polícias
militares e sua submissão ao modelo e ao comando das Forças Armadas. Relacionou
a segurança interna à ação de proteção das fronteiras, como se uma espécie de
guerra fria continuasse ocorresse dentro do território nacional nos anos de
democracia.
Sob a
lógica da guerra, a morte por violência de Estado somente ocorreria com a parte
desvalorizada do pacto racial, nunca em território branco. Hoje vemos a
repetição desse mesmo pacto, do mesmo aparato, das mesmas estruturas e
estratégias no massacre do Rio de Janeiro.
Essa
tragédia poderia ser a oportunidade para um ato em favor da democracia com a
nomeação de uma mulher negra à corte suprema da justiça. Infelizmente, não será
assim, pois o pacto racial não o permite. Seguiremos com a balança da Justiça,
como nas outras instituições do Estado, operando com valores distintos para a
vida.
O
fascismo e a violência da extrema direita habitam no terrorismo da segurança
pública racista. É por isso que devemos dizer de modo franco: não haverá
democracia enquanto não houver ruptura radical com a desvalorização da vida
imposta pela violência de Estado.
Fonte:
A Terra é Redonda/Blog da Boitempo

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