sábado, 1 de novembro de 2025

José Maurício Domingues: A estratégia da barbárie - A chacina como contraofensiva da extrema-direita

A política é uma atividade humana das mais dinâmicas que se conhece. Qualquer um que dela participe com algum grau de dedicação ou ao menos de atenção sabe que os agentes não ficam parados assistindo uns aos outros se moverem, sobretudo quando se está perdendo. Já se disse inclusive como nuvem. Assim, as contraofensivas devem ser sempre esperadas quando algum agente se vê sobrepujado em algum momento. Se muitos podiam talvez imaginar que a situação política e eleitoral de 2026 estava resolvida com a condenação do golpista Jair Bolsonaro e o comportamento tresloucado de seu filho Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, com uma aproximação ao menos parcial de Donal Trump com o presidente Lula, isso se provou ledo engano.

Se o primeiro tema se resolveu com a resolução do Supremo Tribunal Federal, especialmente do ministro Alexandre de Moraes, de seguir até o fim com a punição à bizarra e anacrônica, mas nem por isso menos potencialmente sangrenta, tentava de golpe de base militar, a segunda linha de ataque que mobilizava sanções contra o Brasil se mostrou patética e contraproducente. A direita parte com tudo para uma nova ofensiva, tentado retomar o terreno perdido e cacifar-se para as eleições do próximo ano. O cenário principal dessa operação não podia ser senão o Rio de Janeiro e o tema que lhes sobra neste momento com grande impacto na opinião pública é o da segurança.

A chacina perpetrada pelas polícias do estado do Rio de Janeiro, sob as ordens do governador Claudio Castro, nessa terça-feira 28/10/2025, deu início a essa contraofensiva. Mais já de 140 pessoas se contam entre os mortos nos complexos do Alemão e da Penha, em sua maioria pardos e pretos, ou pobres que de tão pobres viram negros, muitos com traços evidentes de execução com armas de fogo e até mesmo faca, segundo noticia a imprensa, jogados como lixo no mato e lá encontrados por moradores da área. Certamente eram traficantes de drogas muitos, outros, não, não importa, realmente. Não é disso que se trata. Essa chacina se configura como o principal massacre até hoje no Brasil desde o início da Nova República em 1985. O jogo é claro: polarizar o país em torno ao tema da segurança, onde a violência que a extrema direita não hesita em usar se apresenta vistosa – tanto quanto, como se sabe há décadas, ineficaz.

No estado do Rio a extrema direita tem o controle do aparelho do Estado em particular em seus ramos repressivos. Controla também o sistema político. Joga há muito, mesmo que politicamente fosse mais amorfa até há pouco, com a sedução, em bom estilo do fascismo, pela brutalidade e pelo culto à violência aberta. Hoje, além de aumentar a intensidade da aplicação direta da força, parece estar pronta a apostar também em um plano de tipo Nayb Bukele ou de “antinarcoterrorismo” ao estilo de Trump. A bola da segurança pública está quicando na área há décadas e é tema costumeiro da direita desde sempre, sem que nenhuma solução incisiva tenha sido buscada para o problema, afora o muito recente projeto do governo federal, que sequer foi aprovado ainda. As pessoas estão cansadas de lidar com a criminalidade e esse tipo de política tem um indubitável apelo popular, no “asfalto” assim como na “favela”. Mas até hoje, a despeito de tentativas frustradas em sua plena implementação e acossadas por uma quantidade de problemas sociais que elas mesmas não podem resolver, não conseguimos consolidar uma política de segurança que não seja baseada na barbárie.

O Rio de Janeiro, estado e capital, é o centro do bolsonarismo no país. Ele nasceu e enraizou-se aqui depois de muitos governos em que grassou a corrupção, aumentou a criminalidade, bem como a violência policial, e pouco se fez pela população, cujos direitos básicos estão longe de ser respeitados, a começar por seus direitos civis, pela criminalidade assim como pelo Estado. O crescimento atual da cidade do Rio de Janeiro, em especial, baseado na mercantilização generalizada, emprega muita gente e faz o dinheiro circular, mas os problemas de base seguem intocados. Some-se a isso que quase todos os governadores do estado nas últimas décadas estão presos, inclusive o que fez a apologia mais direta da violência sem peias, Wilson Witzel; Castro ele mesmo andou na corda bamba e a eleição se anuncia muito ruim para ele, segundo as pesquisas.

Foi essa autodestruição da política no estado e na cidade que permitiu, com bases nas taras históricas que torturam sua população, a ascensão da extrema direita de forma ainda mais acentuada que no passado. Além do mais essa população é dominada em parte pelas milícias e em larga escala pelo clientelismo. Era aqui, evidentemente, que a contraofensiva da extrema direita, centrada na questão da segurança, teria que começar.

A perspectiva de perder a eleição está dada para a extrema direita, ela nada têm a perder, talvez os grilhões merecidos de alguns. Essa estratégia de violência sem limite foi ensaiada em 2022 com a chacina do Jacarezinho, mas pode-se presumir que preferiram engavetá-la naquele momento. Agora, com as dificuldades se acumulando, tudo indica que vão apostar tudo nela, seja com violência aberta – possibilidade terrível –, seja insistindo em supostos planos draconianos de combate ao crime, certamente vãos, ainda que espalhafatosos. Como disse Castro: a operação foi um sucesso e foi só o começo. Além do mais, não foi sozinho que ele adotou essa estratégia e tomou as decisões dela decorrentes.

Mas que ninguém se engane: essa contraofensiva não se deterá por aqui. Não por acaso, no momento em que escrevo este texto, todos os govenadores de direita já tinham se solidarizado com Castro e planejavam vir ao Rio de Janeiro para apoiar suas ações. O jogo ainda não terminou, não terminará tão cedo, sequer em 2026. Temos que segurar essa contraofensiva e contra-atacar.

Para começar, a frente democrática contra a barbárie ou o fascismo, o bolsonarismo ou a extrema direita, ou como se quiser defini-la, tem que ser mantida e promovida. Ninguém deve deixar de ser o que é para seguir essa perspectiva estratégica, com suas próprias táticas, visões de mundo e programas, muito pelo contrário: é a soma de diferenças que dá força a esta frente. Crucial é igualmente manifestar-se e protestar, mobilizar todos os recursos políticos e legais possíveis, demandar que todos os políticos minimamente decentes condenem essa chacina. É preciso empurrar a imprensa para discutir os problemas de fundo que alimentam a criminalidade, seus braços financeiros e sua capacidade de se armar até os dentes, mas também a vida sem horizonte de jovens que acabam no tráfico por absoluta falta de perspectivas de uma vida decente e feliz, presos em territórios desolados, sobrando-lhes apenas, do outro lado, as Igrejas evangélicas – fora ou dentro da prisão, quando sobrevivem a seu envolvimento com o cruel mundo do tráfico e ao confronto com a polícia.

O golpe que não ocorreu em 2023 em parte se projeta agora, com a estratégia da barbárie, pelo menos em espírito. Poderia ser uma bomba em uma estação de trem ou metrô, sabe-se lá, como em Brasília um tresloucado já ensaiou e o fascismo explorou à exaustão na Itália do pós-guerra.

A defesa da civilização e da democracia estão em questão. Pagamos já muito caro pelo governo Bolsonaro e quase pagamos ainda mais com sua quase reeleição e tentativa de golpe. Há realmente muito em jogo – infelizmente, de novo. Hoje mais que nunca, sair dos gabinetes da política formal é imperativo, somos todos nós, cidadãos, que temos que nos mobilizar e retornar às ruas. O Rio de Janeiro hoje somos todos nós. 

¨      O pacto racial contra a democracia. Por Edson Teles

Imagine acordar com o seu bairro sitiado por forças militares entrando nas casas e, assustado(a) e acuado(a), você ficar em algum canto de sua residência ouvindo tiros, bombas e gritos de pessoas sendo executadas. Imagine dezenas de corpos dilacerados e enfileirados enquanto familiares procuram seus entes desaparecidos, fazendo o reconhecimento da identidade e chorando nessa cena trágica. 

Claro que se a sua residência for em um bairro de população majoritariamente branca essas cenas nunca passarão de uma reportagem de TV ou de algum vídeo em redes sociais. 

Em uma ação violenta e criminosa, o estado do Rio de Janeiro realizou uma operação militar em território pobre e historicamente abandonado pelas instituições e repetiu aquilo que é uma das marcas da história nacional, o massacre.  

A violência estatal é um dos modos pelos quais se pode contar a história do país. Desde a instalação do poder colonial, com a hierarquização de corpos brancos, negros e indígenas, o Brasil tem se constituído enquanto uma sociedade racializada, que assim classifica sua população por diferentes graus de humanidade. Mesmo diante da gravidade dessa violência, o século XX nasceu com o investimento na ideia de democracia racial e de relações harmoniosas entre esses distintos humanos, apostando no projeto de que a República seria um modo de embranquecer e assimilar aqueles que se encontravam em situações inferiores. 

Isso seguiu mais ou menos disseminado na sociedade e com características que foram variando a depender do momento político e social. A partir de 1964, com a ditadura, houve uma estatização da ideia de democracia racial e um investimento nela como um mito de constituição da identidade nacional. Não se falava tanto em embranquecer, como em momentos anteriores, mas se negava a existência do racismo. A ditadura criou regramento de penalização por racismo a quem denunciasse a sua existência, perseguindo os militantes de movimentos negros. Como diz Muniz Sodré, o racismo à brasileira passou a se apresentar sob uma dupla negação: negava-se a existência do negro e se negava, também, o racismo. 

Dessa forma, ao se fazer o elogio da mestiçagem e da mistura, a ditadura tentava desaparecer com o racismo ao mesmo passo em que seguia desaparecendo com o negro. E, aqui, não não me refiro somente a uma retórica do apagamento da presença da população negra na sociedade, mas à violência de Estado que seguiu com a política de morte contra a população preta e pobre.  

O Estado, naqueles anos, investiu fartamente na militarização da segurança pública como modo de controle social da população pobre que poderia se revoltar e controle político dos movimentos oposicionistas. Sob a justificativa de combate aos chamados “subversivos”, que tiveram a coragem de pegar em armas contra o regime ditatorial, o Estado se preparou, investiu nas polícias militares, criou instituições de produção da violência e equipou o sistema jurídico-policial para manter desaparecidos os fatos e os corpos. 

Com o início do processo de transição para a democracia uma série de estruturas e estratégias da ditadura passaram a ser objeto de relações de forças e de negociações. A ambiguidade da ideia de democracia racial, com a imposição de um violento racismo ao mesmo tempo em que se negava sua existência, foi repaginada nas novas (velhas) estruturas de segurança pública da democracia. O inimigo da doutrina de segurança nacional da ditadura, o subversivo, foi discursivamente substituído pelo inimigo causador da violência urbana e da criminalidade.  

Em um lance de xadrez social, o crime foi relacionado aos territórios pobres e aos corpos pretos. Seja por falta de oportunidades, seja pelo rebaixamento dos seres humanos vítimas do racismo, se montou a imagem de que nesses territórios habitavam aqueles que impediam o país de seguir em ordem e em desenvolvimento. Assim, ao invés do subversivo, o aparato militar de segurança pública e de combate ao inimigo interno foi mantido em democracia (e sofisticado) para caçar e matar a população dos “territórios do crime”. 

Isso não foi acertado nas mesas de negociação dentro dos palácios, nem imposto por meia dúzia de generais. O pacto racial de manutenção da violência de Estado foi fruto de uma economia política e social das elites racializadas brancas para manterem seus privilégios, fosse qual fosse o regime político, e aceito (ou “não percebido”) pela maioria das forças políticas da redemocratização. 

A Constituição cidadã de 1988, ao incluir uma série de direitos, inclusive para os segmentos cujas vidas valiam menos, manteve praticamente intacto o modo militar de combate ao inimigo da segurança pública. Permaneceu com as polícias militares e sua submissão ao modelo e ao comando das Forças Armadas. Relacionou a segurança interna à ação de proteção das fronteiras, como se uma espécie de guerra fria continuasse ocorresse dentro do território nacional nos anos de democracia.  

Sob a lógica da guerra, a morte por violência de Estado somente ocorreria com a parte desvalorizada do pacto racial, nunca em território branco. Hoje vemos a repetição desse mesmo pacto, do mesmo aparato, das mesmas estruturas e estratégias no massacre do Rio de Janeiro. 

Essa tragédia poderia ser a oportunidade para um ato em favor da democracia com a nomeação de uma mulher negra à corte suprema da justiça. Infelizmente, não será assim, pois o pacto racial não o permite. Seguiremos com a balança da Justiça, como nas outras instituições do Estado, operando com valores distintos para a vida. 

O fascismo e a violência da extrema direita habitam no terrorismo da segurança pública racista. É por isso que devemos dizer de modo franco: não haverá democracia enquanto não houver ruptura radical com a desvalorização da vida imposta pela violência de Estado. 

 

Fonte: A Terra é Redonda/Blog da Boitempo

 

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