segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Osnan Silva de Souza: A CIA do terror e a mídia brasileira

Em 2005, Marion Gordon Robertson – conhecido pastor evangélico e homem “de fé cristã e americana inabalável” –, no seu programa de TV The 700 Club, conclamava os serviços secretos de seu país a uma ação mais enérgica no sentido de “restaurar a ordem na Venezuela”, liquidando fisicamente Hugo Chávez, a quem ele descrevia como um “perigo terrível”: “Nós temos a habilidade de tirá-lo do poder, e eu acho que chegou a hora de fazer uso dessa habilidade (…). É muito mais fácil que agentes infiltrados façam o trabalho”. À época, o governo Bush apontou o conselho como algo apenas inapropriado: “ou seja, certas coisas são feitas quando necessário, mas não proclamadas publicamente”. A inquietação escancarada de Pat Robertson, como é conhecido, evidencia uma tradição da política externa estadunidense e de sua máquina de terror. São palavras do eminente filósofo liberal Alexis de Tocqueville: “não tenho visto sem preocupação esse espírito de conquista, e até de roubo, que se manifesta entre vocês [americanos] há alguns anos”. Como bem lembra Domenico Losurdo em A Linguagem do Império, foram inúmeras as tentativas de assassinato de Fidel Castro executadas pela CIA. Entre os anos 1950 e 1960, foram elaborados planos concretos para neutralizar ou eliminar fisicamente Stalin, Arbenz, Lumumba, Sukarno etc. Os dirigentes da CIA sempre partiram do pressuposto de que qualquer meio é legítimo quando se trata de livrar-se dos “cães loucos”.

Essas ações sempre contaram com uma cobertura de conivência e legitimação dos mais variados veículos da imprensa ocidental. Há algumas décadas, o International Herald Tribune anunciava com grande satisfação: “a CIA destinou enormes somas para encontrar um general ou coronel para colocar uma bala no cérebro de Saddam”. Durante as eleições de 2000 na Iugoslávia, a imprensa norte-americana anunciava com regozijo as dificuldades que Milosevic enfrentava para realizar a campanha eleitoral: “receoso de ser assassinado, o presidente de 58 anos raramente aparece em público e apenas para pronunciar na frente de seus seguidores discursos curtos sobre os males do fascismo”.

Nos últimos dias, Donald Trump direcionou a máquina de guerra e terror do império para a América Latina, e o alvo principal é justamente a Venezuela, o país com as maiores reservas de ouro, gás e petróleo do mundo, com 302,3 bilhões de barris. Nesse cenário, a grande imprensa brasileira tem anunciado, sem indulgências, o Terror (mas não espere pela utilização de tal categoria) norte-americano: “Trump autoriza ação secreta da CIA na Venezuela para derrubar Maduro”. São esses os termos que tomam conta da capa do jornal Folha de S. Paulo, no dia 16 de agosto, que acrescenta: “ações letais, bombardeios, ataques aéreos e em terra e captura do ditador são avaliados”. O Estadão navegou nas mesmas águas: “Trump infiltra a CIA e cogita ataque por terra na Venezuela. Presidente americano confirma ter autorizado ações secretas”. A banalização por parte da imprensa diante das agressões desferidas pelos EUA contra a Venezuela fez com que o Brasil 247 encabeçasse no título de uma análise: “Mídia brasileira naturaliza ação da CIA contra um país vizinho da América do Sul”. Mais: “tratamento complacente e acrítico de Folha, Valor e jornal Estado de S. Paulo legitima a incursão norte-americana sob o pretexto de derrubar ditadura”. Tratar-se-ia, com efeito, de uma “velha submissão ideológica da imprensa brasileira à hegemonia dos Estados Unidos”, isto é, “um padrão histórico de colonialismo informativo”.

Essa “submissão ideológica” ou esse “colonialismo informativo” podem ser verificados nos estúdios da Globonews. Aqui, a jornalista Ana Flor critica a nota do Partido dos Trabalhadores (PT), que denunciou como “uma iniciativa inaceitável e deplorável”, além de uma “afronta à soberania do país sul-americano e uma violação do Direito Internacional”, as “declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em que autoriza operações secretas da CIA no território da Venezuela”. Para a jornalista, a reação do partido deu-se num “momento errado” e “não ajuda na relação que Mauro Vieira quer construir [com os EUA]”. Flor recebe o apoio analítico de Malu Gaspar e Natuza Nery, que, além da nota, criticam também o discurso do presidente Lula da Silva, que, durante o congresso do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi enfático: “o que nós defendemos é que o povo venezuelano é dono do seu destino, e não é nenhum presidente de outro país que tem que dar palpite de como vai ser a Venezuela ou vai ser Cuba”.

Para Nery – assim como para as duas outras jornalistas –, deveria haver uma data especial para um chefe de Estado se opor a uma agressão externa a um país vizinho e enfatizar o respeito à soberania popular: “acho que no dia de hoje a nota [do PT] e essa declaração [do presidente] … me parece um erro estratégico”. Nas análises dessas jornalistas, por estar na mesa de negociação com os EUA (discutindo as tarifas impostas – outra agressão injustificada), o Brasil deveria manter-se em silêncio perante as tentativas de Trump de derrubar o governo Maduro. A voz dissonante ecoa no mesmo estúdio por meio das palavras de Octávio Guedes: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa (…). Vamos e voltamos: é um absurdo mesmo um país admitir que está utilizando o seu serviço secreto para derrubar um presidente”.

Se as três jornalistas da Globonews veem o posicionamento do Presidente da República e do seu partido como “inadequado” para o momento, a preocupação de Lourival Sant’Anna, um conhecido analista da CNN Brasil, se concentra no “excesso de transparência” do dirigente do império: “quando um presidente anuncia que o seu serviço secreto está executando uma operação, ela perde muito o seu caráter profissional e técnico. Agora os serviços de contrainteligência venezuelanos estão vasculhando cada centímetro da Venezuela. Isso [o anúncio feito por Trump] não ajuda a oposição venezuelana nem a própria operação”. Trata-se de uma análise que compactua com a cobertura da imprensa no Brasil, que reproduz a linguagem do império ao noticiar: “EUA fazem novo ataque a barco suspeito de tráfico de drogas perto da costa da Venezuela”.

O júbilo – do qual fala Losurdo – com o qual a imprensa norte-americana e europeia se expressa para se referir às tentativas de assassinato de Saddam e Milosevic é o mesmo que verificamos em Demétrio Magnoli. Com sorriso no rosto (e também no Estúdio i da Globonews), o jornalista e sociólogo anuncia “a volta da diplomacia das canhoneiras; aquilo que Theodore Roosevelt se notabilizou por fazer na América Central no começo do século XX (…) A ideia é desestabilizar o governo venezuelano sem a necessidade de uma invasão terrestre”. Podemos notar a satisfação também em seus olhos: “Maduro, que falava pela televisão sempre no palácio de Miraflores, o palácio presidencial, parou de usar o palácio. Ele está falando a cada vez num hotel diferente de Caracas. Maduro parou de ir a eventos públicos só com os seus auxiliares do governo; ele vai a eventos públicos cercado por algumas dezenas de civis de seu partido, usando-os, claro, como escudos humanos, porque ele teme ações pontuais dos EUA em terra”.

Magnoli é quem, nas dependências da Globonews, eleva a crítica ao discurso do presidente Lula da Silva a outro patamar. Se as três jornalistas concordam com a ideia de um “momento errado”, o sociólogo pondera que, embora Lula tenha razão em criticar a “interferência militar dos EUA na América do Sul”, o “problema foi a continuação da fala dele. Lula defendeu a ‘soberania popular’ da Venezuela e Cuba, mas não há soberania popular em ditaduras”. Para Magnoli, só há soberania em democracias liberais do Ocidente – ou talvez nas ditaduras aliadas. Não se trata de mobilizar a categoria “soberania nacional”, como alertou Rodrigo Azevedo, “para blindar um regime que suprime a competição eleitoral”. Mas se as palavras utilizadas pelo presidente da República – “o povo venezuelano é dono do seu destino, e não é nenhum presidente de outro país que tem que dar palpite de como vai ser a Venezuela” – para se opor ao imperialismo estadunidense não têm validade, a CIA está autorizada – não apenas por Trump, mas pela moral e pela lógica – a estender as execuções extrajudiciais, que têm como alvo indivíduos desconhecidos em embarcações no Caribe, para o território venezuelano e liquidar Maduro.

A essa altura do campeonato, os mais entusiastas defensores da liberdade e da democracia – os grandes campeões dos direitos humanos – sabem que não podem fazer nenhuma reflexão séria sem ter no horizonte os golpes de Estado orquestrados pelos EUA, as narrativas mentirosas para invadir outras nações, o seu interesse nos recursos naturais alheios, o fracasso de suas operações e o horror e o sofrimento humano causados a inúmeros povos. No entanto, a insistência enfadonha em categorias como terrorismo, autocracia, “regime” e ditadura permite que veículos da grande imprensa tentem legitimar ou minimizar as agressões estadunidenses e as suas consequências. Podemos encerrar com uma passagem de um artigo de Valério Arcary em A Terra é Redonda: “a Venezuela resiste não apenas a sanções, mas a uma narrativa que ignora sua soberania. O que se vê em Caracas é um povo que, mesmo exausto, mantém viva uma consciência política rara — e que o cerco midiático não deixa transparecer”.

•        As lições da guerra em Gaza para o jornalismo contemporâneo. Por Carlos Castilho

A esmagadora maioria dos jornalistas palestinos mortos na guerra em Gaza perdeu a vida ao exercer sua profissão no meio da população civil. Eles não foram identificados porque os drones, misseis e os jatos de combate de Israel não conseguiram, ou não quiseram, detectar os coletes usados por repórteres, fotógrafos e produtores palestinos com a inscrição PRESS (imprensa).

A convivência com as pessoas comuns e o uso intensivo de bombardeios à distância criaram o ambiente para uma letalidade recorde entre os jornalistas palestinos atuando em Gaza e na Cisjordânia. A combinação pode ser explicada pela coincidência de dois fatores:

1.       A crescente automação do armamento bélico ampliou enormemente a distância entre as forças envolvidas no conflito, o que aumentou a incidência de ações em que os combatentes não tem contato direto com  o oponente.

2.       A proibição israelense de ingresso de correspondentes estrangeiros nos territórios palestinos obrigou a grande imprensa internacional a recorrer a free lancers e fixers1 palestinos.

Nada menos que 274 jornalistas, 269 deles de nacionalidade palestina2, foram mortos pela Força de Defesa de Israel (Israel Defense Force- IDF) durante a ofensiva terrestre e ataques aéreos contra alvos palestinos na Faixa de Gaza. Nos dois anos de guerra morreram 3,5 vezes mais jornalistas do que em toda a guerra no Vietnam, que durou 20 anos e é considerada o maior conflito bélico da era moderna.

O brutal contraste na mortalidade de jornalistas entre as guerras do Vietnam e Gaza indica que a cobertura noticiosa de combates assumiu características diferenciadas na era digital. As regras estabelecendo que ataques e mortes de jornalistas durante combates são considerados crimes de guerra pela ONU3 foram simplesmente ignoradas pela própria grande imprensa ocidental.

Isto acabou colocando o jornalismo diante de uma nova realidade em matéria de cobertura de conflitos bélicos, o que obriga os profissionais e pesquisadores  a uma complexa reflexão sobre como produzir notícias em conflitos bélicos contemporâneos. Fatores como a necessidade de estar junto das pessoas, a falta de regras universais e as novas estratégias militares baseadas na automação e na guerra cognitiva4 criam condições para um aumento exponencial dos riscos a da complexidade informativa a que estão sujeitos repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e equipes de apoio.

Apesar dos desmentidos formais do governo israelenses, depoimentos e investigações feitas por organizações e empresas jornalísticas ocidentais ficou claro que houve intencionalidade em muitos ataques da IDF que resultaram na morte de jornalistas árabes em Gaza. O bombardeio do hospital Nasser onde morreram cinco repórteres palestinos é considerado paradigmático.

O caso foi investigado pela rede de televisão norte-americana CNN que concluiu ter havido uma intenção deliberada de atingir jornalistas.  Um primeiro ataque aéreo contra o quarto andar do hospital Nasser, o único ainda em funcionamento pleno em Gaza, gerou mortes e uma grande confusão no atendimento às vítimas. Dez minutos depois, quando vários jornalistas correram para o local buscando informações, dois tanques israelenses dispararam contra o mesmo quarto andar matando cinco jornalistas palestinos contratados por empresas jornalísticas europeias, árabes e norte-americanas. Segundo a CNN, os repórteres e fotógrafos caíram numa armadilha ao desempenharem sua função de informar  enquanto a IDF alegava que havia “terroristas” entre os jornalistas. A rede de TV norte-americana salientou que não era segredo que os free lancers e fixers se concentravam no alto do hospital Nasser porque era o melhor acesso à internet, na hora de enviar notícias.

O antagonismo étnico e ideológico fez com que os soldados israelenses deixassem de distinguir jornalistas, guerrilheiros, influenciadores e pessoas comuns. Quem não vestisse uniforme eram visto como palestino e automaticamente tratado como terrorista inimigo.

<><> Gastar sola de sapato

É uma situação nova e complexa porque, na era digital, o jornalismo tende a se identificar com os ambientes sociais onde atuam, por conta da necessidade de identificar demandas informativas do público bem como produzir narrativas adaptadas à cultura local. Isto faz com que o jornalista acabe se transformando em um membro da comunidade, o que pode complicar muito a sua situação pessoal quando irrompem conflitos violentos.

Esta mesma situação acontece em bairros da periferia de grandes cidades onde a população local está submetida ao controle do crime organizado.  O exercício do jornalismo nestas condições só é possível quando o profissional se mistura com as pessoas para obter informações que o ajudem a descrever o que está acontecendo com um mínimo de objetividade e credibilidade. Sem esta imersão, o repórter ou fotografo é facilmente envolvido pela narrativa das forças de segurança.

O jornalismo produzido dentro de redações perde terreno pelo trabalho feito diretamente na realidade. Pode-se dizer que é uma espécie de volta à velha metáfora “gastar sola de sapato”. Mas não se trata apenas de uma volta romântica ao passado. O engajamento nas comunidades é considerado a ferramenta mais eficaz para reduzir o efeito da desinformação gerada por quem é alheio à realidade local ou tem interesses antagônicos.

Esta nova realidade criada pela imersão do jornalista nas zonas de conflito cria uma situação que envolve diretamente também as empresas e organizações jornalísticas. Quem distribui ou publica informações sobre uma guerra ou rebelião passa a ter que assumir algum tipo de proteção a repórteres ou influenciadores digitais atuando em zonas de alto risco pessoal.  Não é um ato de generosidade e sim a defesa de indivíduos que garantem a viabilidade do negócio da notícia.

É uma responsabilidade tanto das comunidades beneficiadas como das empresas jornalísticas que contratam free lancers porque sem o fluxo de informações gerado por quem está no campo, elas perdem credibilidade, são superadas pela concorrência, além de ficarem vulneráveis à propaganda oficial. Quando há omissão na defesa e proteção do jornalismo em zonas de conflito, as empresas e organizações se tornam cúmplices da mortandade de profissionais como acontece em Gaza, sem falar no fato de que a ausência de notícias confiáveis provoca a desorientação das pessoas e aumenta o risco de elas serem empurradas para situações letais.

 

Fonte: Observatório da Imprensa

 

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