Mata
Atlântica continua perdendo grandes áreas de floresta, apesar da proteção legal
Em
1970, os cientistas já haviam passado 65 anos acreditando que o mico-leão-preto
(Leontopithecus chrysopygus) estava extinto. Naquele ano, no entanto, moradores
locais encontraram uma pequena população da espécie lutando pela sobrevivência em um trecho
preservado de Mata Atlântica no oeste paulista. Após décadas de esforços, cerca
de 1.800 desses primatas hoje se deslocam por corredores florestais
restaurados. É uma rara história de sucesso em um dos ecossistemas mais
ameaçados do mundo. Mas, apesar de conquistas como essa na conservação,
pesquisas recentes revelam uma realidade preocupante: a Mata Atlântica
brasileira continua perdendo milhares de hectares de floresta madura a cada
ano, mesmo sendo protegida por lei federal. A Lei da Mata Atlântica permite o
desmatamento apenas em circunstâncias excepcionais, o que significa que a maior
parte desse desmatamento é ilegal. “É realmente alarmante constatar que ainda
estamos perdendo grandes áreas de floresta madura”, disse Luis Fernando Guedes
Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica à Mongabay. É
especialmente preocupante, acrescentou ele, “considerando que a Mata Atlântica
é uma área crítica de biodiversidade, a floresta tropical mais devastada do
Brasil, uma das mais devastadas do mundo, e protegida por uma lei específica”.
Uma
nova pesquisa publicada na revista Nature Sustainability analisou mais de 10
mil eventos de desmatamento na Mata Atlântica entre 2010 e 2020. O estudo
constatou que o ritmo do desmatamento permaneceu estável, com uma taxa média
anual de 18.629 hectares — o equivalente à área do município de Aracaju,
capital de Sergipe, perdida a cada ano — ocorrendo principalmente em terras
privadas, em pequenas áreas e, sobretudo, para fins agrícolas. O bioma da Mata
Atlântica originalmente cobria vastas áreas da costa brasileira e se estendia
ao sul até o Paraguai e a Argentina. Hoje, de acordo com o estudo, estima-se
que apenas 24% de sua cobertura florestal original permaneça.
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Um tesouro da biodiversidade sob pressão
“As
pessoas [no exterior] conhecem a Amazônia, mas não ouviram falar da floresta da
costa atlântica, que é um ambiente extraordinariamente rico, com espécies que
vivem ali e exclusivamente ali”, disse Stuart Pimm, renomado biólogo
conservacionista da Duke University, nos Estados Unidos, que revisou o estudo,
mas não participou da pesquisa, à Mongabay. “A Mata Atlântica é uma área
crítica de biodiversidade. Ela apresenta um nível extremamente alto de
endemismo entre árvores, mamíferos, aves e anfíbios.”
A Mata
Atlântica abriga cerca de 5% de todas as espécies de vertebrados da Terra,
incluindo mais de mil espécies de aves, 450 de anfíbios, 300 de répteis e 20
mil espécies de plantas vasculares, cerca de 8 mil das quais são endêmicas, ou
seja, não encontradas em nenhum outro local. A floresta também abriga cerca de
300 espécies de mamíferos, incluindo macacos-aranha (Brachyteles spp.) e
preguiças-de-coleira (Bradypus torquatus). Quase três quartos da população
brasileira vive nesse bioma, principalmente em áreas nas quais a floresta foi
destruída. A região também é responsável por cerca de 70% do PIB nacional,
devido à concentração de cidades, indústrias e cultivos agrícolas. A floresta
fornece serviços essenciais, incluindo regulação climática e hídrica, controle
da erosão, polinização e controle de pragas. “Todos os anos, nossas epidemias
de dengue, zika, chikungunya e febre amarela também são consequência da perda
de nossa floresta, incluindo a Mata Atlântica”, disse Guedes Pinto, principal
autor do novo estudo.
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Agricultura impulsiona a perda de floresta
O
estudo revelou que o desmatamento não ocorre de forma aleatória, mas se
concentra em regiões específicas. Os pesquisadores identificaram dois
principais focos de desmatamento nos quais ocorre a maior parte da destruição,
um que abrange o sul da Bahia e o norte de Minas Gerais, e outro entre Paraná e
Santa Catarina. A maior parte do desmatamento ocorre nas áreas onde a Mata
Atlântica faz transição para os biomas do Cerrado e da Caatinga. Nesses
trechos, explicou Guedes Pinto, por estarem próximos a esses outros biomas, os
proprietários de terras alegam que a vegetação não pertence à Mata Atlântica e,
portanto, não estaria protegida pela lei. Nessas áreas, cerca de 36% da área
total desmatada foi substituída por pastagens, 33% por cultivos florestais e
28% por vegetação secundária. Segundo Guedes, há uma diferença no padrão de uso
da terra desmatada: enquanto na Bahia e em Minas Gerais predominam as grandes
fazendas, em Santa Catarina e Paraná a floresta foi substituída principalmente
por pequenas e médias propriedades. “O sul é uma região agrícola muito antiga”,
explicou Guedes Pinto. “Pequenas áreas são cortadas e substituídas
principalmente por culturas como soja e milho. Nesses locais, eles estão
derrubando as bordas das florestas remanescentes.”
Dados
recentes da plataforma de transparência Trase indicam que a produção de soja
continua avançando sobre áreas da Mata Atlântica. Mais de 50 mil hectares da
safra de 2022 foram plantados em áreas do bioma que haviam sido desmatadas nos
cinco anos anteriores, entre 2017 e 2021. O estudo também revelou ligações com
grandes empresas do agronegócio. A Trase identificou cinco delas como as mais
expostas ao desmatamento em suas cadeias de abastecimento de soja na região:
COFCO (6.051 hectares), Bunge (5.625 hectares), Cargill (3.518 hectares),
Engelhart (2.262 hectares) e Louis Dreyfus (1.334 hectares). “A Trase nos
informa que a soja proveniente do desmatamento da Mata Atlântica é consumida
principalmente no Brasil, mas também é exportada, concentrando-se em três ou
quatro comerciantes”, disse Guedes Pinto. “A Cargill é a empresa número um em
exposição ao risco de adquirir soja proveniente do desmatamento da Mata
Atlântica. “É muito surpreendente saber que existem comerciantes comprando soja
de uma região totalmente protegida; é uma grande exceção à proteção legal. Isso
nunca deveria acontecer.”
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Proteção legal enfrenta desafios de fiscalização
O
desmatamento persiste, apesar das fortes proteções legais. A Lei da Mata
Atlântica, publicada em 2006, estabelece regras para a conservação e o uso da
floresta, permitindo o desmatamento apenas em situações excepcionais de
interesse social ou utilidade pública, incluindo serviços como estradas,
ferrovias, escolas ou hospitais. “Melhorar ou expandir pastagens e plantações
não constitui interesse social ou utilidade pública”, disse Guedes Pinto. “Com
base na literatura disponível e na interpretação da lei, há evidências de que
quase 100% desse desmatamento é ilegal.”
O
estudo do qual ele participou descobriu que 73% do desmatamento ocorreu em
propriedades privadas, enquanto áreas protegidas e terras indígenas
apresentaram taxas muito mais baixas de perda florestal. Segundo Guedes Pinto,
a fiscalização permanece um grande desafio. “Há uma falta de fiscalização da
Lei da Mata Atlântica, especialmente na área crítica de desmatamento”, disse.
No âmbito federal, a fiscalização é realizada principalmente pelo Ibama, mas a
responsabilidade também recai sobre as autoridades ambientais estaduais. Pimm
se pergunta: “A questão é: ‘Por que estamos perdendo a floresta em um local que
se pensava estar protegido?’”
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Casos de sucesso na conservação
Apesar
das perdas contínuas, há exemplos de conservação bem-sucedida na Mata Atlântica
que podem servir de modelo para esforços de proteção mais amplos. A história do
mico-leão-preto exemplifica o que é possível. Nas últimas três décadas, para
combater a perda de habitat que ameaçava a espécie, o Instituto de Pesquisas
Ecológicas (IPÊ) plantou mais de 2,7 milhões de mudas em 6 mil hectares de um
trecho no Pontal do Paranapanema (SP), criando corredores florestais que
conectam as diferentes populações de macacos. A recuperação da espécie comprova
a eficácia do método. Em 2008, o status de conservação do mico-leão-preto foi
reclassificado de criticamente ameaçado para ameaçado, com uma população
estimada de cerca de 1.800 indivíduos vivendo na natureza atualmente, contra
menos de 200 anteriormente. “Temos um ótimo relacionamento com proprietários de
terras, com comunidades locais e municípios”, disse Laury Cullen Jr.,
coordenador de projetos do IPÊ, à Mongabay. “Confiança e orgulho são
palavras-chave que sustentam essas parcerias.” Segundo ele, o projeto evidencia
o potencial econômico da restauração florestal. “O processo de restauração é
uma ferramenta poderosa para gerar renda”, afirmou Cullen Jr. “Para cada mil
hectares restaurados, são gerados 100 empregos diretos. Para cada US$ 1 milhão
investido no plantio de florestas nativas, geramos 30 empregos diretos — cinco
vezes mais do que na indústria de petróleo e gás.”
Esses
projetos de plantio de árvores geraram uma demanda por mudas e fomentaram uma
indústria local próspera de viveiros. As mulheres têm sido as principais
responsáveis pela gestão dos viveiros, enquanto outras aprenderam a identificar
espécies, coletar sementes e manter os estoques de mudas. “Eu produzo mudas
nativas”, disse Maria Regina dos Santos, líder de um viveiro. “Hoje vivo
exclusivamente do viveiro. Você pode viver bem se você trabalhar bem.”
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Exemplo global de restauração
De
acordo com uma nova análise divulgada pela SOS Mata Atlântica, a perda de
vegetação em áreas de floresta madura diminuiu apenas ligeiramente desde 2020,
de 14.697 hectares em 2023 para 14.366 hectares em 2024 — uma redução de apenas
2%. Especialistas alertam que essa diminuição é insuficiente.mm “A tendência é
de queda, mas a redução é muito menor do que esperávamos”, disse Guedes Pinto.
Para conter o desmatamento ilegal, “precisamos garantir que as florestas que
permanecem em propriedades privadas e são protegidas por lei não sejam
derrubadas. A Mata Atlântica tem potencial para ser a primeira floresta
tropical do mundo onde alcançaremos o desmatamento zero, com restauração em
grande escala”, acrescentou Guedes Pinto. “Ela pode servir de exemplo global no
enfrentamento das crises climáticas e de biodiversidade”.
Os
esforços de restauração da Mata Atlântica receberam reconhecimento
internacional. Em dezembro de 2022, as Nações Unidas nomearam o Pacto pela
Restauração da Mata Atlântica como um dos 10 Projetos Emblemáticos de
Restauração Global durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações
Unidas sobre Diversidade Biológica (COP15), em Montreal, Canadá. O
reconhecimento foi concedido a uma coalizão de mais de 300 organizações
envolvidas na restauração de 15 milhões de hectares de Mata Atlântica até 2050,
no Brasil, Argentina e Paraguai. “É possível que consigamos realizar isso no
Brasil”, disse Guedes Pinto. “Se conseguirmos alcançar isso na Mata Atlântica,
podemos replicar em outros biomas e em florestas de outras partes do mundo.”
• Armazenamento de carbono no oceano:
entre novos investimentos e antigas preocupações
Entre
críticas e apoio, o armazenamento de carbono em reservatórios de petróleo e gás
no fundo do oceano ganha força contra a crise climática. Em todo o mundo, já
existem planos em andamento para lançar projetos desse tipo — seja no Mar do
Norte (localizado entre o Reino Unido e a Escandinávia), no Golfo do México ou
no Sudeste Asiático. Muitas dessas iniciativas já são financiadas por governos
locais. A prática consiste na captura do carbono (em geral, obtido diretamente
de indústrias poluidoras, como a do cimento e as metalúrgicas, por exemplo) e
em sua transformação em CO2 supercrítico – ou seja, quando está acima da sua
temperatura e pressão críticas, sendo “otimizado” para a manipulação. Após esse
processo, o produto é levado por navios ou gasodutos até uma estrutura
localizada no oceano. Ao chegar lá, o CO2 é injetado em um poço inativo, que em
seguida é “lacrado”. “Essas mesmas formações [geológicas] armazenaram petróleo
e gás por milhões de anos até serem perfuradas. Por esse motivo, sabemos que o
CO2 pode ser depositado de forma permanente e na mesma escala de tempo. Temos
dados detalhados e uma compreensão sólida sobre a geologia desses poços e o
quanto eles podem armazenar”, disse Chris Consoli, especialista em
armazenamento do Global CCS Institute. No entanto, essa proposta de solução
climática, que pretende pegar carona na infraestrutura já existente dos
combustíveis fósseis, é vista por críticos como uma justificativa para que esse
modelo siga sendo explorado, usando métodos pouco eficientes e com histórico
problemático. Para os que se opõem à estratégia, a ideia de usar o fundo do
oceano como depósito de carbono torna necessária a existência de uma vasta
infraestrutura e grandes investimentos em energia. Ao mesmo tempo,
especialistas citam diversos riscos ambientais que podem acompanhar essa nova
tendência.
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A busca por intensificar a captura de carbono
Em
nível global, cerca de 70 operações de captura e armazenamento de carbono estão
ativas atualmente, estocando cerca de 61,5 milhões de toneladas de CO2 por ano,
de acordo com o Global CCS Institute. Hoje em dia, a maior parte dessas
atividades ainda ocorre em terra, e são poucos os projetos oceânicos em
andamento — exemplo do Brasil, da China, da Itália, da Noruega e da Dinamarca.
Contudo, há expectativa de que o panorama mude nas próximas décadas, à medida
que surgem perspectivas de investimentos bilionários no setor. Além disso,
dezenas de projetos já estão em fase de planejamento com o objetivo de
armazenar milhões de toneladas de carbono de forma alternativa. Além de
propostas para conservar o material em poços de petróleo e gás no fundo do mar,
há intenção de estocar o produto em formações basálticas e aquíferos.
A União
Europeia, por exemplo, estabeleceu planos para armazenar pelo menos 50 milhões
de toneladas do composto por ano em 2030, em sua maioria no Mar do Norte. Em
2024, a multinacional de petróleo e gás ExxonMobil comprou uma área de 110 mil
hectares na costa do Texas, no sul dos Estados Unidos, com o mesmo objetivo.
Até o momento, o campo de exploração texano é considerado o maior espaço
marinho de armazenamento de carbono do país norte-americano. “O potencial exato
de armazenamento de cada campo varia conforme as avaliações específicas. No
entanto, a escala é suficiente para garantir uma ampla descarbonização em
setores que vão precisar disso para zerar suas emissões”, disse Consoli.
Segundo
o especialista, o carbono armazenado no fundo do oceano é indicado para reduzir
as emissões de indústrias cuja atividade encontra “difícil compensação”, caso
das produtoras de cimento, aço, químicos e plásticos, entre outros mercados.
Todavia, há um contrassenso: já existem planos para atrelar esse armazenamento
a novos projetos de extração de combustíveis fósseis, especialmente o gás. Para
Rachel Kennerley, que trabalha com o tema no Centro de Direito Ambiental
Internacional (CIEL, na sigla em inglês), o caso é “muito preocupante”, uma vez
que pode justificar um aumento nas emissões do setor de hidrocarbonetos.
Nos
dias de hoje, as companhias de petróleo e gás estão à frente da maior parte dos
projetos de captura e armazenamento de carbono. Nesse caso, o CO2 capturado no
próprio processo de extração é reinjetado nos reservatórios, assim impedindo
sua liberação na atmosfera. O processo, porém, é feito, principalmente, para
recuperar jazidas de difícil acesso. Esse processo, conhecido como “recuperação
avançada de petróleo”, pode aumentar as emissões de CO2 ao se considerar o
petróleo extraído.
Nesse
sentido, surgem novos questionamentos sobre projetos de recuperação de carbono
em águas profundas, já que muitas dessas iniciativas podem se tornar um
pretexto para que mais petróleo seja recuperado. No Brasil, por exemplo, isso
ocorre na Bacia de Santos, um dos principais campos petrolíferos do país: nesse
local, o carbono capturado e rearmazenado no fundo do mar vem sendo utilizado
para extrair mais petróleo.
Kennerley
acrescenta que o armazenamento de carbono no fundo do oceano seguirá envolvendo
altos custos e que o barateamento desse tipo de empreendimento não será simples
diante da necessidade de se criar tecnologias sob medida (cenário oposto às
soluções em energia renovável). Um outro impasse diz respeito ao tamanho da
infraestrutura necessária para aumentar a capacidade de armazenamento oceânico
— o que inclui dispositivos de captura, gasodutos e instalações para receber o
fluxo de CO2 de diferentes origens. O bloco econômico europeu estima que cerca
de 7,3 mil quilômetros de gasodutos serão necessários para satisfazer os planos
de armazenamento de CO2 até 2030, sob um custo de cerca de 19,5 bilhões de
euros (aproximadamente 121 bilhões de reais).
Grant
Hauber, consultor financeiro de estratégia energética para a Ásia do Instituto
para Economia Energética e Análise Financeira, com sede nos EUA, questiona as
alegações a favor da viabilidade e comprovação de projetos de carbono em águas
profundas. Segundo ele, estruturas em atividade, como o da Noruega, usadas como
exemplo por partes interessadas no armazenamento oceânico, têm enfrentado
“surpresas”. Entre os impasses, ele cita a entrada do carbono em áreas
submarinas não identificadas e estimativas que superdimensionam a quantidade de
carbono que é de fato armazenado. “Esses projetos, de certa forma, estão
estatisticamente funcionando. Há, porém, muitas dúvidas e eventos que surgem de
forma inesperada. Só realmente saberemos o que vai acontecer com o CO2 depois
de injetá-lo no subsolo. E então, a única coisa que poderemos fazer é
acompanhá-lo [dali em diante].”
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Preocupações ambientais se acumulam
Da
mesma forma que a extração de combustíveis fósseis no mar deixa uma pegada
ecológica (ou seja, um determinado impacto da ação humana no ambiente marinho),
o mesmo vale para a reintrodução do carbono nesses poços. Em 2023, o CIEL
publicou um relatório listando os perigos associados ao armazenamento oceânico
de carbono — incluindo a contribuição para a ocorrência de terremotos, riscos
de contaminação da água subterrânea e o deslocamento de depósitos salinos
tóxicos.
Especialistas
consultados pela Mongabay também se mostraram preocupados diante das chances de
vazamento. “Se o CO2 vazar, então não teremos feito nada pelo clima”, disse
David Ho, professor de oceanografia na Universidade do Havaí. Mais ainda, caso
esse vazamento ocorra em um duto localizado no leito marinho ou em um poço de
armazenamento, poderá impactar o ecossistema ao seu redor, principalmente por
aumentar a acidificação do oceano. Isso, por si só, já é um problema antigo
para esse bioma: maior sumidouro de carbono do mundo, os oceanos enfrentam
altos índices de acidificação ao absorver grandes quantidades de CO2
atmosférico — algo que já é alertado por especialistas.
Jerry
Blackford, do Laboratório Marinho de Plymouth, nos EUA, defende que estudos
podem minimizar os riscos. Para ele, os vazamentos em poços têm “pouquíssima
probabilidade de ocorrer desde que a geologia dos locais tenha sido
adequadamente caracterizada”. A pesquisa de Blackford sugere que o
armazenamento de carbono em águas profundas é viável e seguro. “Há maior
probabilidade do que eu chamaria de ‘vazamentos operacionais’ dos equipamentos
usados para injetar o CO2. Em outras palavras, dos dutos”, disse.
Sonja
Eisfeld-Pierantonio, coordenadora da área que trabalha contra a poluição
marinha na Whale and Dolphin Conservation (Conservação de Baleias e Golfinhos),
uma organização sem fins lucrativos do Reino Unido, elenca outros possíveis
problemas. Segundo ela, a exploração e o desenvolvimento de operações de
armazenamento de carbono podem trazer poluição sonora, causar o deslocamento de
habitat e afetar as populações de presas de animais marinhos, prejudicando
especialmente grupos sensíveis, como os cetáceos. A especialista entende que a
compreensão desses efeitos ainda é um campo novo de estudo. “Há poucas
evidências de longo prazo sobre como a captura e o armazenamento de carbono
podem afetar as dinâmicas dos ecossistemas, especialmente se essas estruturas
estiverem ligadas ao aparato de petróleo e gás, que também provoca vazamentos
de hidrocarbonetos”, disse. As atividades também podem prejudicar espécies que
já enfrentam a pressão de outras indústrias extrativistas, da indústria naval e
das mudanças climáticas, especialmente em locais próximos a áreas marinhas
protegidas ou onde animais se reproduzem. “Expandir a atividade industrial em
águas profundas em nome de justificar a continuidade da extração de petróleo e
gás cria mais pressões evitáveis sobre espécies marinhas”, disse
Eisfeld-Pierantonio. “Uma rápida transição para fontes de energia
verdadeiramente renováveis, combinada à proteção dos habitats, seria um caminho
menos arriscado.” Já Consoli, do CCS Institute, diz que, até agora, a prática
nos oceanos é “bem administrada e altamente regulamentada, com exigência de
monitoramento e relatórios rigorosos”. Ele acrescenta que isso “ajuda a
garantir que riscos potenciais sejam identificados e mitigados de forma
eficiente, fornecendo ampla proteção ao meio ambiente e às comunidades
[locais]”.
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Entre a tendência e o risco
O
incentivo à adoção do armazenamento de carbono em águas profundas cresce no
mundo — e é provável que novos projetos saiam do papel nos próximos anos,
aumentando a quantidade de carbono estocado nessas condições. “A prática
oferece uma solução escalonada e de longo prazo essencial para setores com
dificuldade de compensar e zerar suas emissões mundialmente. É difícil
acreditar em um caminho para zerar as emissões sem essa atividade. Mesmo com
uma redução rápida dos combustíveis fósseis, o armazenamento de carbono no
oceano é fundamental”, disse Consoli. Segundo o Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), práticas de captura de carbono
serão necessárias para zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2050. No
entanto, especialistas, como Kennerley, do CIEL, questionam a propaganda e os
investimentos envolvidos. “Ao final, [a prática] não reduzirá as emissões de
forma significativa. Sendo assim, trata-se de um grande desperdício de dinheiro
público, que deveria ir para outros projetos.”
Já para
Grant Hauber, armazenar carbono em reservas esgotadas de petróleo e gás no
oceano apresenta um risco duplo — uma vez que a atividade acontece “longe dos
olhos e do conhecimento” de entidades independentes de monitoramento e
regulação. Os especialistas entrevistados pela Mongabay também defendem a
necessidade de regulação de projetos em águas profundas, a transparência de
dados sobre os sítios geológicos e um monitoramento independente e rigoroso
dessas atividades offshore.
A
fiscalização também deve incluir o monitoramento de vazamentos, reforça
Blackford, pesquisador de Plymouth. “Caso essa prática nos oceanos se
estabeleça, é importante que seja fortemente monitorada. Isso responderá se ela
impacta ou não o meio ambiente. Há um sério risco de negligência quanto ao
CO2”, disse Hauber. “Em resumo, é como usar uma série de curativos para tentar
prolongar a vida, mas sem resolver o problema de fato.”
Fonte:
Mongabay

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