Crime
organizado aposta na falsificação de bebidas no Brasil
A
circulação de bebidas alcóolicas adulteradas no Brasil vem aumentando nos
últimos anos, com analistas apontando uma crescente presença do crime
organizado em um negócio que movimenta bilhões de reais.
A
discussão pública sobre adulteração de bebidas foi desencadeada no final de
setembro de 2025, depois que autoridades do estado de São Paulo confirmaram
cinco mortes por suspeita de consumo de bebidas contaminadas por metanol.
Na
ocasião, em entrevista à TV Brasil, Rodolpho Ramazzini, diretor da Associação
Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), disse que o metanol importado pelo
crime organizado para adulterar combustíveis pode ter sido redirecionado para
distribuidoras clandestinas de bebidas, o que, segundo ele, explicaria os casos
de intoxicação em São Paulo.
Segundo
Ramazzini, este redirecionamento ocorreu principalmente após a Operação Carbono
Oculto, da Receita Federal e órgãos parceiros, que desmantelou, no final de
agosto, um esquema de fraudes, lavagem de dinheiro e falsificação no setor de
combustíveis.
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Bebidas com metanol
Os
produtos usados por falsificadores são variados, mas, de maneira geral, o
consumo de bebidas adulteradas pode causar graves problemas de saúde, incluindo
dores de cabeça intensas, problemas de visão, cegueira, fraqueza muscular e
tontura, podendo levar até à morte.
Em
alguns casos, as bebidas alcoólicas podem ser adulteradas com metanol, que tem
aparência e sabor semelhante ao do álcool, mas que pode ser fatal.
Além do
tradicional uísque, bebidas que se tornaram populares no país recentemente,
como o gim e o vinho, passaram a ser destaque nas falsificações.
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Crime organizado amplia escala da falsificação
Estimativas
apontam que, no caso de destilados, até 36% do mercado do país é composto por
bebidas falsificadas. Em 2023, as bebidas ultrapassaram o cigarro como produto
mais falsificado do Brasil.
Normalmente,
produtores de líquidos mais baratos vendem aos falsificadores, que adulteram
rótulos e fazem um envase como se fossem as originais, explicou Rodolpho
Ramazzini à DW.
Segundo
ele, anteriormente, os responsáveis por estes esquemas eram pequenos
comerciantes, mas o crime organizado encontrou neste meio um grande negócio nos
últimos anos, mudando a escala do problema.
Segundo
o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em 2022, o crime organizado
obteve receita de R$ 56,9 bilhões apenas com a fabricação de bebidas
falsificadas. Como comparação, o valor é maior do que o faturamento da maior
cervejaria do país, a Ambev, no mesmo período R$ 42,6 bilhões.
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Avanço nos últimos anos
Especialistas
apontam os comércios pequenos como lugares com maior risco de venda de produtos
adulterados, mas o avanço da lucratividade do setor ameaça até mesmo os
produtos oferecidos em estabelecimentos maiores.
A
recomendação é observar eventuais anomalias nos rótulos e evitar o consumo em
caso de sabor fora do padrão.
De
acordo com Ramazzini, os comerciantes que vendem os produtos falsificados
costumam saber da origem ilícita, já que adquirem a bebida por um preço mais
baixo que o de mercado. No entanto, a expansão da atividade pode ocasionar
casos de corrupção, na qual, por exemplo, um funcionário de um grande
estabelecimento que lida com fornecimento obtenha vantagem caso adquira produto
dos falsificadores.
Nos
últimos anos, houve um aumento no número de fábricas clandestinas fechadas no
Brasil. Em 2020, a ABCF registrou que 12 estabelecimentos de falsificação foram
fechados, número que passou para 44 em 2021, avançou para 56 em 2022 e chegou a
78 em 2023. Em 2024, foram 70.
"A
raiz do problema é falsa sensação do consumidor de estar levando vantagem ao
comprar uma bebida a preços muito abaixo da realidade em um momento de perda de
poder de compra", afirma Eduardo Cidade, presidente da Associação
Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD).
"Outro
fator que está fazendo com que a falsificação cresça ainda mais é a impunidade.
Hoje, um falsificador, que utiliza álcool impróprio para consumo humano, usa
essências industriais cancerígenas e faz isso em um ambiente imundo, não é
punido", aponta Cidade. "Quando um falsificador é pego, sempre
responde em liberdade e a pena máxima é prestar serviços à comunidade. Como o
lucro é alto, e a justiça não atua na medida certa, o crime compensa",
conclui.
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Falta de rastreabilidade
Ramazzini
aponta a falta de rastreabilidade como uma questão fundamental para o avanço.
"A grande razão que encontramos é a falta de atividade do Sicobe, um
monitoramento criado em 2009, que foi um golpe no crime organizado",
afirma.
Em
2016, um ato administrativo fez com que o Sistema de Controle de Produção de
Bebidas (Sicobe), que é ligado à Receita Federal, deixasse de operar.
"Como resultado, o governo não tem mais o controle do volume de bebidas
circulando no país, o que impulsionou muito a sonegação", afirma o
especialista, que estima em até R$ 30 bilhões por ano o que o governo deixa de
arrecadar sem o sistema.
Segundo
a Receita Federal, o custo do religamento do Sicobe é estimado em R$ 1,8 bilhão
anuais, para uma arrecadação tributária de aproximadamente R$ 13 bilhões em
2023. O alto investimento é justificado como uma razão para haver maior
"cuidado na análise" da retomada, de acordo com o órgão.
Recentemente,
o Tribunal de Conta da União (TCU) considerou ilegal a decisão de interromper o
mecanismo de fiscalização, e determinou que o Sicobe voltasse a operar, o que
virou alvo disputa judicial, já que a Receita recorreu da decisão. O argumento
foi de "interferência indevida no exercício de poder discricionário
conferido ao Poder Executivo Federal".
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Expansão do crime organizado
Ramazzini
avalia que o crime organizado percebeu o setor desorganizado e passou a apostar
cada vez mais nesta alternativa, que tem menos riscos em comparação com outras
atividades ilegais.
"O
crime organizado busca explorar mercados cujos produtos sejam comercializados
no atacado em grandes volumes, mas que no varejo tenham uma distribuição
fracionada e baixa regulação e fiscalização pelo poder público", afirma o
diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima.
"A
bebida é, portanto, uma commodity na economia do crime. Ela tem a vantagem de
ser um produto legalizado, cuja distribuição é nacional e que envolve uma
enorme gama de fornecedores de matéria prima, produtores, distribuidores e
pontos de venda", acrescenta.
Em sua
visão, um mercado, como o de bebidas, serve tanto para gerar receitas, quanto
para operar em sinergia com a distribuição de produtos ilícitos em pontos de
venda controlados pelo crime – como cigarros ilegais, jogos de azar ou drogas –
e como forma de lavar dinheiro e bens. Segundo ele, os recursos podem ser
reinvestidos em outras atividades, como o tráfico de drogas.
O
diretor avalia ainda que a corrupção hoje encontra terreno fértil ao perceber
que o mercado de bebidas é pouco regulado e fiscalizado na ponta final.
"Não temos controle sobre a produção. E, quando tivemos, o foco era
exclusivamente tributário ou, no máximo, na saúde pública. O Estado não se
preocupa com os efeitos dessa baixa regulação e fiscalização em relação ao
fortalecimento das facções e do crime organizado", avalia.
• Como o metanol aparece na bebida
alcóolica — e por que isso gera lucro para alguns
A
Polícia Civil de São Paulo realizou uma operação na terça-feira (30/09) de
combate à falsificação de bebidas alcoólicas no interior do estado. A ação
acontece depois de ter sido noticiado que ao menos 22 pessoas foram
contaminadas por metanol no Estado de São Paulo. Ao menos cinco delas morreram.
O
metanol é um produto químico industrial encontrado em fluidos anticongelantes e
de limpadores de para-brisa. Não se destina ao consumo humano — e é altamente
tóxico.
O caso
chamou a atenção das autoridades, já que episódios de intoxicação por metanol
geralmente estão associados à sua ingestão deliberada em contextos de abuso de
substância, geralmente envolvendo populações em situação de rua.
Desta
vez, no entanto, os casos aconteceram em bares e envolveram diferentes tipos de
bebida, como gim, uísque, vodca e outros destilados.
Mas
como a substância pode ter aparecido nessas bebidas?
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Erro ou fabricação ilegal?
Ainda
não se sabe se o metanol foi adicionado a bebidas falsificadas (para dar mais
volume), ou se é um caso de contaminação durante a produção normal de um
destilado — apesar de declarações dadas pelas autoridades até o momento
apontarem para a primeira opção.
O
metanol pode estar presente em bebidas fermentadas, como cerveja ou vinho, mas
em pequenas quantidades que não oferecem risco.
O
problema está ligado às altas concentrações em bebidas destiladas, seja pela
falha no processo ou adição intencional da substância em bebidas produzidas de
forma ilegal.
A
Organização Mundial da Saúde alerta que esse tipo de adulteração é comum na
produção informal em vários países e que as bebidas podem ser vendidas até em
bares legítimos, muitas vezes com embalagens falsificadas.
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Mercado ilegal movimenta bilhões no Brasil
Um
relatório divulgado neste ano pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)
aponta que o mercado ilegal de bebidas alcoólicas movimentou R$ 56,9 bilhões no
Brasil, aumento de 224% em relação a 2017. A sonegação fiscal no setor foi de
mais de R$ 28 bilhões em 2023.
O Fórum
categoriza as atividades ilegais em quatro tipos: falsificação (fabricação com
marca falsificada e reutilização de garrafas de marcas legítimas), contrabando
(importação ilegal de bebida sem pagamento de imposto), produção artesanal
ilegal (fabricação sem seguir regras sanitárias e fiscais) e sonegação fiscal
(venda sem recolher tributos).
O
Anuário da Falsificação, feito pela Associação Brasileira de Combate à
Falsificação (ABCF), diz que a produção ilegal de cerveja artesanal mais do que
dobrou entre 2016 e 2022, chegando a 48,1 milhões de litros. Também aconteceu
com os destilados, com alta de 82%.
Houve
também queda nas apreensões. Para o Fórum, isto pode indicar que, "as
operações de fiscalização não acompanharam o crescimento da atividade
ilícita."
O Fórum
destaca ainda a prática ilegal conhecida como refil, quando há reutilização de
garrafas para envasamento de bebidas adulteradas. Só em 2023 foram apreendidas
1,3 milhão de garradas do tipo. Há áté mesmo anúncios online de venda de
garrafas vazias com rótulos das bebidas.
"Isso
pode resultar em preços mais baixos para o consumidor, uma vez que esses
produtos escapam de tributos e regulamentações, mas também significa maior
risco de adquirir bebidas de qualidade duvidosa, sem controle sanitário ou
garantia de segurança."
"Com
a falta de fiscalização para coibir esse tipo de atividade, a falsificação vai
se aperfeiçoando, a ponto de haver produtos idênticos", diz Enio Miranda,
diretor de planejamento estratégico e governança corporativa da Federação de
Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp).
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Sistema de controle de bebidas foi suspenso
O Fórum
Brasileiro de Segurança Pública relata a suspensão de um sistema de controle de
produção de bebidas, o Sicobe, que tornou a fiscalização "mais fragmentada
e frágil."
O
sistema tinha sido implementado pela Receita Federal em 2008, mas desativado em
2016, sob alegação de altos custos de manuteção (R$ 1,4 bilhão ao ano).
O
Tribunal de Contas da União (TCU) determinou em agosto do ano passado a
reativação desse sistema, mas a Receita diz que aguarda uma decisão pendente do
Supremo Tribunal Federal (STF) para religá-lo.
O
ministro Cristiano Zanin, do STF, suspendeu em abril os efeitos de uma decisão
do TCU que obrigavam a reestabelecer o Sicobe. Para Zanin, a suspensão foi
determinada com "ampla fundamentação técnica" em uma comissão que
concluiu pela "completa inadequaçao do sistema."
A
Receita diz que o controle de destilados é usualmente feito pela utilização de
selos, "que não têm relação, nem se confunde com o SICOBE. O SICOBE
controlava, preponderantemente, refrigerantes e cervejas."
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Há envolvimento do crime organizado?
O
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que não há
evidências do envolvimento do PCC na adulteração de bebidas alcoólicas,
hipótese que havia sido citada pela Associação Brasileira de Combate à
Falsificação (ABCF).
Já a
Polícia Federal abriu um inquérito para investigar o caso, por entender que há
indícios de que a bebida pode ter sido dstribuída para outros estados.
Segundo
o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (publicado em fevereiro
deste ano), facções como PCC e Comando Vermelho estão envolvidas no comércio
ilegal de bebidas alcoólicas no país, como forma de diversificar as atividades
ilícitas.
A
organização diz que bebidas como vinho são contrabandeadas pelo Rio Grande de
Sul. Já os destilados e outros tipos de bebidas chegam pelo Paraguai. Há também
o envolvimento de mílicias no Rio de Janeiro.
A
fiscalização do mercado depende de diversas autoridades.
A
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é responsável por
regulamentar padrões sanitários e garantir a qualidade e segurança de produtos
no mercado. A Polícia Federal, em colaboração com a Receita Federal, é
responsável por realizar o combate ao crime organizado e contrabando.
Já as
polícias nos Estados, civil e militar, bem como as guardas civis, podem
desarticular a produção e comércio de bebidas ilegais.
Fonte:
DW Brasil/BBC News Brasil

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