A
economia em meio à crise das democracias
A
democracia liberal, que, no início da década de 1990, parecia ter triunfado
definitivamente com o colapso do bloco soviético, atravessa hoje uma crise
profunda que se manifesta em vários continentes e desafia o próprio sentido da
modernidade política. Nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump revelou a
vulnerabilidade da dita democracia mais influente do mundo diante de discursos
populistas, da polarização midiática e de um mal-estar econômico difuso entre
trabalhadores que se sentiram abandonados pela globalização.
Na
Europa, para além da Guerra da Ucrânia, a União Europeia sofre com a ressaca de
um processo integracionista que não conseguiu produzir coesão social suficiente
para conter as forças do nacionalismo e da desconfiança mútua, visíveis tanto
no Brexit quanto na ascensão de partidos radicais em países europeus centrais e
periféricos.
Já nas
Américas, particularmente na América Latina, os ciclos de boom e crise
econômica expuseram a fragilidade das instituições democráticas, frequentemente
capturadas por elites ou incapazes de responder às demandas populares de forma
efetiva.
Pensar
a economia em meio a esse cenário significa reconhecer que os dilemas
democráticos contemporâneos não podem ser compreendidos sem levar em conta os
impasses da economia política global, que minam a legitimidade dos regimes e
corroem a confiança social.
O
percurso histórico do século XX oferece lições importantes para esse debate.
Nos anos 1930, a Grande Depressão abriu caminho para a descrença nas
democracias liberais, fragilizadas pela incapacidade de oferecer respostas
rápidas ao desemprego em massa e ao colapso da renda. Já no pós-guerra,
assistiu-se a um movimento inverso: o fortalecimento da democracia liberal
estava indissociavelmente ligado à reconstrução econômica, ao plano Marshall,
às políticas keynesianas e à consolidação do Estado de bem-estar social.
Democracia e economia se sustentaram mutuamente porque havia a percepção de que
a liberdade política caminhava lado a lado com a segurança econômica. Esse
contrato implícito, no entanto, foi gradualmente erodido a partir da década de
1980, quando políticas neoliberais reduziram proteções sociais, flexibilizaram
mercados de trabalho e acentuaram a concentração de renda. A promessa de
prosperidade compartilhada foi substituída por uma narrativa de eficiência e
competitividade global, mas, para grande parte da população, o resultado foi
insegurança, precarização e perda de perspectivas.
É
precisamente esse vazio que explica a ascensão de lideranças populistas nos
Estados Unidos e na Europa. A eleição de Trump não pode ser dissociada do
ressentimento das classes médias e trabalhadoras que se viram alijadas dos
ganhos da globalização. O fechamento de fábricas no cinturão industrial, a
estagnação dos salários e a percepção de que elites cosmopolitas se
beneficiavam enquanto a “América real” era abandonada alimentaram um discurso
de ruptura contra o establishment político.
De modo
análogo, na Europa, o voto pelo Brexit expressou não apenas desconfiança em
relação à burocracia de Bruxelas, mas também um sentimento de perda de controle
sobre fronteiras, empregos e identidades. Em países como Hungria, Polônia,
Itália e até França, partidos radicais e nacionalistas exploraram esse
descontentamento econômico, convertendo frustração material em polarização
política. A democracia, nesse quadro, deixou de ser percebida como um
instrumento de proteção contra os riscos do mercado e passou a ser questionada
por sua incapacidade de assegurar estabilidade e pertencimento.
Na
América Latina, as tensões assumem contornos distintos, mas não menos graves. A
região viveu ciclos de prosperidade, especialmente durante o boom das
commodities – sustentado pela demanda crescente da China -, seguidos por crises
severas que revelaram a fragilidade estrutural de suas economias. A
incapacidade dos governos de garantir crescimento sustentado e políticas
sociais duradouras alimentou a desconfiança nas instituições representativas e
reforçou a volatilidade política. O Brasil, com seus impasses sucessivos; a
Venezuela, mergulhada em colapso institucional; a Argentina, que entregou suas
forças produtivas nacionais à vontade do mercado – são expressões de um mesmo
dilema: quando a democracia não consegue assegurar estabilidade econômica
mínima, ela se torna refém de discursos autoritários ou de experimentos
radicais que prometem soluções rápidas, mas que corroem ainda mais as
instituições.
O que
une essas experiências é a emergência de um descontentamento generalizado com o
estado da economia – caracterizada pela desigualdade persistente, pela
insegurança no mercado de trabalho e pela percepção de que as regras do jogo
beneficiam poucos em detrimento de muitos. Esse mal-estar é tanto objetivo
quanto subjetivo: as estatísticas mostram concentração de renda e estagnação de
salários, mas, além disso, há um sentimento de perda de status e de exclusão
que mobiliza politicamente grupos que antes eram sustentáculos da ordem
democrática. Em outras palavras, a crise não é apenas econômica, mas também
simbólica: o contrato social que associava democracia a prosperidade partilhada
foi rompido.
Sustentar
a defesa da democracia na ideia de que instituições livres e transparentes são
“engrenagens eficientes” de um mecanismo de redução de incertezas ou de atração
de investimentos é insuficiente. Essa visão, ao submeter o valor da democracia
à lógica instrumental do mercado, termina por esvaziar sua dimensão política e
ética. A democracia não é importante porque garante estabilidade de regras para
o capital, mas porque afirma a centralidade da dignidade humana e da
participação coletiva na construção da vida social. Se reduzida a mero
mecanismo de gestão racional da economia, ela se torna vulnerável: basta que
apareça um modelo alternativo que prometa maior eficiência ou crescimento mais
acelerado para que sua legitimidade seja posta em dúvida.
O que está em jogo é outra concepção: a
democracia deve ser pensada como espaço em que a economia é chamada a responder
a demandas sociais, e não o contrário. É no terreno democrático que se tornam
possíveis a deliberação sobre prioridades coletivas, a definição de quais
riscos devem ser compartilhados, quais desigualdades são intoleráveis e quais
caminhos de desenvolvimento podem ser trilhados. Em vez de ser tratada como uma
peça no tabuleiro da racionalidade econômica, a democracia é o tabuleiro em si,
isto é, o espaço que dá sentido, direção e limites à própria atividade
econômica. O debate é enfraquecido a partir do momento em que a defesa dos
ideais democráticos torna-se meio e a economia de mercado torna-se um fim em si
mesma.
Dessa
forma, pensar a economia em meio à crise global das democracias exige abandonar
a ilusão de que mercados autorregulados produzem espontaneamente coesão e
justiça; exige reconhecer que apenas por meio da deliberação democrática se
pode subordinar a lógica econômica às finalidades humanas mais amplas — de
solidariedade, reconhecimento e esperança compartilhada.
Face ao
exposto, o desafio é reconstruir um pacto econômico que sustente as democracias
em crise. Isso implica enfrentar a desigualdade com políticas fiscais
progressivas, reformar sistemas de proteção social para atender às novas
realidades do trabalho digital e fragmentado, conter os efeitos
desestabilizadores da financeirização e regular os monopólios tecnológicos que
concentram riqueza e poder político de forma inédita. Implica também recuperar
a noção de que a economia deve servir à sociedade e não o contrário, resgatando
uma dimensão ética que valorize a dignidade humana acima da maximização de
lucros. Somente assim será possível restaurar a confiança nas instituições e
resgatar a promessa de que a democracia pode, de fato, oferecer não apenas
liberdade formal, mas também segurança material e reconhecimento social.
Enquanto
o campo político progressista não pautar seu debate em pensar um sistema
econômico mais justo para a sociedade, continuará perdendo espaço para as alas
reacionárias. A extrema direita em ascensão ao redor do mundo com seu discurso
de ruptura institucional colocou uma parcela da dita esquerda na defensiva,
utilizando de um discurso de conservar o estado das coisas. Eis o motivo de
tantos líderes extremistas terem sido eleitos, apoiados inclusive pelas camadas
mais desfavorecidas da população – os trabalhadores clamam mudança. Entretanto,
o discurso meritocrático e conservador utilizado para cooptar a classe
trabalhadora a sonhar com uma solução de se tornar “pseudo-empreendedores”, só
é funcional pela falta de alternativa apresentada.
Pensar
a economia em meio à crise global das democracias é, em última instância,
refletir sobre o rumo da civilização. A democracia não é apenas um regime
político entre outros; é o espaço em que se tornam possíveis o pluralismo, o
debate público e a construção de um projeto coletivo de sociedade. A economia,
por sua vez, não é um campo neutro de forças inexoráveis: é uma construção
social que pode fortalecer ou enfraquecer a democracia conforme suas regras de
distribuição, inclusão e reconhecimento. Sem democracia, a economia corre o
risco de se tornar máquina de exclusão e privilégio. Com ela, abre-se a
possibilidade de uma distribuição mais justa da prosperidade, que reforce o
tecido social e garanta um futuro compartilhado. A questão que se coloca, portanto,
não é se podemos pensar a democracia sem economia, mas se podemos pensar a
economia sem democracia.
• Complexidade estrutural do Brasil. Por
Fernando Nogueira da Costa
A
economia brasileira não cabe nem no modelo ricardiano clássico
(primário-exportador puro), nem na caricatura de “fábrica do mundo” (China),
nem tampouco em uma posição plenamente central como fosse a “fazenda do mundo”.
Vale detalhar a trajetória brasileira, dentro das três fases do esquema,
enfatizando os elementos capazes de a tornar uma economia híbrida, complexa e
emergente.
No
Século XIX, seria válido o Modelo Ricardiano a classificar como parte da
periferia primário-exportadora. O Brasil escravista e pós-escravista era
exportador de café, açúcar, algodão, borracha.
Tinha
dependência de importação de manufaturas da Europa. Sua estrutura social
marcada pela concentração fundiária e exclusão da maioria da população. Sem
base tecnológica própria, o país cumpria à risca a função periférica
ricardiana.
No
Século XX, houve a industrialização por substituição de importações. Na Era
Vargas (1930s–1950s), houve a fundação de estatais estratégicas como CSN,
Petrobras, Eletrobras. No governo JK (1956–61), emergiu a indústria
automobilística e a de bens duráveis, ainda dependentes de capital estrangeiro.
Durante a ditadura militar (1964–1984), o modelo desenvolvimentista autoritário
de direita fez grandes obras de infraestrutura e estimulou a formação do
complexo agroindustrial.
Os
destaques tecnológicos próprios foram a Embrapa (1973) propiciar a revolução
agrícola tropical, conquista do Cerrado, base da liderança brasileira em soja,
milho, carne. A Embraer (1969) permitiu o desenvolvimento autônomo em
aeronáutica, colocando o Brasil entre os maiores fabricantes mundiais de aviões
regionais.
A
Petrobras, nos anos 2000, fez uma inovação tecnológica na exploração em águas
profundas, depois pré-sal, tecnologia reconhecida internacionalmente. Os bancos
públicos (BB, BNDES, CEF) ofertaram crédito direcionado a setores estratégicos,
viabilizando industrialização e infraestrutura.
O
Brasil deixou de ser uma economia primário-exportadora pura, mesmo sem nunca
ter completado uma revolução tecnológica plena como Japão ou Coreia.
No
século XXI, desenvolveram-se as cadeias globais de valor e a globalização
propiciou uma posição emergente, reposicionando o Brasil. Suas exportações
ainda são fortemente primárias (soja, minério, petróleo, carnes), embora com
presença de manufaturas (aviões, automóveis, máquinas) e serviços (TI,
engenharia).
O mais
relevante para caracterizar a economia brasileira é o mercado interno atraente.
O tamanho da População Economicamente Ativa (PEA) no Brasil é estimado em torno
de 105 milhões de pessoas, correspondendo a cerca de 50% da população total de
213 milhões de habitantes). Sustenta um setor de serviços urbanos altamente
diversificado e gerador da maior parcela das ocupações, do PIB e do valor
agregado.
Sua
pauta de exportação é diversificada, inclusive o Brasil vende para todos os
continentes, não apenas para um eixo central. Está entre as 10 maiores
economias do mundo: sua escala continental e produtiva diferencia o país de
economias dependentes de um único produto.
Em
síntese, o Brasil não é primário-exportador em sentido estrito, embora tenha
reprimarização recente da pauta (anos 2000–2020). É uma economia híbrida:
primária no comércio externo (commodities) e industrial e tecnológica em nichos
(aeronáutica, agro, energia).
Predominam
os serviços urbanos geradores de um mercado interno expressivo, cujo tamanho de
consumidores é competitivo com economias europeias isoladas. Neles se concentra
a maior geração de valor.
Situa-se
a economia brasileira como uma grande emergente sistêmica, cuja posição nas
cadeias globais oscila entre dependência (importações de alta tecnologia) e
autonomia (campos de excelência como pré-sal, agro tropical, aeronáutica). Em
termos de Economia Política, o Brasil ocupa um lugar intermediário, mais
desenvolvido perante as periferias clássicas, mas ainda distante do núcleo
central do sistema capitalista. Ele combina dependência estrutural com “ilhas
de autonomia tecnológica”.
Fonte:
Por Pedro Henrique Maurício Aniceto, em A Terra é Redonda

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