segunda-feira, 28 de julho de 2025

Brasil sob Lula desafia tendência autoritária global e avança na democracia, revela estudo internacional

Enquanto potências globais escorregam rumo ao autoritarismo, o Brasil surpreende o mundo ao emergir como uma exceção democrática. Sob o terceiro mandato do presidente Lula (PT), o país deu um passo firme no sentido oposto ao da maioria das nações, fortalecendo a democracia liberal e evitando o colapso institucional, segundo o Relatório V-Dem 2025, produzido pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia.

A pesquisa, considerada a mais abrangente do mundo sobre regimes políticos, contabiliza atualmente 88 países democráticos e 91 autocráticos. Pela primeira vez em mais de cinco décadas, mais pessoas vivem sob regimes autoritários. Ainda assim, o Brasil foi na contramão: conseguiu reverter parte da deterioração institucional vivida entre 2016 e 2022.

Apesar dos avanços, o relatório mostra que o Brasil ainda sente os efeitos da autocratização iniciada com o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e agravada durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL). O país ocupa a 29ª posição global, com nota 0,71 (numa escala em que 1 representa democracia plena). A liderança mundial é da Dinamarca, com 0,88, enquanto o Chile, com 0,79, é o país mais democrático da América Latina. Já os Estados Unidos registraram queda, figurando na 25ª posição, com 0,75.

“O Brasil enfrentou uma forte crise da democracia, mas conseguiu recuperar e não evoluir para um regime autoritário”, afirmou Tiago Fernandes, professor do Instituto Universitário de Lisboa (Iscte) e diretor do Centro Regional V-Dem Europa do Sul. As declarações estão na reportagem de Jair Rattner, publicada pelo portal Público.

O Brasil foi tema de quatro artigos científicos incluídos no relatório, sinal da relevância internacional do caso. O levantamento analisa mais de 600 indicadores e conta com a colaboração de 4.200 acadêmicos e especialistas, com base de dados que cobre 202 países desde o ano de 1789.

<><>Pilares que evitaram o colapso democrático

Para Fernandes, a resistência democrática brasileira se apoiou em três eixos fundamentais. O primeiro foi a força da sociedade civil. “A primeira foi a força da sociedade civil, que conseguiu pôr gente na rua, em uma aliança entre vários grupos sociais distintos, para defender o Estado democrático de direito. Nos Estados Unidos, contra Donald Trump, não se vê gente na rua, a não ser episodicamente”, observou o pesquisador.

O segundo fator foi a atuação decisiva do sistema judicial, sobretudo no enfrentamento aos atos golpistas. “O Poder Judiciário conseguiu levar Bolsonaro a tribunal pela tentativa de golpe de Estado”, pontuou Fernandes, referindo-se aos processos em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) e à responsabilização de militares e apoiadores envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

O terceiro ponto foi a articulação política durante as eleições de 2022, que culminou na vitória de Lula. “Criou-se uma frente pró-democracia. Mesmo partidos do ‘centrão’, frequentemente associados à corrupção, romperam com Bolsonaro e passaram para o lado da democracia nas eleições de 2022”, explicou.

<><> Desafios

Embora o Brasil seja hoje visto como um dos países que mais se distanciaram do autoritarismo, o discurso bolsonarista, ainda presente na oposição, acusa o Judiciário de governar com mão de ferro. “Trata-se de um discurso simplificado de ódio, facilitado por uma visão de mundo bipolar, entre nós e eles”, rebateu Fernandes.

Ele chamou atenção ainda para o fato de que o risco autoritário não está totalmente afastado: “Esse movimento autoritário pode voltar algum dia, apoiando outra personalidade política do tipo Bolsonaro”.

•        Eugênio Bucci: O fascismo do Tio Sam

Agora, quem usa a palavra “fascismo” para se referir ao governo de Donald Trump é Robert B. Reich, um intelectual sem nenhum histórico de surtos esquerdistas. Longe disso, Robert Reich tem uma trajetória de ponderada coerência. Advogado, foi Secretário do Trabalho (cargo equivalente ao de ministro no Brasil) durante o governo de Bill Clinton, de 1993 a 1997. Era cordial e atencioso no trato com jornalistas – brasileiros, inclusive

Robert Reich foi também professor de Políticas Públicas em Berkeley. Hoje, aposentado, segue em destaque como autor de livros, alguns deles best-sellers, e como articulista frequente em jornais e revistas como The New York Times, The New Yorker, The Washington Post, The Wall Street Journal, e The Atlantic. Sua voz não costuma ceder a radicalismos e destemperos.

Pois esse sujeito, lúcido e sensato, publicou no início do mês, em seu newsletter com mais de um milhão de assinantes, uma crítica ácida da lei orçamentária que o presidente dos Estados Unidos conseguiu aprovar no Congresso.

Robert Reich diz que o pacote vai [mostrar?] “os Estados Unidos mais cruéis” do que já são. Não é para menos. A peça orçamentária retira mais de um trilhão de dólares do Medicaid (assistência médica pública). Até 2034, vai condenar ao abandono um contingente de 12 milhões de americanos. Além disso, providencia uma substanciosa redução de impostos dos mais ricos e turbina o caixa das ações militares de combate à imigração.

O sadismo é tanto que Robert Reich compara Donald Trump com os chamados “homens fortes da década de 1930 – Hitler, Stalin, Mussolini e Franco”, e conclui: “O fato de uma legislação tão regressiva, perigosa, gigantesca e impopular ter sido aprovada no Congresso demonstra o quanto Trump arrastou os Estados Unidos para o fascismo moderno”. O parlamento abaixa a cabeça à prepotência do Executivo. A Suprema Corte, pelo que se vê, tomará caminho parecido. Fascismo é a palavra.

Não foi por falta de aviso. Há cinco anos, num longo artigo publicado no New York Review of Books, Sarah Churchwell, professora do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Londres, definiu, logo no título, o resumo do primeiro governo de Donald Trump: “Fascismo americano: aconteceu aqui”.

Depois de registrar que o presidente andara posando com uma Bíblia na mão, Bíblia que nunca leu, a autora lembrou um velho ditado: “Quando o fascismo chegar à América, estará envolto na bandeira e carregando uma cruz.”. Ela alertou que a frase, comumente atribuída a Sinclair Lewis, tem sua origem mais provável nos discursos de James Waterman Wise, filho do rabino Stephen Wise. Há quase um século, James Wise avistou o perigo e antecipou: o fascismo chegaria nas terras do Tio Sam “embrulhado na bandeira americana ou em um jornal de Hearst”.

William Randolph Hearst, ganancioso e narcisista, foi o magnata da imprensa retratado com genial mordacidade no filme Cidadão Kane, de Orson Welles, lançado em 1941. Aos olhos de Wise, a América de Hearst desejava o fascismo, mas de um tipo diferente.

Bingo: no paraíso das celebridades, do consumismo pantagruélico, do entretenimento fútil e do glamour aloirado, a tintura capilar de Marilyn Monroe ganhou uma estranha ressurreição sobre cocuruto de Donald Trump e as piores vocações autocráticas encontraram seu ponto de equilíbrio – um equilíbrio meio desequilibrado, por definição.

Há algo de imperialista na fórmula, como comprovam as ordens do inquilino da Casa Branca para que fossem revogados os vistos de ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro. Os Estados Unidos, hoje, assumem a forma de um regime arrogante que confere ou retira autorizações de viagem não mais segundo normas impessoais, como recomenda o melhor Direito Internacional, mas segundo as manias irracionais do chefe. Absolutismo é pouco. O que estamos vendo lá é um fascismo tipo exportação.

Muitas outras características trumpeteiras ecoam os “homens fortes da década de 1930 — Hitler, Stalin, Mussolini e Franco”. O imperador blonde faz uso do aparato policial público para perseguir desafetos privados, copiando práticas adotadas do nazismo e do fascismo históricos. Em seu livro clássico Origens do totalitarismo, Hannah Arendt apontou esse traço distintivo quando descreveu as ditaduras do Duce na Itália de o Führer na Alemanha.

Donald Trump, hoje em feitio desarvorado, replica o mesmo traço: mobiliza tropas estatais para reprimir e prender estudantes desarmados, ameaça escritórios de advocacia que abracem causas incômodas aos seus interesses e veta a presença dos jornais de que não gosta na cobertura dos atos de governo.

Não, isso não é democracia. Isso não é nem mesmo um autoritarismo que procura se disfarçar de democracia. Isso é convulsão institucional prestes a se assumir como ditadura escancarada. Isso é um poder que, de forma consciente, deliberada e ostensiva, dispara ataques sucessivos contra as democracias organizadas do mundo. O Tio Sam empunha o fascio e o Brasil é só mais uma de suas vítimas. O estrago político será maior que o descalabro econômico.

•        "America First", cultura por último: uma nação em retirada. Por Luiz Pellegrini

A ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos marcou não apenas uma guinada política à direita, mas também um recuo profundo da potência americana no campo simbólico e cultural. Ao contrário da imagem histórica dos EUA como polo de inovação, diversidade e intercâmbio cultural global, Trump encarna - e incentiva - um isolamento cultural crescente, com consequências que vão muito além das fronteiras do país.

O último ato dessa corrida contra a cultura ocorreu no dia 22 último, quando a atual administração norte-americana anunciou que deixará a UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. É uma agência especializada da ONU que trabalha para promover a paz e a segurança internacional através da cooperação em educação, ciência, cultura, comunicação e informação. É a mais importante organização do mundo no gênero.

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Entre os motivos oficiais para a retirada:

• Desalinhamento com a política “America First” - A Casa Branca justificou a saída com o argumento de que a UNESCO promove uma agenda social e cultural considerada “divisiva” e “woke”, além de não refletir os interesses nacionais dos EUA.

• Admissão da Palestina como Estado-membro - Um dos pontos de atrito é a incorporação da Palestina na UNESCO, em 2011 - decisão vista como “altamente problemática” pelo governo Trump e que, segundo eles, alimenta um viés anti-Israel dentro da organização.

• Políticas de diversidade por parte da UNESCO - Programas da agência como o “Toolkit antirracista” e iniciativas de gênero como “Transforming MEN’talities” foram apontadas como embasamentos ideológicos conflituosos com os valores defendidos por Washington.

Durante seu primeiro governo, os Estados Unidos se retiraram da UNESCO, alegando “viés anti-Israel” e má gestão (Biden, ao assumir, levou seu país de volta à Organização). Mas tanto nessa primeira saída quanto agora, a decisão de Trump é emblemática: romper com uma das principais instituições internacionais dedicadas à cultura, educação e ciência mostra um desprezo pela construção coletiva do conhecimento e da memória global.

Trump também abandonou acordos multilaterais fundamentais, como o Acordo de Paris para o Clima, cortando pontes com o mundo no exato momento em que o planeta mais precisa de diálogo e colaboração.

E UNESCO e Paris não foram os únicos alvos da cruzada obscurantista de Trump. Durante seu primeiro mandato (2017–2021) e no de agora, ele retirou os Estados Unidos de várias parcerias e acordos de cooperação internacional, sinalizando uma guinada nacionalista e isolacionista: Saída da OMS (Organização Mundial da Saúde), em plena pandemia da Covid-19; saída da TPP-Transpacific, um importante acordo comercial estratégico com 11 países da Ásia e Oceania; saída do Acordo Nuclear com o Irã (JCPOA – Joint Comprehensive Plan of Action); saída do Pacto Global para Migração da ONU; saída do Conselho de Direitos Humanos da ONU; abandono de vários acordos de Cooperação Científica e Ambiental.

O padrão comum a essas decisões foi: Rejeição do multilateralismo; prioridade ao nacionalismo econômico e político; tentativa de reforçar a soberania unilateral americana, mesmo ao custo de desgaste de reputação e influência global.

Chegamos agora à fase exacerbada do “America First”, e a pergunta que as cabeças pensantes nos Estados Unidos fazem com preocupação é: Trata-se de nacionalismo patológico ou de isolamento cultural?

A retórica do “America First” rapidamente se transformou em um cerco identitário. A nação que sempre se alimentou da imigração, da diversidade e da troca cultural tornou-se, sob Trump, um bastião de resistência e ojeriza contra tudo que cheira a pluralismo.

Ao incentivar políticas anti-imigratórias, atacar minorias e promover um discurso de “valores americanos tradicionais” - brancos, cristãos, conservadores - Trump não apenas dividiu a sociedade do seu país, mas empobreceu a identidade nacional, convertendo-a em caricatura.

Trump também promoveu cortes sistemáticos em instituições culturais e científicas, como o National Endowment for the Arts. O investimento em artes e humanidades, historicamente um vetor de prestígio americano no mundo, foi sistematicamente atacado. A cultura passou a ser vista como inimiga.

Além disso, o discurso anti-intelectual e conspiratório disseminado por Trump e seus aliados deslegitimou universidades, cientistas e jornalistas - pilares fundamentais de qualquer sociedade democrática e culturalmente vibrante.

Trump desprezou antigos aliados europeus, asiáticos e latino-americanos, e afastou os Estados Unidos do convívio simbólico e político com outras nações democráticas. Esse desinteresse pela diplomacia cultural não foi apenas uma falha estratégica: foi uma opção ideológica clara, que privilegiou o nacionalismo reativo em detrimento do cosmopolitismo construtivo.

Ao promover uma cultura do medo, do ressentimento e da simplificação, Trump enfraqueceu os EUA como potência cultural, substituindo o prestígio global baseado em ideias, arte e inovação por uma postura defensiva, paranoica e isolada.

A consequência é clara: o soft power americano está em declínio. Os EUA já não inspiram como antes. Ao se isolar culturalmente, perdem sua capacidade de liderar simbolicamente - e talvez, no futuro não distante, também economicamente e politicamente.

Por tudo isso, Trump faz com que seu país corra o risco de tornar-se irrelevante. E o que talvez seja o mais triste e importante, é que Trump não é uma exceção passageira. Ele expressa um movimento profundo dentro da sociedade americana - um desejo de retorno ao passado, a um mito de pureza e grandeza nacional. Mas, ao tentar se proteger do mundo, os EUA arriscam deixar de pertencer a ele. O isolamento cultural de uma potência é sinal claro de decadência e o primeiro passo para sua irrelevância histórica.

 

Fonte: Jornal GGN/A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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