Ruanda: analistas explicam as causas do
genocídio que deixou cerca de 1 milhão de mortos em 1994
Em entrevista à
Sputnik Brasil, especialistas explicam como a colonização, o racismo e as
disputas de poder resultaram em um massacre brutal, "com vizinhos matando
outros vizinhos".
O genocídio em Ruanda
completa 30 anos em 2024. Considerado por analistas internacionais um dos
episódios mais sombrios da história, ele ocorreu entre abril e julho de 1994,
quando ruandeses do povo hutu assassinaram indiscriminadamente compatriotas do
povo tutsi, em meio a uma disputa de poder no país. Estima-se que 70% da
população tutsi tenha sido morta, número que gira em torno de um milhão de
pessoas. Apesar dos números, o genocídio em Ruanda não é tão abordado como são
outros perpetrados ao longo da história.
Em entrevista à
Sputnik Brasil, especialistas analisam as causas do genocídio, o papel da
colonização na escalada de violência e como está o país atualmente, 30 anos
após o massacre.
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Como era a estrutura hierárquica de Ruanda
antes da colonização?
Guilherme Ziba,
professor do curso de relações internacionais da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS) e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos
Internacionais (PPGEEI) da mesma universidade, explica que os tutsis e hutus se
estabeleceram na região dos Grandes Lagos, onde estão localizados Ruanda,
Burundi, República Democrática do Congo — posteriormente colonizados pela
Bélgica — e Uganda e Tanzânia — posteriormente colonizados pelo Reino Unido.
"Eles [tutsis e
hutus] vão se assentar na região dos Grandes Lagos […] a partir de uma série de
processos e de movimentos populacionais migratórios que vão ocorrer na África
Subsaariana entre o século VI e o século XVIII. Então tem toda uma conformação
ao longo desse período", explica o professor.
"Mais ou menos
desde o século XII, a gente vai ter a convivência nesse espaço que conforma
Ruanda especificamente, mas também Burundi, de comunidades distintas que vão
formar progressivamente uma sociedade entre elas e que, em linhas gerais,
tinham como base da sua organização, em cada uma dessas comunidades, formas de
viver e de produzir bastante específicas."
Ziba diz que os hutus
eram um povo de agricultores que formavam a maioria da população daquela
região, enquanto os tutsis representavam cerca de 15% da população e eram
dedicados à criação de gado.
"A gente tem um
terceiro grupo que compõe essa multiplicidade da região, e que em geral fica
esquecido, que são os tuás, um grupo que compunha cerca de 1% dessa população
[…] e que era um grupo majoritariamente caçador, coletor. Então a gente vai ter
a composição desses três grupos, a origem desse grupo que a gente chama de
hutus e a origem desse grupo que nós chamamos de tutsis. Não é a região, eles
são frutos desses movimentos migratórios, diferentes dos tuás, que têm uma
origem mais vinculada à própria região."
"A interação
desses três diferentes grupos vai levar à formação de uma sociedade que é
fortemente estratificada, fortemente hierarquizada e que vai ter, na composição
majoritária da sua elite, e isso vai se apresentar no Exército dessa sociedade,
na corte dessa sociedade, que vai ter uma base fundamentalmente monarca, no
sistema administrativo dessa sociedade. Toda essa elite era majoritariamente
composta por indivíduos que a gente colocaria dentro daquele grupo que nós
chamamos de tutsis. E a maioria esmagadora dos servos dessa sociedade, daqueles
agentes que ocupavam espaços inferiores nessa sociedade hierárquica, era
composta por indivíduos que a gente vai considerar como sendo hutus."
Ziba explica que essa
dinâmica de divisão tem como base os ganhos gerados por cada modo de produção,
sendo a pecuária, dominada pelos tutsis, a de maior renda.
"Então é a partir
daí que sai esse resultado de uma maioria da elite fundamentalmente tutsi. Essa
dinâmica, evidentemente, vai gerar uma série de tensões entre esses diferentes
grupos, os majoritariamente produtores agrícolas e os majoritariamente pecuários."
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Qual o papel da colonização na divisão
entre tutsis e hutus?
Ziba explica que
"a partir do final do século XIX e início do século XX, a gente tem todo o
processo de colonização operado pelos europeus".
"Essa colonização
é originalmente alemã, que se materializa ali entre 1890 e 1900 mais ou menos,
mas depois, com a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, vai passar
para a Bélgica, que vai ser quem vai passar a operar essas colônias. Esse processo
de dominação colonial pelos europeus tem também uma série de peculiaridades,
mas é interessante perceber, nessa discussão específica, que a presença dos
europeus e a dominação europeia vão contribuir significativamente para, por um
lado, cristalizar essa distinção entre esses dois grupos — o grupo chamado de
tutsi e o grupo chamado de hutu — a partir da ideia de que essas categorias
seriam categorias étnicas", explica.
"Essa ideia de
etnicidade não é presente dessa forma, ou de uma forma mais próxima, como a
gente entende, antes da presença europeia. São os europeus que vão dar esse
sentido de etnicidade para as diferenças que se conformam a partir de grupos
sociais distintos e que, dependendo do olhar que a gente está dando, são,
sobretudo, classes sociais distintas. Mas mais do que isso, além de cristalizar
esses elementos como elementos étnicos, eles vão operacionalizar essa distinção
cristalizada por eles no processo de dominação", complementa.
Por sua vez, Franco
Alencastro, mestre em relações internacionais pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), explica que a história do acirramento de
tensão entre os tutsis e hutus também têm um componente racista. Isso porque os
belgas escolheram priorizar o povo tutsi não apenas por sua posição
hierárquica, mas por sua aparência física mais parecida com a dos europeus.
"Selecionaram
também pessoas dentro desse grupo que, de acordo com eles, eram pessoas que
tinham traços mais europeus. Por exemplo, nariz mais fino, traços mais finos de
modo geral que, na concepção racista da época, eles consideraram traços superiores,
evidência de um intelecto superior, de uma raça superior. E eles premiaram esse
grupo também com uma ascensão social dentro dessa administração belga. E daí
muitas posições intermediárias na administração, no serviço público que
acontecia dentro do aparato colonial belga, foram dadas para esse grupo."
Segundo Ziba, o que
ocorre com a colonização é que os tutsis, embora não exerçam o poder, estão
mais próximos do colonizador, enquanto os hutus, mais afastados, passam a
sofrer de forma mais intensa a dominação colonial, o que levou a uma escalada
de tensão entre os povos na primeira metade do século XX, que vai reacender
após o processo de independência de Ruanda, em 1962, quando chega ao poder
Grégoire Kayibanda, de origem hutu, que, segundo Ziba, assume o cargo de
primeiro-ministro e promove o que em sua visão seria um acerto de contas.
"É um governo que
é bastante repressivo, bastante violento, mas com uma violência
fundamentalmente focada nos tutsis. Tem um processo de exclusão política também
dos tutsis. Então tem essa reversão, os tutsis passaram um período colonial
todo com um acesso maior ao poder, e, a partir de então, são destituídos do
poder e perdem esse acesso, e também são alvo de violência e de uma série de
ataques, o que vai contribuir, uma vez mais, para intensificar o êxodo de
tutsis para outros territórios na mesma região."
O especialista
acrescenta que essa repressão se mantém após o golpe militar em Ruanda, em
1973, que levou Juvenal Habyarimana, também hutu, ao poder. Porém, a repressão
de Habyarimana não se limita aos tutsis, mas a toda forma de oposição ao seu
regime, embora os tutsis tenham sido mantidos fora do espectro político.
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Qual foi o motivo do genocídio em Ruanda?
Ziba afirma que no
período do final de década de 1980 e início da década de 1990, com o final da
Guerra Fria, o mundo atravessou um processo de transformação nas relações
internacionais, pautado na ideia de que a democracia liberal euro-ocidental era
o modelo a ser seguido pelo mundo inteiro.
Com isso, a França,
principal aliado ocidental de Ruanda, começou a fazer pressão por um processo
de democratização no país, com a criação de um sistema multipartidário. Segundo
o especialista, a Frente Patriótica Ruandesa, liderada por Paul Kagame e composta
essencialmente por tutsis que deixaram o país por conta da repressão, dá início
a uma incursão para retornar ao território ruandês, a partir do vizinho Uganda.
"A partir daí a
gente tem o início de uma guerra civil opondo a Frente Patriótica, de base
tutsi, aos grupos de base hutu internamente. Ao longo dos anos seguintes, o que
a gente vai ver é a intensificação [...] da violência, evidentemente, mas também
a intensificação progressiva de uma radicalização de um discurso de ódio e a
operacionalização daquela ideia de etnia e de separação entre tutsis e hutus
como um elemento de oposição", explica o especialista.
"E, nesse
processo, a mídia ruandesa tem um papel fundamental. A mídia de base hutu e
radical, evidentemente, ela tem um papel fundamental em construir a ideia dos
tutsis como inimigos e dos tutsis como sendo todos traidores. As mulheres
tutsis são colocadas como perversas, os homens são colocados como traidores e
toda e qualquer pessoa que compactuasse com tutsis, mulheres, homens e assim
por diante, seria considerada também um traidor."
Alencastro afirma que
o estopim para o genocídio foi a queda do avião que transportava Kayibanda, em
6 de abril de 1994.
"O que acontece
logo em seguida é que isso é usado como motivo para iniciar o genocídio de
Ruanda. Desse modo, o grupo Hutu Power começa a se reunir e começa a se
utilizar de códigos, principalmente através do rádio, para coordenar um ataque
descentralizado e maciço contra os tutsis que estavam espalhados pelo
território de Ruanda", explica Alencastro.
"E o que se segue
ao longo das semanas seguintes, é algo que realmente se dá num espaço bastante
curto de tempo, é a morte de centenas de milhares de tutsis. Diferentemente de
outros genocídios que a gente tem notícia, por exemplo, acho que o mais conhecido
é o Holocausto, que se deu numa escala industrial e com métodos extremamente
organizados, o genocídio de Ruanda acontece numa escala quase que
vizinhança-vizinhança, são vizinhos matando outros vizinhos e assim por diante,
ele se dá verdadeiramente numa escala descentralizada e local",
acrescenta.
Segundo Alencastro, o
genocídio chegou ao fim com a ascensão de Paul Kagame ao poder e a derrota das
forças do Hutu Power.
"O país
estabeleceu uma justiça reparadora que eu, pessoalmente, acho um exemplo muito
interessante. Foram julgamentos públicos e descentralizados, por um motivo
muito simples, [...] você não tinha uma cúpula responsável pela maioria dos
crimes. O que você tinha era uma estrutura totalmente descentralizada de
grupos, às vezes grupos de vizinhança, grupos de bairro, que iam e matavam
pessoas na sua localidade. Então, como que você faz para, primeiro, punir e,
eventualmente, reparar, reintegrar essas pessoas na sociedade, é um
desafio."
Alencastro afirma que
o governo percebeu que se o julgamento ocorresse por meio de um tribunal
superior, seria complexo e poderia se arrastar por anos.
"Então, o que
eles fizeram foi um sistema descentralizado em que cada localidade julgava os
casos que aconteceram lá. E você tinha tribunal de bairro, em que as pessoas
que participaram dos massacres tinham a oportunidade de se apresentar e pedir
desculpas, e a reunião lá do grupo de vizinhos e pessoas de cada respectiva
comunidade ouvia o que essa pessoa tinha a dizer e depois atribuía uma
sentença."
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Como está Ruanda hoje?
Ziba afirma que Ruanda
hoje é um país bastante diferente do que era antes do genocídio, por uma série
de razões.
"A partir do
genocídio e da chegada do Paul Kagame ao poder, a gente tem a adoção de uma
série de medidas que visavam, claramente, o desenvolvimento do país e a
transformação da situação socioeconômica [...]. Ruanda, desde os anos 90,
conseguiu uma transformação econômica substancial, a gente tem uma retomada em
linhas gerais da dimensão do espaço ocupado pela indústria, a gente tem um
incremento substancial do espaço ocupado pelos serviços na construção, na
composição da economia ruandesa, a gente tem um crescimento muito significativo
desde o início do século XXI, se a gente pegar a segunda década do século XXI
como exemplo, é um crescimento médio anual de mais de 7% ao ano."
Ele acrescenta ainda
que Ruanda conseguiu reduzir significantemente a mortalidade infantil de 180
mortes por nascimentos para 40, e que hoje é o país com mais participação
feminina na política, substancialmente superior aos países europeus.
Alencastro destaca que
Paul Kagame permanece no poder até os dias atuais, não apenas por conta do
crescimento econômico e das melhorias sociais que têm acontecido no país, mas
por sua capacidade de ter interrompido o genocídio.
"Então ele
derrotou as forças que estavam conduzindo o genocídio e, em certa medida, ele
até hoje é visto por uma boa parte da sociedade ruandense como o pacificador de
Ruanda. Então, em parte, essa legitimidade que se dá ao governo até hoje, se dá
um pouco por isso", conclui o especialista.
Ø
'Querer pôr África do Sul de joelhos é
autossabotagem dos EUA', diz chanceler ante pressão americana
Um projeto de lei que
tramita no Congresso dos Estados Unidos afirma que "o governo sul-africano
tem um histórico de se aliar a atores malignos" e analisa se a África do
Sul "se envolveu em atividades que prejudicam a segurança nacional dos EUA
ou os interesses da política externa".
Em um artigo publicado
nesta sexta-feira (5) pela ministra das Relações Exteriores sul-africana Naledi
Pandor no Financial Times, a chanceler diz que "dada a forte relação entre
os nossos países" o projeto de lei bilateral que apela aos EUA para
reverem suas relações com Pretória "é particularmente
desconcertante".
"O projeto de lei
também não reconhece o direito de todas as nações soberanas de desenvolverem e
promoverem suas próprias políticas externas", uma vez que Washington
"critica-nos por levar Israel ao Tribunal Internacional de Justiça [TPI]".
"Na sua decisão
sobre medidas provisórias, o TPI encontrou provas plausíveis de que Israel
estava conduzindo um genocídio contra os palestinos em Gaza", acrescentou
Pandor.
Ao mesmo tempo, a
chanceler indicou que "seria devastador" para o comércio bilateral se
o projeto de lei fosse levado à frente, visto que "a África do Sul é o
maior importador de produtos dos EUA na África Subsaariana e a maior fonte de
investimento estrangeiro direto para os EUA vindo do continente africano".
"A África do Sul
abriga mais de 600 empresas norte-americanas em diversos setores, empregando
aproximadamente 134.600 pessoas. Tentar pôr a África do Sul de joelhos equivale
quase a uma autossabotagem para os EUA", afirmou a chanceler.
Associada ao projeto
de lei norte-americano, está a ameaça de retirar Pretória da Lei de Crescimento
e Oportunidades para África (AGOA), organização na qual 40 países africanos se
beneficiam de acesso isento de tarifas ao mercado estadunidense para determinados
produtos.
"As repercussões
da perda da adesão à AGOA não afetarão apenas a África do Sul, mas terão um
impacto negativo na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral
como um todo. Além disso, a África do Sul é um fornecedor significativo de minerais
críticos para Washington. Se perdermos a adesão à AGOA, isso poderá ter
ramificações negativas para os EUA", complementou Pandor.
O projeto de lei
norte-americano foi apresentado na Câmara dos Representantes em 6 de fevereiro,
criticando uma série de posições de política externa assumidas pela África do
Sul – incluindo o seu caso perante o TPI que acusa Israel de genocídio.
A iniciativa soma-se
às críticas feitas pelos legisladores estadunidenses à recusa da África do Sul
em apoiar a posição ocidental no conflito entre Rússia e Ucrânia, e ao seu
aprofundamento da relação com o BRICS.
Fonte: Sputnik Brasil

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