O que pregam os teólogos periféricos?
Um cursivo Jesus em
vermelho sangue estampa a parede suja. Abaixo dele, dois anjos amarelados, com
as mãos abertas para cima, aguardam a bênção divina. O púlpito de concreto
mal-ajambrado ladeia um ferro-velho na Avenida Pastor Martin Luther King, em
frente à entrada do Complexo da Pedreira, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O
olor de pão doce e café disputa espaço com o cheiro de pedras de crack e do
lixo putrefato despejado no Rio Acari – curso d’água que, nas últimas décadas,
foi aos poucos se transformando num esgoto a céu aberto, onde convivem
diferentes zoonoses que adoecem cronicamente a população da favela.
O responsável pelo pão
e pelo café chama-se Guilhermo Kalifer de San (nome artístico de Guilherme
Barbosa do Espírito Santo). Um pastor calvo, magro e de rosto esguio. Ao seu
lado, a também pastora Ana Claudia Cornélia Daniel organiza a mesa de alumínio.
O lanche é oferecido gratuitamente aos frequentadores da cracolândia da
Pedreira, localizada a poucos metros dali.
Entre um pão e um
gole, alguns deles recebem orações personalizadas. Uma mulher chora enquanto
Cornélia, tocando-a na testa com a palma da mão, pede a Deus que ilumine seu
caminho e a salve das drogas. Guilhermo conversa com um grupo de rapazes, todos
negros, com idades entre 17 e 40 anos. O sermão é sobre como a fé pode
alimentá-los com energia suficiente para que superem a dependência química. Ao
fundo, duas caixas de som gritam músicas gospels num volume muito superior às
vozes dos pastores. Assim opera a Assembleia de Deus Ministério Impacto do
Espírito Santo, fundado por Guilhermo há pouco mais de um ano, depois que o
pastor cortou relações com a Assembleia de Deus tradicional. A separação se deu
por discordâncias ideológicas e teológicas.
“A igreja
historicamente quase não tinha pastora mulher, nem homem negro. Discrimina o
homossexual, dita o que as pessoas podem ou não ser. Eu acho isso muito
opressor. Eu acredito numa coisa diferente.” Cria do Acari, Guilhermo professa
a Teologia Periférica. O conceito, explicado em um de seus onze
livros (dois deles de poesia, os demais sobre assuntos religiosos, publicados
por pequenas editoras), pretende humanizar a prática religiosa dos evangélicos:
abraçar os pobres, despossuídos e marginalizados em sua integridade,
tratando-os como indivíduos com personalidades e vontades, não apenas como
potenciais seguidores. Uma igreja mais tolerante à diversidade de ideias.
Há por trás disso um
interesse em misturar o profano e o sagrado. Guilhermo, talvez mais do que
outros pastores, tem particular suscetibilidade a esse pensamento por causa de
sua história de vida. Ele é filho de Antônio Carlos Coutinho, um dos chefes do tráfico
no Acari nos anos 1980. Tonicão, como era conhecido, chegou a ser o segundo em
comando na favela, assessorando o líder Darcy da Silva Filho, o “Cy de Acari”,
figura recorrente nas páginas de jornais daquela época.
Nascido em 1983,
Guilhermo foi registrado em cartório sem o sobrenome do pai. “Como que o
Tonicão ia entrar num cartório pra registrar a criança? Não tinha como. Daí ele
pediu pra um amigo íntimo, que era militar e morava em Jacarepaguá, para
registrar o filho. Ele dizia: ‘Filho meu não pode ficar sem nome de pai’”,
relembra Ana Cristina Barbosa, 65 anos, mãe de Guilhermo. O amigo se chamava
Hercílio do Espírito Santo. De bom grado, emprestou o sobrenome à criança que
não era sua. Já o primeiro nome do menino foi uma escolha conjunta de Ana e
Tonicão – Guilherme, derivado de William, tem origem germânica e significa
tanto determinação quanto proteção. Fosse menina, se chamaria Ana Cristina –
ideia do pai, que pretendia com isso homenagear sua companheira.
Nascida na Bahia, Ana
Cristina Barbosa era adolescente quando, caminhando com a família pelas
imediações de Acari, avistou um homem negro, alto, de porte atlético. Tonicão
trabalhava na Ceasa (Central de Abastecimento S/A) de Irajá, situado próximo à
favela. Ele retribuiu o olhar interessado de Barbosa e puxou papo. Elogioso,
prometeu lhe dar todo tipo de fruta quando concluísse o expediente. O flerte
virou namoro depois de dois meses. A família de Barbosa adorava Tonicão.
“Ele era bonito,
engraçado e muito sincero”, diz Barbosa. Mas o rapaz tinha um defeito: era
controlador e ciumento – embora mulherengo. “Ele brigava com os meninos que
chegavam perto de mim.” Os dois gostavam dos mesmos ambientes: sambas da Zona
Norte e terreiros de Candomblé na Baixada Fluminense (Barbosa fez o santo aos 7
anos, quando ainda morava em Ilhéus, na Bahia).
Antes de chegar à
maioridade, Tonicão virou vapor da quadrilha do Cy – isto é, um dos
responsáveis por vender as drogas no varejo. Em menos de um ano, foi promovido
a gerente de boca. Cy, reputado como o maior distribuidor de cocaína da Zona
Norte do Rio, sentiu confiança no rapaz e o tomou como seu braço direito.
Barbosa viu o namorado trocar a CLT pelo tráfico num piscar de olhos. “Eu não
perguntava dos negócios dele. Preferia não saber de nada.” Segundo uma
reportagem publicada em 1989 do Jornal do Brasil, ano em que
Tonicão foi assassinado, ele era amado pela comunidade. Ajudava o próximo e
financiava o estudo universitário de alguns jovens do Acari.
Poderoso, Tonicão
abandonou de vez a fidelidade matrimonial. Barbosa, por sua vez, dava o troco.
Enquanto os dois estiveram juntos, ela tentou engatar breves relacionamentos
com outros rapazes. Numa dessas, se envolveu com o amigo de infância Daniel de
Paula Gomes, por quem diz ter sido apaixonada. O romance acabou precocemente
quando chegou aos ouvidos do marido. “Tive que terminar com ele por causa do
Tonicão, mas eu não podia dizer que era por isso, né?”, explica Barbosa. O
ex-namoradinho, hoje com 65 anos, ainda acha que foi preterido por falta de
amor.
Quando Guilhermo era
um bebê na barriga da mãe, o matrimônio já estava em ruínas. Tonicão, que
sempre fora paquerado pela irmã mais nova de Barbosa, deitou-se com ela.
Barbosa soube que estava grávida quase ao mesmo tempo em que soube ter sido
traída. O marido, segundo ela, justificou o ato dizendo que sua honra estava em
xeque: “Eu tinha que fazer! Eu sou bandido! Se eu não comer ela, ela vai
espalhar por aí que eu sou frouxo e eu vou perder moral com a rapaziada.”
Barbosa, tendo cortado
relações com o marido e com a irmã, foi morar na casa de Hercílio do Espírito
Santo, que mais tarde registraria a criança. “Eu tinha de tudo lá. Nem ele nem
o Tonicão me deixaram faltar nada”, conta Barbosa, sentada em frente a um mercadinho
do Acari, próxima ao templo de seu filho, vestindo uma blusa rosa da Mangueira.
Depois de dar à luz, ela retornou ao Acari, não conseguiu se reconciliar com
Tonicão e teve teto negado pela irmã. Passou uma noite na rua, depois foi
abrigada por uma tia. Até que reencontrou Daniel. O antigo namoradinho, vendo-a
em apuros com uma criança de colo, perguntou: “Quer morar comigo? Pode vir com
o menino.”
Ela aceitou
prontamente. Ele reestruturou a casa de um quarto no terreno da família,
criando espaço para Ana, Guilherme e outros dois filhos que o casal teria mais
tarde. “A partir dali, ela morou comigo como minha esposa”, diz Daniel.
Tonicão, ainda chefão do Acari, não incomodou mais. Tinha outras mulheres,
outros filhos, outros problemas. Ele começou a aparecer na imprensa por volta
de 1987. Os jornais o mencionaram quando a Polícia Civil estourou um paiol do
Cy em Acari, onde estavam armazenados 150 kg de maconha, munição para dar e
vender, uma metralhadora da Aeronáutica e várias espingardas. Em outro endereço
na mesma rua, os policiais encontraram um canil com dezenove cachorros
(filas-brasileiros e dobermans) que guardavam o paiol à noite.
Tonicão foi notícia
pela última vez em 9 de junho de 1989. Segundo o Jornal do Brasil,
ele estimulou moradores do Acari a fazerem uma manifestação na Avenida Brasil
em protesto pelas mortes que vinham ocorrendo em operações do 9º Batalhão da
Polícia Militar. A associação de moradores, ouvida na reportagem, diz que
organizou o ato por vontade própria. A multidão foi atacada com gás
lacrimogêneo e bala de borracha. Dentro da favela, enquanto isso, Tonicão e
seus comparsas trocavam tiros com a polícia, que aproveitou a ocasião para
reprimir o tráfico. No meio do tiroteio, ele foi baleado na coxa direita e no
abdômen. O quadro era grave e exigia cirurgia, mas os traficantes temiam que
Tonicão fosse preso caso o internassem num hospital. Levaram-no, então, para a
clínica de um médico chinês no bairro da Pavuna. Segundo relatos colhidos na
época pelo jornal O Fluminense, Tonicão estava sendo operado quando
policiais chegaram à clínica mandando todo mundo sair da sala de cirurgia.
Gemidos foram ouvidos por quem estava no corredor. De volta à sala pouco
depois, o médico “encontrou o traficante morto, já sem soro, estendido numa
maca no corredor”.
Duas mil pessoas
compareceram ao enterro no Acari. Sobre o caixão, uma bandeira vermelha e preta
– provavelmente, uma homenagem final da facção Comando Vermelho. Guilhermo
tinha 6 anos de idade. Não sabia nada sobre Tonicão. O único pai que conhecia
era Daniel. O garoto só descobriu a verdade quase dez anos depois, quando se
aproximava do Evangelho pela primeira vez.
“Acari não tinha
tantas igrejas como tem hoje. Cada esquina aqui era um centro – de macumba,
espírita… Mas hoje a história se reverteu”, explica Guilhermo, que durante a
infância frequentou terreiros com a mãe. Daniel, o padrasto, foi quem o
empurrou para o cristianismo.
De acordo com Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP, em 2019 foram abertos dezessete novos templos evangélicos por
dia. É preciso pouco para abrir uma assembleia, uma igreja, uma nova denominação.
Basta um pastor e um fiel. Assim, em 2023, Guilhermo achou que era hora de
abrir seu próprio estabelecimento. A modéstia do templo é intencional. O pastor
quer distância da fartura nababesca de algumas igrejas evangélicas. Em seu
livro Teologia Periférica, Guilhermo se autodenomina um “teólogo
aplicativo” – alguém que ajuda os outros a absorver os ensinamentos dos
apóstolos de forma prática, com mensagens bíblicas que se aplicam à situação
atual do ouvinte.
Para a Assembleia de
Deus Ministério Impacto do Espírito Santo a riqueza não é um objetivo
fundamental a ser alcançado. Guilhermo rejeita a Teologia da Prosperidade,
doutrina neopentecostal segundo a qual a fé conduz ao sucesso financeiro e
profissional. A pobreza, desse ponto de vista, é consequência da falta de
esforço ou de religiosidade. Na Teologia Periférica, ele faz uma
analogia com dois cachorros nascidos numa mesma ninhada. Um foi separado do
outro. Levando vidas distintas, um teve sorte, o outro não. Um era alimentado
diariamente, o outro não; um recebia afeto, o outro não. Eles não deixaram de
ser iguais: ambos são cachorros, nascidos no mesmo dia, no mesmo local. O que
os fez diferentes foram as circunstâncias econômicas, não seus esforços individuais.
“É preciso trazer o
pobre para dentro do campo da cidadania e arrazoar sobre as desigualdades
sociais em cada momento histórico-social”, conclui o livro, com inspiração
materialista. “A linha da teologia periférica é a seguinte: o que você tem pra
oferecer? Eu tenho pra oferecer amor, então você dá, que você vai receber amor,
entende?”, ele explica. “Não é no sentido de money, de dinheiro, de
prosperidade material. Isso você vai conseguir quando você voluntariamente
começar um trabalho, que vai dar frutos de alguma forma – e podem ser frutos
ruins, se você plantar coisas ruins. A teologia periférica é você oferecer o
que você tem de bondade, de amor.”
Naquele fim de tarde
em março, rumando de seu púlpito, à beira da Avenida Brasil, até a cracolândia,
ali perto, Guilhermo observava o horizonte de igrejas do subúrbio. A pastora
Ana Cláudia Cornélia o seguia de perto. Depois de passar por algumas denominações
com seu ex-marido – também pastor –, Cornélia abdicou do pentecostalismo
tradicional para pregar ao lado de Guilhermo. Queria ajudá-lo na entrega de
pães e café aos necessitados. Aquele era seu primeiro dia na função.
Há 26 anos cortando os
bairros de Fazenda Botafogo e Acari, o metrô abriga em suas entranhas mais do
que maquinário e eletricidade. Os trilhos passam por cima do Rio Acari, que dá
nome ao bairro. Com o passar dos anos e as inevitáveis enchentes, foi se formando
um buraco nas encostas do rio. Por volta de 2007, Wellington Francisco, hoje
com 43 anos, descobriu esse terreno baldio, cercado por mata virgem. “Era eu e
mais quatro. A gente queria aquele lugar como cracolândia porque era deserto,
com muito mato”, ele conta, referindo-se à regra não dita – mas de amplo
conhecimento – de que, dentro da favela, os chefes do tráfico não permitem o
consumo de drogas.
O terreno ganhou mais
adeptos depois que uma manilha da Cedae, fornecedora de água, foi arrebentada,
facilitando o acesso ao local. Apelidado simplesmente de “buraco”, ele serve de
conexão entre os dois lados da Avenida Martin Luther King. Agrega dependentes
químicos e pedestres que precisam atravessar a rua. Segundo Wellington, o
buraco virou um polo da pequena criminalidade na região, uma “roubalheira
enorme”. Todos também sabem que, dentro da favela, não se pode assaltar.
Alguns frequentadores,
temerosos de roubar por ali, optam pela mineração. Há matéria-prima de sobra:
além dos trilhos e maquinários do metrô, existem nas redondezas da cracolândia
algumas fábricas abandonadas. “A gente descobriu que no metrô, debaixo das
pedras dos muros, corre um cabo-terra que vai da Pavuna até Copacabana. A gente
abria o chão, enxergava os cabos da grossura dos dedos e quebrava eles com
pedaços de pedra mesmo. Isso amassava o cabo, que amolecia. Puxando de um lado
pro outro, dava para quebrar o cobre e tirar”, conta Wellington, hoje
convertido.
Outro veterano,
Rodrigo, de 41 anos, lembra como era fácil ganhar dinheiro nessa época. No
auge, ele gastava 2 mil reais por dia de tanto que faturava vendendo sucata.
Por outro lado, levou vários choques da fiação e viu um colega morrer
eletrocutado. “Eu usava todo o dinheiro em droga. Essa droga é tão maldita que
às vezes eu estava com 5 mil reais no bolso, com o cabelo grande, e eu fumava
tudo. Não cortava o cabelo, um simples cabelo. Um corte de 10 reais. Pra tu ver
como é.”
As redondezas são
cheias de igrejas, que ocupam, em parte, o vácuo deixado pelo Estado. Muitas
delas veem na cracolândia um potencial para o “arrebatamento” de almas – um
discurso persuasivo tanto para os fiéis quanto para os dependentes químicos,
atraídos pela ideia de superação. O púlpito onde Guilhermo prega a
Palavra só surgiu em 2020, no entanto. Foi criação não dele, mas de seu Adelmir
Gomes de Lima, dono do ferro-velho que fica logo ao lado, na entrada da favela.
Ex-macumbeiro, Almir, como é conhecido, tem 38 anos e é morador do Complexo da
Pedreira. Sempre trabalhou com lixo naquela região e se habituou a conviver com
os dependentes químicos.
“Queria ajudar essas
almas”, ele explica. Almir diz ter gastado entre 3 e 4 mil reais com concreto e
tinta, basicamente o que fatura em um mês de trabalho, e contratado um pedreiro
para montar a estrutura. “Fiz de vontade própria.” Tal como outras construções
na Bíblia, o púlpito trincou e cedeu certa, não se sabe se por desígnio divino
ou erro de engenharia, já que ele fica situado em uma das entradas do tal
“buraco”. Mas foi logo reconstruído, e desde então permanece de pé.
Segundo Almir, seis
almas foram “salvas” desde a criação do púlpito, Wellington e Rodrigo entre
elas. O primeiro trabalha apoiando seu irmão mais velho numa igreja, enquanto
Rodrigo é auxiliar administrativo no Centro do Rio. Para atrair pastores
dispostos a pregar para a cracolândia, Almir posicionou alto-falantes que
tocavam louvores em alto volume na frente do púlpito. A estratégia funcionou.
Primeiro, veio o pastor Quiliu. Depois vários outros, até chegar Guilhermo.
Só aos 16 anos
Guilhermo descobriu a identidade de seu pai biológico. Foi acidental. Num dia
qualquer, jogando bola depois da escola, na entrada do Acari, ele se estranhou
com um jogador do time adversário e os dois trocaram agressões. Daniel, a essa
altura já divorciado de Barbosa, soube pela boca de vizinhos que seu filho
estava se engalfinhando na rua. Baixinho e acima do peso, ele correu e se
deparou com o filho sujo de terra, com os nervos à flor da pele. Subiram juntos
a rua a caminho de casa, o pai despejando sermões sobre a cabeça do menino, que
enfim se revoltou e disse que não voltaria para casa. Daniel respeitou a
decisão e continuou o caminho por conta própria.
Vagando pela rua,
Guilhermo cruzou com uma senhora chamada Mercedes, curandeira antiga do bairro
e amiga de sua mãe, que disparou, sem ser provocada: “Não deixe ele [Daniel]
te tratar assim. Ele nem é seu pai…” O menino logo juntou os pontos. Já tinha
ouvido, aqui e ali, comentários lacônicos do tipo “tá parecido com o pai” de
gente que não conhecia Daniel. Mercedes foi embora sem dizer mais nada.
Guilhermo voltou para casa irado. “Que história é essa que meu pai é outro?”
Daniel diz que, até
aquele momento, ele próprio não sabia quem era o pai de Guilhermo. Junto ao
filho, sanou uma dúvida que lhe corroía havia dezesseis anos. Os três se
sentaram na cama e Barbosa falou de Tonicão, mas não explicou ao filho o que
seu pai fazia e por que havia morrido. A história completa ele soube aos 21
anos de idade, quando encontrou sua avó, mãe de Tonicão. “Minha mãe escondeu
isso de mim porque tinha medo de que eu me tornasse um homem como ele.”
Hoje, o pastor recorre
a sua própria história para tentar se conectar com os fiéis da Pedreira.
Afinal, sua vida, ainda que indiretamente, também foi marcada negativamente
pelas drogas. A cracolândia é um ambiente tenso, onde os usuários
frequentemente atacam uns aos outros em decorrência de roubos e crises de
paranoia. Mudar essa paisagem – seja por meio do trabalho religioso, seja por
meio de políticas públicas – requer uma dose de paciência e trabalho abnegado.
Depois de pregar por
poucos minutos, Guilhermo encara os cerca de dez usuários que cercam o púlpito
do ferro-velho e pergunta se alguém gostaria de contar sua história, suas
dificuldades. Ninguém responde. A maioria observa a uma distância cautelosa.
Makel, um homem magro, de ossos protuberantes e cabelos encaracolados, conta
que gosta das visitas de pastores à cracolândia. Com 43 anos de idade, sete
deles vividos nas ruas, o ex-pedreiro se viciou em cocaína antes de aderir ao
crack. Trocou o trabalho e a vida estável na Pavuna, onde morava com mulher e
filha, pelo buraco da Pedreira. Hoje ganha cerca de 50 reais por dia reciclando
sucata em ferros-velhos como o de Almir.
“Até agora eu tava há
três dias sem comer”, diz, depois de agarrar dez pães doces na mesinha dos
teólogos periféricos. “Quando a gente tá na droga, a gente esquece de comer e
dormir.” Ele recosta no sofá esburacado que fica ao lado da cracolândia, onde também
se veem alguns poucos colchonetes espalhados. Concentrado na pregação de
Guilhermo, Makel quase chora. Do buraco abaixo dos trilhos do metrô, ouve-se um
usuário não identificado gritar para o pastor: “Glória!”
Makel não sustenta a
atenção por muito tempo. A refeição depois do longo jejum o deixa letárgico.
Seus olhos marejados pesam mais e mais, até se entregarem ao sono profundo.
Fonte: Por Matheus de
Moura e Leonardo Coelho, na Piauí

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