Ailton Krenak rompe um silêncio de 127 anos
dos indígenas na ABL
A Academia Brasileira
de Letras (ABL) tem em seu pilar a celebração e o cultivo da lusofonia e não
deixa de ser revolucionário que Ailton Krenak, como o mais novo imortal,
entrará na instituição para promover o que ele chama de “língua brasileira”. A
língua falada no Brasil que, mesmo de origem lusitana, tem semântica e léxicos
próprios, resulta em um vasto vocabulário de palavras indígenas e africanas. É
a língua do ‘tupi or not tupi’, que Ailton parafraseia do célebre trocadilho do
escritor Oswald de Andrade (1890-1954) para a frase clássica de “Hamlet”, de
William Shakespeare, enquanto conversa com a Amazônia Real para esta
entrevista.
Ailton é o retrato
final de um momento histórico. Em 524 anos da invasão dos portugueses ao
Brasil, ele será o primeiro escritor indígena a ser empossado como imortal na
sede da ABL, no Rio de Janeiro. O evento acontece nesta sexta-feira (05), às
20h (horário de Brasília) e terá transmissão pelo Youtube. Fundada em 1897, a ABL rompe mais um pouco com alguns
resquícios de elitismo e conservadorismo que marcam sua história, desde quando,
somente em 1977, abriu os braços para uma mulher – a escritora Raquel de
Queiroz (1910-2003) – em seu espaço.
“Eu disse que levaria
comigo mais de 200 línguas nativas do Brasil. E que o português não é uma
língua brasileira. É uma língua europeia. Já comecei dando esse sinal óbvio de
que não vou para lá ampliar a lusofonia. Vou promover uma sinfonia. Essa sinfonia
é estimada pelos linguistas em 180 línguas indígenas”.
Desde a década de 80
quando liderou os primeiros passos do movimento indígena no país e,
principalmente, quando pintou o rosto de tinta preta de jenipapo, durante os
debates acirrados da Constituição de 88, sabemos que Ailton Krenak é um
porta-voz e personalidade exuberante, contagiante, criativa, pioneira e
ligeiramente irônica.
Ele vive cercado de
admiradores, de aliados e está atento às tendências iluministas da vida moderna
e tecnológica. Aos 71 anos, sempre em atividade, quer promover as línguas
originárias na academia em parceria com os companheiros e companheiras da ABL
e, sobretudo, com os jovens escritores indígenas.
Nos últimos anos,
Ailton Krenak rompeu fronteiras, com livros traduzidos em 19 países. “Ideias
para Adiar o Fim do Mundo” tem edições no Japão, na Turquia, na
Tchecoslováquia, em toda a América Latina, e por aí vai. O mais curioso é que o
livro teve uma tradução para o português de Portugal. Recebeu até um título
novo: ‘Ideias para salvar a humanidade”. Ele também é autor de “Futuro
Ancestral” e “O amanhã não está à venda”, entre outros.
“Eu tive a aquisição
de direitos de tradução de ‘Ideias para adiar o fim do mundo’ para o português.
Esse meu livro foi publicado na suposta língua do Brasil, que é o português.
Eles disseram ‘não, queremos traduzir o livro para o português’. Isso significa
que os falantes naturais de português consideram que nossa língua é brasileira,
não é português”, diz ele, com irreverência.
Em 2022, Ailton já
havia sido eleito na Academia Mineira de Letras. Em 2023, seu nome começou a
circular como “favorito” à cadeira de número 5 da ABL, em vaga deixada pelo
historiador José Murilo de Carvalho, que faleceu em agosto do ano passado. Para
ele, foi surpresa. E o que pareceu no início como desdém de sua parte, foi
imediatamente interpretada como uma convocatória, quando ouviu de Fernanda
Montenegro, que entrou para a ABL em 2022: ‘eu quero que você venha para a
academia, Ailton Krenak’.
Na aguardada posse que acontece nesta
sexta-feira, Ailton vestirá o tradicional fardão da
ABL. Na cerimônia, será recebido pela escritora e acadêmica Heloísa Teixeira.
Desde o início do ano,
ele passou por três provas do traje. Vai se vestir igual seus futuros
companheiros acadêmicos e usará como único acessório distinto a bandana do povo
Huni-Kuin, do Acre, que marca a sua persona e imagem. Estará acompanhado de um
grupo de convidados especiais, que ele próprio escolheu. Uma das ausências
notórias será seu amigo de décadas, Davi Kopenawa Yanomami, que está em viagem
ao exterior nesta data.
Nesta semana, Ailton Krenak concedeu uma entrevista online à Amazônia
Real de sua casa, na aldeia, poucos dias antes da data histórica. Ele
estava tranquilo, aguardando a cerimônia. Como novo imortal, suas experiências
se acumularão nas escritas e nos movimentos pela valorização das línguas
indígenas.
>>> Leia a
entrevista:
·
Como você está se preparando para a posse,
o que vai usar?
Ailton – É um
fardão confeccionado por um alfaiate que tradicionalmente borda. Fiz três
provas de roupa. Estava me achando a noiva. Finalmente a farda está pronta. Eu
vinha recebendo sugestões… ‘manda confeccionar uma roupa’, ‘não use fardão’,
‘bota um cocar’. Teve piadinhas: ‘vai nu’. Vi que isso tudo era contornar o
momento histórico de uma pessoa que tem a biografia do Ailton Krenak: chegar na
Academia Brasileira de Letras. Não preciso botar um adorno para que saibam que
teu tenho uma literatura, uma escrita da oralidade, e que ela já é reconhecida
em diferentes lugares do mundo. Meus livros são traduzidos na Turquia, no
Japão, na Coreia. A Europa inteira traduz meus livros. Em 19 países. Na América
Latina toda. Na Tchecoslováquia. Tem lugares que nunca que achava ‘Ideias de
adiar o fim do mundo’ fosse ganhar tradução. Então, a ABL sabe quem está
convidando. Mas vou botar a faixa que sempre me identifica. Aquela faixa
‘kenê’, de tradição dos Huni Kuin, que são meus parentes pela descendência.
Tenho uma filha que é mãe de um jovem Kaxinawá [outro nome dos Huni Kuin], que
é o Siã. O avô dele é o Siã Huni Kuin. E o bisavô é o Suero, meu velho
companheiro que não está por aqui. Encantou-se. Tenho uma variante direta que
me permite usar a bandana Kaxinawá. Que já é reconhecida no Brasil inteiro. Na
periferia, nos colégios, os meninos me desenham no muro pela bandana. É uma
coisa meio Che Guevara.
·
Ailton, como você soube da sua nomeação?
Você declarou anteriormente que foi uma surpresa.
Ailton – Eu fui
surpreendido com uma nota de jornal quando estava cuidando da minha própria
jornada, dizendo: ‘Ailton é apontado como favorito para ocupar a cadeira número
5, deixada por José Murilo de Carvalho’. Um historiador de muita alta relevância.
E o Krenak é também de Minas, assim como José Murilo. Favorito a que? Me
disseram que eu tinha uma forte indicação para ocupar a cadeira número 5. Eu
falei: ‘só uma possibilidade muito além da expectativa’. Acabei de entrar na
Academia Mineira de Letras, onde já acho que é um espaço que pode me exigir
muito mais do que estou disponível. Eu falei isso na ocasião. Me disseram ‘você
deu o maior banho de água fria’ na ABL. De repente você prejudicou sua eleição.
Eu falei: ‘não sou candidato a nada’. Então, eu fui convidado a entrar na
academia. Essa que é a questão. Não empurrei a porta da academia. Fui acolhido
de uma maneira muito gentil e cordial por todos aqueles senhores e senhoras. E
uma senhora da estatura de Fernanda Montenegro dizer: ‘eu quero que você venha
para a academia, Ailton Krenak’. Isso para mim é uma convocatória.
·
Você vai atuar em um ambiente que valoriza
a língua portuguesa. Como é possível reverter o predomínio da língua europeia,
que tem toda essa raiz colonial? Como você se prepara para isso?
Ailton
– Admiravelmente, assim que fui eleito…. teve uma eleição. Tive um número
de votos. Eu disse que levaria comigo mais de 200 línguas nativas do Brasil. E
que o português não é uma língua brasileira. É uma língua europeia. Já comecei
dando esse sinal óbvio de que não vou para lá ampliar a lusofonia. Vou promover
uma sinfonia. Essa sinfonia é estimada pelos linguistas em 180 línguas. Mas o
movimento indígena e as campanhas dizem que são 305. Existem 305 etnias
reconhecidas. Nem todas têm a sua língua materna ativa. Mas têm registros.
Alguns têm registros do século 18, 19, das suas línguas. Os estudos do Museu
Nacional sobre línguas indígenas cresceram muito. Hoje há jovens indígenas se
doutorando nessa disciplina, nessa especialidade, na linguística. Então, os
linguistas indígenas vão ser meus colegas na ABL para trabalhar a temática da
língua materna.
·
Quais serão suas ações iniciais na ABL?
Ailton – Vou
promover um evento em maio que tem o significativo título de ‘Língua-Mãe’. Ele
vai convocar alguns filólogos indígenas. São pessoas que já produziram
vocabulário, dicionário. Que já publicaram. O Joaquim Maná Kaxinawá [professor
indígena do Acre) é doutor em linguística e fez importante trabalho que é
produzir uma enciclopédia da língua Huni Kuin. Ele acabou de publicar uma
gramática da língua. Vou criar uma plataforma para que todas as informações
relevantes sobre as línguas originárias possam estar em constantes atualizações
de informações, fatos. Surgindo inclusive para que os especialistas em línguas
indígenas possam aumentar esse trabalho e despertar as línguas que por acaso
estejam dormentes. Sei que existe uma consideração que ideia clássica de
línguas mortas. O latim chegou a ser considerado uma língua adormecida. Não
acredito que existam línguas extintas. Você pode extinguir fisicamente um povo.
A língua não.
·
A programação “Língua-Mãe” será onde?
Ailton – No
Museu das Culturas Indígenas em São Paulo, num episódio de dois dias. Depois em
um episódio de um dia, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) no Rio de
Janeiro, na programação da exposição que eu sou curador, “Hiromi Nagakura até a
Amazônia com Ailton Krenak”. É uma exposição que homenageia o fotógrafo
Nagakura e dentro desse espaço vai acontecer um equitativo sobre língua-mãe.
·
Como esse projeto será conectado com seu
trabalho na academia?
Ailton – Para
cada membro da academia, de acordo com suas diversas áreas de interesse, onde
são reconhecidamente autoridades, vão solicitar apresentar um projeto. Tipo
assim: ‘você vem para cá, você traz alguma coisa do seu mundo?’ Eu disse: ‘levo
as línguas maternas do Brasil’. Eu disse que vou criar uma plataforma vinculada
à minha cadeira número 5 que é uma plataforma de línguas indígenas. Vai ser
acessível para os jovens, para as pessoas espalhadas no país afora e que tem
interesse com línguas nativas. Vão poder contribuir, pesquisar conteúdo, numa
plataforma sobre línguas indígenas.
Estou fazendo isso
junto com colegas do Museu Nacional (RJ), do Museu da Pessoa (SP), iniciativa
de jovens indígenas que estão nas universidades. Hoje temos uma rede de mais de
50 mil jovens frequentando o ensino superior no Brasil. Os nossos queridos fizeram
o primeiro encontro científico dessa união pluriétnica dos povos indígenas no
ensino superior. O Jaime Diakara [antropólogo indígena do povo Dessana, do
Amazonas] criou o símbolo dessa nova organização de pesquisadores científicos
indígenas. Alguns entre eles são linguistas e vão ser importantes colaboradores
da plataforma. Eu acho que não tem coisa mais definitiva e clara do que o que
vou fazer lá é criar uma fricção entre as línguas presentes na diversidade
cultural do Brasil e o português que é a língua da academia.
·
Por que entrar na Academia Brasileira de
Letras, uma instituição literária que sempre teve a marca do elitismo? Por que
é importante nesse momento?
Ailton – Você
podia me perguntar ‘Ailton, por que você pintou seu rosto de preto na
Constituinte 87 e 88’? Modéstia à parte, vou te dizer que não tinha outro para
fazer aquilo. Há outro que poderia ir para ABL nesse momento? Historicamente a
ABL é realmente elitista. Até 1977 além de elitista, era patriarcal. Só tinha
homem. Apesar de ser criado por Machado de Assis, só tinha homem e branco.
Ex-presidentes da república, marechais, generais, figuraças da república,
desembargadores, ministros. Então era lógico que era um encontro de feudais.
Alguns eram intelectuais. Mas não era uma condição necessária. Alguns estavam
lá porque tinham muito poder político.
Vamos considerar que
depois da Segunda Guerra mundial, com o Modernismo, a academia começou a levar
novos ares. Entrou gente da estatura de Guimarães Rosa (1908-1967). Dizem que
quando foram velar Guimarães Rosa, alguém lamentando a perda dele, outro intelectual
fez um gracejo dizendo: ‘por que vocês estão chorando? O Rosa não morreu,
encantou-se’. Parece que foi a primeira vez que a palavra ‘encantou-se’ foi
usada naquele ambiente restrito e hoje ela está totalmente viralizada. O
sujeito dá óbito, e seus correligionários correm para dizer que ‘encantou-se’.
Não deixa nem pousar na tumba. Ele encanta-se.
·
A distinção desses termos e léxicos é o que
marca a língua portuguesa falada no Brasil?
Ailton – A língua
brasileira, o português do Brasil, é muito criativa. Ela tem uma capacidade
multicelular de produzir sentidos. É muito interessante. Vai ser uma das
questões que vou ter oportunidade de falar com meus companheiros, colegas de
academia. Eles costumam se chamar de confrades. Vou chamar eles de caros
colegas, ilustres. A ABL vem se modernizando e se atualizando em relação à
sociedade brasileira. Gilberto Gil está lá dentro. A Heloísa Teixeira, que as
pessoas conheciam como Heloísa Buarque. A Lília Schwarcz foi eleita agora. Uma
pessoa maravilhosa ajudando a trazer temas que estão relacionados com a vida
brasileira e que não frequentam aquele ambiente. Da mesma maneira os indígenas
nunca frequentaram aquele ambiente. Somente em 1977 a ABL admitiu a Raquel de
Queiroz. A primeira mulher. A academia foi fechada para outros gêneros, que foi
o misógino.
·
É possível falarmos em língua brasileira?
Ailton – Eu
tive a aquisição de direitos de tradução de ‘Ideias para adiar o fim do mundo’
para o português. Esse meu livro foi publicado na suposta língua do Brasil, que
é o português. Eles disseram ‘não, queremos traduzir o livro para o português’.
Isso significa que os falantes naturais de português consideram que nossa
língua é brasileira, não é português. Além de tudo, mudaram o título: ‘Ideias
para salvar a humanidade’. Apareço como uma espécie de São Sebastião, o
Messias.
·
A ABL está preparada para ter um diálogo
com outras cosmovisões e outras línguas distantes do legado eurocêntrico?
Ailton
Krenak – A ABL é um espaço de erudição, cordialidade, gentileza, e
não tem nada a ver com a ideia castrista. Não é um quartel. É um colégio de
pessoas que amam a literatura, as letras, e que têm um compromisso de promover
a lusofonia. São os países de língua portuguesa no mundo e que tem no Brasil
uma expressão de ser o maior país de fala lusófona. Tem mais gente falando
português no Brasil do que em Portugal. E que tem uma verdadeira veneração pela
língua portuguesa. Que é coisa das elites brasileiras que se formaram em
Coimbra, nas universidades da Europa, e que achava que ‘tupi or not tupi’…
‘Tupi, tupi, or not tupi’ [subitamente começa a cantarolar], como dizia o Zé
Celso [dramaturgo brasileiro morto em 2023].
Então, uma parte da
intelectualidade culta brasileira prefere cuidar da língua portuguesa. Mas tem
outros milhares de autores, escritores, poetas, geniais, da Tropicália, de
antes da Tropicália, do Modernismo, de Mário de Andrade (1893-1945), de Oswald,
de tantos esses caras…. que riscavam a gramática. Eles estavam lanhando a
gramática em seu interesse de fricção entre as línguas nativas daqui do
continente e as línguas dos povos que vieram na diáspora africana. A literatura
Modernista é cheia de faíscas de línguas de origem africana e indígena. Muito
significativamente pelo tupi. Mas se você prestar atenção, Guimarães Rosa tem
um conto com o título “Meu tio, o Iauaretê”. Esse conto põe partículas de
frases ou orações em línguas Xavante, Krenak, Maxakali, e do tupi clássico. O
conto é uma fantástica composição onde as línguas indígenas são distribuídas no
corpo do texto como se fossem rastros deixados para o futuro. Ele deixava
sinais para um devir linguístico do Brasil onde o português é uma das centenas
de línguas.
Fonte: Amazônia Real

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