sábado, 6 de abril de 2024

 

Presidente de confederação de tiro é suspeito de tráfico internacional de armas

O fundador da Confederação de Tiro e Caça do Brasil, Fernando Humberto Henrique Fernandes, foi alvo de busca e apreensão em uma operação da Polícia Federal (PF) deflagrada nesta quinta-feira, 4. A PF investiga uma quadrilha suspeita de traficar armas de fogo entre o Brasil e os Estados Unidos. Em 2020, Fernando Humberto foi testemunha de defesa do ex-policial militar Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL). Tenente do Exército, ele está foragido desde 2015, quando foi condenado a um ano e quatro meses de prisão pelo crime de calúnia.

Ao todo foram realizados seis mandados de busca e apreensão na capital carioca e nas cidades paranaenses de Curitiba e Maringá. Segundo a PF, o grupo investigado também fazia um comércio clandestino de materiais bélicos a facções criminosas e milícias do Rio de Janeiro.

Endereços de Fernando Humberto foram vasculhados pela PF na manhã desta quinta. Segundo fontes da corporação ouvidas pelo Estadão, os investigadores suspeitam que Fernando Humberto teria sido o intermediador do tráfico internacional.

Sediada no centro do Rio, a CTCB reúne clubes estaduais de atiradores que credenciam caçadores, atiradores e colecionadores (CAC’s). A confederação também é responsável por cadastrar clubes e organizar competições de tiro.

De acordo com a PF, a investigação começou a partir de informações cedidas pela Receita Federal que mostraram que o grupo importava material bélico de forma irregular e contratou uma empresa que trabalha com efeitos cinematográficos para armazenar os armamentos. Segundo os policiais, a quadrilha afirmava que estava guardando armas de festim para não levantar suspeitas sobre a atividade criminosa.

No Rio de Janeiro, foram apreendidas 34 armas de fogo. No Paraná, os policiais coletaram 94 carregadores de alta capacidade, 12 kits para conversão de armas de fogo, 262 carregadores de pistola, 22 carregadores de fuzil e 32 bandoleiras táticas.

Ao Estadão, o advogado Ary Brandão de Oliveira, responsável pela defesa de Fernando Humberto, afirmou que ele possui permissão do governo dos Estados Unidos para comercializar armas entre os dois países. Ary também disse que o fundador da confederação tem dupla cidadania americana e estava nos EUA durante a operação da PF.

“Nós iremos apresentar autorizações do que é tido como ilegal. Ele tem permissão do governo americano para o comércio de armas de fogo, da mesma forma que ele representa empresas do ramo no Brasil, com autorização do Exército Brasileiro”, afirmou Ary Brandão.

•        Foragido da Justiça, Fernando Humberto foi a tribunal testemunhar a favor de Ronnie Lessa e não saiu preso

Em março de 2015, Fernando Humberto foi condenado pelo Superior Tribunal Militar (STM) a um ano e quatro meses de prisão pelo crime de calúnia. Desde então, ele está foragido da Justiça e não se apresentou para cumprir a pena.

Em agosto de 2020, ele foi presencialmente no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) como testemunha de defesa de Ronnie Lessa. Mesmo tendo o mandado de prisão expedido pelo STM, Fernando Humberto não foi preso pelos magistrados do TJ-RJ. O Estadão procurou a Corte militar, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Segundo o inquérito da PF sobre a morte de Marielle Franco, divulgado recentemente, Lessa foi o responsável por executar a parlamentar e o motorista dela, Anderson Gomes, no dia 14 de março de 2018, no centro do Rio.

Fernando Humberto afirmou aos juízes do TJ-RJ que a arma usada para matar Marielle e o motorista Anderson Gomes pode não ter sido uma submetralhadora MP5, diferentemente do que os investigadores concluíram. Ele disse aos magistrados que não era amigo de Ronnie e que falaria como especialista em armamentos bélicos.

“Pra mim, não é uma MP5 porque MP5 é tiro agrupado e é a melhor metralhadora do mundo. Pra mim isso aqui é uma Uzi (metralhadora) ou é uma Glock (pistola). Lambança porque o tiro tá todo espalhado. São 10 tiros que ele me mostrou aí, dez espalhados… Se fosse a MP5 estaria tudo concentrado”, afirmou o fundador da confederação.

Ao Estadão, Ary Brandão afirmou que Lessa era filiado da confederação, mas que a relação entre os dois era a de fundador e associado. “O Ronnie Lessa, através dos advogados, pediu que o Fernando Humberto explicasse questões técnicas, como forma de mostrar que não seria possível ter sido ele o executor”, disse o advogado.

 

       Operação da PF investiga tráfico internacional de armas para o Rio

 

Agentes da Polícia Federal (PF) foram às ruas na manhã desta quinta-feira (4) para apurar a prática de tráfico internacional de armas de fogo e acessórios de origem dos Estados Unidos. A Operação Ficção ou Realidade investiga ainda comércio clandestino de material bélico a facções criminosas e milícias do Rio de Janeiro.

Informações obtidas pela Receita Federal foram o ponto de partida para as investigações da Delegacia de Repressão a Crimes contra Patrimônio e ao Tráfico de Armas da Superintendência da PF no Rio de Janeiro. As apurações identificaram a participação de um grupo que importava material bélico de forma irregular.

De acordo com a PF, autoridades policiais dos Estados Unidos apreenderam, em janeiro deste ano, em Miami, uma quantidade expressiva de material bélico que estava prestes a ser enviado clandestinamente ao Brasil.

“Na ocasião, foram apreendidos: 261 carregadores de alta capacidade, geralmente utilizados por milicianos e traficantes para exercer domínio territorial, visto que comportam até 90 munições de grosso calibre e alto poder destrutivo; e 88 acessórios de conversão de armas de fogo chamados de Kit Roni, que conferem maior estabilidade e precisão ao armamento, assim como transformam armas semiautomáticas em armas automáticas ou que disparam rajadas de tiros”, informou a PF em nota.

As investigações apuraram ainda que a quadrilha contratou uma empresa do segmento de efeitos cinematográficos para armazenar clandestinamente os armamentos, com a justificativa de que estava “lidando com materiais de efeito não lesivo, destinados ao serviço de show pirotécnico, de maneira que não levantasse suspeita sobre a atividade criminosa”.

Os policiais federais cumprem seis mandados de busca e apreensão, expedidos pela 2ª Vara Federal Criminal no Rio de Janeiro, em endereços residenciais dos suspeitos localizados nas cidades do Rio de Janeiro, de Curitiba e Maringá, no Paraná.

De acordo com a PF, os investigados responderão pelos crimes de tráfico internacional e comércio clandestino de armas de fogo e acessórios, além de associação criminosa. Se forem condenados, poderão receber pena de até 31 anos de reclusão.

“A operação foi intitulada Ficção ou Realidade devido à hipótese criminal investigada quanto à influência e dissimulação praticada, através da empresa do ramo de efeitos cinematográficos, no tráfico e comércio clandestino de arma de fogo”, concluiu a nota.

 

Ø  Algo de podre é perceptível de forma aguda no Rio, corrompendo e matando

 

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”. A célebre frase de Marcellus (em “Hamlet”, de Shakespeare) não conota nenhuma sensação física, mas moral, relativa a um mal oculto e manifestado em homicídios e traições. É o tempo de incubação da violência, de cuja regra maléfica se alimentam feras à espreita de vítimas.

Há algo de podre no Estado brasileiro, agora perceptível de forma aguda no Rio de Janeiro, no episódio do assassinato de Marielle, em que os fios da meada criminosa, separados na aparência, se entrelaçam.

Esse odor já feria narinas sensíveis depois do crime, quando em palanque público se quebrou uma placa de rua que homenageava a vereadora. Como num pesadelo delirante, pessoas distantes da materialidade da execução, exultavam em pisotear a memória da morta.

Um ato tão torpe quanto a motivação do atentado. Mas elegeu deputados e um governador de estado. Se alguma explicação racional para o crime se obtém com a prisão dos mandantes, a anomalia da placa permanece, para além da razão, como puro sintoma de apodrecimento.

Esse olfato crítico ancora numa paisagem política que relega os mais pobres a guetos desemparados. Como formigas que convivem com pulgões para torná-los reservas de proteínas, as classes dirigentes segregam pobres e pretos, rareando a presença do Estado e confinando-os a formas marginais de poder. Acontece no Rio, também em São Paulo, onde atualmente a polícia tem licença para matar.

Por perversa simbiose, essa marginalidade pactua com dispositivos oficiais de controle da população, como administrações e polícia, encarregadas de impostos e penalizações.

Bicheiros, traficantes e milicianos transformam o pacto em extorsão, constituindo um tipo de poder capaz de competir pelo domínio territorial e pela oferta de serviços na cidade.

Não à toa, o ex-presidente, em plena febre do poder, disse que não renunciaria à indicação de um superintendente da Polícia Federal no Rio. Atraído pelo odor, claro, mas moldado pelas características vantajosas do estado aberto à ampliação como reduto da ultradireita. Um bolo de padaria confeitado com leite condensado e sobrevoado por moscas varejeiras.

“Toda família tem uma hora em que começa a apodrecer”, descortina o espírito penetrante de Nelson Rodrigues (em “Flor de Obsessão”). A boutade retórica enseja um paralelo realista com o Estado.

Recentes governadores cariocas pareciam inspirar-se em Bokassa, o esdrúxulo e corrupto imperador da República Centro-Africana: um deles, sem pudor, importou por 100 mil reais um vaso sanitário polonês que aquece as partes pudendas.

À sua sombra, expandiu-se e se entranhou nas instituições a cultura do crime. Esse pútrido aparelho burocrático, carta branca para a morte de Marielle, continua corrompendo e matando.

 

Fonte: IstoÉ/FolhaPress

 

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