Para intelectual haitiano, crise é de
'criminalidade política' para facilitar intervenção dos EUA
A crise enfrentada
pelo Haiti desde o final do ano passado, com o anúncio em outubro de uma Missão
da ONU liderada pelo Quênia para enviar tropas ao país, ganhou um novo capítulo
a partir da renúncia do primeiro-ministro Ariel Henry em março. O governo de transição, formado por representantes de diversos setores políticos, é o
centro da disputa pelo destino político do Haiti. Enquanto setores
progressistas defendem uma solução haitiana para a crise, partidos de direita e
a Comunidade do Caribe condicionam a transição ao envio das tropas da
ONU.
>>> Confira a
entrevista na íntegra
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Sabemos que o Haiti
vem atravessando, há vários meses, nova onda de violência em meio à crise
política. Há relatos de que os grupos armados já controlam mais de 80% da
capital, incluindo estruturas essenciais, como portos e um aeroporto. Quero
começar perguntando qual é o atual estado humanitário, social e de segurança em
Porto Príncipe?
Camille
Chalmers: A situação do povo haitiano é muito
grave. E piorou muito com a nova onda de violência desencadeada pelas gangues
desde o dia 29 de fevereiro. Mas para entender isso é preciso lembrar que esses
grupos paramilitares fazem parte da estratégia global de dominação do
imperialismo estadunidense, porque recebem armas de guerra e munições em
quantidades ilimitadas e se beneficiam também da impunidade, porque o governo
interino de fato [ex-primeiro-ministro Ariel Henry] está muito relacionado com
algumas dessas estruturas. O caos que estamos vivendo é um caos fabricado, onde
nada significativo foi feito pelas grandes potências para parar o massacre.
Podemos dizer que o povo haitiano está sofrendo um massacre. Estamos vendo que
esses grupos paramilitares estão destruindo escolas, hospitais, já destruíram
mais de 18 hospitais, estão destruindo universidades. E isso mostra muito
claramente que não se trata de pura criminalidade, e sim de uma criminalidade
política. Está relacionada com um projeto político de colocar o país em um
estado de não funcionamento para facilitar uma intervenção militar dos EUA. É
uma estratégia muito violenta com consequências dramáticas sobre a vida
cotidiana do povo haitiano.
O povo haitiano segue
resistindo, mas estamos em uma situação de muita vulnerabilidade e se ainda
estamos sobrevivendo é graças a uma economia do campo valente que, apesar do
fechamento de portos e aeroportos, continua alimentando a população, e também graças
ao surgimento, em alguns bairros, de grupos de autodefesa popular que limitam
as agressões das gangues. Não possuem armas, mas se organizam, fazem barricadas
para controlar a entrada e saída dos bairros e alguns desses grupos têm a
participação de policiais, porque nem todos os policiais são corruptos, nem
todos estão ligados a essas gangues, e alguns são patriotas e se unem ao
esforço de autodefesa popular. Isso explica por que eu consigo sair de casa
para trabalhar. O bairro onde fica meu escritório está relativamente protegido
por estruturas de autodefesa.
·
Você falou um pouco
sobre esses grupos criminosos, mas que outros fatores explicam a situação
atual? Qual foi o estopim desta nova crise? A permanência do primeiro-ministro
Ariel Henry? A falta de eleições? O histórico de intervenções? O que você
colocaria como os principais motivos?
Para entender a
situação é preciso lembrar que o nosso país foi vítima de muitos choques,
choques de grande amplitude. Por exemplo, a aplicação de políticas neoliberais
que enfraqueceram a economia do campo, gerando muito desemprego. Temos centenas
de milhares de jovens sem trabalho e vivendo uma situação de desespero. E, é
claro, se tornam alvos fáceis de recrutamento das gangues. É preciso frisar
também que no Haiti há um fluxo bem grande de tráfico de drogas. Estima-se que
12% da cocaína que entra nos EUA passa pelo Haiti e pela República Dominicana.
Ou seja, são grandes montantes de dinheiro. Além disso, desde 2011, em resposta
às ondas de mobilização popular, os EUA fabricaram uma extrema direita que se
chama PHTK [partido político de Arien Henry] e é muito importante ver que essa
fabricação está ligada a uma estratégia continental. Em resposta ao ciclo
progressista, está sendo fabricada uma nova direita muito agressiva, mas quando
comparamos o discurso político de Michel Martelly, que foi imposto como presidente
do Haiti, do Bolsonaro e do Trump, é exatamente a mesma retórica.
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Você falou da
influência estrangeira e dessa extrema direita no Haiti. Qual é a origem dos
grupos armados que hoje têm esse poder? E se puder nos explicar quem são seus
integrantes e se estão relacionados com alguma organização política...
Já foi comprovado por
vários relatórios que esses grupos foram formados e armados pelo presidente de
extrema direita Michel Martelly para combater grandes ondas de mobilização
popular. Foi a resposta do sistema e das classes dominantes para neutralizar a
mobilização popular. E nada foi feito para contrapor esse processo. Pelo
contrário, são gangues que recebem muitas armas dos EUA e ninguém vai nos
convencer de que o Estado norte-americano não consegue controlar o tráfico de
armas com o Haiti, porque são volumes muito grandes. Nós, inclusive, estamos
culpando empresas estadunidenses fabricantes de armas que estão enriquecendo
com o sangue do povo haitiano, e reivindicamos reparação para isso. É
importante também destacar que muitas dessas gangues estão ligadas ao tráfico
de drogas. Então, há um grande fluxo de armas e, no sentido oposto, um fluxo de
drogas. São esses dois fluxos que explicam um pouco a força dessas gangues e
que trabalharam para destruir as instituições democráticas, destruir o Estado
haitiano, e como já foi visto em outros países da América Latina, é um caos
articulado com mecanismos de acumulação e de usurpação do país.
É importante também
destacar que, nos últimos anos, durante o ano de 2023, foi aplicado um plano de
migração, de Joe Biden, contra Cuba, Venezuela, Nicarágua e Haiti. E do Haiti
saíram mais de 168 mil pessoas em direção aos EUA. Ao mesmo tempo que os EUA
dizem querer fortalecer a polícia nacional do Haiti, favoreceram a saída do
Haiti de 3 mil policiais, quando a polícia nacional já está subdimensionada. Quer
dizer, mandaram de 25 a 30% das forças policiais aos EUA. Isso mostra que, na
estratégia global, há um enfraquecimento do aparato estatal e também é preciso
dizer que o governo está aplicando as medidas do FMI, que também debilitam o
Estado, e está transferindo competências ao que chamam de 'setor privado'. Tudo
isso é importante para entender a crise. E vale acrescentar dois fatores.
# O fator geopolítico:
os EUA querem manter um controle total sobre a bacia do Caribe, que está
próxima deles e desempenha papel muito importante na troca de mercadorias. E os
EUA temem muito uma potencial aliança política entre Cuba, Venezuela e Haiti.
Por isso, querem manter o controle absoluto sobre o jogo político. Também já
foi comprovado que, debaixo do solo haitiano, há recursos minerais
estratégicos. Há ouro, titânio, lítio, irídio, bauxita, carbonato de cálcio
etc. São recursos minerais muito importantes nas estratégias de acumulação do
império. Isso também faz parte da problemática e explica que queiram impor uma
intervenção militar. E nós dizemos que as últimas intervenções militares no
Haiti tiveram um resultado muito negativo para o povo haitiano. Inclusive, uma
das dirigentes, representante do Secretário-geral da ONU, aplaudiu a federação
das gangues, que se chama G9, dizendo que essa federação é uma coisa muito
positiva. Portanto, há uma relação bastante estreita com o crime organizado e
um uso do crime organizado como mecanismo de dominação.
Isso é muito
importante para entender o panorama global do que estamos vivendo. Nós
defendemos a formação de um Conselho Nacional de Segurança que irá definir um
plano estratégico para combater o crime organizado e, com esse plano, podemos
solicitar cooperação com outros países, como Brasil, Venezuela etc., para
realmente lutar contra isso. Mas uma ocupação militar de militares
norte-americanos não resolverá o problema e representa uma ameaça à soberania
dos povos caribenhos.
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Sobre os grupos
armados, você acredita que podem chegar ao poder efetivamente por meio do
conflito no Haiti?
Algumas forças
políticas estão buscando isso e apresentaram uma presidência de três cabeças,
incluindo Guy Philippe, que teve um papel ativo na destituição de Jean-Bertrand
Aristide em 2004. Ele recebeu armas e treinamento da CIA para derrubar
Aristide. Após ser preso por tráfico de drogas, foi transferido para Miami e
passou seis anos preso. Ele retornou ao Haiti em novembro de 2023 com um
discurso de que ele é um revolucionário, mas trata-se de uma manipulação
descarada. Além disso, a ex-embaixadora dos EUA no Haiti, Pamela White,
declarou recentemente que Guy Philippe deve ser parte da solução, o que é
perigoso e uma forma de imperialismo levar ao poder líderes das gangues,
isolando ainda mais o país e reforçando a retórica dominante contra os
haitianos. O povo haitiano não aceitará essa situação.
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Você falou sobre a
nova missão internacional e o envio de tropas ao Haiti, desta vez por parte do
Quênia, impulsionado pelos EUA. Qual é a sua visão sobre a situação agora?
Há muita hipocrisia,
pois afirmam que uma intervenção militar resolverá o problema, o que é
totalmente falso. Eles enfraqueceram a polícia nacional e se opõem a qualquer
processo de reforço de capacidades locais para enfrentar o crime organizado. A
inserção de policiais do Quênia no Haiti é uma farsa, pois sabemos que não
terão eficácia devido à complexidade do problema e à barreira do idioma.
O Quênia é apenas um
pretexto, pois os EUA terão o controle e definirão a agenda dessas forças. Por
isso, rejeitamos esse tipo de intervenção militar e buscamos definir um plano
de segurança de maneira soberana, em intercâmbio solidário com outros países
para fortalecer as capacidades nacionais. A cooperação solidária pode ajudar o
povo haitiano a superar a crise e iniciar um verdadeiro processo de
reconstrução nacional.
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Após a renúncia do
Henry, instituições como a Caricom exigem que o Conselho de Transição aceite a
nova missão da ONU, liderada pelos EUA. Pode nos explicar como está conformado
o Conselho de Transição no Haiti e qual é a sua opinião sobre a posição da Caricom
frente ao Conselho?
O Conselho de
Transição é formado por sete setores diferentes, incluindo representantes dos
setores populares e da sociedade civil. A situação é complexa, pois a Caricom
(Comunidade do Caribe) não estava trabalhando sozinha, e o plano foi articulado
por forças estrangeiras. É importante que os setores populares tenham
representação no Conselho para não ficarem totalmente excluídos, mas é uma
situação contraditória. Atualmente, há uma negociação em curso dentro do
Conselho sobre um acordo político, e estamos aguardando para ver se é aceitável
ou não. Estamos firmemente contra a ocupação militar e qualquer processo de
continuidade do poder da extrema direita, e não aceitaremos uma submissão à
vontade imperialista dos EUA.
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Hoje você vê espaço no
Conselho para essa disputa contra a missão? Acredita que o representante do
Acordo de Montana pode barrar o envio das tropas ao Haiti no Conselho?
Acreditamos que três
ou quatro representantes poderiam levar adiante essa luta e estamos esperando
para ver qual será o resultado com o acordo político que está sendo negociado.
Vai ser muito difícil, porque o setor reacionário também tem seus representantes
lá dentro e tem o controle do poder real. É uma situação muito difícil. Nos
próximos dias iremos elaborar uma estratégia frente a isso para saber se
continuamos, quer dizer, se Montana continua, porque nós não participamos
diretamente, mas Montana agrupa muitas organizações, incluindo as federações de
agricultores mais avançadas, que têm uma postura socialista. Definiremos um
posicionamento para ver se sairemos de Montana ou se exigiremos que Montana
saia para desenvolver uma estratégia de oposição e totalmente fora das
instituições estatais. É uma decisão complicada, considerando o controle das
gangues sobre o território e o fato de que o setor popular não tem como
enfrentar as gangues hoje. Em alguns bairros há pequenos grupos de autodefesa,
mas não possuem realmente a capacidade de enfrentar as gangues.
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Sobre o Acordo de
Montana, pode nos explicar um pouco mais em que consiste, como foi elaborado e
por que é defendido hoje?
O Acordo de Montana
surgiu de todo um processo dentro da mobilização popular contra o governo de
Jovenel Moïse, e quando Moïse foi assassinado, o Acordo de Montana definiu uma
rota para avançar em direção a transição política que chamamos de "transição
política de ruptura". Ou seja, uma transição política que assegure que não
haverá continuidade do monopólio político da extrema direita. Essa transição de
ruptura envolve uma conferência nacional de todos os setores nacionais para
definir pautas e prioridades de construção nacional e envolve também processos
judiciais para julgar os responsáveis pelos crimes financeiros e massacres que
sofremos nos últimos tempos, além de algumas medidas econômicas urgentes para
aliviar a situação, que é desesperadora, com quase 50% da população em situação
de insegurança alimentar, uma altíssima taxa de desemprego e um salário mínimo
que nem sequer permite comprar 12% da cesta básica. Portanto, são medidas
urgentes do ponto de vista econômico para aliviar o sofrimento do povo e
permitir também que haja, através dos processos judiciais, todo um processo de
mobilização popular. Por exemplo, todos os depoimentos sobre os massacres serão
um espaço muito importante de mobilização e de reverter psicologicamente a
situação que enfrentamos hoje. É muito importante que as pessoas possam
recuperar a confiança em si mesmas, no país para poder avançar e organizar
eleições, transparentes e realmente controladas pelos setores haitianos, e não
eleições tergiversadas, como as últimas eleições presidenciais, que tiveram a
participação de menos de 18% do eleitorado e foram controladas por *
forças estrangeiras. É
preciso repatriar o processo eleitoral para que ele seja, de fato, um reflexo
do desejo coletivo do povo haitiano.
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Eu queria falar um
pouco sobre as missões anteriores da ONU, principalmente a Minustah, que foi
liderada pelo Brasil. Muitos historiadores especialistas repudiam o papel dessa
missão, inclusive dizem que Haiti deveria receber reparação por essa missão, pelos
prejuízos causados ao país. Que balanço você e a esquerda haitiana fazem dessa
missão, a Minustah, liderada pelo Brasil?
Sofremos 12 missões da
ONU, de 1992 até hoje, e o balanço é totalmente negativo. Elas tiveram um papel
importante no enfraquecimento da economia do campo, na imposição de políticas
neoliberais, na intensificação da dependência alimentar e no enfraquecimento de
órgãos estatais, como, por exemplo, o sistema eleitoral, que agora não tem
nenhuma credibilidade porque as pessoas sabem que está sob controle
estrangeiro. Elas tiveram um desempenho bastante negativo. Quando dizemos
"Brasil" é preciso esclarecer que um dos chefes comandantes da
Minustah, o general Augusto Heleno, foi uma das cabeças por trás da tentativa
de golpe de Estado contra a posse do Lula em janeiro de 2023. Então, temos que
ser mais precisos, não é o Brasil. Nós realmente estamos exigindo reparação,
porque fomos muito prejudicados. Inclusive fizemos um tribunal popular muito
importante que qualificou os crimes cometidos pela Minustah contra o povo
haitiano. Estamos falando, por exemplo, da introdução da cólera, uma doença que
nunca tinha existido no Haiti e matou 40 mil pessoas, infectou 800 mil e até
hoje, pessoas continuam morrendo de cólera aqui.
Outro crime bastante
grave também foi a onda de estupros contra mulheres e meninas, e uma grande
quantidade de órfãos, crianças sem pais, que estão no Haiti agora. Então
precisamos de reparação para isso. É muito importante defender a dignidade do
povo do Haiti. Também é preciso lembrar que grande parte dessas missões não
realizaram o desarmamento que prometeram, alguns programas até reforçaram o
poderio das gangues sobre os bairros populares, inclusive do ponto de vista
econômico. Sob o pretexto de reinserção econômica, ofereciam dinheiro a certas
pessoas que eram líderes de gangues e que usaram esse dinheiro para reforçar
seu controle sobre os bairros. É algo realmente muito nefasto. E não ocorreu só
nas recentes ocupações militares.
Em 1915, uma
intervenção militar do exército dos EUA se aproveitou de uma ocupação de 19
anos para estabelecer mecanismos de tutela política e de desarticulação
econômica, da organização de uma migração em massa, onde mais de 400 mil
trabalhadores do campo haitianos migraram aos bateyes de Cuba,
que eram áreas controladas pelo capital estadunidense. Portanto, temos uma
experiência muito dolorosa com as ocupações militares, que fizeram um trabalho
totalmente contrário à possibilidade de construir projeto nacional a favor das
grandes maiorias haitianas.
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Professor, uma
pergunta sobre o passado. Qual a influência dos anos da ditadura da família
Duvalier, Papa Doc e seu filho, Baby Doc? Como isso perdura no cenário
atual? A repressão daquele momento deixou marcas na política do Haiti?
Sim, com certeza. A
ditadura de Duvalier, que durou 29 anos, é um dos golpes mais duros que o povo
haitiano já sofreu. Não só desorganizou o Estado, como perpetrou muitos crimes.
Duvalier era considerado pelos EUA um dos freios ao avanço comunista no Caribe.
Ao mesmo tempo, ele desenvolveu uma retórica pseudonacionalista quando, na
verdade, a presença e poder dos EUA aumentaram durante sua ditadura. Então é
muito importante lembrar que esta nova direita representada, por exemplo, por
Michel Martelly, Jovenel Moïse e Ariel Henry, é neoduvalierista. Eles sempre
dizem que na época de Duvalier havia segurança, as coisas eram melhores etc.
Então é muito importante ver a conexão entre o projeto de dominação que querem
consolidar agora e o duvalierismo. Haiti é um dos raros países da América
Latina que sofreram uma ditadura sangrenta tão longa sem fazer depois nenhum
processo de análise judicial sobre a responsabilidade dessas pessoas, algumas
vivas até hoje. A Argentina, por exemplo, deu passos muito importantes em
relação a isso. Há um trabalho muito importante de memória para desconstruir o
Estado duvalierista que essas pessoas da extrema direita agora querem
reconstruir.
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Em relação à Revolução
do Haiti, este ano se comemora 220 anos da independência do país. O que isso
traz? Quão longe o país está de reconquistar a independência real no século 21?
É uma história
dramática, mas muito importante que devemos difundir, porque a Revolução
Haitiana de 1804 foi maravilhosa, uma revolução anticolonial, antiescravagista,
antirracista, anticapitalista e contra o sistema de plantações, e que tem
características importantes de contracultura. Mas após essa revolução nós fomos
isolados. Não só pela ação direta das potências, que fizeram todo o possível
para que essa experiência revolucionária não ficasse conhecida e todo o
possível para destruir o Estado haitiano. Agressões militares, bloqueio... E
quando Bolívar organiza o Congresso Anfictiônico do Panamá para reunir as novas
nações livres da América Latina, os EUA dizem: "Não irei a essa
conferência se o Haiti for, porque não quero me sentar na mesma mesa que um
negro". Então foi um isolamento não só construído pelos impérios, em que a
França fez muita pressão sobre os outros países para que não se relacionassem
com o Haiti e os EUA reconheceram o Haiti somente em 1862, muito depois da
revolução. Houve também agressões financeiras, com a dívida imposta pela França
para indenizar os antigos proprietários de escravos e plantações que haviam
perdido suas posses no Haiti. O país pagou essa indenização durante mais de um
século, às vezes enviando à França 68% a 70% de sua arrecadação estatal.
Portanto, foi um fator importante para minar o processo de construção nacional.
Isso continua e piora com a ocupação militar dos EUA, que começa com o roubo de
todas as reservas de ouro do Haiti em dezembro de 1914. É trágico porque não só
enfrentamos esse isolamento imposto pelos impérios dominantes, como também o
isolamento dos projetos nacionais da América Latina, que não queriam a abolição
da escravidão.
Estamos lutando e
temos que lutar para sair do isolamento, sair desta solidão e é muito
importante construir laços de solidariedade e irmandade com todos os movimentos
anticapitalistas, anti-imperialistas da América Latina, porque acho que a
herança da Revolução Haitiana continua vigente e projeta valores fundamentais
para construir outra humanidade que supere o capitalismo, que supere a barbárie
do capitalismo.
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Sobre as organizações
políticas do Haiti, nós, aqui no Brasil, gostaríamos de entender qual é o
estado da disputa política e quem são os principais atores da esquerda e da
direita hoje.
O panorama político
está dominado pelo partido de extrema direita PHTK. Eles têm muitos aliados,
inclusive, infelizmente, alguns partidos social-democratas que fizeram alianças
com a extrema direita. Eles têm o controle do Estado e trabalham para se manter
no poder e reproduzir seu controle do Estado. Frente a isso, constituímos uma
plataforma que se chama Frente Patriótica Popular, na qual há seis partidos
políticos de esquerda e sete frentes de movimentos sociais, incluindo as
principais federações de agricultores. A Frente Patriótica Popular leva adiante
uma luta democrática, mas também luta para construir o socialismo no Haiti. Nós
investimos muito no trabalho de formação e educação política e ideológica e nos
inspiramos muito na grande e bela tradição do marxismo haitiano, com figuras
como Jacques Roumain, Jacques Stephan Alexis, que a partir da luta contra a
ocupação militar dos EUA desenvolveram uma concepção de luta pelo socialismo no
Haiti. Na Frente Patriótica Popular, estamos trabalhando para realmente avançar
em direção a um projeto de ruptura, não só com a dominação imperialista, como
também com o capitalismo. Evidentemente, não é um trabalho fácil, é um trabalho
de longo prazo e longo alcance, mas podemos dizer que estamos avançando e a
Frente Patriótica Popular é uma inovação política, porque é a primeira vez que
temos uma entidade onde coexistem partidos políticos e movimentos sociais.
Há uma originalidade
nisso. Não é fácil, há muitos obstáculos nessa construção, mas estamos
avançando e acreditamos que a nova conjuntura que se anuncia será uma
oportunidade para avançar mais rapidamente em direção à construção dessa
alternativa política socialista. Nesse sentido, é muito importante divulgar
esse esforço e poder construir laços de irmandade, solidariedade e troca com as
forças políticas do continente.
Fonte: Brasil de Fato

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