Fernanda
Chaves: "Quem quis calar Marielle será atormentado por sua memória pelo
resto da vida"
Na noite de 14 de março de 2018, quando a vereadora Marielle
Franco (Psol) e seu motorista Anderson Gomes eram assassinados numa rua com
câmeras de segurança desligadas do bairro Estácio, no coração do Rio de
Janeiro, havia uma terceira pessoa a bordo do veículo da parlamentar. Trata-se
de Fernanda Chaves, 49 anos, jornalista e assessora de imprensa com histórico
de atuação junto a parlamentares defensores dos direitos humanos. À época, era
assessora da vítima.
No último dia 24 de março - 6 anos e 10 dias após o crime -, os
irmãos Domingos e Chiquinho Brazão foram presos ao lado do delegado Rivaldo
Barbosa. Eles foram apontados como os mandantes do assassinato pela Polícia
Federal a partir da delação premiada do ex-PM e miliciano, Ronnie Lessa, o
homem que apertou o gatilho naquela noite.
Desde as prisões e a publicização de maiores informações acerca
da investigação, tem sido colocada uma discordância em torno do uso de terras
no subúrbio carioca como a motivação para o crime. No entanto, Fernanda Chaves
tem uma visão um pouco mais ampla e complexa sobre a forma como se deram os
acontecimentos.
Em entrevista exclusiva e emocionante à Revista Fórum, a
ex-assessora de Marielle Franco relembra aquela noite macabra, reconta tudo o
que passou como uma sobrevivente do crime político mais impactante das últimas
décadas no Brasil e faz uma análise detalhada acerca das últimas revelações do
caso.
Leia a entrevista:
• Como conheceu a
Marielle e como era a dinâmica do mandato até aquela noite de 14 de março de
2018?
Fernanda Chaves - Conheci a Marielle em 2006. Era ano de
campanha eleitoral e eu trabalhava no mandato do deputado federal Chico Alencar
(PSOL), onde era colega de trabalho do Marcelo Freixo (à época do PSOL) – ele
era assessor de direitos humanos e assuntos de segurança pública e eu era
assessora de imprensa. O Marcelo então anunciou a sua campanha naquele ano, e
foi uma campanha muito dura. Me lembro que ele vendeu o seu Fiat Uno para
bancar os panfletos.
Eu cuidava da agenda do Marcelo Freixo e dos materiais que
seriam usados na comunicação. Era uma época ainda pré-redes sociais e, cuidando
da agenda dele, um dia ele virou pra mim e falou: ‘Fernanda, a Marielle da Maré
vai entrar em contato com você. Ela quer se aproximar da campanha’. Então
entrei em contato com ela para pegar o seu e-mail e começamos a conversar por
telefone.
Toda semana eu ligava para chamá-la para panfletagens, debates,
festas, e ia dando a agenda para ela e perguntando se ela poderia se encaixar
em alguma coisa porque precisávamos de gente na campanha. Mas ela nunca podia
ir nos eventos mais festivos, que eram de noite, até porque estava com a filha
pequena. Mas um dia resolveu ir. Era uma agenda na Lapa, do coletivo de
mulheres do PSOL que estava redigindo uma carta sobre a pauta das mulheres aos
candidatos do partido. E lá encontrei com ela pela primeira vez, naquele
sobrado. E foi na Lapa a primeira e a última vez, anos depois, que eu vi a
Marielle.
Eu não sabia quem era ela, a gente só tinha se falado por
telefone, mas quando bati o olho vi de quem se tratava. Estava sentada mais à
frente, perto do tablado onde tinha discussão, e ela toda hora olhava para
trás, para a entrada, como se estivesse me esperando. Foi a primeira vez que a
gente se viu.
Na mesma época estava tendo muita manifestação contra os
caveirões nas favelas e ela estava sempre presente. Depois o Marcelo Freixo se
elegeu e me chamou para ir para o mandato dele como assessora de imprensa, onde
eu iria coordenar a comunicação. Também chamou a Marielle para trabalhar nos
assuntos relacionados às favelas e territórios, para ajudar a elaborar
políticas que atendessem a essa população. Nessa época, começamos a nos tornar
muito amigas e isso virou uma grande amizade. Viramos comadre uma da outra. Eu
fui madrinha de casamento dela e ela foi do meu casamento. Depois eu tive uma
filha e ela foi madrinha da minha filha. Enfim, a gente era bem próxima.
Em dado momento, quando trabalhava para o mandato do Freixo no
Rio, resolvi sair. Estava muito pesado o clima dele andando com seguranças e
fui para Brasília trabalhar no Senado. Até que ela resolveu sair candidata em
2016. A gente teve essa conversa e eu me lembro que eu fiquei surpresa.
Cheguei no Rio, fui tomar um lanche com ela e ela revelou que
seria candidata. Conversamos muito sobre isso e, naquelas eleições, ela
desbancou as próprias previsões do PSOL, de que teria meros 10 mil votos.
Obteve 46 mil votos e foi eleita. Ela chegou gigante para esse mandato e me
pediu para estar junto.
O primeiro ano de mandato dela foi um fenômeno, ela trabalhava
muito e bem. E assim foi o ano de 2017, com muita luta que a Marielle
participava. Em 2018, após o recesso de janeiro e o Carnaval em fevereiro,
entramos em março com os trabalhos relativos do Dia Internacional da Mulher [8
de março], mas era só o começo do ano. Quando ocorreu o crime estávamos nas
primeiras semanas de trabalho. E o resto da história todos nós conhecemos.
• Como é ter que
conviver com a lembrança daquela noite de 14 de março de 2018?
Fernanda Chaves - Eu penso nisso absolutamente todos os dias e
de alguma forma tive que aprender a conviver com esses pensamentos. Meio que
optei por não surtar, especialmente quando me dei conta do tamanho daquilo que
aconteceu, da importância desse crime - que é um atentado político dos mais
importantes do Brasil desde a redemocratização.
E ao passar por isso, quando você vai se dando conta do que
significa, você sabe que você vai ter que lidar com aquilo para o resto da
vida. E aí é uma questão de aprender mesmo, de ir lidando, falando... Outro dia
eu estava conversando com uma amiga psicóloga sobre exposição ao trauma, que é
um tipo de tratamento. Eu meio que pratico essa exposição ao trauma
diariamente, então olho para esse trauma com alguma perspectiva. Para não
sentir tanto, eu tento olhar como se fosse um filme, mas eu visito todo santo
dia: alguns momentos mais, outros menos. Agora, por exemplo, desde as prisões
dos acusados, é algo do qual eu estou falando o tempo inteiro.
• Nesse sentido,
como foi lidar, logo após o crime, com uma série de fake news que tentavam
ligar Marielle ao tráfico?
Fernanda Chaves - Foram muitas camadas, muitas coisas
inacreditáveis que aconteciam – além do próprio crime, em si – que era um
horror, a história de um horror. Um crime desse tamanho acontecendo no centro
do Rio de Janeiro em ruas que tinham câmeras mas estavam desligadas. Uma
autoridade municipal passando, saindo do trabalho e acontece isso.
O estado ainda estava sob intervenção militarizada. Sobreviver a
isso é um capítulo à parte. Ainda estava tentando dar conta do que estava
acontecendo e em poucas horas você já tinha fake news sobre a Marielle, o que
não fazia qualquer sentido sobretudo levando em conta o tempo que isso foi
feito, pensado, arquitetado... foi rápido.
Depois a gente passa a saber que as primeiras fake news sobre
ela saíram com coisa de minutos depois da execução, o que é um pouco assustador
e perturbador só de pensar como que isso, de alguma forma, já não estava sendo
ali gestado e planejado ao mesmo tempo que o próprio crime. Foi muito
perturbador, sobretudo para mim que cuidava da imagem dela.
Eu estava sofrendo as consequências de ter sobrevivido àquilo e
ainda estava muito em choque com a partida dela e do Anderson. E ter passado
por isso e saído com vida era outra coisa que não parecia ter sentido.
Duas pessoas, uma do seu lado e outra na sua frente, morrem
imediatamente. E você sai sem nada grave. É difícil processar e entender. Você
fica tentando entender o porquê. Porque é quase uma culpa. E meio disso tendo
que lidar com a avalanche de coisas que saíram, porque aí também saíam coisas
sobre mim. Eu era colocada no lugar de testemunha, e isso era muito perigoso.
Até porque eu não tinha visto absolutamente nada, foi tudo muito rápido e
desesperador.
Foi preciso o trabalho hercúleo do meu marido, que também é
jornalista - porque eu não tinha a menor condição, estava em choque ainda – de
falar com absolutamente todas as editorias, repórteres e jornalistas, para que
eu pudesse ser trada como sobrevivente e assessora, não mais como testemunha.
Eu tinha uma filha pequena em casa à época e tentava protegê-la
das informações mais assustadoras. Em algum primeiro momento a gente falou para
ela que tinha sido um acidente de carro, já que eu cheguei em casa machucada
com estilhaços. A orientação era para não aparecer, não falar. Mas eu iria sair
do Brasil e precisava expor, de alguma maneira o que aconteceu. Por isso
escolhi falar ao Fantástico, para me posicionar uma só vez, preservando minha
identidade e, ao mesmo tempo, atingindo um grande público.
Lá fora, eu não desfazia a minha mala porque eu achava que a
qualquer momento iria voltar para o Brasil. Eu tinha esperanças que o caso
fosse solucionado ainda naquela época, só que nada aconteceu. Pelo contrário, o
assunto começou a rarear na imprensa. O Lula tinha sido preso e isso começou a
tomar conta da pauta. Cada vez eu via menos coisas a respeito da investigação
sobre a morte da Marielle.
• Você disse algumas
vezes que a Marielle não se sentia ameaçada pelo Chiquinho Brazão, e que os
dois tinham uma relação republicana dentro da Câmara. Te surpreendeu a família
Brazão estar entre os mandantes e mentores do crime?
Fernanda Chaves - Ela não se sentia ameaçada e nunca recebeu uma
ameaça. Ela não se sentia em perigo e isso não era qualquer coisa. A Marielle
era ligada em segurança e não iria negligenciar uma informação ou uma suspeita
nesse sentido. Ela era uma especialista em segurança e conviveu anos com o
Marcelo Freixo que estava sempre cercado de seguranças. Que teve planos que
foram descobertos de ataques contra ele, de assassinatos, essas coisas.
A Marielle tinha uma preocupação com a vida, no sentido de que
ela amava muito a vida e não queria correr o risco. Isso era uma coisa que ela
verbalizava, porque a gente sempre comentava do Freixo e também do Jean Wyllys,
que nessa época estava sofrendo muitas ameaças. Ela falava que ‘se for para
viver assim, eu não vivo de política. Eu não quero uma vida insegura’.
Ela tinha essa preocupação inclusive com a assessoria dela. Uma
vez uma das assessoras foi xingada no ônibus. Era uma mulher trans. A Marielle
ficou ligada na situação dela. Ela tinha essa expertise.
Na Câmara ela sabia quem era o Brazão, quem era a família
Brazão. A Marielle participou da CPI das Milícias. Eu também participei e a
gente construiu um relatório, juntas. Sou coautora do relatório da CPI das
Milícias do Marcelo Freixo e ela estava muito ativa nesse período também. Quem
é do Rio de Janeiro conhece esses personagens, inclusive porque o Brazão está
no relatório da CPI.
Mesmo assim, ela não tinha uma relação ruim com ninguém. Ela
tinha seus posicionamentos e existiam ali campos divergentes ideologicamente,
mas com respeito. Nunca teve um momento tenso. Nunca teve um episódio capital
que nos deixasse preocupadas com um crime encomendado pela família Brazão.
• Passados tantos
anos e dadas as recentes revelações, o que ainda falta para que o crime seja completamente
esclarecido? Que elementos vão compor as motivações na sua opinião?
Fernanda Chaves - Tinha essa história de zona oeste. Mas ela não
votava diferente de ninguém da bancada. Talvez ela se diferenciasse no
tratamento e no encaminhamento que ela dava às demandas. A Marielle trabalhava
muito bem. Era uma liderança no sentido de ser uma escuta. Ela absorvia. Eu
sempre falo que ela era uma esponja. A Marielle estava sempre disposta a ouvir
no sentido de absorver e entender. Se chegassem lá no gabinete dela moradores
da zona oeste com uma demanda contra um projeto de lei que vai favorecer a
milícia, ela ia receber essa demanda.
Todos recebiam essas demandas, só que a Marielle incomodou mais
que os outros. Talvez porque ela fosse uma mulher negra chegando na Câmara e
isso incomoda. Eu sempre faço essa leitura de que quem arquitetou esse crime
queria atingir um setor da política fluminense, um grupo, um coletivo... e
escolheu uma pessoa para pagar por isso.
Mas eles erraram muito mal no cálculo. Quando você lê a
investigação, vê que um dos acusados do assassinato faz uma pesquisa sobre as
pessoas do Psol, então ele começa ali uma investigação por outras pessoas.
Passa por familiares do Freixo, pelo próprio Freixo, pelo Chico Alencar e, em
algum momento, ele para na Marielle. Então você vê que não foi uma coisa
inicialmente arquitetada para ela em particular, eles queriam atingir um setor
mais progressista da política. Era um ano eleitoral e queriam assustar, amedrontar,
atrapalhar e desbaratar aquilo. Então escolheram ela.
Acho que a decisão de escolhê-la é atravessada por ódio,
machismo, racismo. Porque “essa abusada, negra e favelada enche o saco, atende
a associação de moradores e leva o morador para a defensoria pública”. Mas não
conheciam a Marielle. Aquela mulher negra, favelada e lésbica não ficou gigante
por conta do seu assassinato, ela já era gigante.
• O que comenta
sobre a participação das forças de segurança do Rio de Janeiro nesse crime,
representadas pelo delegado Rivaldo Barbosa e pelo interventor federal, o
general Walter Braga Netto?
Fernanda Chaves - Descobrir o envolvimento do delegado Rivaldo
foi um choque. Até uns dois ou três anos atrás teve uma notícia que ele teria
recebido um suborno para esconder uma prova de um crime relacionado a um
bicheiro no Rio de Janeiro, o que foi muito chocante, mas ele negou até o fim e
não deu em nada. E as investigações não deram em nada. Agora ele reaparece
dentro desse crime que matou a Marielle como sendo uma pessoa que não só atuou,
como durante o pós-crime tinha como objetivo atrapalhar as investigações.
De acordo com esse inquérito ele participa da decisão e do
planejamento, o que é perturbador. Eu recebi isso como um choque, porque mal ou
bem a gente estava acostumado com a linha que investigava os irmãos Brazão. Mas
um delegado que idealizou a divisão de homicídios e era tido como uma
referência dentro da Polícia Civil, um cara que atendia prontamente, que
participava de audiências e tinha um posicionamento mais progressista dentro da
Polícia Civil, foi algo difícil de engolir. Tínhamos aquela figura como sendo
alguém de confiança. Sabíamos que era um crime político que poderia estar
envolvendo agentes. Então era preciso ter uma figura de confiança na polícia, e
essa figura era claramente o Rivaldo. A gente confiava no Rivaldo e de repente
vem agora uma prisão dele e um inquérito em que ele está colocado como uma das
pessoas que arquitetou o plano. É chocante e muito assustador.
Sobre a intervenção federal, acredito que haja pontos que
precisem ser melhor esclarecidos e trabalhados pela investigação. Vimos que o
nome do Rivaldo como chefe da Polícia Civil foi questionado pelos serviços de
inteligência. Então por que ainda assim ele foi escolhido? Eu acho que a
investigação precisa entregar isso também. Não dá para quem está aqui no meu
lugar de sobrevivente conjecturar sobre isso. Espero que as autoridades o
façam.
• Qual é a melhor
maneira de honrar a memória de Marielle Franco?
Fernanda Chaves - Existem muitas formas de a gente seguir
honrando a memória da Marielle. Eu falei esses dias numa sessão solene lá na
Câmara dos Deputados, que foi feita em homenagem a ela, uma coisa que eu falava
lá no início, logo depois do assassinato. Quando eu comecei a ouvir esses
gritos de manifestação - ‘Marielle presente’. ‘Marielle vive’ - isso me
abalava. Porque ela não está presente, não está viva e para quem era uma pessoa
próxima, uma amiga, doía muito fundo em mim e causava muita revolta.
Com o tempo eu consegui ir ressignificando isso e o fato é que
hoje, mais do que nunca, eu adoro falar ‘Marielle presente’. Sobretudo nesses
espaços onde tem tanta manifestação de ódio. Tentaram calar a Marielle.
Obviamente ela foi morta para calarem ela. Para acabar com aquela mulher que
incomodava. Aquela mulher negra, favelada, lésbica. Acharam que isso ia acabar,
que ia morrer junto com ela e que depois de alguns dias ninguém ia mais lembrar
desse crime. Só que não conseguiram.
Não tem um lugar nesse mundo hoje em que você ande e não tenha
um abraço à memória da Marielle. Você vai para a França e tem praça, você vai
para a Alemanha e tem rua. No próprio Brasil não tem um bairro que não tenha um
muro dedicado à Marielle. Então ela de fato está muito presente.
Quem desejou, quem planejou e quem quis acabar com a Marielle e
calar sua boca está condenado a viver para o resto dos seus dias infelizes
ouvindo, sabendo e vendo a imagem da Marielle. Quiseram tanto apagar a
Marielle, mas ela segue aí e não para de incomodar eles. Segue alfinetando,
provocando e expondo esses mesmos que hoje se regozijam nas assembleias,
falando que a 'Marielle já morreu'. Eles vão continuar ouvindo o nome dela para
o resto dos seus dias e nas próximas gerações.
Além desse aspecto mais filosófico e da condenação dos mandantes
e executores, tem uma outra coisa: seguir a sua luta. E o que posso colocar de
mais concreto aqui é o próprio Rio de Janeiro. Precisa haver uma força-tarefa
para repensar a situação de caos em que o Rio de Janeiro está. E eu acho que
para seguir lutando por justiça por Marielle é preciso tirar o Rio das mãos das
milícias.
Fonte: Fórum

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