quinta-feira, 4 de abril de 2024

Diabetes: Reino Unido se torna 1º a oferecer 'pâncreas artificial' na rede pública

Dezenas de milhares de ingleses com diabetes tipo 1 terão acesso uma nova tecnologia, chamada de pâncreas artificial, para ajudar a controlar a doença.

O sistema usa um sensor de glicose sob a pele para calcular automaticamente a quantidade de insulina administrada por meio de uma bomba.

Ainda este mês, o NHS (Serviço Nacional de Saúde, na sigla em inglês) começará a entrar em contato com adultos e crianças que podem se beneficiar da nova tecnologia.

No entanto, os responsáveis pela saúde pública britânica alertam que pode levar até cinco anos para que todos os pacientes elegíveis recebam o equipamento.

Isso se deve aos desafios de obter um número suficiente de dispositivos, além da necessidade de treinar mais funcionários sobre como usá-los na prática.

Nos testes, a tecnologia — conhecida oficialmente como sistema híbrido de circuito fechado — melhorou a qualidade de vida e reduziu o risco de complicações de saúde a longo prazo.

No final do ano passado, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (Nice, na sigla em inglês), que avalia a incorporação de novas tecnologias na rede pública de saúde britância, disse que o NHS deveria adotar o pâncreas artificial.

Quase 300 mil pessoas têm diabetes tipo 1 no Reino Unido, incluindo cerca de 29 mil crianças.

No Brasil, a Federação Internacional de Diabetes estima que a enfermidade afete 588 mil indivíduos. A incorporação do pâncreas artificial no Sistema Único de Saúde (SUS) é debatida, mas não há previsão de que a tecnologia seja aprovada e implementada no país.

No diabetes tipo 1, o pâncreas não produz insulina, um hormônio importante que ajuda a transformar os alimentos em energia.

Os pacientes acometidos pelo quadro precisam monitorar de perto os níveis de açúcar, ou glicose, no sangue e administrar insulina todos os dias, por meio de injeções ou de uma bomba.

A nova tecnologia faz isso automaticamente, pois consegue virtualmente imitar a função de um pâncreas — embora ela ainda exija que as informações sobre a ingestão de carboidratos sejam inseridas num aplicativo, para que o sistema funcione com mais precisão.

O pâncreas artificial foi desenvolvido para evitar que pessoas com diabetes tipo 1 apresentem níveis baixos ou elevados de glicose no sangue. O descontrole do açúcar no sangue representa um risco para a vida delas.

Além disso, o dispositivo também ajuda a melhorar o controle geral da glicose, o que significa que a chance de complicações — como doenças cardíacas, renais e oftalmológicas — diminui.

Gemma Lavery, que mora em Plymouth, na Inglaterra, passou a usar o dispositivo depois de fazer parte de um projeto piloto do NHS. Ela diz que o pâncreas artificial transformou sua vida.

"Não preciso mais me preocupar com o estresse relacionado ao trabalho que afeta meus níveis de glicose no sangue, pois o circuito fechado ajuda a resolver isso antes que se torne um problema", conta ela.

"Posso ter uma noite inteira de sono sem me preocupar com os baixos níveis de glicose, que atrapalham minha rotina matinal. Também descobri que meu diabetes está mais estável."

·        'Incrivelmente emocionante'

O professor Partha Kar, que atua coo conselheiro especializado em diabetes do NHS, disse que a incorporação do pâncreas artificial representa "uma ótima notícia para todos com diabetes tipo 1".

"Esta tecnologia futurística não só melhora os cuidados médicos, como também melhora a qualidade de vida dos pacientes", acrescenta ele.

A médica Clare Hambling, diretora clínica de diabetes do NHS na Inglaterra, acredita que a nova tecnologia "tem o poder de redefinir a vida" das pessoas com diabetes tipo 1.

"O diagnóstico do diabetes tipo 1 pode passar batido para muita gente. Então se você está preocupado com alguns sintomas, como urinar com mais frequência, sentir sede em demasia, estar mais cansado e emagrecer, por favor, procure um especialista", orienta ela.

Colette Marshall, executiva-chefe da ong Diabetes UK, aponta que "é incrivelmente emocionante ver o lançamento desta tecnologia".

"Este é realmente um momento marcante."

O Nice aprovou a implementação do sistema no NHS em dezembro passado.

Na sequência, o NHS estabeleceu um plano de cinco anos sobre como fornecer o equipamento aos pacientes elegíveis.

O Nice recomenda o uso do pâncreas artificial para pessoas com diabetes tipo 1 que se enquadram em alguns critérios, incluindo crianças e menores de 18 anos, mulheres grávidas e pessoas com uma hemoglobina glicada (exame feito a partir de uma amostra de sangue) superior a 7,5%.

 

Ø  Quais são os primeiros sintomas do diabetes e outras 4 perguntas frequentes sobre a doença

 

O diabetes é uma doença crônica grave que qualquer pessoa pode ter.

Estima-se que 422 milhões de pessoas vivem com diabetes em todo o mundo, quatro vezes mais do que há 40 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O diabetes ocorre quando o corpo não consegue processar toda a glicose da corrente sanguínea.

A glicose não faz mal, pelo contrário, é o combustível para todas as células do corpo.

As complicações do diabetes podem causar ataque cardíaco, acidente vascular cerebral (AVC), cegueira, insuficiência renal e amputação de membros inferiores.

Apesar dos riscos, muitas pessoas que têm diabetes não sabem disso. Mudanças no estilo de vida podem evitar muitos casos.

No Dia Mundial do Diabetes, em 14 de novembro, a BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) apurou quais são as perguntas mais frequentes no Google sobre a doença e as respondeu com a ajuda de três especialistas.

·        1. Quais são os primeiros sintomas do diabetes? E em crianças?

Victor Montori, endocrinologista de diabetes da Clínica Mayo, nos Estados Unidos: "Normalmente, um médico avisa o paciente que ele tem diabetes tipo 2 com base nos resultados de exames laboratoriais que medem o açúcar no sangue. A maioria dos pacientes com diabetes tipo 2 não apresenta sintomas. Os sintomas são mais comuns em pacientes com diabetes tipo 1, quando os níveis permanecem muito altos por muito tempo. Pode ocorrer fadiga, sede, fome, micção excessiva, visão turva e perda de peso.”

José Agustín Mesa Pérez, endocrinologista e presidente da Associação Latino-Americana de Diabetes: “Nas crianças, o diabetes se apresenta mais frequentemente do tipo 1. Os sintomas geralmente são mais intensos e ocorrem em menor tempo: sede intensa, perda de peso, micção frequente, cansaço e sonolência."

Fabiana Vazquez, membro da Sociedade Argentina de Diabetes: “Nas últimas décadas, registramos um aumento alarmante de casos de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes, ligados ao aumento da obesidade e ao sedentarismo.”

·        2. Quando o nível de açúcar no sangue é perigoso?

Fabiana Vazquez, membro da Sociedade Argentina de Diabetes: “Com o estômago vazio, o nível normal de açúcar no sangue é de 70 a 110 miligramas por decilitro (mg/dL). Após as refeições, esses valores aumentam, mas a insulina garante que eles retornem rapidamente ao normal (geralmente em duas horas). Valores ​​maiores que 180 mg/dL mantidos por mais de 2 horas são tóxicos para as células e, se repetidos muitas vezes, podem causar danos permanentes a elas, especialmente aos rins, olhos, coração e nervos das pernas."

“No longo prazo, todo o corpo é afetado se os valores estiverem elevados. Portanto, pessoas com diabetes devem ter níveis de glicose no sangue entre 70 e 180 mg/dl na maior parte do dia."

Victor Montori, médico endocrinologista especializado em diabetes da Clínica Mayo, nos Estados Unidos: “O paciente com diabetes tipo 2 pode começar a ficar desidratado quando o nível de açúcar ultrapassa 200 mg/dL, mas pessoas sem nenhum outro problema podem manter níveis elevados de açúcar sem maiores riscos. Quando o nível está muito alto, por exemplo acima de 300 mg/dL, o risco é maior e requer atenção."

José Agustín Mesa Pérez, endocrinologista e presidente da Associação Latino-Americana de Diabetes: “Também devemos falar sobre valores mais baixos. Pessoas que têm diabetes, mesmo aquelas que apresentam alguma complicação, devem evitar ter valores de glicose abaixo de 70 mg/dl tanto em jejum quanto após a ingestão de alimentos."

·        3. Quais são as diferenças entre diabetes tipo 1 e tipo 2?

José Agustín Mesa Pérez, endocrinologista e presidente da Associação Latino-Americana de Diabetes: “Na classificação do diabetes existem quatro tipos, mas na prática ele é expresso como tipo 1 ou 2. O tipo 1 geralmente ocorre em jovens com menos de 30 anos, magros e que não têm histórico hereditário de diabetes. Normalmente, vem com sintomas agudos.”

"O diabetes tipo 2 geralmente ocorre em adultos com mais de 40 anos, normalmente relacionado ao sobrepeso ou obesidade, com circunferência da cintura abdominal acima de 80 cm nas mulheres e 90 cm nos homens. Também é associado a outros fatores de risco, como triglicerídeos elevados, pressão alta e fígado gorduroso."

Victor Montori, médico endocrinologista especializado em diabetes da Clínica Mayo, nos Estados Unidos: “No diabetes tipo 1, o uso adequado da insulina (tarefa trabalhosa e cara) oferece a esses pacientes a possibilidade de uma vida sem limitações. Nos pacientes com diabetes tipo 2, por ser mais leve, as alterações podem ser bem controladas com dieta, exercícios, controle do estresse e medicamentos (comprimidos, injeções, insulina)."

·        4. O diabetes tem cura? Pode ser evitado?

Fabiana Vazquez, membro da Sociedade Argentina de Diabetes: “O diabetes não tem cura, mas se for bem controlado, a pessoa pode levar uma vida normal. Não há como saber quem terá diabetes tipo 1, nem como evitá-lo. Por outro lado, o diabetes tipo 2 tem fatores desencadeantes muito claros. Manter um peso adequado, seguir uma alimentação saudável e balanceada e praticar exercícios físicos regularmente podem prevenir ou retardar o aparecimento do diabetes em quem tem predisposição genética."

Victor Montori, médico endocrinologista especializado em diabetes da Clínica Mayo, nos Estados Unidos: “O transplante de pâncreas é uma alternativa agressiva que resolve em muitos casos a falta de insulina no diabetes tipo 1”.

José Agustín Mesa Pérez, endocrinologista e presidente da Associação Latino-Americana de Diabetes: “Não há cura e devemos ter muito cuidado com os mentirosos e charlatões que a prometem. Mas é uma doença crônica perfeitamente controlável e, quanto mais cedo for diagnosticada e mais intenso for o trabalho para reduzir os fatores de risco, mais fácil será evitar outras complicações."

·        5. Quais alimentos causam diabetes?

José Agustín Mesa Pérez, endocrinologista e presidente da Associação Latino-Americana de Diabetes: "Nenhum. Não existem alimentos que possam desenvolver diabetes por si só. A confusão surge porque o homem pré-histórico precisava economizar energia para poder viver e ele conseguiu isso através de mecanismos de economia de insulina."

“Mas, com o passar do tempo e a grande disponibilidade de alimentos, começamos a ter problemas: o consumo do excesso de energia que começou a chegar com o desenvolvimento industrial. E não eram mais alimentos naturais, mas sim alimentos enlatados para os quais a digestão não está preparada. Começou a haver um excesso na deposição de calorias no tecido adiposo, no fígado e em outras estruturas. A consequência foi o desenvolvimento de doenças crônicas como diabetes, obesidade, câncer etc."

Fabiana Vazquez, membro da Sociedade Argentina de Diabetes: “O consumo adequado de vegetais (crus e cozidos e de diversas cores) e frutas pode ajudar a equilibrar a dieta e incorporar antioxidantes naturais que auxiliam na prevenção do diabetes”.

“Dietas ricas em gorduras, principalmente se forem de origem animal, assim como carboidratos simples (açúcares) e alimentos industrializados estão associadas à maior possibilidade de desenvolver diabetes tipo 2. O excesso de fast food e lanches é uma das causas da maior frequência com que detectamos diabetes tipo 2 em crianças."

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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