quinta-feira, 4 de abril de 2024

Delação acusa Rui Costa de fraude na compra de respiradores na Bahia, durante a pandemia

A Polícia Federal (PF) revelou indícios que relacionam o atual ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa (PT), a possíveis irregularidades em um contrato de R$ 48 milhões para a aquisição de respiradores durante a pandemia, quando ele ocupava o cargo de governador da Bahia. Rui Costa nega as acusações. A informação foi divulgada pelo UOL.

Segundo as investigações, o nome de Costa surgiu em uma delação premiada feita pela empresária responsável pelo negócio, que restituiu R$ 10 milhões aos cofres públicos e apresentou extratos bancários que indicam transferências a intermediários da transação.

O contrato em questão foi estabelecido com a empresária Cristiana Prestes Taddeo, da Hempcare, que recebeu R$ 48 milhões do governo, porém não entregou nenhum respirador. Em 2022, ela firmou um acordo de delação premiada com a vice-procuradora-geral da República na época, Lindôra Araújo. A colaboração foi homologada pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Og Fernandes, também em 2022.

Além disso, o ex-governador foi citado em depoimento à Polícia Federal por um ex-secretário de governo da Bahia, que afirmou ter fechado o negócio por ordem de Costa.

·        O que consta na delação

Para receber benefícios em seu processo, Taddeo reembolsou R$ 10 milhões aos cofres públicos e confessou uma série de irregularidades no negócio. Ela argumentou que o contrato foi redigido de forma desfavorável ao governo da Bahia, incluindo o pagamento adiantado, e também afirmou que a empresa não tinha a documentação necessária para a operação. Além disso, Taddeo alegou ter recebido informações privilegiadas para elaborar sua proposta de preço ao governo.

Na delação, Taddeo informou aos investigadores que a contratação da Hempcare foi intermediada por um empresário baiano que se apresentou como amigo próximo de Rui Costa e da então primeira-dama, Aline Peixoto. Segundo ela, esse amigo teria solicitado o pagamento de comissões pelo negócio, totalizando R$ 11 milhões.

"Achei que as tratativas para celebração do contrato com o Consórcio Nordeste ocorreram de forma muito rápida, mas entendi que eu estava sendo beneficiada porque havia combinado de pagar comissões expressivas aos intermediadores do governo", disse na delação. 

A PF e o Ministério Público Federal estão investigando se as "comissões" mencionadas poderiam ser propinas destinadas a agentes públicos. Em abril de 2022, uma operação de busca e apreensão foi realizada para aprofundar as investigações sobre o caso. Um dos alvos dessa operação foi Bruno Dauster, ex-secretário da Casa Civil, e responsável pelas negociações com a empresa. Em depoimento à PF, Dauster afirmou que as negociações tiveram a aprovação de Costa.

A Hempcare, empresa fundada para distribuir medicamentos à base de canabidiol, não tinha qualificação nem experiência prévia na importação de respiradores pulmonares, conforme admitiu sua proprietária.

·        Como teria sido feito o negócio 

Em 5 de abril de 2020, a empresária recebeu um telefonema do então secretário da Casa Civil do governo da Bahia, Bruno Dauster, demonstrando interesse em adquirir os respiradores da Hempcare.

Segundo o depoimento de Bruno Dauster à PF, foi o próprio Rui Costa quem forneceu o contato da Hempcare, com instruções para que negociasse com eles a compra dos respiradores.

A empresária informou que o próprio Dauster ressaltou nos diálogos que "dependia da autorização de Rui Costa dos Santos [governador do Estado da Bahia] para tomar as decisões".

A empresária relatou à PF que recebeu informações privilegiadas sobre o valor máximo que seria pago pelos itens. Assim, foi firmado um contrato para a compra de 300 aparelhos, ao preço de 28.900 dólares cada (aproximadamente R$ 145 mil).

O pagamento foi realizado antes da entrega dos respiradores, que não ocorreu devido à falta de disponibilidade por parte da empresa chinesa responsável pelo fornecimento. Taddeo já havia pago as comissões dos intermediários do negócio, não conseguiu reaver o dinheiro.

Em nota ao Terra, a assessoria de imprensa do advogado criminalista Leonardo Magalhães Avelar, que atende Cristiana Taddeo, informou que não pode se pronunciar sobre o caso. "A investigação tramita em segredo de justiça", diz o texto.

·        O que diz Rui Costa

Como governador, Rui Costa foi quem determinou a investigação sobre o caso – fato que sua defesa ressalta para negar seu envolvimento em possíveis irregularidades. Em nota, Costa afirmou que nunca participou de conversas ou tratativas "com nenhum preposto ou intermediário sobre a questão das compras deste e de qualquer outro equipamento de saúde".

Segundo Rui Costa, o pagamento adiantado era uma condição comum e "vigente" de mercado para a compra de respiradores no início da pandemia. 

>>> Leia a nota na íntegra:

“O ex-governador nunca tratou com nenhum preposto ou intermediário sobre a questão das compras deste e de qualquer outro equipamento de saúde. Durante a pandemia, as compras realizadas por estados e municípios no Brasil e no mundo inteiro foram feitas com pagamento antecipado. Esta era a condição vigente naquele momento. O ex-governador Rui Costa deseja que a investigação prossiga e que os responsáveis pelo desvio do dinheiro público sejam devidamente punidos e haja determinação judicial para ressarcimento do erário público”.

 

Ø  Rui Costa pagou empresa de maconha por não falar inglês, diz revista.

 

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), teria afirmado à PF (Polícia Federal) que contratou e pagou a empresa Hempcare, especializada em medicamentos à base da maconha, para o fornecimento de ventiladores pulmonares na pandemia porque não fala inglês. Na tradução livre para o português, Hemp significa maconha e Care quer dizer cuidado. As informações foram obtidas pela revista Veja, que teve acesso ao depoimento anexado ao inquérito do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

A assessoria de Rui Costa disse ao UOL que "estranha o vazamento seletivo de informações do inquérito [...] Não houve, por parte do governador, afirmação de contratação ou não pelo nome da empresa".

O UOL entrou em contato com o STJ sobre o teor do depoimento, mas a Corte informou que o inquérito está sob segredo de Justiça. Segundo Veja, a delegada federal Luciana Caires foi quem conduziu o depoimento de Rui Costa.

Ela questionou se não chamou a atenção do governador petista o fato de a empresa contratada ser especializada em vender medicamentos à base de maconha. O governador teria dito que não.

“Confesso que não, e lá tinham representantes de produtos farmacêuticos. Estava essa denominação da empresa e não me chamou a atenção, no momento, pelo nome, até porque eu não tenho pleno domínio da língua inglesa. Portanto, eu não domino.” - Governador da Bahia, Rui Costa (PT), investigado por supostos desvios na compra de ventiladores pulmonares.

Rui Costa é um dos investigados pela PF por supostos desvios de verbas públicas na compra de ventiladores pulmonares pelo Consórcio Nordeste durante o pico da pandemia de covid-19.

De acordo com a PF, o processo de aquisição de 300 equipamentos seguiu com diversas irregularidades, como o pagamento antecipado de seu valor integral, sem que houvesse no contrato qualquer garantia contra eventual inadimplência por parte da contratada. Nenhum respirador foi entregue.

·        Mais sobre o depoimento

Ainda de acordo com Veja, a delegada pergunta, no depoimento, se Rui Costa sabia sobre o pagamento antecipado. Ele nega, mas Luciana Caires lembra que o então secretário da Casa Civil, Bruno Dauster, que também é alvo da Polícia Federal, confirmou que o governador petista acompanhava de perto a questão.

"Nesse episódio, não. De pagamento ser feito antes de eu assinar o contrato? Em hipótese nenhuma", respondeu o governador.

A delegada também pergunta por que o contrato com a Hempcare não foi publicado no Portal da Transparência do Estado. "Não sei. Eu não olho todos os dias o Portal e não sei o que lançam. Isso não é função do governador".

No interrogatório, Luciana Caires cita outro investigado da operação da Polícia Federal, Cleber Isaac, que atuou como intermediário entre o governo da Bahia e a Hempcare, segundo a PF. Rui Costa nega qualquer relação: "Conheço ele como conheço milhares de outras pessoas".

Ela insiste e questiona se os dois não estariam juntos no gabinete do governador se os sinais de celulares fossem analisados. "Neste ano não. A última vez que ele teve, não lembro se no meu gabinete ou em Ondina, foi para me entregar um currículo, dizendo que estava querendo entrar no mercado de trabalho", afirmou Rui Costa.

A delegada indica que a Polícia Federal tem provas de um encontro entre Rui e Cleber Isaac. "A gente analisou um aparelho de celular de uma das pessoas investigadas e nele consta o registro de que o senhor teria se encontrado, de que ele teria se encontrado com o senhor e teria conversado com o senhor sobre a aquisição de ventiladores mecânicos nacionais".

Rui Costa responde: "É mentira. Não é verdade".

Os investigados pela PF podem responder pelos crimes de estelionato em detrimento de entidade pública, dispensa de licitação sem observância das formalidades legais e lavagem de dinheiro.

·        Governador pede conclusão da investigação

O UOL procurou a assessoria de imprensa de Rui Costa, que não confirmou nem negou a veracidade do depoimento. A assessoria enviou um vídeo de Rui Costa em que ele repete o discurso de ontem, dizendo que não tem receio da investigação.

"Que essa apuração chegue a uma conclusão e que os culpados sejam novamente presos. 'Novamente' porque eles foram denunciados, a Polícia Civil da Bahia prendeu, eles se comprometeram a devolver o dinheiro e por razões que eu desconheço o Ministério Público da Bahia opinou por soltar os criminosos. E o juiz soltou".

Rui Costa também pede que todos os contratos sejam revistos. "Se eles [oposição] querem apurar, vamos apurar tudo. Contratos feitos por prefeituras, como a de Salvador, pagaram quase o dobro do que o estado em contratos de prestação de serviço".

 

Ø  Tales: Lula deveria adotar 'lei Itamar Franco' e afastar Rui Costa

Lula deveria afastar Rui Costa após a Polícia Federal encontrar indícios que ligam o ministro-chefe da Casa Civil a irregularidades na compra de respiradores na Bahia, como o UOL revelou com exclusividade, afirmou o colunista Tales Faria no UOL News desta quarta (3).

“Está mais do que na hora de o Lula adotar a 'lei Itamar Franco'. Quando foi presidente, Itamar disse que ministro envolvido em alguma acusação de falcatrua ou irregularidade será afastado. Simples assim, e o governo fica limpo.”

“Foi o único presidente que vi fazer isso. Todos os outros protegiam. Lula tem que saber isso: todo governo tem ministro acusado. Alguns são inocentes e outros, culpados. O governo não pode ficar entregue a isso. Pintou uma acusação contra o ministro? Desculpa, Rui Costa, mas você se afasta e, se for provada sua inocência, volta. Não tem por que o governo se desgastar.” - Tales Faria, colunista do UOL

Para Tales, o governo Lula comprometeria sua imagem caso Rui Costa seja mantido no cargo mesmo após as acusações virem à tona.

“O próprio governo e o presidente correm risco de negligência se deixarem esse tipo de acusações proliferarem. Vem acusação contra o ministro das Comunicações, o da Casa Civil, e só serão afastados se for transitado em julgado, na última instância da Justiça. Aí acabou.”

“O governo passa e ninguém é punido. Não dá para ser assim. Afasta, apressa a investigação e, se for inocentado, volta. Não dá é para ficar, infelizmente. Afasta e traz o atestado de inocência para voltar ao governo.” - Tales Faria, colunista do UOL

·        O que aconteceu

O então ministro-chefe da Casa Civil Henrique Hargreaves se afastou do governo Itamar Franco após ser acusado de fazer parte de um esquema de desvio de verbas para uma ONG do Piauí. Após ser inocentado por uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), ele voltou ao cargo.

 

Fonte: Terra/UOL

 

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