Após seis meses de guerra em Gaza, Israel
enfrenta isolamento cada vez maior
Seis meses após o
início da guerra em Gaza, a morte de um grupo de trabalhadores humanitários por
um ataque aéreo israelense resumiu tanto a terrível crise humanitária quanto a
falta de uma saída clara para um conflito que está deixando Israel cada vez mais
isolado.
O ataque na noite de
segunda-feira, que matou sete funcionários do grupo de ajuda World Central
Kitchen (WCK), incluindo seis estrangeiros, irritou até mesmo alguns dos
aliados mais próximos de Israel, aumentando a crescente pressão pelo fim dos
combates.
Os militares de Israel
reconheceram que o ataque foi realizado por engano por suas forças e pediram
desculpas pelas mortes "não intencionais" dos sete, que incluíam
cidadãos de Reino Unido, Austrália e Polônia, um cidadão americano-canadense e
um palestino.
Mas isso fez pouco
para aliviar o alarme no exterior, onde a opinião pública, mesmo em países
tradicionalmente amigáveis, como Reino Unido, Alemanha ou Austrália, tem se
posicionado contra a campanha israelense em Gaza, lançada após o ataque
liderado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro.
O presidente
norte-americano, Joe Biden, que vem sofrendo pressão de seus próprios
partidários para acabar com os combates, disse que estava indignado com o
ataque ao comboio. Na quinta-feira, após uma ligação com o primeiro-ministro
israelense, Benjamin Netanyahu, a Casa Branca exigiu "medidas concretas e
mensuráveis para reduzir os danos aos civis" e disse que o futuro apoio
dos EUA seria determinado pelas ações de Israel.
MAIOR ACESSO À AJUDA
Nesta sexta-feira,
Netanyahu ordenou a reabertura da passagem de Erez para o norte de Gaza e o uso
temporário do porto de Ashdod, no sul de Israel, bem como o aumento do acesso
da ajuda jordaniana através da passagem de Kerem Shalom, no sul de Gaza.
Com Gaza em ruínas, a
maioria dos 2,3 milhões de habitantes foi forçada a deixar suas casas e agora
depende de ajuda para sobreviver, uma amarga humilhação durante o mês sagrado
do Ramadã, quando os muçulmanos de todo mundo consomem as tradicionais refeições
e sobremesas do Ramadã para quebrar o jejum após o pôr do Sol.
"Tínhamos alguma
esperança antes do Ramadã, mas essa esperança desapareceu na noite anterior ao
início do mês de jejum", disse Um Nasser Dahman, de 33 anos, que agora
vive com sua família de cinco pessoas em um acampamento na cidade de Rafah, no
sul do país, onde mais da metade da população de Gaza está abrigada.
"Estávamos bem
antes da guerra, mas nos tornamos dependentes da ajuda limitada que existe e de
nossos parentes", disse ela, por meio de mensagens.
Mesmo antes do ataque
ao comboio, Israel já estava isolado diplomaticamente, com a Assembleia Geral
da ONU pedindo repetidamente por cessar-fogo humanitário e sob forte pressão
para aumentar a distribuição de ajuda em Gaza, onde grupos de ajuda dizem que a
fome é iminente.
Embora Israel afirme
que suas forças tenham matado milhares de combatentes do Hamas e destruído a
maioria de suas unidades de combate, após meses de guerra, as tropas
israelenses ainda estão lutando contra grupos de combatentes no norte e no
centro de Gaza, em áreas que aparentemente foram liberadas nos estágios
iniciais da guerra.
Até o momento,
Netanyahu tem resistido à pressão para mudar de rumo, insistindo que o Hamas
continua sendo uma ameaça existencial para Israel que deve ser destruída antes
que a paz duradoura possa voltar.
"A vitória está
ao nosso alcance. Está muito próxima, e não há substituto para a vitória",
disse ele a uma delegação de membros republicanos do Congresso em Jerusalém na
quinta-feira, apelando por mais apoio orçamentário, horas antes da ligação com
Biden.
CICLO SE REPETE
A população israelense
continua apoiando amplamente os objetivos de guerra de destruir o Hamas e
trazer de volta 134 reféns ainda mantidos em Gaza. Mas o próprio Netanyahu
enfrenta um crescente movimento de protesto e exigências de novas eleições que,
segundo as pesquisas de opinião, ele perderia com folga.
"Tenho a firme
convicção de que todos os que estão fora de Israel pedindo um cessar-fogo não
entendem a situação aqui", disse Wendy Carol, de 73 anos, escritora e
fundadora de uma start-up de Jerusalém. "Tivemos tantas incursões e
invasões e vamos nos manter como um país democrático."
No entanto, ela
afirmou: "Não confio no primeiro-ministro. Ele é uma força divisória nesta
nação e muitas, muitas pessoas se sentem assim, de todas as origens."
Embora negociações de
paz estejam em andamento, as esperanças de um avanço que poderia garantir uma
pausa nos combates e permitir o retorno dos reféns foram repetidamente
frustradas e os líderes do Hamas dizem que podem continuar lutando por muito
mais tempo.
"Seis meses se
passaram e as Brigadas Al-Qassam ainda são capazes de manter a luta contra o
exército de ocupação sionista", disse o oficial sênior do Hamas Sami Abu
Zuhri.
A guerra foi iniciada
depois de um ataque liderado pelo Hames, no qual mais de 250 reféns foram
sequestrados e cerca de 1.200 pessoas foram mortas, segundo os registros
israelenses, na pior perda de vidas em um único dia na história de Israel. A
campanha foi a mais sangrenta de todos os tempos para os palestinos, com mais
de 33.000 mortos até agora, de acordo com as autoridades de saúde de Gaza.
"Acredito que
tudo tem um fim, a guerra vai acabar", disse Um Nasser Dahman em Gaza.
"Mas quando?"
Ø
Erros em instruções de Israel para os
palestinos criam confusão e podem violar leis internacionais
Avisos de evacuação
emitidos por Israel em Gaza, antes de ataques, continham uma série de
erros significativos, revela uma análise feita pela BBC.
Os alertas continham
informações contraditórias, eram confusos e, por vezes, erravam o nome dos
distritos.
Especialistas dizem
que tais erros podem configurar uma violação de Israel a suas obrigações
perante o direito internacional.
As Forças de Defesa de
Israel (IDF, na sigla em inglês) rejeitaram qualquer afirmação de que os avisos
são confusos ou contraditórios.
Em um comunicado, as
IDF afirmaram que os avisos analisados pela BBC eram apenas um elemento dos
seus "amplos esforços para encorajar a evacuação de civis para fora da
zona de perigo".
O Direito Humanitário
Internacional exige que as forças atacantes emitam um aviso prévio eficaz sobre
ataques que possam afetar a população civil, a menos que as circunstâncias não
permitam.
Israel diz que seu
sistema de alerta foi concebido para ajudar civis a fugir de zonas de perigo, à
medida que a guerra contra o Hamas continua. O sistema divide um mapa de Gaza
em centenas de quarteirões numerados, um modelo nunca antes utilizado pelas pessoas
em Gaza.
Israel produziu um
mapa online interativo dos quarteiros para ajudar os habitantes de Gaza a
entender em que quarteirão se encontram e se devem deixá-lo quando for emitido
um aviso de evacuação.
Esta postagem feita
pelas IDF no final de janeiro, na rede social X, mostra um QR code para o
mapa-mestre de quarteirões.
Mas as pessoas com
quem conversamos relataram dificuldades para acessar o sistema online, bem como
para entender e navegar por ele.
A BBC analisou os
canais de rede social em língua árabe das IDF no Facebook, X e Telegram, onde
encontramos centenas de postagens contendo avisos. Um mesmo aviso foi
frequentemente publicado repetidamente – às vezes com pequenas alterações – em
dias consecutivos ou em dias e canais diferentes.
Também buscamos avisos
impressos que foram fotografados e compartilhados online. As IDF afirmam ter
lançado 16 milhões desses panfletos sobre Gaza.
Focamos nossa análise
nos avisos emitidos desde 1 de dezembro, quando as FDI lançaram seu sistema de
quarteirões como forma de fornecer instruções mais precisas do que
anteriormente, após pressão internacional.
Agrupamos todas as
postagens e folhetos das IDF que encontramos após esta data em 26 tipos de
avisos diferentes. A grande maioria fez referência ao sistema de
quarteirões-mestres.
Além de avisos e
folhetos online, as IDF disseram à BBC que alertaram sobre ataques iminentes
por meio de mensagens telefônicas pré-gravadas e ligações individuais. Não é
possível fazer reportagens abrangentes e em solo em Gaza e, com a rede
telefônica gravemente danificada, a BBC não conseguiu reunir evidências da
existência das mensagens e chamadas telefônicas.
Os 26 avisos que
encontramos continham informações fornecidas pelas FDI que poderiam ser usadas
pelas pessoas para que escapassem de zonas de perigo.
Mas 17 deles também
continham erros. Esses erros incluíam:
- 12 avisos em que quarteirões ou bairros estavam listados no
texto da postagem, mas não destacados no mapa que os acompanhava;
- Nove em que as áreas foram destacadas no mapa, mas não
listadas no texto que acompanhava;
- 10 avisos em que a zona de evacuação sombreada no mapa
cortava quarteirões em dois sem que o mapa fosse detalhado o suficiente
para que fosse possível definir o limite;
- Sete em que setas que deveriam apontar no mapa para áreas
de “segurança” na verdade apontavam para áreas também sob evacuação.
Além disso, um aviso
listou bairros como estando em um distrito quando na verdade estavam em outro.
Um segundo confundiu os números dos quarteirões de dois bairros. E, num
terceiro, alguns quarteirões listados no texto estavam no lado oposto de Gaza
aos destacados no mapa anexo.
Compartilhamos esses
erros com as IDF, mas não obtivemos respostas específicas às questões
relacionadas aos mapas. Responderam apenas que o texto das mensagens tinha sido
suficientemente claro.
Sobre as setas usadas
para direcionar as pessoas para um local seguro, disseram que “é óbvio que as
setas apontam para uma direção geral”, reiterando que as principais informações
foram fornecidas no texto.
Estas imprecisões e
erros podem violar a obrigação de Israel, no Direito Internacional, de fornecer
“avisos antecipados eficazes”, afirma Janina Dill, co-diretora do Instituto de
Ética, Direito e Conflitos Armados de Oxford.
Se a maioria dos
avisos contém erros ou não são claros a ponto de a população civil não os
conseguir compreender, então, diz ela, “esses avisos não cumprem de forma
adequada a função que desempenham sob o direito humanitário internacional”.
Isso enfraquece a
função dos avisos, acrescenta Kubo Macak, professor de Direito Internacional na
Universidade de Exeter, que é “dar aos civis a oportunidade de se protegerem”.
·
'Grande discussão'
Em dezembro, Saleh, um
empresário de tecnologia da Cidade de Gaza, estava abrigado com os filhos e
sogros em Nuseirat, no centro de Gaza, onde, ele conta, não havia eletricidade,
sinal de telefone e havia longos períodos sem sinal de Internet.
Ele viu pessoas mortas
e outras fugindo de uma escola próxima enquanto ela estava sendo bombardeada,
mas disse que não recebeu qualquer orientação de evacuação das IDF.
Em um dado momento,
ele encontrou uma pessoa com um cartão SIM que permitia acessar redes de dados
no Egito e em Israel e se deparou com um aviso de evacuação em uma página do
Facebook do governo israelense.
“Houve uma ordem de
evacuação para vários quarteirões residenciais – (mas) não sabíamos em que
quarteirão vivíamos. Isso levou a uma grande discussão”, diz Salah.
O acesso de Salah à
internet era intermitente, mas ele conseguiu enviar mensagens para a esposa,
Amani, que está no Reino Unido desde pouco antes da guerra. Ela conseguiu
acessar o mapa-mestre online de quarteirões das IDF e identificar o local onde
o marido estava. Mas, olhando para o aviso de evacuação no Facebook, o casal
percebeu que o quarteirão numerado onde Salah se encontrava estava dividido em
dois – aumentando a confusão da família.
Eventualmente, Salah
decidiu ir embora com as crianças. Mas alguns integrantes da família decidiram
ficar - até os combates se agravarem ainda mais.
Quando a BBC analisou
o aviso de evacuação do Facebook que Salah tentou decifrar, encontramos mais
pontos de confusão.
Em texto, a postagem
pedia às pessoas que deixassem os quarteirões 2220, 2221, 2222, 2223, 2224 e
2225 – todos esses blocos que aparecem no mapa-mestre online das IDF.
Mas, no mapa anexo, os
seis quarteirões numerados foram agrupados num só e rotulados erroneamente como
quarteirão 2220.
Apesar dessas
inconsistências, em janeiro, Israel apresentou seu sistema de alerta de
quarteirões no Tribunal Internacional de Justiça como parte da sua defesa
contra a acusação de genocídio feita pela África do Sul.
Os advogados de Israel
argumentaram que o país estava fazendo tudo que estava a seu alcance para
proteger civis e que tinha “desenvolvido um mapa detalhado para que áreas
específicas pudessem ser evacuadas temporariamente, em vez de evacuar áreas
inteiras”.
Eles apresentaram um
aviso postado em rede social no tribunal como prova – mas a BBC encontrou dois
erros nele.
Os quarteirões 55 e 99
estavam listados no texto da postagem de 13 de dezembro, mas não estavam
sombreados no mapa.
As IDF disseram à BBC
que quando um número de quarteirão é mencionado explicitamente no texto, o
aviso é suficientemente claro.
Os advogados
israelenses também alegaram que as IDF, através da sua conta em árabe no
Twitter, forneciam informações sobre a localização de abrigos perto de áreas
que estavam sendo evacuadas. Mas em todas as postagens e folhetos que
analisamos não vimos nenhum aviso com nomes ou localizações exatas de abrigos.
A análise da BBC
também descobriu que o sistema de quarteirões das IDF foi usado de forma
inconsistente. Nove dos 26 avisos listaram uma mistura de números de
quarteirões e nomes de bairros. Outros nove não mencionaram números de
quarteirões. Apesar do link para o mapa-mestre online, eles listaram os bairros
- que muitas vezes se estendiam por muitos quarteirões numerados - por nome.
A BBC não conseguiu
encontrar uma forma de determinar os quarteirões exatos destes bairros.
A família Abdu, que
inclui 32 pessoas, também fugiu da Cidade de Gaza para o centro de Gaza no
início da guerra. E em dezembro eles receberam um folheto de aviso lançado de
um avião.
Mensagens no grupo
familiar de WhatsApp mostradas à BBC revelam a confusão. Eles discutiram
durante dois dias o significado do folheto.
Ele continha uma lista
de bairros a serem evacuados, mas a família não conseguiu localizar a maioria
dos locais.
O aviso pedia que as
pessoas deixassem "o acampamento Al-Bureij e os bairros de Badr, a Costa
Norte, al-Nuzha, al-Zahra, al-Buraq, al-Rawda e al-Safa nas áreas ao sul de
Wadi Gaza."
Localizamos um
al-Zahra e um Badr nas proximidades, mas eles ficam ao norte do leito do rio
Wadi Gaza. Não conseguimos encontrar os bairros de al-Rawda ou al-Nuzha nas
“áreas ao sul de Wadi Gaza”.
A família Abdu sofreu
para decidir o que fazer. Deveriam ficar e correr o risco de serem pegos numa
forte ofensiva terrestre - ou partir e abandonar o único abrigo que talvez
ainda fosse possível encontrar?
Alguns seguiram o que
dizia o aviso e foram para “abrigos em Deir al-Balah”. Mas quando chegaram
sentiram-se inseguros e decidiram voltar. Se fosse para morrer, morreriam juntos,
disseram-nos.
Dados de satélite
sobre a destruição em Gaza - analisados por Jamon Van Den Hoek da Oregon State
University e Corey Scher do City University New York Graduate Center - mostram
que a área de Deir al-Balah para onde a família fugiu sofreu ataques mais intensos
durante esse período do que a área que eles haviam deixado.
As IDF disseram que
verificaram “dados relativos à presença e movimento de civis que se seguiram a
esses avisos” e que eles não eram confusos ou contraditórios.
E afirmaram que os
avisos “salvaram inúmeras vidas de civis na Faixa de Gaza”.
Fonte: Reuters/BBC
News Mundo

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