sábado, 6 de abril de 2024

Após seis meses de guerra em Gaza, Israel enfrenta isolamento cada vez maior

Seis meses após o início da guerra em Gaza, a morte de um grupo de trabalhadores humanitários por um ataque aéreo israelense resumiu tanto a terrível crise humanitária quanto a falta de uma saída clara para um conflito que está deixando Israel cada vez mais isolado.

O ataque na noite de segunda-feira, que matou sete funcionários do grupo de ajuda World Central Kitchen (WCK), incluindo seis estrangeiros, irritou até mesmo alguns dos aliados mais próximos de Israel, aumentando a crescente pressão pelo fim dos combates.

Os militares de Israel reconheceram que o ataque foi realizado por engano por suas forças e pediram desculpas pelas mortes "não intencionais" dos sete, que incluíam cidadãos de Reino Unido, Austrália e Polônia, um cidadão americano-canadense e um palestino.

Mas isso fez pouco para aliviar o alarme no exterior, onde a opinião pública, mesmo em países tradicionalmente amigáveis, como Reino Unido, Alemanha ou Austrália, tem se posicionado contra a campanha israelense em Gaza, lançada após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro.

O presidente norte-americano, Joe Biden, que vem sofrendo pressão de seus próprios partidários para acabar com os combates, disse que estava indignado com o ataque ao comboio. Na quinta-feira, após uma ligação com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a Casa Branca exigiu "medidas concretas e mensuráveis para reduzir os danos aos civis" e disse que o futuro apoio dos EUA seria determinado pelas ações de Israel.

MAIOR ACESSO À AJUDA

Nesta sexta-feira, Netanyahu ordenou a reabertura da passagem de Erez para o norte de Gaza e o uso temporário do porto de Ashdod, no sul de Israel, bem como o aumento do acesso da ajuda jordaniana através da passagem de Kerem Shalom, no sul de Gaza.

Com Gaza em ruínas, a maioria dos 2,3 milhões de habitantes foi forçada a deixar suas casas e agora depende de ajuda para sobreviver, uma amarga humilhação durante o mês sagrado do Ramadã, quando os muçulmanos de todo mundo consomem as tradicionais refeições e sobremesas do Ramadã para quebrar o jejum após o pôr do Sol.

"Tínhamos alguma esperança antes do Ramadã, mas essa esperança desapareceu na noite anterior ao início do mês de jejum", disse Um Nasser Dahman, de 33 anos, que agora vive com sua família de cinco pessoas em um acampamento na cidade de Rafah, no sul do país, onde mais da metade da população de Gaza está abrigada.

"Estávamos bem antes da guerra, mas nos tornamos dependentes da ajuda limitada que existe e de nossos parentes", disse ela, por meio de mensagens.

Mesmo antes do ataque ao comboio, Israel já estava isolado diplomaticamente, com a Assembleia Geral da ONU pedindo repetidamente por cessar-fogo humanitário e sob forte pressão para aumentar a distribuição de ajuda em Gaza, onde grupos de ajuda dizem que a fome é iminente.

Embora Israel afirme que suas forças tenham matado milhares de combatentes do Hamas e destruído a maioria de suas unidades de combate, após meses de guerra, as tropas israelenses ainda estão lutando contra grupos de combatentes no norte e no centro de Gaza, em áreas que aparentemente foram liberadas nos estágios iniciais da guerra.

Até o momento, Netanyahu tem resistido à pressão para mudar de rumo, insistindo que o Hamas continua sendo uma ameaça existencial para Israel que deve ser destruída antes que a paz duradoura possa voltar.

"A vitória está ao nosso alcance. Está muito próxima, e não há substituto para a vitória", disse ele a uma delegação de membros republicanos do Congresso em Jerusalém na quinta-feira, apelando por mais apoio orçamentário, horas antes da ligação com Biden.

CICLO SE REPETE

A população israelense continua apoiando amplamente os objetivos de guerra de destruir o Hamas e trazer de volta 134 reféns ainda mantidos em Gaza. Mas o próprio Netanyahu enfrenta um crescente movimento de protesto e exigências de novas eleições que, segundo as pesquisas de opinião, ele perderia com folga.

"Tenho a firme convicção de que todos os que estão fora de Israel pedindo um cessar-fogo não entendem a situação aqui", disse Wendy Carol, de 73 anos, escritora e fundadora de uma start-up de Jerusalém. "Tivemos tantas incursões e invasões e vamos nos manter como um país democrático."

No entanto, ela afirmou: "Não confio no primeiro-ministro. Ele é uma força divisória nesta nação e muitas, muitas pessoas se sentem assim, de todas as origens."

Embora negociações de paz estejam em andamento, as esperanças de um avanço que poderia garantir uma pausa nos combates e permitir o retorno dos reféns foram repetidamente frustradas e os líderes do Hamas dizem que podem continuar lutando por muito mais tempo.

"Seis meses se passaram e as Brigadas Al-Qassam ainda são capazes de manter a luta contra o exército de ocupação sionista", disse o oficial sênior do Hamas Sami Abu Zuhri.

A guerra foi iniciada depois de um ataque liderado pelo Hames, no qual mais de 250 reféns foram sequestrados e cerca de 1.200 pessoas foram mortas, segundo os registros israelenses, na pior perda de vidas em um único dia na história de Israel. A campanha foi a mais sangrenta de todos os tempos para os palestinos, com mais de 33.000 mortos até agora, de acordo com as autoridades de saúde de Gaza.

"Acredito que tudo tem um fim, a guerra vai acabar", disse Um Nasser Dahman em Gaza. "Mas quando?"

 

Ø  Erros em instruções de Israel para os palestinos criam confusão e podem violar leis internacionais

 

Avisos de evacuação emitidos por Israel em Gaza, antes de ataques, continham uma série de erros significativos, revela uma análise feita pela BBC.

Os alertas continham informações contraditórias, eram confusos e, por vezes, erravam o nome dos distritos.

Especialistas dizem que tais erros podem configurar uma violação de Israel a suas obrigações perante o direito internacional.

As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) rejeitaram qualquer afirmação de que os avisos são confusos ou contraditórios.

Em um comunicado, as IDF afirmaram que os avisos analisados pela BBC eram apenas um elemento dos seus "amplos esforços para encorajar a evacuação de civis para fora da zona de perigo".

O Direito Humanitário Internacional exige que as forças atacantes emitam um aviso prévio eficaz sobre ataques que possam afetar a população civil, a menos que as circunstâncias não permitam.

Israel diz que seu sistema de alerta foi concebido para ajudar civis a fugir de zonas de perigo, à medida que a guerra contra o Hamas continua. O sistema divide um mapa de Gaza em centenas de quarteirões numerados, um modelo nunca antes utilizado pelas pessoas em Gaza.

Israel produziu um mapa online interativo dos quarteiros para ajudar os habitantes de Gaza a entender em que quarteirão se encontram e se devem deixá-lo quando for emitido um aviso de evacuação.

Esta postagem feita pelas IDF no final de janeiro, na rede social X, mostra um QR code para o mapa-mestre de quarteirões.

Mas as pessoas com quem conversamos relataram dificuldades para acessar o sistema online, bem como para entender e navegar por ele.

A BBC analisou os canais de rede social em língua árabe das IDF no Facebook, X e Telegram, onde encontramos centenas de postagens contendo avisos. Um mesmo aviso foi frequentemente publicado repetidamente – às vezes com pequenas alterações – em dias consecutivos ou em dias e canais diferentes.

Também buscamos avisos impressos que foram fotografados e compartilhados online. As IDF afirmam ter lançado 16 milhões desses panfletos sobre Gaza.

Focamos nossa análise nos avisos emitidos desde 1 de dezembro, quando as FDI lançaram seu sistema de quarteirões como forma de fornecer instruções mais precisas do que anteriormente, após pressão internacional.

Agrupamos todas as postagens e folhetos das IDF que encontramos após esta data em 26 tipos de avisos diferentes. A grande maioria fez referência ao sistema de quarteirões-mestres.

Além de avisos e folhetos online, as IDF disseram à BBC que alertaram sobre ataques iminentes por meio de mensagens telefônicas pré-gravadas e ligações individuais. Não é possível fazer reportagens abrangentes e em solo em Gaza e, com a rede telefônica gravemente danificada, a BBC não conseguiu reunir evidências da existência das mensagens e chamadas telefônicas.

Os 26 avisos que encontramos continham informações fornecidas pelas FDI que poderiam ser usadas pelas pessoas para que escapassem de zonas de perigo.

Mas 17 deles também continham erros. Esses erros incluíam:

  • 12 avisos em que quarteirões ou bairros estavam listados no texto da postagem, mas não destacados no mapa que os acompanhava;
  • Nove em que as áreas foram destacadas no mapa, mas não listadas no texto que acompanhava;
  • 10 avisos em que a zona de evacuação sombreada no mapa cortava quarteirões em dois sem que o mapa fosse detalhado o suficiente para que fosse possível definir o limite;
  • Sete em que setas que deveriam apontar no mapa para áreas de “segurança” na verdade apontavam para áreas também sob evacuação.

Além disso, um aviso listou bairros como estando em um distrito quando na verdade estavam em outro. Um segundo confundiu os números dos quarteirões de dois bairros. E, num terceiro, alguns quarteirões listados no texto estavam no lado oposto de Gaza aos destacados no mapa anexo.

Compartilhamos esses erros com as IDF, mas não obtivemos respostas específicas às questões relacionadas aos mapas. Responderam apenas que o texto das mensagens tinha sido suficientemente claro.

Sobre as setas usadas para direcionar as pessoas para um local seguro, disseram que “é óbvio que as setas apontam para uma direção geral”, reiterando que as principais informações foram fornecidas no texto.

Estas imprecisões e erros podem violar a obrigação de Israel, no Direito Internacional, de fornecer “avisos antecipados eficazes”, afirma Janina Dill, co-diretora do Instituto de Ética, Direito e Conflitos Armados de Oxford.

Se a maioria dos avisos contém erros ou não são claros a ponto de a população civil não os conseguir compreender, então, diz ela, “esses avisos não cumprem de forma adequada a função que desempenham sob o direito humanitário internacional”.

Isso enfraquece a função dos avisos, acrescenta Kubo Macak, professor de Direito Internacional na Universidade de Exeter, que é “dar aos civis a oportunidade de se protegerem”.

·        'Grande discussão'

Em dezembro, Saleh, um empresário de tecnologia da Cidade de Gaza, estava abrigado com os filhos e sogros em Nuseirat, no centro de Gaza, onde, ele conta, não havia eletricidade, sinal de telefone e havia longos períodos sem sinal de Internet.

Ele viu pessoas mortas e outras fugindo de uma escola próxima enquanto ela estava sendo bombardeada, mas disse que não recebeu qualquer orientação de evacuação das IDF.

Em um dado momento, ele encontrou uma pessoa com um cartão SIM que permitia acessar redes de dados no Egito e em Israel e se deparou com um aviso de evacuação em uma página do Facebook do governo israelense.

“Houve uma ordem de evacuação para vários quarteirões residenciais – (mas) não sabíamos em que quarteirão vivíamos. Isso levou a uma grande discussão”, diz Salah.

O acesso de Salah à internet era intermitente, mas ele conseguiu enviar mensagens para a esposa, Amani, que está no Reino Unido desde pouco antes da guerra. Ela conseguiu acessar o mapa-mestre online de quarteirões das IDF e identificar o local onde o marido estava. Mas, olhando para o aviso de evacuação no Facebook, o casal percebeu que o quarteirão numerado onde Salah se encontrava estava dividido em dois – aumentando a confusão da família.

Eventualmente, Salah decidiu ir embora com as crianças. Mas alguns integrantes da família decidiram ficar - até os combates se agravarem ainda mais.

Quando a BBC analisou o aviso de evacuação do Facebook que Salah tentou decifrar, encontramos mais pontos de confusão.

Em texto, a postagem pedia às pessoas que deixassem os quarteirões 2220, 2221, 2222, 2223, 2224 e 2225 – todos esses blocos que aparecem no mapa-mestre online das IDF.

Mas, no mapa anexo, os seis quarteirões numerados foram agrupados num só e rotulados erroneamente como quarteirão 2220.

Apesar dessas inconsistências, em janeiro, Israel apresentou seu sistema de alerta de quarteirões no Tribunal Internacional de Justiça como parte da sua defesa contra a acusação de genocídio feita pela África do Sul.

Os advogados de Israel argumentaram que o país estava fazendo tudo que estava a seu alcance para proteger civis e que tinha “desenvolvido um mapa detalhado para que áreas específicas pudessem ser evacuadas temporariamente, em vez de evacuar áreas inteiras”.

Eles apresentaram um aviso postado em rede social no tribunal como prova – mas a BBC encontrou dois erros nele.

Os quarteirões 55 e 99 estavam listados no texto da postagem de 13 de dezembro, mas não estavam sombreados no mapa.

As IDF disseram à BBC que quando um número de quarteirão é mencionado explicitamente no texto, o aviso é suficientemente claro.

Os advogados israelenses também alegaram que as IDF, através da sua conta em árabe no Twitter, forneciam informações sobre a localização de abrigos perto de áreas que estavam sendo evacuadas. Mas em todas as postagens e folhetos que analisamos não vimos nenhum aviso com nomes ou localizações exatas de abrigos.

A análise da BBC também descobriu que o sistema de quarteirões das IDF foi usado de forma inconsistente. Nove dos 26 avisos listaram uma mistura de números de quarteirões e nomes de bairros. Outros nove não mencionaram números de quarteirões. Apesar do link para o mapa-mestre online, eles listaram os bairros - que muitas vezes se estendiam por muitos quarteirões numerados - por nome.

A BBC não conseguiu encontrar uma forma de determinar os quarteirões exatos destes bairros.

A família Abdu, que inclui 32 pessoas, também fugiu da Cidade de Gaza para o centro de Gaza no início da guerra. E em dezembro eles receberam um folheto de aviso lançado de um avião.

Mensagens no grupo familiar de WhatsApp mostradas à BBC revelam a confusão. Eles discutiram durante dois dias o significado do folheto.

Ele continha uma lista de bairros a serem evacuados, mas a família não conseguiu localizar a maioria dos locais.

O aviso pedia que as pessoas deixassem "o acampamento Al-Bureij e os bairros de Badr, a Costa Norte, al-Nuzha, al-Zahra, al-Buraq, al-Rawda e al-Safa nas áreas ao sul de Wadi Gaza."

Localizamos um al-Zahra e um Badr nas proximidades, mas eles ficam ao norte do leito do rio Wadi Gaza. Não conseguimos encontrar os bairros de al-Rawda ou al-Nuzha nas “áreas ao sul de Wadi Gaza”.

A família Abdu sofreu para decidir o que fazer. Deveriam ficar e correr o risco de serem pegos numa forte ofensiva terrestre - ou partir e abandonar o único abrigo que talvez ainda fosse possível encontrar?

Alguns seguiram o que dizia o aviso e foram para “abrigos em Deir al-Balah”. Mas quando chegaram sentiram-se inseguros e decidiram voltar. Se fosse para morrer, morreriam juntos, disseram-nos.

Dados de satélite sobre a destruição em Gaza - analisados por Jamon Van Den Hoek da Oregon State University e Corey Scher do City University New York Graduate Center - mostram que a área de Deir al-Balah para onde a família fugiu sofreu ataques mais intensos durante esse período do que a área que eles haviam deixado.

As IDF disseram que verificaram “dados relativos à presença e movimento de civis que se seguiram a esses avisos” e que eles não eram confusos ou contraditórios.

E afirmaram que os avisos “salvaram inúmeras vidas de civis na Faixa de Gaza”.

 

Fonte: Reuters/BBC News Mundo

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