A ciência entre conhecimento e ignorância
Diante de tantas
incertezas e dificuldades causadas pelas mais diversas aplicações tecnológicas,
podemos confiar nas ciências? Qual o sentido dessa confiança? Essa questão tem,
logo de início, dois determinantes importantes. Em primeiro lugar, ao levantar
a questão da confiança remete a uma relação subjetiva de crença no
caráter benéfico das ciências; em segundo lugar, o plural “ciências” remete à
diversidade das disciplinas, subdisciplinas e mesmo especialidades (muitas
vezes, mais técnicas do que propriamente científicas) e envolve a questão do
relativismo, isto é, da verdade parcial, coletiva ou localizada, das ciências e
das técnicas. Entretanto, reformulada no plano filosófico universal, a questão
da confiança na ciência (agora no singular universal) envolve o confronto entre
conhecimento e ignorância: entre o conhecimento científico concebido (no plano
epistemológico) como crença verdadeira justificada e a mera
crença (que desconhece a justificação ou as razões para acreditar).
Com efeito, esse
confronto entre conhecimento e ignorância se encontra no ato fundador da
ciência moderna com a afirmação da centralidade do Sol e do movimento da Terra
(ou, o que é o mesmo, a afirmação de seu caráter planetário) em oposição à
observação direta (ingênua) dos movimentos celestes, que continua ainda hoje
observando o Sol nascer a oriente (leste) e pôr-se a ocidente (oeste) e a ter a
impressão de que a Terra está parada no centro desses movimentos. O caso
Galileu – de sua condenação pela Inquisição –, em sua reatualização histórica,
continua a expressar o conflito original entre a ciência (a razão) e a religião
(fé), mas em nova chave: a ciência e a razão investem contra a religião e a fé,
esquadrinhadas estas últimas como fontes de superstição, ignorância e
intolerância, enquanto a religião visa a desqualificação moral da ciência. Mas
essa independência (autonomia relativa) da ciência com relação à religião será,
na continuidade do desenvolvimento histórico da modernidade, constantemente confrontada
pelas ingerências da política e da economia. Em grande parte, esses conflitos
em torno da autonomia ou da liberdade de pesquisa científica – presentes
contemporaneamente na negação da ciência, no terraplanismo, no criacionismo,
nos movimentos antivacinas, na negação das mudanças climáticas ou do
aquecimento global etc. – movem-se tendo como fundo uma oposição entre fatos e
mitos, uma oposição entre o conhecimento entendido como crença verdadeira
justificada e a religião ou a política como meras crenças e ignorantes das
razões que justificam ou legitimam a adoção de suas posições, bem como das
razões que lhe são contrárias. Abandonado o terreno da justificação e da
crítica, próprio da ciência, a religião e a política retornam, em grande
medida, ao terreno do mitológico. O mito tem essa capacidade de cegar a razão,
de anular sua capacidade de reflexão e de argumentação com base nos melhores
dados disponíveis e a partir de premissas criticamente avaliadas; o mito
enrijece o juízo, torna-o dogmaticamente ignorante e moralmente intolerante.
Desde a Antiguidade
clássica grega, no próprio surgimento da racionalidade ocidental, a demanda de
conhecimento esteve ligada à tentativa de diminuir ou mesmo eliminar a
ignorância, muito embora, entre os sofistas, a pretensão de saber, ou a
arrogância de tudo saber ou de poder discorrer sobre tudo, acabasse mais por
aprofundar a ignorância do que alcançar o conhecimento. Muito particularmente,
o reconhecimento da ignorância – da própria ignorância e de que há muitas
coisas importantes ou relevantes que não se sabe, consignada no célebre
reconhecimento socrático de que “só sabia não saber” – e a invenção da
dialética como “método” da inquirição crítica – o método de criticar
racionalmente – de proceder por meio da contraposição dialética das opiniões –
das concepções, das ideias e das teorias com o objetivo de delimitar claramente
o que se conhece do que se desconhece – serviu para constituir, no devido
tempo, a ciência ocidental, nesse impulso de conhecimento racional
presente na astronomia, na geometria e na medicina dos gregos. Não interessa
aqui propriamente o conteúdo dessas ciências inaugurais, mas a marca que torna
diferente a atividade intelectual daqueles que construíram esse conhecimento
colossal de observações e a façanha de sistematizar (pôr em certa ordem de
importância discursiva e argumentativa) esse conhecimento em vista da prática dessa
mesma atividade. Ou seja, a constituição dessas ciências inaugurais é o
resultado de uma operação reflexiva (de conceitualização) que
só pode ser realizada pela razão e que congrega os conjuntos observacionais
astronômicos, geométricos e médicos em conceitos e categorias.
A maior parte do
esforço filosófico de entendimento da ciência – principalmente a partir dos
séculos XVI e XVII com o surgimento da ciência moderna e a origem de sua
aplicação à técnica; dos séculos XVIII e XIX com a consolidação da ciência
moderna e o avanço da tecnologia industrial; e mesmo do século XX com a
efetivação do controle técnico do mundo prometido pela ciência moderna desde
suas origens – concentrou-se nos aspectos positivos do avanço do conhecimento,
nas condições epistemológicas, estrutura lógica e função explicativa da
ciência, supondo que como a ignorância era o que se devia eliminar, sua função
negativa (de não conhecimento ou mesmo de contra
conhecimento) não carecia de entendimento ou explicação, bastava que fosse
remetida, de um modo ou de outro, para a esfera do incognoscível, ou mesmo,
quando era evidente a arbitrariedade a que dava lugar, para a esfera do
irracional. A ignorância, do ponto de vista da ciência racionalmente
constituída, é o que se deve combater e procurar erradicar e não o que se deve
compreender e explicar.
Mas seria possível
erradicar totalmente a ignorância? Não seria a ignorância a expressão
apropriada dos limites do conhecimento que devem ser reconhecidos pela crítica?
Não são esses mesmos limites que se deve reconhecer para que a ciência avance
sobre aquilo que até então se desconhece? Pascal, em uma passagem dos Pensamentos,
desenvolve uma metáfora pela qual caracteriza as ciências (o conhecimento
racional) como uma esfera que cresce a partir da finitude humana em direção ao
infinitamente grande e ao infinitamente pequeno. Por mais que essa esfera de
conhecimento finito cresça, sempre teremos ainda uma infinita ignorância do
grande e do pequeno (cf. Pascal, 1963, XV, p. 525-8). Uma metáfora semelhante é
formulada por Herbert Spencer em seu First principles. Ele concebe
o conhecimento científico como uma esfera que cresce mergulhada em um oceano de
ignorância (Spencer, 1996, p. 16 ss.). Há duas interpretações possíveis dessa
metáfora que se liga, como veremos a seguir, à concepção de Simmel dos efeitos
do avanço da tecnologia ou da cultura objetiva material para a cultura
subjetiva simbólica (cf. Mittelstrass, 2007, p. 4). Dessas duas interpretações,
uma é pessimista e a outra otimista. Na interpretação pessimista, o
conhecimento científico cresce linearmente segundo o diâmetro da esfera e,
portanto, cresce menos que a superfície da esfera (que está em contato com a
ignorância), de modo que a ignorância sempre cresce mais do que o conhecimento.
Na interpretação otimista, o conhecimento científico cresce segundo o volume e,
consequentemente, cresce mais do que a superfície da esfera em contato com a
ignorância. Entretanto, em qualquer uma das duas interpretações, há um
crescimento da ignorância: maior do que o crescimento do conhecimento, no caso
da interpretação pessimista; menor do que o crescimento do conhecimento, na
interpretação otimista. Ainda assim, em qualquer caso, a ignorância parece não
poder ser totalmente erradicada.
No início do século
XX, Georg Simmel introduz uma diferença entre conhecimento (Wissen)
e não conhecimento (Nichtwissen), que serve de base para que ele
estabeleça a relação entre a cultura objetiva e a cultura subjetiva (cf.
Simmel, 2020). Cabe considerar, inicialmente, que o conceito de não
conhecimento difere dos conceitos de ignorância e de incerteza. O não
conhecimento “é visto como o reverso ‘natural’ do conhecimento” (Gross, 2012,
p. 423). O conhecimento é incorporado à cultura objetiva material (por meio de
máquinas e processos) e é o duplo do não conhecimento da cultura subjetiva – ou
seja, os usos, alvos, fins e sentidos (significados e significações) dados aos
objetos da cultura objetiva.
Portanto, para Simmel,
o não conhecimento está ligado ao avanço da cultura material ou objetiva, de
modo que as máquinas e instrumentos da cultura objetiva acarretam um aumento do
não conhecimento na cultura subjetiva. O ajuste entre o conhecimento e o não
conhecimento é propiciado por uma relação de confiança entre a
cultura subjetiva e a cultura objetiva. Aqueles que expressam não conhecer os
aspectos relevantes do funcionamento do instrumento técnico, que, entretanto,
utilizam sem maiores dificuldades, expressam uma confiança no conhecimento
daquilo que desconhecem por parte da cultura objetiva e de seus produtos. Em
geral, é a confiabilidade do uso e funcionalidade do objeto material que é
responsável por sua incorporação na cultura subjetiva.
Percebe-se aqui já uma
resposta a nossa interrogação inicial. Na verdade, não se trata somente de
poder confiar na ciência, mas a confiança é determinante (para
não dizer necessária) para o funcionamento da sociedade/cultura em sociedades
científico-tecnológicas como as nossas. Origina-se aqui a concepção de que o
avanço da cultura objetiva (Simmel) ou da civilização material (Braudel), mais
do que promover o conhecimento em geral conduz ao avanço do não conhecimento e,
mais recentemente – ou seja, no último quarto do século XX e duas primeiras
décadas do século XXI – até mesmo à produção intensificada da
ignorância. Produtos e dispositivos da cultura objetiva, principalmente
aqueles que incorporam múltiplas funcionalidades, podem servir para aumentar
significativamente a esfera da ignorância – por exemplo, por meio da circulação
massiva de desinformação – ou, de modo mais constitutivo antropologicamente,
para a diminuição ativa de habilidades racionais básicas dos seres humanos.
Isso conduziu a
sugerir que a maneira de manter a confiança nas ciências faz com que os
cientistas tenham que lutar incessantemente contra as fontes políticas e
econômicas de produção da ignorância, de modo que é preciso estar mais atento
às condições epistêmicas e sociais da ignorância. Isso conduziu à proposta,
como complementar à epistemologia e à filosofia da ciência, de uma nova
disciplina, a agnotologia, que se dedicaria ao estudo das condições
epistêmicas e sociais da produção da ignorância. Também a sociologia acabou
propondo, de certo modo, como complementar à sociologia da ciência, a
sociologia da ignorância. Essas duas novas “disciplinas” permitem então, não só
analisar a ignorância constitutiva do conhecimento, envolvida na dúvida genuína
com relação aos resultados da ciência, dúvida promovida pelo ceticismo
organizado (na acepção de Merton) da ciência, mas analisar também outras formas
de ignorância vinculadas ao avanço da ciência e da técnica: o não conhecimento
vinculado às funcionalidades dos dispositivos técnicos e a ignorância fabricada
acerca das consequências (nocivas, maléficas) e dos riscos de aplicações
tecnológicas em grande escala para a saúde humana e para o ambiente.
Como já afirmado, o
conhecimento pressupõe o reconhecimento de que não se sabe algo que vale a pena
ser investigado. Há, assim, a “ignorância especificada” de Robert Merton que
corresponde ao fato de que há (ou deveria haver) algum conhecimento acerca do
desconhecido, acerca do que se desconhece, ou seja, uma concepção que abarcasse
certa consciência do que não se conhece (ou do que se ignora) (Merton, 1987, p.
1). O não conhecimento, neste caso, corresponde a um reconhecimento do que não
se conhece e, nesse sentido, corresponde ao que Hermínio Martins denomina de
“ignorância genuína” (Martins, 2012, p. 73).
A ignorância
genuína vincula-se então intimamente ao avanço do conhecimento e ao
crescimento de nosso poder tecnológico sobre a natureza; ela cresce intimamente
imbricada com ele, pois “para além das probabilidades calculáveis, com mais ou
menos confiabilidade, sobre projetos tecnológicos de toda espécie (…) as
incertezas são inelimináveis, não só devido a nossa ignorância dos mecanismos
causais, mas porque nenhum grau de conhecimento poderá eliminar as incertezas
que decorrem das interações entre os nossos sistemas sociotécnicos e a
biosfera” (Martins, 2012, p. 73), de modo que “‘a explosão do conhecimento’ vai
sendo acompanhada por uma ‘explosão de ignorância’ e de certo modo como causa e
efeito, não só na proliferação de questões em aberto (…), mas como
obsolescência do conhecimento profissional” (Martins, 2012, p. 73-4), em
decorrência, pode-se acrescentar, dos algoritmos de aprendizado de máquina e do
avanço da automação que lhe está ligado.
Mas, além disso, o
avanço da tecnociência, em particular, das tecnologias de informação e
comunicação, permitiu a ampla difusão de outro tipo de ignorância: a ignorância
fabricada ou, na acepção de Martins, a “ignorância manufaturada”, que se revela
primeiramente na própria condução da pesquisa científica, de modo que
existem
nas economias de mercado, em democracias consolidadas, campanhas de produção de
ignorância (a ignorância manufaturada, a incerteza manufaturada), de dúvidas,
de incertezas acerca de teses bem fundamentadas, com argumentos espúrios,
distorções de resultados, dados de pesquisas mal conduzidas, apresentação de
experts como testemunhas em tribunais para levantar dúvidas sobre resultados
sólidos de investigações científicas (Martins, 2012, p. 73, nota 18).
São exemplos dessas
campanhas produtoras de ignorância o caso das indústrias do tabaco contra os
resultados das pesquisas científicas que apontavam para os malefícios à saúde
do hábito de fumar, causador de câncer dos pulmões, ou o caso bem mais recente e
atualmente corrente das indústrias petrolíferas contra o aquecimento global
climático e, em especial, sobre o papel antropogênico – representado pela
queima de combustíveis fósseis – no aquecimento global. Mas, se em um primeiro
momento a ignorância fabricada se limitou à esfera da pesquisa científica
voltada para a questão dos riscos da tecnologia e da regulação de aplicações
tecnológicas de alto impacto ambiental, tal como a emissão de gases estufa ou o
cultivo de monoculturas transgênicas ligadas ao avanço da biotecnologia
genética, no século XXI, ela se expandiu para além dos interesses econômicos
que inicialmente a mobilizaram, atingindo também as ideologias políticas e
afetando, com o avanço das tecnologias de informação e comunicação e dos
processos de automação da inteligência artificial (IA), de modo profundo o
próprio cerne da cultura subjetiva, significativamente a política e as práticas
políticas, nas quais as campanhas de desinformação e de difamação conduziram ao
abalo da confiança necessária à comunicação e à discussão crítica das posições
contrárias.
As breves
considerações feitas até aqui parecem suficientes para revelar que a maneira de
manter a confiança nas ciências envolve uma luta incessante e renovada contra
as premissas religiosas, políticas e econômicas, da produção de ignorância;
essa luta envolve uma defesa da autonomia do juízo científico sobre a verdade
(ou probabilidade) das teorias, hipóteses e concepções científicas com vistas
ao conhecimento objetivo (certificado intersubjetivamente) dos nexos causais
dos processos naturais, em oposição a juízos que relativizam essa verdade (ou
probabilidade) em função dos interesses políticos e econômicos. A negação
deliberada do conhecimento não é uma questão só epistemológica ou agnotológica,
mas é antes uma questão ética/moral que envolve a esfera da legitimidade e,
consequentemente, da justiça.
Fonte: Por Pablo Rubén
Mariconda, em Outras Palavras

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