Famílias
que perderam filhos por suicídio e overdose e agora processam redes sociais
A adolescente
americana Morgan Pieper estava prestes a completar 12 anos de idade quando
começou a usar redes sociais.
"Ela tinha uma
conta no Facebook. Acho que, no início,
seu uso era bem limitado", diz sua mãe, Kristina Cahak, à BBC News Brasil.
Ao longo dos três anos
seguintes, porém, Kristina conta que a filha ficou cada vez mais
"viciada", abrindo múltiplas contas em redes como Instagram e Snapchat
usando nomes falsos, sem que a família soubesse.
"Afetava seu
sono. Às vezes, eu acordava às 3h da manhã e via luz em seu quarto",
lembra Kristina, que começou a perceber que a filha andava melancólica.
Quando, por volta dos
13 anos de idade, Morgan passou a se automutilar com cortes na
pele, Kristina levou a filha a um psicólogo, que disse que aquilo seria apenas
uma fase. "E realmente melhorou, ela parou", afirma.
No entanto, Morgan
continuava vendo e postando material sobre depressão, automutilação e suicídio
em várias contas abertas com identidades falsas que Kristina sequer desconfiava
que existiam.
A família só descobriu
essa vida digital paralela de Morgan quando ela se suicidou, em 2015, aos 15 anos
de idade.
Morgan era a mais nova
de três irmãos. "Ela era o meu bebê", diz sua mãe.
"Era muito
inteligente, sensível, engraçada, carismática. Um dos seres humanos mais
incríveis que já conheci."
Kristina suspeitava
que a filha pudesse estar deprimida, mas nunca imaginou que tivesse pensamentos
suicidas.
"Sou enfermeira
há quase 30 anos, trabalhei com saúde mental. Essa é a ironia da
minha história, eu não vi os sinais enquanto ela ainda estava conosco",
diz.
Kristina é uma das
centenas de mães e pais dos Estados Unidos que estão processando empresas donas
de redes sociais por supostos "danos físicos, mentais ou emocionais"
sofridos por crianças e adolescentes ao usar essas plataformas.
Ela move uma ação
contra a Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, e a Snap, dona do
Snapchat.
Processos de outras
famílias também têm como alvo o Google, que administra o YouTube, e a
ByteDance, que cuida do TikTok.
As ações alegam que a
"crise de saúde mental sem precedentes entre as crianças" é
alimentada pelos produtos "defeituosos", "viciantes" e
"perigosos" dessas empresas.
O objetivo é que as
empresas suspendam práticas apontadas como prejudiciais e, em muitos casos,
envolvem pedidos de indenizações.
As empresas rejeitam
as alegações e afirmam que estão constantemente implementando e atualizando
ferramentas e recursos para proteger crianças e adolescentes em suas
plataformas.
Mas os autores das
ações dizem que as medidas são insuficientes e mal fiscalizadas.
Há uma grande
preocupação com o tema no país, diante de altas taxas de ansiedade e depressão
entre jovens.
No ano passado, o
porta-voz do governo para saúde pública alertou que embora as redes possam ter
benefícios, também podem representar riscos à saúde mental dos jovens.
As pesquisas não
oferecem evidências conclusivas, e a própria Associação Americana de Psicologia
afirma que "o uso de redes sociais não é inerentemente benéfico ou
prejudicial para os jovens".
De acordo com a
associação, são necessários mais estudos sobre efeitos positivos e negativos
destes serviços.
·
O que dizem as
famílias
Algumas ações são
movidas pelos próprios jovens usuários, outras por seus familiares.
Em vários dos casos,
centenas de processos individuais foram consolidados em ações coletivas em
tribunais federais e estaduais.
Há casos de crianças
que tiraram a própria vida depois de sofrer bullying nas redes
ou ver posts que normalizam e encorajam o suicídio.
Outras morreram após
"desafios" online, entre eles um jogo que envolve asfixia, ou por
overdoses de drogas supostamente obtidas por meio das plataformas.
Nem todos os casos
envolvem mortes. Algumas crianças foram vítimas de predadores sexuais, outras
enfrentam problemas como distúrbios alimentares, depressão e ansiedade.
"As principais
alegações são de que as plataformas foram projetadas para serem viciantes para crianças", diz o advogado Matthew Bergman,
fundador do Social Media Victims Law Center (Centro Jurídico para Vítimas de
Mídias Sociais), que representa 2,5 mil clientes em processos do tipo.
As ações argumentam
que as empresas expõem conscientemente crianças e adolescentes a conteúdos e
produtos prejudiciais.
Também afirmam que a
dependência que as redes causam não ocorre por acaso, e sim de forma
intencional, já que foram projetadas para um "uso compulsivo e
excessivo".
"Inspiradas em
técnicas comportamentais e neurobiológicas usadas em máquinas caça-níqueis e
exploradas pela indústria do fumo, (as empresas) incorporaram deliberadamente
em seus produtos uma série de recursos de design destinados a maximizar o envolvimento
dos jovens para gerar receitas publicitárias", diz uma ação coletiva
movida por mais de 400 famílias.
"(As empresas)
sabem que as crianças estão em um estágio de desenvolvimento que as deixa
particularmente vulneráveis aos efeitos viciantes desses recursos. Mesmo assim,
miram (seus esforços) nas crianças, em busca de lucro."
Outras acusações são
de que as empresas sabiam que seus produtos poderiam causar danos aos jovens,
mas não alertaram sobre o risco ou forneceram instruções sobre uso seguro, e
que os controles parentais e de verificação de idade são ineficazes.
Há ainda alegações de
que alguns recursos nas redes promovem comparações negativas sobre aparência e
de que as redes "facilitam a disseminação de material com abuso sexual e
exploração de crianças".
"Os defeitos
variam dependendo da plataforma, mas todas exploram crianças e
adolescentes", dizem as famílias em uma das ações coletivas.
Os processos são parte
de uma onda de ações judiciais contra essas empresas nos Estados Unidos.
Há também diversas
ações movidas por mais de 40 Estados, mais de 140 distritos escolares e
sistemas hospitalares em todo o país com acusações semelhantes.
·
As respostas das
empresas
"As alegações
simplesmente não são verdadeiras", diz a porta-voz do Google, Ivy Choi, à
BBC News Brasil.
Choi afirma ainda que
garantir aos jovens uma experiência segura e saudável sempre foi um elemento
"fundamental".
"Em colaboração
com especialistas em juventude, saúde mental e parentalidade, construímos
serviços e políticas para proporcionar aos jovens experiências adequadas à
idade, e aos pais, controles robustos", diz a porta-voz.
Por sua vez, a Snap
afirmou em nota à BBC News Brasil que "o Snapchat foi intencionalmente
projetado para ser diferente das mídias sociais tradicionais, com foco em
ajudar os snapchatters (usuários) a se comunicarem com seus
amigos próximos".
A empresa apontou como
exemplo disso o fato de, ao abrir, o aplicativo direcionar o usuário para uma
câmera, "em vez de um feed de conteúdo que incentiva a navegação
passiva", e que a plataforma não tem curtidas ou comentários públicos.
A Snap destacou ainda
que "a segurança e bem-estar de sua comunidade são nossa principal
prioridade".
O TikTok disse em nota
que a empresa tem mecanismo "pioneiros" para proteção de jovens,
entre eles um limite de tempo de tela automático de 60 minutos para menores de
18 anos e controles parentais para contas de adolescentes, além de ter lançado
uma cartilha para pais abordarem temas ligados à segurança digital com jovens.
"Continuaremos
trabalhando para manter nossa comunidade segura ao enfrentar estes desafios que
são comuns à toda indústria", disse a rede social.
Em resposta às
alegações, a Meta compartilhou um sumário sobre seu trabalho para "ajudar
a proporcionar experiências seguras" aos jovens, salientando que tem
"cerca de 40 mil profissionais que trabalham em áreas ligadas à
segurança" e investiu "mais de US$ 20 bilhões [R$ 100 bilhões] desde
2016".
A empresa disse que,
nos últimos oito anos, desenvolveu mais de 30 ferramentas e recursos, incluindo
controles que permitem aos pais definir limites para adolescentes usarem seus
serviços, ver quem os filhos estão seguindo e saber se denunciaram alguém que
pode estar lhes intimidando.
·
As ações no Congresso
americano
O documento da Meta
cita o testemunho de seu cofundador e presidente, Mark Zuckerberg, ao Comitê
Judiciário do Senado americano, em janeiro.
A audiência, para
investigar a exploração sexual de crianças online, reuniu os executivos que
lideram cinco empresas, entre eles Evan Spiegel, da Snap, e Shou Zi Chew, do
TikTok.
Senadores democratas e
republicanos, geralmente em lados opostos, se uniram ao criticar os executivos
por não fazerem o suficiente para proteger crianças, ignorarem
"deliberadamente" conteúdo prejudicial em suas plataformas e
priorizarem lucro em vez do bem-estar dos jovens usuários.
Também estavam
presentes pais e mães cujos filhos morreram ou sofreram exploração sexual,
abusos e outros danos nessas plataformas.
Em determinado
momento, Zuckerberg chegou a se dirigir diretamente a essas famílias.
"Sinto muito por tudo que vocês passaram", disse ele.
"É por isso que
investimos tanto e que continuaremos a ter iniciativas líderes na indústria
para garantir que ninguém tenha que passar pelo que suas famílias
sofreram."
Spiegel, questionado
pelos senadores sobre venda de drogas no Snapchat, também falou às famílias,
várias das quais estão processando sua empresa após perderem os filhos por
overdose de drogas supostamente obtidas na plataforma.
"Lamento muito
que não tenhamos conseguido evitar essas tragédias", disse o presidente da
Snap.
"Trabalhamos
muito para bloquear todos os termos de pesquisa relacionados a drogas em nossa
plataforma."
O foco do Congresso
americano nos impactos das redes sociais sobre as crianças aumentou a partir de
2021, quando uma ex-funcionária do Facebook vazou documentos que mostravam que
a empresa sabia dos possíveis efeitos negativos de seus produtos sobre jovens.
Um dos objetivos da
audiência era aumentar o apoio a vários projetos de lei para proteger crianças
na internet.
Apesar de esforços
bipartidários, essas propostas enfrentam resistências para serem aprovadas, e
tentativas anteriores de regular as gigantes de tecnologia fracassaram.
Diante das
dificuldades para aprovar uma legislação federal, diversos Estados adotaram
leis próprias para aumentar as proteções aos jovens nas redes e reforçar o
escrutínio das práticas de segurança das empresas.
Muitas dessas
iniciativas estão sendo contestadas na Justiça pelas empresas.
Um dos argumentos das
empresas é o de que essas leis supostamente contradizem umas às outras, e o
ideal seria uma legislação federal que estabeleça o mesmo padrão para todo o
país.
Além disso, alguns
grupos de defesa de direitos civis temem que essas leis interfiram na liberdade
de expressão.
·
Estratégias e
obstáculos
Um dos obstáculos em
processos contra redes sociais nos Estados Unidos é a seção 230 da lei federal
que rege o setor de comunicações, aprovada em 1996, antes da popularização das
plataformas.
Políticos democratas e
republicanos já tentaram revogar ou revisar a seção, sem sucesso.
A seção 230 isenta as redes
de responsabilidade sobre o que é publicado por terceiros, dificultando
processos que alegam danos sofridos por usuários nas plataformas.
Com isso, muitas ações
são descartadas antes mesmo de ir a julgamento.
Os processos atuais
apostam em um argumento diferente: de que os danos alegados não resultam de
postagens de terceiros, mas sim do fato de as plataformas serem um produto que
tem "defeitos".
"Nós nos
concentramos no design defeituoso dessas plataformas", diz Bergman.
"E no fato de que
foram concebidas para serem viciantes e não têm características básicas de
segurança que, se implementadas, as tornariam 80% ou 90% mais seguras do que
são hoje."
Assim, as empresas
poderiam ser em tese responsabilizadas por negligência, ao não cumprir seu
dever de projetar produtos seguros e alertar os usuários sobre defeitos.
Bergman diz que o
simples fato de as empresas estarem sendo questionadas judicialmente já é
importante, independentemente do resultado.
"Os executivos
terão de testemunhar sob juramento e explicar como lucram com plataformas que
não permitem que seus próprios filhos usem", afirma.
Bergman fundou o
Social Media Victims Law Center em 2021, depois décadas representando pessoas
prejudicadas por exposição a amianto, em processos contra empresas por
esconderem a ligação do produto com casos de câncer.
Ele conta que uma das
motivações para mudar sua atuação foram as revelações feitas pela
ex-funcionária do Facebook naquele ano.
"Queria não só
assegurar compensação para as vítimas, mas impedir que outros fossem
vitimados", afirma.
Bergman diz que as
mesmas características nos casos envolvendo amianto se aplicam às redes
sociais.
"Exceto que o
nível de má conduta corporativa que vejo nas redes sociais faz com que as
empresas de amianto pareçam meninos de coral em comparação."
Os julgamentos dos
primeiros casos representados por Bergman só estão previstos para o final do
próximo ano, e ele diz que há um longo caminho pela frente.
Mas o advogado
ressalta a determinação das famílias em levar os casos adiante e evitar que
outros passem pelo mesmo sofrimento.
Kristina diz que o
suicídio de Morgan a inspirou a lutar para ajudar outras famílias.
Ela afirma que muita
coisa mudou desde a morte da filha, há quase dez anos, e que hoje há maior
conscientização sobre problemas de saúde mental entre jovens e os potenciais
riscos das redes sociais.
"Os pais precisam
estar cientes desses perigos. Mesmo que pensem saber o que seus filhos estão
fazendo, provavelmente não sabem."
Fonte: BBC News Brasil

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