Semeadura vaginal: entenda como funciona a prática
Conhecida como semeadura da microbiota vaginal, a
prática de esfregar fluidos vaginais da mãe no bebê nascido por meio de
cesariana, divide opiniões entre médicos. Isso porque as evidências clínicas de
segurança e eficácia são limitadas. No entanto, um estudo realizado por um
grupo internacional de pesquisadores, publicado, na revista Cell Host &
Microbe, sugere que o método pode melhorar a microbiota intestinal inicial e o
neurodesenvolvimento dos recém-nascidos.
Jose Carlos Clemente, do Icahn School of Medicine
at Mount Sinai, nos Estados Unidos, e pesquisador do trabalho, relata que o
ensaio complementa um estudo anterior, em que demonstraram a capacidade de
modificar parcialmente os micróbios de bebês nascidos por cesariana. "O
que estamos demonstrando aqui, pela primeira vez, é que essa intervenção, a
semeadura vaginal, realmente traz um benefício em termos de
neurodesenvolvimento", frisou.
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Para investigar a eficácia do método, os
pesquisadores esfregaram gazes embebidas em fluidos vaginais, nos lábios, na
pele e nas mãos de 32 recém-nascidos que vieram ao mundo por cesariana. Outros
36 receberam solução salina como placebo. Os resultados demonstraram que
aqueles submetidos à microbiota tinham mais bactérias intestinais, das
encontradas no fluido vaginal materno, seis semanas após o nascimento.
Os pesquisadores avaliam que isso sugere que as
bactérias vaginais maternas colonizaram com sucesso o intestino dos pequenos.
Ademais os nenéns com transferência microbiana tinham bactérias mais maduras,
semelhantes aos que nascem por parto normal.
Por meio de um questionário, os estudiosos também
avaliaram o neurodesenvolvimento dos bebês. As mães foram perguntadas se seus
filhos eram capazes de emitir sons simples ou realizar movimentos como
engatinhar. Os resultados mostraram que os nenéns que receberam a semeadura
pontuaram significativamente mais alto nesses critérios, atingindo um
desenvolvimento semelhante aos nascidos por parto normal.
Segundo Jose Clemente, apesar dos resultados
positivos do estudo, é necessário realizar novas pesquisas sobre o tema.
"Embora ainda estejamos longe de ver esse procedimento sendo usado
rotineiramente na clínica como parte do tratamento-padrão, mostramos que a
semeadura pode restaurar o microbioma de bebês e fornecer um benefício
mensurável, que é o primeiro passo para esse objetivo", enfatiza.
·
Segurança
Para Clemente, a ideia de suplementar um
recém-nascido com bactérias que possam ser benéficas para o seu desenvolvimento
deve ser considerada independentemente do tipo de parto. "Sabemos que
alguns bebês nascidos de parto vaginal também começam a vida com um microbioma
semelhante ao dos bebês de cesariana e carecem de bactérias específicas, o que
os tornaria os mais apropriados para estudar se podemos fornecer esses
micróbios para reduzir o risco de futuras complicações", explica.
Clodoaldo Abreu da Silveira Júnior, pediatra do
Hospital São Francisco, em Ceilândia, no Distrito Federal, reforça que
pesquisas com animais mostram que mudanças no microbioma intestinal podem
alterar o comportamento e o desenvolvimento cerebral. "Se a semeadura
vaginal realmente fizer o microbioma de bebês de cesariana se parecer mais com
os de parto vaginal, isso pode, teoricamente, afetar o
neurodesenvolvimento", avalia.
O médico defende mais estudos para comprovar a
eficácia e a segurança da semeadura vaginal. "Contudo, essa é uma área de
pesquisa nova e complexa. Há muitos outros fatores além do microbioma, como
genética, ambiente e interações sociais, que também são importantes para o
neurodesenvolvimento", alerta Clodoaldo Júnior.
Para Mariana Mendes, ginecologista e obstetra do
Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília, os resultados podem influenciar na
realização de partos por cesariana. "Quando esse estudo demonstra que
tanto o parto vaginal quanto a semeadura tem efeitos benéficos ao
neurodesenvolvimento infantil, reforça ainda mais os benefícios desse tipo de
parto, desde que ocorra de maneira saudável para mãe e bebê", aponta.
O próximo passo da equipe é determinar se as
descobertas do estudo são generalizáveis para uma população maior e quais
outros fatores podem influenciar o benefício apresentado. "Gostaríamos de
caracterizar os mecanismos pelos quais tais bactérias são benéficas, embora
tenhamos alguns resultados iniciais sobre metabólitos associados à intervenção
e à maturação intestinal", antecipa Jose Clemente.
·
Covid-19
Pesquisa realizada pela Koç University bank Center
for Infectious Diseases, na Turquia, apontou o risco de parto prematuro causado
pela mudança na microbiota vaginal devido ao Covid-19. Os resultados do estudo,
publicado na revista Journal of Medical Virology, mostraram que o vírus
SARS-CoV-2 pode influenciar na prematuridade. De acordo com o artigo, o
desequilíbrio da microbiota causa proliferação de organismos nocivos e leva a
certos riscos, como o parto prematuro.
>>>> Com a palavra, o
especialista - Lepeng Zhou, um dos autores do estudo, Southern Medical University
·
1. Como a semeadura vaginal possivelmente está
relacionada ao neurodesenvolvimento dos bebês? O estudo apresenta hipóteses
para essa relação?
A semeadura vaginal tem o potencial de influenciar
o neurodesenvolvimento por meio de várias vias, embora os mecanismos exatos
permaneçam obscuros. Um caminho possível é através do impacto da semeadura
vaginal nos metabólitos microbianos intestinais. Em nosso estudo, observamos
que a semeadura vaginal acelerou a maturação da microbiota intestinal, o que
foi significativamente associado à melhoria do neurodesenvolvimento infantil.
Entre os principais metabólitos fecais, a L-carnitina mostrou uma forte correlação
negativa com a maturação da microbiota intestinal e também foi negativamente
associada ao neurodesenvolvimento, sugerindo seu papel potencial no
neurodesenvolvimento. Além disso, o GABA, um metabólito significativo
correlacionado com a maturação da microbiota intestinal em nosso estudo, é um
importante neurotransmissor inibitório no sistema nervoso central.
·
2. A semeadura vaginal também pode ser interessante
em bebês nascidos de parto normal?
De um modo geral, os bebês nascidos de parto normal
adquirem naturalmente uma gama diversificada de microbiota vaginal materna
durante o processo de parto. Acredita-se que essa exposição desempenhe um papel
crucial na colonização inicial do microbioma intestinal do bebê e no
desenvolvimento de um sistema imunológico saudável. Portanto, a semeadura
vaginal normalmente não é considerada necessária para bebês nascidos de parto
normal. No entanto, permanece a incerteza se as variações na composição
dominante da microbiota vaginal materna podem influenciar a colonização da
microbiota intestinal do bebê e os subsequentes resultados de saúde.
·
3. A semeadura vaginal em bebês pode ter um efeito
adverso no futuro?
Quando as mães carregam patógenos em potencial, a
prática da semeadura vaginal pode representar riscos adicionais de infecção ou
outros eventos adversos em bebês. Em nosso estudo piloto, tomamos precauções
excluindo mães que carregavam potenciais Streptococcus do Grupo B ou patógenos
de infecção sexualmente transmissíveis. Os resultados não mostraram eventos
adversos graves e os eventos adversos observados, como pápulas, eritema,
pústulas e febre, não foram significativamente diferentes entre os grupos VMT e
controle. Esses achados sugerem que a semeadura vaginal pode ser segura para
bebês saudáveis nascidos por cesariana, desde que medidas de triagem
apropriadas sejam implementadas. No entanto, é importante observar que nosso
estudo foi limitado em tamanho e duração da amostra, e pesquisas mais extensas
com amostras maiores e acompanhamento de longo prazo são necessárias para
estabelecer a segurança da semeadura vaginal, mesmo quando patógenos maternos
são rastreados.
Fonte: Correio Braziliensee

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