Menopausa: apenas 15% de quem sofre com os sintomas recebe a atenção
adequada
"Não encontrei médico para tratar meus
sintomas de menopausa até hoje", confidencia Maria das Graças de Freitas
de Abreu, 59 anos. A educadora social voluntária narra que ainda não se adaptou
a essa fase da vida, que já dura 10 anos. "O mais complicado é lidar com
uma nova realidade muito desconfortável e cheia de incertezas." Essa
situação é comum a muitas mulheres no Brasil e em outros países. Uma pesquisa,
liderada pela Universidade de Monash, na Austrália, mostra que apenas 15% das
pacientes ao redor do mundo recebem a atenção necessária nesse período.
O trabalho, publicado em setembro, na revista Cell,
que analisou fontes durante sete décadas para sintetizar o que se sabe sobre a
menopausa, culminou em uma série de recomendações do que precisa mudar na saúde
e na ciência para que seja oferecido um acompanhamento eficaz a quem vive esse
período. "O reconhecimento de que a menopausa, para a maioria das
mulheres, é um evento biológico natural, não dispensa o uso de intervenções
para aliviar os sintomas", destacaram em nota os cientistas.
De acordo com os estudiosos, há uma complexidade
envolvendo as fases da menopausa, etapas que variam de uma pessoa para outra.
Os autores argumentam que as restrições de idade atualmente aplicadas às
prescrições de terapias abrem espaço para discussões. Embora os sintomas
geralmente surjam durante a perimenopausa — período que antecede a menopausa,
quando os ovários começam a diminuir a produção de hormônios, como o estrogênio
e a progesterona —, atualmente, poucas terapêuticas são aprovadas para pacientes
que vivem esse momento.
• Hormônios
Leandro Resende, ginecologista e membro da
Sociedade de Ginecologia de Brasília, explica que a menopausa ocorre de forma
natural pela ausência da produção de hormônios pelos ovários. "Acontece o
que chamamos de falência ovariana. A menopausa representa uma data temporal,
quando a mulher fica um ano sem apresentar fluxo menstrual. A idade para
acontecer é entre os 40 e 55 anos. Por isso, mulheres na menopausa antes dos 40
anos ou se persistirem com fluxo menstrual após os 55 anos devem ser
avaliadas."
Conforme o trabalho, os sintomas variam entre os
indivíduos e ao longo do processo. Os mais comuns são ondas de calor, suor,
vertigens, cansaço muscular e distúrbios do sono. Algumas pessoas experimentam
situações graves, enquanto outras não sentem quase nada. Todavia, os estudiosos
reforçam que mesmo na ausência de sintomas visíveis, podem ocorrer
"consequências silenciosas para a saúde", como perda óssea e um
aumento do risco de diabetes, doenças cardiovasculares e cânceres específicos.
Maria das Graças reclama dos sintomas."Muito
calor em momentos diversos durante o dia e à noite, indisposição, tristeza,
sonolência alternada com insônia e outros."
A equipe sublinha que dificuldades, como a perda de
memória de curto prazo, podem ser temporários, enquanto outros, como depressão
e ansiedade, em certos casos, são condições pré-existentes erroneamente
atribuídas à menopausa devido ao estigma associado a ela. Eles enfatizam a
importância da prática regular de exercícios e uma dieta nutritiva, rica em
proteínas, como medidas para reduzir o risco de complicações sintomáticas de
saúde (Leia mais amanhã).
A digital influencer Malu Silva, 62 anos, narra que
se consultava no posto de saúde desde antes da menopausa e que mantém o
acompanhamento. Segundo a Vovó Blogueira, como é conhecida no Distrito Federal,
o começo da nova fase foi desafiador. "No início atrapalhava. Eu
trabalhava e, muitas vezes, ficava molhada de suor, era constrangedor."
Malu ressalta que tudo começou aos 45 anos,
maximizando outras questões de saúde. "Entre as coisas mais complicadas
está a impaciência e a dificuldade para dormir. Esta é uma fase crucial na vida
de toda mulher, é sofrido e estressante. Cada uma reage de uma forma, no meu
caso, potencializou o problema de insônia que já tinha. Também me dá muito
calor."
Para os pesquisadores, existem diversas opções de
tratamento, desde terapias hormonais até produtos à base de plantas. Eles
ressaltam haver potenciais efeitos colaterais e riscos à saúde associados a
cada tipo de tratamento."Otimizar a saúde na menopausa é a porta de
entrada para o envelhecimento saudável das mulheres", salientam em nota os
autores.
João Lindolfo Borges, endocrinologista e
ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM),
reitera que a eficiência dos tratamentos não hormonais também varia conforme o
quadro da paciente. "É importante discutir as opções com um profissional
de saúde. Entre as alternativas estão terapia comportamental e mudanças no
estilo de vida, suplementos alimentares e fitoterápicos, psicoterapia,
hidratantes vaginais e medicamentos específicos."
Na próxima reportagem, os bons hábitos e o
equilíbrio, junção ideal, para ultrapassar os desafios impostos pela menopausa.
• Climatério,
o início de tudo
O climatério é um período de transição que abrange
vários anos antes e depois da menopausa. Ocorrem mudanças hormonais
significativas, incluindo a diminuição gradual dos níveis de estrogênio e
progesterona. Uma série de sintomas aparecem, como ondas de calor (fogachos),
suores noturnos, alterações de humor, dificuldades para dormir, entre outros. O
climatério marca o fim gradual da fase reprodutiva da mulher. A menopausa é um
evento específico que marca o fim da menstruação e da capacidade reprodutiva. Os
especialistas diagnosticam a menopausa quando cessa a menstruação por pelo
menos 12 meses consecutivos. Os sintomas podem ser associados aos do
climatério, como ondas de calor, bem como secura vaginal, mudanças na libido e
alterações na densidade óssea.
João Lindolfo Borges, endocrinologista e
ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)
• Reposição
hormonal, uma opção
Apesar de controvertida, a terapia de reposição
hormonal (TRH) é a principal terapêutica atualmente. Um estudo da Associação
Médica Canadense, publicado na revista da instituição, em maio, recomenda a TRH
como primeira opção de tratamento para aqueles que não têm fatores de risco.
"É uma terapêutica de primeira linha para
sintomas vasomotores na ausência de contra-indicações", salienta em nota
Iliana Lega, pesquisadora da Universidade de Toronto e coautora do ensaio.
Conforme os estudiosos, os receios em torno da
abordagem e a falta de conhecimento sobre outras opções muitas vezes impedem as
pacientes de fazer o acompanhamento adequado. Segundo os pesquisadores, entre
os benefícios da reposição estão a redução das ondas de calor em até 90% das
pacientes com sintomas moderados a graves, melhoria dos níveis de lípidos no
sangue e uma possível redução do risco de diabetes e menos fraturas por
fragilidade do quadril, coluna e outros ossos.
Leandro Resende, ginecologista e membro da
Sociedade de Ginecologia de Brasília, a terapia hormonal é indicada quando a
menopausa ou climatério são sintomáticos. "Porém é necessária uma
avaliação específica para não ter nenhuma condição que contra indique o uso de
hormônio. Normalmente os principais fatores impeditivos para TRH estão
relacionados a causas oncológicas ou risco de doença trombo embólica, que levam
a embolias. A reposição hormonal atua justamente como um fator para que a
redução ou ausência da produção de hormônios pelos ovários prejudique menos a
qualidade de vida da mulher."
O ensaio pontua ainda que os riscos podem ser
calculados conforme a condição de cada mulher. Apesar de evidências anteriores
terem demonstrado chances aumentadas de câncer de mama, o risco é muito menor
em pessoas com idades entre os 50 e os 59 anos e naquelas que iniciam a terapia
nos primeiros 10 anos da menopausa.
Segundo os cientistas, há, ainda, estudos que
mostram chances elevadas de acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI) em
mulheres com mais de 60 anos que iniciam a terapia uma década após o início da
menopausa, mas que essa taxa é baixa para aquelas com menos de 60 anos.
"Após o estudo da Women's Health Initiative,
evidências crescentes mostram uma possível redução na doença arterial
coronariana com a terapia hormonal na menopausa entre pacientes mais jovens,
especificamente aquelas que iniciam a terapia hormonal na menopausa antes 60
anos ou dentro de 10 anos após a menopausa", salientaram os autores, em
comunicado. Leia amanhã a segunda reportagem da série sobre equilíbrio
hormonal.
Fonte: Correio Braziliense

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