sexta-feira, 5 de abril de 2024

Sergio Moro é humilhado em reunião com Gilmar Mendes: “Você e Dallagnol roubavam galinha juntos”

Em meio ao julgamento da cassação de seu mandato no TRE-PR, o senador e ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro solicitou uma audiência com o ministro Gilmar Mendes. Pelos relatos de Guilherme Amado em sua coluna no site Metrópoles, Moro saiu humilhado do gabinete do ministro da Suprema Corte.

Gilmar teria usado tom duro e não poupou Moro de ouvir pessoalmente as críticas que o magistrado lhe faz publicamente há anos, por conta dos abusos da Lava Jato. O jornalista chegou a usar o verbo “tripudiar” para descrever a postura de Gilmar.

O encontro foi divulgado primeiro pela jornalista Mônica Bergamo, na Folha, cujas fontes – próximas de Moro – relataram um embate muito mais ameno do que Amado narrou nesta quinta (4).

Levado ao encontro do ministro por intermédio do senador Wellington Fagundes (PL) – que é de Mato Grosso, mesmo estado de Gilmar Mendes – Moro foi tratado durante os 90 minutos de audiência como “Sergio” e “você”.

Ele chegou a dizer que nunca atacou o Supremo Tribunal Federal, ignorando, por exemplo, o dia em que foi gravado sugerindo que Gilmar Mendes vende habeas corpus, entre ouros episódios.

·        “Vocês combinavam o que estaria nas peças”, diz Gilmar a Moro

“Você e Dallagnol roubavam galinha juntos. Não diga que não, Sergio”, disparou Gilmar, segundo a apuração de Guilherme Amado, quando Moro tentou se desvencilhar dos excessos da Lava Jato.

“Tudo o que a Vaza Jato revelou, eu já sabia que você e Dallagnol faziam. Vocês combinavam o que estaria nas peças. Não venha dizer que não”, continuou Gilmar, deixando Moro “assustado”.

Gilmar ainda repetiu na presença de Moro uma das histórias que sempre conta em suas entrevistas à imprensa: sobre o dia em que Paulo Guedes, ex-ministro da Economia, lhe revelou como conseguiu atrair Moro para o governo Bolsonaro, levando o ex-juiz da Lava Jato a abdicar da magistratura.

“‘Certa vez, Sergio, o Paulo Guedes veio aqui ao meu gabinete e disse orgulhoso que havia sido ele quem havia ido a Curitiba convidar você para ser ministro do Bolsonaro. Eu disse a ele que talvez ele não tenha percebido, mas, ao conseguir tirar você de Curitiba, ele deveria colocar isso no currículo. Foi certamente um dos maiores feitos dele no ministério’, tripudiou Gilmar, diante de um Moro com sorriso amarelo”, narrou o jornalista Guilherme Amado.

·        “Estude um pouco”, diz Gilmar a Moro

Ainda segundo Amado, Gilmar ainda mandou Moro estudar mais. A recomendação teria ocorrido após Moro tergiversar sobre o rompimento com o governo Bolsonaro em 2020, para depois voltar a se aproximar do extremista de direita em 2022, por conta das eleições. Moro chegou a ir a debates televisionados, assessorar Bolsonaro nos embates contra Lula.

“Você faltou a muitas aulas, Sergio. Curitiba não te ajudou em nada. Aproveite que está no Senado e estude um pouco. A biblioteca do Senado é ótima, você deveria frequentar”.

Segundo a jornalista Mônica Bergamo, Moro “disse a interlocutores que a reunião com Mendes seria uma tentativa de abertura de diálogo com magistrados de Cortes superiores de Brasília.”

Na versão apurada por Bergamo, que contou com fontes próximas de Moro, os detalhes da humilhação foram deixados de lado. “A conversa teve momentos de explicitação de divergências, mas foi considerada civilizada e tranquila, segundo interlocutores do senador.”

Guilherme Amado afirmou no Metrópoles que Moro saiu da conversa sem pedir ajuda no julgamento da cassação no TRE-PR, mas conseguiu, ao menos, deixar as portas abertas com Gilmar Mendes para diálogos futuros.

O encontro ocorreu no dia 2 de abril, um dia antes de o TRE-PR se reunir para a segunda sessão do julgamento que visa a cassação de Moro. Até agora, o placar está empatado, com um voto pela perda do mandato, e um contra. Faltam cinco votos. O julgamento retornará na próxima segunda, 8 de abril.

 

Ø  Julgamento da cassação de Moro parece um filme mal ensaiado; relator zelou pela imagem do ex-juiz

 

Com placar empatado em 1 a 1, o julgamento de ações que podem levar à cassação do mandato do senador Sergio Moro (União-PR), exerce uma forte pressão e lança holofotes sobre os desembargadores do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), que podem optar por tentar zelar pela imagem do ex-juiz lavajatista, ou suicidar a própria e acabar simbolicamente com suas vidas jurídicas.

Essa é a avaliação da advogada com atuação no Paraná, Tânia Mandarino, que comentou os votos já proferidos e as expectativas para os próximos dias do julgamento, em entrevista ao jornalista Luís Nassif, n programa TVGGN 20 Horas desta quarta-feira (4). 

“O julgamento do Sergio Moro parece uma cena, um pouco surreal, um filme talvez, tudo menos um julgamento de cassação de um mandato de quem se trata. Parece que não foi ensaiado direito a liturgia: está todo mundo meio perdido. De largada, temos aquele voto do relator, que foi qualquer coisa menos um voto técnico jurídico”, declarou a advogada. 

·        O suicídio de Falavinha

Na segunda-feira (1º), a corte deu inicio ao julgamento de duas ações eleitorais que visam a cassação. Analisadas em conjunto, elas acusam Moro de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação na pré-campanha eleitoral de 2022. Os processos foram movidos pelo PL, partido ao qual o ex-juiz foi filiado, e pela Federação Brasil da Esperança, do PT, PV e PCdoB. 

Na primeira sessão, além da manifestação das partes no caso, houve a leitura do voto do relator, desembargador Luciano Carrasco Falavinha Souza, que opinou pela rejeição das ações, sob a argumentação de “falta de provas contra o investigado“.

Para Mandarino, o voto de Falavinha foi suicídio. “Me parece que o desembargador Luciano Carrasco Falavinha descuidou, inclusive, da sua própria imagem. Foi suicídio. E a gente se pergunta: quanto vale uma vida jurídica como a dele? Principalmente sendo a dele, porque eu – que advogo aqui no Paraná – sei que era um julgador que estava nas linhas de promoções”, afirma. 

No fatídico voto, Flavinha destacou que sua opinião era técnica e não movida pela opinião pública. Segundo Mandarino, ao fazer isso, o desembargador “coloca a opinião pública no chão”. “Ele fala grosso com a opinião pública (…) Essa é uma frase dele: ‘na democracia representativa as massas só votam’. Isso foi uma das coisas mais infelizes que eu ouvi em uma Tribuna, em um julgamento, em um plenário, ainda mais tratando de Direito Eleitoral“, afirmou a advogada. 

“Ele não teve o mínimo cuidado com a própria imagem e isso ficou muito evidente com o voto do desembargador José Rodrigo Sade (…) que fez questão de exaltar a democracia”, pontua. 

·        O voto de Sade

Nesta quarta, 3 de abril, durante a segunda sessão do julgamento de Moro, ao contrário de Falavinha, o desembargador José Rodrigo Sade votou a favor da cassação e pela inelegibilidade do senador. Durante a argumentação, ele relatou o desequilíbrio do pleito enquanto Moro foi candidato a senador pelo Paraná, tendo feito gastos a nível de campanha pré-campanha presidencial. 

“O Sade teve um cuidado, ele também é vaidoso, só que não estava com a vaidade de cavalo desenfreado. Ele estava vaidoso do seu voto, uma coisa de autoconhecimento das suas capacidades, ele falava como se estivesse falando de um filho querido, que é o que é – ao final – um voto”, avaliou.

·        Pressões e expectativas

O julgamento será retomado na próxima segunda-feira (8), após pedido de vista da desembargadora Cláudia Cristina Cristofani.

O voto da desembargadora Cláudia Cristina era o que a gente – pessoal que lida diariamente com Direito Eleitoral – dava como certo ser favorável ao Sergio Moro. A pressão para manter votos favoráveis é só para cuidar da imagem do Moro, na minha avaliação, porque eles não vão conseguir evitar a cassação, ou pelo menos, assim espero”, pontou Mandarino.

Segundo a advogada, há rumores sobre a pressão em cima dos julgadores do TRE-PR para arrastar o julgamento, já que qualquer que seja a decisão, cabe recurso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sendo assim, Moro não deve ter o futuro no Congresso decidido nos próximos dias, e a decisão final sobre a sua continuidade enquanto senador caberá à Corte Superior.

Estão dizendo que o que eles querem aqui no Paraná é justamente procrastinar, pedir vista, embora o pedido de vista eleitoral seja de uma sessão só, porque é tudo muito rápido no Direito Eleitoral. Mas dizem que estão querendo enrolar para mudar a composição do Tribunal Superior Eleitoral, para desfavorecer a cassação”, contou Mandarino.

Eu não duvidaria se ela [a desembargadora] Cristina nos surpreendesse. Essa é uma análise perigosa, mas eu não duvidaria que ela viesse com um ‘salto duplo twist carpado’ na próxima sessão e votasse pela pela cassação, porque pressões à parte, ela viu o que aconteceu ontem e hoje. Eu acredito na possibilidade de que ela nos surpreenda, que vote pela cassação, para não se suicidar também”, completou.

O julgamento de Moro retomará no próximo dia 8.

 

Ø  Não é só Moro. Por Luis Felipe Miguel

 

Começou nesta quinta, (04), o julgamento no TSE que pode cassar o mandato do senador Jorge Seif, de Santa Catarina.

Exemplo retumbante das nulidades que o bolsonarismo levou ao topo da política brasileira, ele está sendo julgado por abuso de poder econômico – junto com seu patrocinador, Luciano Hang, conhecido como “véio da Havan”.

Há boatos de que o julgamento de Sergio Moro, sujeito a cassação por motivo similar, no Paraná foi interrompido à espera do resultado do caso de Seif no TSE.

Isso porque o PSD tenta emplacar a tese de que, sendo Seif cassado, em vez de convocadas novas eleições deve ser empossado o segundo colocado em 2022 – o ex-governador Raimundo Colombo.

Cria da oligarquia Konder Bornhausen, que tenta controlar Santa Catarina desde o começo do século passado, Colombo é hoje um bolsonarista tão tosco como Seif.

O impacto no caso do Paraná é óbvio. Caso o TSE abrace a tese a favor de Colombo, o que é improvável, a cassação de Moro levaria ao Senado o bolsonarista, monarquista e propagador de fake news Paulo Eduardo Martins.

Como se vê, na política brasileira, em especial no Sul, não há muito para onde correr.

No PL catarinense mesmo, a torcida pela cassação do correligionário Seif é grande. Gente como a deputada federal Carol de Toni e a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo estão se assanhando para disputar a vaga.

É necessária uma palavra também sobre o corréu de Seif, o “véio da Havan”.

Hang nunca respeitou qualquer limite legal ou moral no uso de suas empresas – seja para seu próprio enriquecimento, seja para ter influência política. Protagonizou os maiores espetáculos de assédio eleitoral de que se tem notícia.

Se não estivesse no Brasil (e mais precisamente em Santa Catarina), estaria na cadeia.

Em vez disso, a pena a que está sujeito, caso condenado, é a inelegibilidade. Duplamente inútil, conforme seu advogado mesmo (sutilmente) debochou. Primeiro, porque Hang já está inelegível, por uma condenação anterior.

Depois, porque ele não quer ser candidato. O que ele quer é influenciar – podemos trocar por “corromper” – as eleições com a força do dinheiro.

Há muitos desafios para a democracia no Brasil – tantos que a gente mal sabe por onde começar.

Conter a força corruptora do dinheiro é um dos mais importantes.

 

Ø  Tarcísio de Freitas, a mais perigosa expressão do bolsonarismo. Por Luís Nassif

 

O governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, é administrativamente medíocre. Mostrou no DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), transformando-o em balcão de negócios para empresas ligadas a militares. Mostrou-se no Ministério de Infraestrutura de Bolsonaro, deixando as estradas federais na pior condição em décadas, segundo estudos da Confederação Nacional dos Transportes.

No governo de São Paulo tem colocado em prática o aprendizado com o bolsonarismo.

Primeiro, no campo dos grandes negócios ocultos.

No final do ano passado, repetiu a jogada de Paulo Guedes com precatórios, na melhor prática de como tirar dos pobres e entregar aos ricos. De um lado, deixou atrasar precatórios do estado – em geral precatórios alimentícios. De outro, fez aprovar uma lei permitindo o pagamento de ICMS com precatórios.

O jogo é simples. Apertado, o pequeno titular de precatórios vende seus direitos com enormes deságios – que chegam a 50%. O escritório de advocacia ou instituição financeira adquire e vende, depois, para empresas quitarem seus débitos em ICMS.

Foi o mesmo método adotado pelo ex-Ministro Paulo Guedes: de um lado, atraso no pagamento de precatórios; de outro, abertura para sua utilização em negócios públicos. É uma versão um pouco mais sofisticada da famosa “caixinha de Ademar”, utilizada pelo ex-governador Ademar de Barros.

O segundo ponto é no aparelhamento da Polícia Militar. Em editorial de hoje, após uma abertura elogiando Tarcísio, a Folha trata o fato como se fosse um mero caso de empreguismo na área pública. Não se deu conta que se trata de uma corporação armada, da qual foram expelidos todos os comandantes legalistas e aberto espaço para transformação uma corporação de Estado em uma milícia.

Os massacres de Guarujá precedem a milicialização da PM de São Paulo, da mesma maneira como ocorreu no Rio de Janeiro. E de modo semelhante ao da rebelião da PM do Ceará, contida de modo quase heróico por Cid Gomes.

A reação de Tarcísio às críticas – “não estou nem aí” – ou sua menção ao suposto apoio que recebeu de empresários da baixada santista demonstram claramente sua intenção. Sem controle algum do Ministério Público Estadual, sem limites impostos pela Justiça paulista, o que impedirá setores da PM de se aliarem a organizações criminosas, como ocorre no Rio de Janeiro?

A enorme burrice institucionalizada do país – e da mídia – impede qualquer análise prospectiva, mesmo em temas óbvios. O carro, sem freios, caminha em direção ao abismo, e ficam todos olhando, aparvalhados. Quando despenca é aquele frenesi: como aconteceu?

O terceiro ponto de Tarcísio foi tirar a gratificação de professores que trabalham em áreas críticas e, pior que isso, acabar com o apoio que o Estado dava a alunos com deficiência na rede escolar. Havia uma seleção de apoiadores, com cursos de pedagogia, incumbidos da assistência a todas as crianças com deficiência na sala de aula.

Um dos grandes avanços civilizatórios brasileiros – a educação inclusiva – foi transformado em ação familiar: família que quiser, tem que pagar pela pessoa que irá apoiar seu filho, sem ter a menor orientação sobre quem está apto ou não a apoiar.

Repito o que já disse em outros momentos: Tarcísio é a maior ameaça à democracia, maior até que Bolsonaro. Primeiro, por ser genuinamente oriundo do segmento militar. Depois, por não ter o histrionismo de Bolsonaro. Terceiro, porque terá o apoio de parte da mídia para convencer a população de que ele é dom Sebastião da Terceira Via.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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